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Marina Iris: 'A disseminação do ódio prejudica inclusive quem propaga ele'

Kamille Viola

07/03/2020 06h00

Marina Iris faz homenagem a Jovelina Pérola Negra. Foto: divulgação/Pedro Curi

Em novembro do ano passado, Marina Iris lançou seu terceiro disco solo, 'Voz bandeira'. Com produção e arranjos de Ana Costa, o disco constrói uma narrativa permeada por questões da mulher negra. A reverência às mais velhas está ali, seja nas participações das escritoras Conceição Evaristo, Elisa Lucinda e Ana Maria Gonçalves, que leem textos de sua própria autoria; na de Leci Brandão (no já clássico samba-enredo vitorioso da Mangueira de 2019, "Histórias para ninar gente grande", em que a própria Leci é citada), ou ainda na referência à orixá Nanã, considerada a "avó" das iabás, na faixa "Velha senhora".

Genocídio da população negra, objetificação da mulher negra (e outras formas de racismo) e amor são alguns dos temas abordados. O samba dialoga com estilos como a coladeira cabo-verdiana (em "Travessias") e o semba angolano ("Mana que emana"). As cantoras Fabiana Cozza e Marcelle Motta, além de um time de instrumentistas negras (e mais alguns músicos homens), participam do trabalho.

Para Marina, o disco, que saiu no mês em que se celebram as conquistas do movimento negro, foi entendido como parte dessa luta também, já que trata de questões discutidas nessa militância e traz as participações das seis mulheres negras citadas. "Mulheres muito diferentes, com trajetórias e de origens e de territórios muito diversos, que estão ali convivendo e se reconhecendo num fonograma. Acho que isso representa o que é de fato a nossa luta diária, cotidiana, de reconhecimento das mulheres uma das outras e tudo mais", diz a cantora.

A grande presença feminina no disco, da produtora às instrumentistas, é também uma busca por uma mudança em um ambiente que, como tantos outros, ainda é permeado pelo machismo. "As mulheres têm uma vivência da entrada na música diferente dos homens, porque você tem que tocar na noite, está exposta a uma realidade que é mais complicada para a mulher do que é para eles. Conheço pouquíssimos homens que pararam de tocar seus instrumentos quando tiveram filho. As mulheres, em geral, param ou por não terem apoio da família, ou pelo simples fato de terem que ficar afastadas por um período e não terem a compreensão do próprio movimento do samba, das pessoas", compara.

Depois de ter revelado ao público seu relacionamento com a arquiteta Mônica Benício, viúva de Marielle Franco — 'Voz bandeira' é dedicado à vereadora, assassinada em março de 2018 —, Marina Iris conta que algumas preocupações passaram por sua cabeça, mas o que mais chegou a elas foi apoio e acolhimento. "A gente sabe que, na verdade, esse encontro proporciona uma parceria de luta para nós duas — de maneiras diferentes, porque a Mônica vive um luto. O que eu tento, o que eu acho que é o possível nesse momento é ser parceira nela nessa luta. Para a construção de um país que a gente quer, restabelecer a nossa democracia", defende a artista.

Por falar em ancestralidade, neste sábado ela faz uma apresentação em homenagem a Jovelina Pérola Negra (1944-1998), no Rio Scenarium, como parte do evento Samba Delas. Filha de Jovelina, Cassiana Pérola Negra, participa do show. Quem abre a noite é Thaís Macedo, que faz tributo a outra grande sambista, Dona Ivone Lara (1922-2018).

Como tem sido a recepção ao disco?

Tem sido muito bacana. O disco foi lançado em 28 de novembro, já era uma data marcando o final do Novembro Negro, e isso foi muito legal, porque a militância está muito voltada para esse mês, ele marca a luta da negritude, e principalmente das mulheres negras, e celebra as conquistas dos movimentos negros, e acho que ele foi entendido como parte dessa luta também, uma vez que reúne seis mulheres negras, com um diálogo ali entre poesia e música, essa poesia costura o disco. Mulheres muito diferentes, com trajetórias e de origens e de territórios muito diversos, que estão ali convivendo e se reconhecendo num fonograma. Acho que isso representa o que é de fato a nossa luta diária, cotidiana, de reconhecimento das mulheres uma das outras e tudo mais. Isso foi bacana. Foi entendido dessa forma. Tanto as resenhas que foram produzidas até agora como a reação do público mesmo foram de uma identificação com o projeto, tanto pelo seu valor artístico como pelo seu valor de militância.

Inclusive, se não me engano, à exceção da Manu da Cuíca, o disco só tem mulheres negras e alguns homens, não?

Nas composições tem mulheres homens, uma presença forte das mulheres negras também nas composições — tem Teresa, eu, a Ana —, tem uma presença feminina muito grande. Só tem uma música que não tem uma mulher na parceria ("Mana que emana"). Não foi um critério, até porque eu acho que a gente já está superando um pouco a necessidade de criar esse tipo de regra, internalizando mais no processo que a gente precisa ter a presença feminina. Não foi uma norma estabelecida previamente, foi resultado de um processo que já está em curso há um tempo que é esse reconhecimento. Então é natural que, quando penso nas músicas, eu espontaneamente pense nas compositoras que conheço. É uma movimentação que está rolando bem. Já canto as músicas da Fátima (Guedes), da Manu (da Cuíca) há muito tempo, da Teresa (Cristina) a mesma coisa. A produção musical é da Ana Costa, então ela teve a oportunidade de mostrar esse lado dela também, e, na verdade, de compor uma música no meio do processo, a faixa dela com a Manu foi criada para o disco, foi um pedido meu. Isso vai acontecendo de uma maneira muito fluida mesmo. O conceito a gente preparou antes, o convite às mulheres negras para costurar, para estar nessa interação. Eu queria mesmo que fosse um diálogo entre poesia e música e entre mulheres negras. Na hora de escolher as canções, eu abri para muita gente, pedi para uma gama grande de compositoras e compositores que eu conheço. E já tenho como tendência ouvir com os ouvidos bem abertos as músicas das mulheres. Já se incorporou à minha rotina de montar repertório na vida. Então acabou acontecendo no disco também e reproduz um pouco da realidade da minha carreira mesmo, de troca com essas mulheres.

E mulheres instrumentistas também, né?

Tem uma predominância negra e uma predominância feminina no disco, de uma maneira geral.

Exatamente, eu vi muitas mulheres negras, que são figuras que muitas vezes não encontram espaço. Já é difícil ter mulheres instrumentistas…

Exatamente. Esse espaço da composição e das instrumentistas… A gente sempre teve a presença feminina no samba, com sua importância, seu destaque, as matriarcas, tudo mais. Vem desde lá de Dona Ivone, mas acho que ganha uma força no debate mais recente essa reivindicação do espaço de compositora e de instrumentista na roda de samba, dentro do samba. Ganha força nova com os debates feministas feitos atualmente. Esse lugar passa a ser mais reivindicado pelas mulheres do que antes. Digo o espaço, as mulheres sempre batalharam para tocar seus instrumentos. Mas é que esse debate é talvez para ganhar um espaço e ter uma empatia maior. Porque o machismo está em todo lugar. As mulheres têm uma vivência da entrada na música diferente dos homens, porque você tem que tocar na noite, está exposta a uma realidade que é mais complicada para a mulher do que é para eles. Conheço pouquíssimos homens que pararam de tocar seus instrumentos quando tiveram filho. As mulheres, em geral, param ou por não terem apoio da família, ou pelo simples fato de terem que ficar afastadas por um período e não terem a compreensão do próprio corpo, do movimento do samba, das pessoas. Essas dificuldades estão sendo mais colocadas na mesa, as mulheres têm se ajudado mais também, se convidado mais para os trabalhos, para que isso vire uma nova realidade e incentive outras mulheres e meninas a embarcar nessa carreira de instrumentista, de compositora.

Isso até tem a ver com seu disco anterior, né? Porque homem não é chamado de "rueiro", "rueira" é a mulher.

A gente tem que reivindicar isso, na verdade. Para o homem, já está dado, para a gente passa a ser uma afirmação. Porque muitas vezes a gente é assediada, incomodada por estar num espaço onde é considerado que os homens podem estar e as mulheres não necessariamente, entre outros problemas.

Você mencionou o fato da Ana Costa ter produzido o disco, e essa é uma questão que eu já vi outras artistas mulheres falando sobre. O estúdio costuma ser um ambiente muito masculino, e às vezes o produtor quer levar o trabalho para um caminho que ele decidiu, sem muito diálogo. Já vi muitas falando de como às vezes é difícil, naquele espaço, conseguir manter suas ideias e não ser pressionada. Como foi a experiência de ter uma mulher nessa função, ainda por cima uma mulher negra também?

É um exercício. A gente está buscando transformação na sociedade e sabe que está longe do equilíbrio e da liberdade que a gente espera. Eu acho que esses exercícios são importantes para todo mundo, inclusive para a mulher se ver naquele espaço naquela posição. A Ana teve uma experiência mais próxima dessa no disco do Lucio Sanfilippo (foi uma das arranjadoras de "Canções de amor ao Léo", de 2005) anos atrás, e ela está tendo outra agora, justamente  neste momento em que os debates são outros. E a gente teve a preocupação também de trazer para perto uma turma que estava disposta a construir junto, ir entendendo o espaço de cada um. Isso foi muito positivo. Aí teria que falar com a Ana para saber especificamente da experiência dela, mas o que eu pude constatar no processo foi que ela ficou à vontade para criar e teve uma troca muito boa — que eu acho que já é resultado de uma preocupação nossa de trazer pessoas que, além de ter uma qualidade musical imensa, têm um acúmulo de reflexão a respeito disso, estão querendo mudar essa realidade também, tanto homens como mulheres. Para mim, tê-la naquele lugar, uma pessoa que eu admiro, respeito, muito é diferente. A gente está muito acostumada a ter uma voz e uma posição masculina no momento da definição, e ter uma mulher ali foi muito significativo. É um crescimento para todo mundo, principalmente para mim, porque é você se reconhecer. A gente tem divergências, diferenças, mulheres negras não são todas iguais, mas tem uma coisa comum de perspectiva, o que é bonito quando acontece no momento de gravação de um trabalho — que é muito importante para quem canta, toca, é o instante do registro, é a coisa que fica eternizada ali. Ter essa troca nesse momento foi novo, ao mesmo tempo que você pensa: "Por que rola tão pouco? Que bonito, que bom que está rolando aqui." Pelo que eu vejo dela, também é muito bacana: ela me manda todas as notícias, fica superempolgada, ficou supefeliz com o resultado. A gente se emocionou muito com o trabalho, a gente sabe que tem nossa história ali muito colocada. Muito legal. E ela pensou as trilhas com muita dedicação e muita emoção: "Caramba, estou fazendo a trilha para a Conceição Evaristo." É de outra área, uma poeta, mas é uma referência de mulher preta que esta aí, ocupando os lugares predominantemente masculinos e brancos.

E como foi para você ter essas mulheres negras mais velhas, que são figuras consagradas e muito queridas, no seu álbum e trabalhar com elas?

Foi muito emocionante. O primeiro de tudo foi isso, muita emoção. Foi pensar que isso estava acontecendo num mesmo momento, não foi uma participação de uma num disco e outra no outro, aí você vai lidando com essa emoção parceladamente. Foi tudo junto e fazendo sentido, fazendo muito sentido. A gente entende que essas mulheres nos formam. A princípio, elas estão nesse lugar de reverência, de distância. E depois, à medida que a gente vai trabalhando junto, percebe tantas coisas em comum! E também tantas coisas que a gente aprende e que elas aprendem também com a gente, é uma troca. Para resumir, foi muito emocionante, representa para mim um crescimento, de pensar com cuidado qual seria o texto que se encaixaria mais no disco, que teria mais a ver com a trajetória daquela mulher e com a nossa história ali, de encontro. Primeiro, a gente costurou isso com a produtora do disco. Depois, devolver para elas e ouvir delas, no caso da Conceição: "Esse que você escolheu é um dos poemas que eu mais gosto, me representa muito." Porque tem a ver com a própria produção dela de poeta, a relação com a palavra, com o discurso. A gente se apropriar da narrativa é fundamental para a luta. Estar ali, juntas, fazendo isso, falando da construção, da produção literária, da relação com a palavra é uma catarse.

Você falou que o álbum conta uma história. É um disco de mulher negra mesmo, fica muito explícito do início ao fim. Por que quis buscar em Angola e Cabo Verde influências para o seu trabalho? É um disco de samba, óbvio, mas tem essas faixas que chamam atenção e dialogam também.

O "Rueira" foi um disco muito dedicado a essa parceria minha com a Manu, dela com o Rodrigo (Lessa), minha com o Rodrigo. Não tive uma preocupação tão grande em ter uma predominância do samba ali, porque sabia que teria samba — a Manu é uma compositora muito do samba também, ela toca cuíca, é instrumentista. A gente foi costurando mais a partir do conceito dessa cidade que é reivindicada, da mulher que reivindica essa cidade, que ocupa o espaço público, que é quase uma cronista, essa rueira que está ali observando a cidade. O 'Voz bandeira' é quase um desdobramento dessa história, mas eu tive uma preocupação maior — porque eu sou formada no samba, o samba me forma — e eu tive esse retorno maior. Eu quis estar mais dentro do samba, gravar mais sambas. Ou gêneros que dialogam muito com ele, como é o caso do ijexá, por exemplo. Mas eu tenho uma relação com o samba não monogâmica. É uma coisa de muito amor, mas eu não me sinto obrigada (risos). A minha alma de cantora, vamos dizer assim, é livre. Então, ao mesmo tempo que o que me forma é o samba, eu não vou ao samba só para cantar: vou para beber cerveja, bater palma, eu tenho amigos no samba, lá eu aprendi a fazer piada, a abraçar, ter afetividade, pertencimento. Essa minha vivência de samba independe da minha carreira, vamos dizer assim. E ela acaba também, obviamente, sendo incorporada pela minha carreira. No entanto, entendo que a alma de cantora é livre. Eu sempre vou querer trazer um elemento diferente, uma coisa que tenha me tocado, como é o caso da coladeira, que eu gravei no 'Rueira' e quis gravar de novo e não estava achando. Coladeira cabo-verdiana, que é o caso de "Travessias", que foi o single. E aí eu pedi que a Manu e a Ana Costa fizessem uma coladeira para ter no disco, porque eu amei gravar. E eu vi muito Cesária Évora para gravar no 'Rueira', fiquei apaixonada — já era, mas de ficar ouvindo para poder pegar um pouco da linguagem, eu fiquei muito, muito, muito interessada em gravar mais vezes, não esgotar no 'Rueira'. E eu pedi que a temática tivesse muito a ver com a nossa, daqui. A Cesária canta essa saudade, esse deslocamento do trabalhador, de ter que sair do seu lugar. Ela canta isso em "Sodade", e eu queria que a gente falasse desse deslocamento forçado, dessa necessidade que as pessoas têm de sair do seu local de origem, contra a sua vontade muitas vezes, por conta das durezas da vida. E aí a Manu escreveu lindamente, Ana também com sua melodia também, e pensou nisso, nessa coisa de mar, tem uma coisa de continuidade no ritmo que dá uma ideia de movimento mesmo. Foi essa a pegada de "Travessias". Atendendo também a essa minha demanda de ter um gênero que tem uma relação harmoniosa com o samba, mas não é samba.

Você falou que o disco tem a ver com a questão da militância, mas ele também é muito afetivo, pelas suas escolhas, as pessoas que participam. Passa uma coisa amorosa. Quando você pensou no conceito do disco, quis que ele fosse militante, mas amoroso?

São quatro discos até hoje, três solo. O primeiro eu contei muito uma história, uma virada de como eu entendi como cantora muito tarde, e eu contei, em 2014, essa história, do que eu conheci até ali. Foi uma coisa meio pegando experiência de Bip-Bip (o bar em Copacabana famoso pelas rodas de samba e choro), juntando com outras referências do meu pai. Antes do 'Rueira', teve o (coletivo) Épreta, que já foi pegando um desejo de coletividade. O segundo solo, o 'Rueira', marca uma trajetória de parceria minha e da Manu muito forte. Ele também tem um pouco a ver com esse acúmulo da minha trajetória, mais especificamente com o amadurecimento dela. Essa parceria minha e da Manu representa nosso amadurecimento, e mesmo o Rodrigo está ali que como um cara que abraçou isso também, essa história nossa. E o 'Voz bandeira' eu queria que apontasse um pouco mais para a frente, promovendo encontros que vão reverberar não só na minha carreira, mas na vida das pessoas. E aponta para o futuro, de certa maneira, tanto na estética que a gente tenta colocar, urbana e tudo mais — amo atabaque, a estética do chão de terra, regional, mas nesse disco eu quis muito o asfalto, e uma coisa mais moderna também, como foi o 'Rueira', mas também com esse encontro dessas mulheres negras neste momento de hoje, em que se está discutindo o afrofuturismo e outras estéticas negras. Então é a gente apontar muito para o futuro e, nesse futuro, dessas mulheres negras, pressupõe acolhimento, encontro, troca. É isso o que está colocado, fiz uma linha do tempo para chegar nesse lugar que é de 'Voz bandeira' como um disco que fala de hoje, mas que aponta para o que a gente vai dizer. E esse encontro das mulheres negras pautado, baseado na troca, no acolhimento, na escuta de gerações, e de uma coisa que o Épreta já tinha dito um pouco, que é da diversidade dessas mulheres também. A gente se junta por um ponto comum, que é a perspectiva da negritude, da luta negra, mas também mostra o quanto a gente é diferente, diversa, e o quanto o convívio com essas diferenças enriquece para caramba. É mostrar para o mundo que não é um bloco. Porque essa retirada da diversidade mulher negra também desumaniza, né? Então mostrar o quanto a gente é diverso, potente, humaniza a nossa história, a nossa presença neste mundo.

O seu pai (Celso Lima) era compositor. Foi ele que influenciou você a começar a cantar e se interessar por música?

Acho que é uma coisa meio hereditária. Eu tive um convívio musical com meu pai mais informal, nunca foi uma coisa de estar com ele nos espaços de samba, foi muito de dentro de casa, tocar o violão e tal. Mas, na verdade, o que me despertou o interesse por cantar foi o convívio com a Gisa Nogueira, que é companheira dele há 33 anos. Ela é compositora, cantora, e eu acho que ver uma mulher nesses espaços, nessa posição e cantando como ela canta — porque me chamava a atenção justamente a interpretação, mas a divisão, essa coisa malandreada da interpretação. Isso me chamou muita atenção na Gisa, porque isso é muito associado aos homens, a divisão. Como é uma característica da malandragem, a mulher é muito elogiada pela interpretação, timbre, alcance, presença, "diva", pelo repertório, mas não se fala em divisão. Quando você diz: "Ah, e Roberto Ribeiro?". Aí os caras falam: "Pô, dividia muito bem, Miltinho, João Nogueira, tinha uma malandragem na voz, uma divisão bonita." E a mulherada, que também tem divisão, a sua própria malandragem, a sua própria expressão, não é muito elogiada ou lembrada por isso. A primeira coisa que chamou a atenção na Gisa foi como ela dividia o samba. Isso me marcou e eu fiquei prestando atenção. Demorei muito para entender que dava para cantar profissionalmente, fui professora antes, tinha música como hobby. Mas depois, quando fui compreendendo, muito por incentivo da Manu, que tinha a ver comigo e que era possível na minha vida, essa coisa da divisão foi sempre uma preocupação, foi o que me deu mais tesão na interpretação, de pensar na música brincando com ela e em como isso influencia na mensagem que você está passando. Isso é uma coisa que o Zeca (Pagodinho) tem muito, uma divisão bonita, muito bem colocada. A simplicidade muitas vezes é o grande mérito daquela interpretação. Isso foi me chamando atenção e me formando como cantora. Nessa vivência com a Gisa — a partir, claro da vivência com meu pai. Mas esse encontro deles dois me proporcionou o encontro com ela, que influenciou muito no que eu sou hoje.

Por falar em militância, você assumiu um relacionamento com uma pessoa que é uma cara do ativismo e que sofre muitos ataques (no mês passado, Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, fez um post em seu Instagram sobre Marina Iris; dois dias depois, a imprensa noticiou o relacionamento das duas). Você passa por isso? É atacada pelos seus posicionamentos e por estar com a Mônica?

Sim, sim. O acirramento do discurso de ódio, não tem como a gente não ser atingida por isso. E, nesse relacionamento novo, não está sendo diferente, talvez tenha até se intensificado, porque são duas figuras que militam, públicas em proporções diferentes, com alguns espaços comuns e outros diferentes. E a gente sentiu — não foi a gente que anunciou, mas, no momento em que isso se tornou público, obviamente algumas preocupações vieram à cabeça. Mas o que mais chegou a mim foi apoio, acolhimento, das pessoas que a gente conhece e sabem da nossa vivência, nossa experiência de militância. Nós sabemos que, na verdade, esse encontro proporciona uma parceria de luta para nós duas — de maneiras diferentes, porque a Mônica vive um luto. O que eu tento, o que eu acho que é o possível neste momento, é ser parceira dela nessa luta. Para a construção de um país que a gente quer, restabelecer a nossa democracia. E a gente sentiu, obviamente. A primeira notícia que saiu foi bastante sensacionalista. Nossa política é não ler os comentários, faz um bem danado. Porque se retroalimenta ali um ódio, uma coisa que na verdade está atendendo a um projeto que só acaba com tudo, acaba com a civilidade de maneira geral. Essa disseminação do ódio não prejudica a Marina Iris ou a Mônica Benício: prejudica todo mundo, inclusive quem propaga esse ódio. Prejudica a sociedade como um todo. Então a gente está aí, segue firme na luta, com a música, com a militância, e não se deixando paralisar por esse ódio e pelo medo que são disseminados. Temos estratégias, acolhimento, afeto. E música, arte, pessoas muito incríveis com quem a gente convive. Temos uma referência, uma memória para ser preservada e reverenciada, que é a memória de luta da Marielle. É isso que move, que tem que estar no centro do debate. E é a preservação dessa memória e a luta pelo aprimoramento da nossa democracia, e não pelo retrocesso. Nossa democracia precisa andar para a frente, e chegaram ao poder pessoas que querem retroceder e abalar essa democracia. A gente não pode permitir isso. Não pode se deixar abalar também por esses discursos, que não ajudam a vida de ninguém.

Vai lá:
Marina Iris
Quando: Sábado, 7 de março, às 20h30
Onde: Rio Scenarium. Rua do Lavradio, 20 – Centro
Quanto: R$ 35 (1º lote, limitado) a R$ 60

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.

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