Rio Adentro http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua. Fri, 19 Jul 2019 23:15:34 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 ‘Está muito difícil ser progressista no Brasil’, diz Clarice Falcão http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/esta-muito-dificil-ser-progressista-no-brasil-diz-clarice-falcao/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/esta-muito-dificil-ser-progressista-no-brasil-diz-clarice-falcao/#respond Fri, 19 Jul 2019 18:00:28 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1016

Clarice Falcão lança seu terceiro disco, ‘Tem conserto’. Foto: divulgação/Pedro Pinho

Depois de passar por Juiz de Fora (MG) e São Paulo, Clarice Falcão apresenta pela primeira vez no Rio, no Circo Voador, o show de seu terceiro disco, “Tem conserto”. Desde o primeiro single lançado por ela, “Minha cabeça”, chamou a atenção o conteúdo do trabalho, que gira em torno de temas como ansiedade e depressão, e tem um tom bastante confessional. “Nesse disco eu quis fazer uma coisa mais sincera mesmo, menos ‘ah, é uma história’, exagerando a ponto de me distanciar. Até por causa do assunto mesmo, merecia uma forma de falar mais honesta”, explica a cantora e compositora.

Ela conta que o retorno dos fãs a respeito do trabalho é algo que a tem deixado muito feliz. “Não só muito bom de saber que eu consegui fazer aquela pessoa se sentir representada em algum lugar, mas eu também não me sinto tão sozinha”, analisa ela. “Quando tem gente falando isso, dá essa sensação boa de: ‘Caramba, alguém entendeu.’ É isso que a gente quer no fundo quando faz alguma coisa de arte, é se comunicar, né?”, admite Clarice.

Em conversa com o Rio Adentro, ela falou sobre seu processo de composição, o tema do álbum e ser artista no Brasil, a visibilidade das mulheres no país hoje, entre outros temas.

Esse disco chamou bastante atenção por ter uma vibe diferente dos seus trabalhos anteriores. Primeiro, por ser um trabalho mais eletrônico. Como foi o processo de composição para ele, e como você foi chegando na música eletrônica?

Há alguns anos já, uns três, eu comecei a me encantar pelo universo da música eletrônica. Eu já gostava de pop eletrônico, escutava umas coisas, mas puxando mais para o pop, Postal Service, para o independente. Mas eu comecei realmente a ficar meio fascinada pelo universo da música eletrônica mesmo. E, conforme eu fui compondo as músicas e eu comecei a entender o tema do disco mais ou menos, o conteúdo, eu comecei a achar que ia ser um casamento bonito. Quando eu vi que ia ser um álbum muito pessoal, muito direto, eu pensei que não fazia sentido cantar com o violão, eu achava que era um pouco chover no molhado, sabe? Achei que falar sobre assuntos como angústia ou depressão, coisas assim, com uma roupagem eletrônica ia ficar muito mais interessante, ia ter um contraste mais interessante mesmo.

E isso é outra coisa que está se falando muito do seu disco. Porque, por mais que você tivesse músicas com letras tristes, sempre tinha uma coisa irônica, um humor ácido. Por que dessa vez você resolveu falar diretamente, se despir de uma certa forma?

Eu acho que vem, em algum lugar, de uma maturidade, talvez. Pelo menos de uma organização mental. Eu estou chegando nos 30 agora, acho que consigo ver mais claramente as coisas pelas quais eu passei e estou passando do que quando eu tinha 20 e compus as primeiras músicas. Eu sempre gostei muito de escrever, então as minhas músicas sempre foram muito focadas em letra, acho que elas chegavam a ser quase narrativas. Tinha muito de mim, tinha muito das minhas experiências, mas eu narrativizava muito. E eu acho que nesse disco eu quis fazer uma coisa mais sincera mesmo, menos “ah, é uma história”, exagerando a ponto de me distanciar. Até por causa do assunto mesmo, merecia uma forma de falar mais honesta.

E você acha que ser artista interfere nessa questão da sua depressão, da ansiedade? A vida que você leva ajuda, piora?

Ah, eu acho que ajuda e piora (risos). Acho que ambos. Por um lado, ter um lugar para você despejar, não sei se é essa a palavra, mas você consegue canalizar um pouco um sentimento que eu não saberia onde colocar se eu não pudesse escrever uma música, se eu não pudesse depois cantar e ouvir as pessoas cantando de volta, dá uma sensação de “caramba, não estou sozinha”… É uma catarse. Ajuda nesse sentido. Mas é uma vida também que tem muita pressão, muita exposição e é muito desregrada, é mais difícil de você manter uma rotina, coisas que a gente sabe que são importantes para a gente manter a sanidade. Acho que tem os dois lados.

E como foi o processo de composição? Você foi fazendo as letras ao longo do tempo e aí, quando se deu conta, tinha um monte de letras que giravam em torno do tema?

Pois é. Quando eu compus as primeiras três, quatro músicas e vi que meio que iam girar sobre esse tema, comecei a visualizar o disco. Eu sempre gostei muito de discos que têm um conceito definido. Eu lembro que o primeiro álbum que me encantou foi o ’69 Love Songs’, do Magnetic Fields, que é um disco-conceito. É um álbum triplo com 69 canções de amor. E eu falei: “Caramba, é lindo isso!”. E é doido, porque hoje em dia, com playlist, não sei o quê, o álbum até perdeu um pouco a força como uma coisa inteira. Mas, ainda assim, me fascina. E aí quando eu vi que (o meu disco) era sobre isso, eu falei: “Cara, esse é o momento, acho que vou fazer um disco sobre ansiedade e depressão.” Eu queria até que ele tivesse essa dualidade sonora também, de ter músicas muito para cima e outras mais para baixo… Ser um disco de picos. E acho que a gente conseguiu um pouco fazer isso. A segunda parte dele é muito dançante, a primeira parte é mais para baixo. Eu tinha essas músicas, falei com o Lucas de Paiva, que produziu comigo o disco, e a gente começou. Aí no processo, eu fiz as outras. Foi muito diferente. Das outras vezes, eu cheguei com as músicas já prontas, e a gente tinha, sei lá, duas semanas para fazer o álbum. Como (dessa vez) não tinha prazo, a gente foi compondo em cima de um beat que a gente fazia. Eu olhei o disco, como ele estava, e falei: “Pô, está faltando uma música assim, falta uma música mais leve.” Aí eu fiz “Dia D”. “Falta uma música de alguma forma mais otimista.” Aí eu fiz “Sem conserto”, foi a última do disco que eu fiz. Ele foi sendo montado aos poucos, diferentemente das outras vezes.

E você compôs essas músicas no violão, você compõe nele?

Não. Até a primeira versão de “Só + 6”, talvez seja a única do disco que eu tenha feito no violão. Depois eu recompus ela em cima de uma base que a gente fez. Eu fiz a maioria das músicas no piano, também foi outra diferença, eu acho que eu já queria fazer algo diferente mesmo.

Eu ia perguntar se você tinha composto com algum software.

Eu tenho um teclado, na verdade. Em alguns casos, eu compus por cima de uma base que a gente fez na hora.

Eu ia mesmo tocar nesse assunto do álbum que você mencionou. Eu acho que parece ser um momento de opostos: ao mesmo tempo em que o single está superforte, tem muita gente fazendo álbum com conceito. Isso é curioso. É uma resistência.

Acho resistência, eu acho muito bonito. Eu gosto muito de ouvir um disco do começo ao fim e tentar entender por que essa ordem, por que essas músicas, começa onde e termina onde…

E esse tema do seu disco com certeza toca muita gente, muita gente se identifica. Acho que a depressão é uma doença muito comum hoje. Como tem sido com os fãs? Porque a internet permite um feedback direto. Você tem recebido mensagens de gente contando histórias?

Super. Especialmente o primeiro single que eu lancei, “Minha cabeça”, que falava de ansiedade e tal, nossa, algumas pessoas vieram falar comigo e comentavam. No próprio clipe, na seção de comentários, tem muita gente falando: “Pô, é exatamente o que eu sinto quando estou numa crise de ansiedade!”. E foi muito bom. Não só muito bom de saber que eu consegui fazer aquela pessoa se sentir representada em algum lugar, mas eu também não me sinto tão sozinha. Porque quando, quando eu compus essa música, tinha um certo medo de lançar a faixa e ninguém entender. E você descobrir: “Caramba, só eu que passava por isso, então.” Sabe quando você conta uma história num grupo e diz: “Vocês também nãnãnãnã?”, e aí todo mundo: “Não, cara, acho que só você mesmo…”, e dá uma vergonha? Então quando tem gente falando isso dá essa sensação boa de: “Caramba, alguém entendeu.” É isso que a gente quer no fundo quando faz alguma coisa de arte, é se comunicar, né?

Eu estava falando que a depressão parece ser uma coisa comum hoje. A gente tem ouvido muito falar sobre isso, sobre casos de suicídio. Você acha que a vida hoje contribui para adoecer as pessoas? Ou o Brasil especificamente?

É difícil dizer, porque eu não sou nem um pouco especialista. Eu falo muito pela minha experiência. Eu não sei, sabia? O meu avô, por caso, se suicidou há muito tempo, mais de 30 anos atrás. Nessa época, as pessoas já passavam por essas coisas. E não eram tão diagnosticadas. Acho que ele não tinha o acesso à informação que a gente tem. Por outro lado, com certeza, a vida de hoje em dia é muito… O acesso à informação… É fogo, porque é a mesma resposta da outra pergunta, que é: piora, mas  também ajuda. Eu penso que no fim das contas a gente tem esses dois lados nessa vida contemporânea. Também existe, cada vez mais, uma conscientização de que essa doença existe, e que precisa ser tratada etc. A gente ainda está muito do que devia ser. Acho que ainda é um tabu muito grande, mas a gente chegou num ponto que, se você procura tratamento, as pessoas sabem lidar com você muito melhor. Então vejo que existem esses dois lados.

Eu vi você falando que o Brasil te deixava mais triste. E a gente está vivendo uma fase complicada para ser artista no Brasil, com ataques… Como você se sente neste momento, como uma artista de várias áreas, inclusive?

Total. Eu acho que está muito triste. Eu, honestamente, acho que estaria deprimida mesmo sem ser artista. Pelo menos os meus amigos que não são estão na mesma situação. Hoje em dia, você ser uma pessoa progressista, ser do espectro LGBTQ+, você ser negro, você ser de uma classe mais baixa, não ser um banqueiro, não ser de uma grande empresa — está difícil para toda essa galera. Mas, com certeza, está tendo um desmonte da cultura e ataques aos artistas. Mas tenho parentes que são professores de escola que estão deprimidíssimos. Conheço gente da Biologia que está deprimidíssima. Está difícil mesmo.

Você falou desses grupos que estão sofrendo mais, e eu pensei também nas mulheres. É uma coisa contraditória, porque, ao mesmo tempo que a gente viveu avanços, a gente está vendo tentativas de retirada de direitos. 

De desfazer esses avanços todos.

Mas, ao mesmo tempo, estamos vendo um monte de discussões sobre a mulher, sobre nós, que não tínhamos há, sei lá, cinco anos. O debate está bem grande e na música a gente está tendo espaço para as compositoras. Apesar de você, por exemplo, já ter uma carreira de alguns anos, hoje a gente vê muitas tendo espaço, mesmo artistas independentes. Como você se sente enquanto mulher e sendo artista, na música, que é um meio historicamente dominado por homens, principalmente a composição, mas também no seu trabalho em geral, já que você realiza outras coisas? Como você vê o espaço da mulher hoje e essas discussões?

Ah, eu tenho tido a oportunidade e o privilégio de trabalhar junto e ver mulheres muito incríveis brilhando. Porque sempre existiram, mas acho que você tem toda razão, está um momento que, se você ver, os grandes destaques da música independente recente… A Letícia Novaes (do projeto Letrux) é uma mulher fortíssima, e que inclusive está aí há muito tempo, fazendo coisas com banda etc. e que só agora as pessoas de repente estão vendo: “Caramba! Nossa! Olha essa novidade!”. Não é novidade nenhuma. Quando eu tinha 20 anos, a Letícia já estava fazendo show. E, como atriz, acabei de gravar um seriado com a Tatá Werneck (‘Shippados’, produzida para a plataforma Globoplay), que, na minha opinião, é um dos maiores comediantes — não uma das, um dos — do país. Acho que talvez ela seja o maior comediante do país. E que também passou muito tempo na MTV, “ah, ela é engraçada para uma mulher”. Eu fico muito feliz. A gente está num momento em que as mulheres talentosas estão tendo o que sempre era ter sido delas de direito, que é espaço e oportunidade. E as pessoas estão finalmente levando a sério.

Já que você citou a Tatá e do seu trabalho como a atriz, em ‘Shippados’ você entrou em várias coisas que são tabu. Você fica nua, por exemplo, que foi uma novidade para você — porque, por mais que no Porta dos Fundos você já tivesse ficado, é diferente. Como foi?

Foi difícil. Mas grande parte do que me seduziu no papel foi não só o desafio, mas esse posicionamento de estar na Globo, mostrando o corpo de uma forma diferente — que é não sexual, eu não estou pelada porque eu vou transar com ninguém, eu estou pelada porque meu corpo é assim e a personagem gosta, se sente mais livre dessa forma. Eu acho que foi um dos grandes atrativos do personagem para mim. Aí obviamente a mecânica disso é complicada, você ficar pelada na frente de um set inteiro de filmagem, só de tapa-sexo. Mas tem uma hora em que você meio que se acostuma, aí é quando a mágica acontece, que você começa a entender o seu corpo de outra forma. Depois da experiência, eu vejo meu corpo com muito mais liberdade, com menos vergonha. E é doido, porque eu já tive problemas com meu corpo, mesmo não tendo um completamente fora do padrão. Mas ainda assim eu me sentia fora do padrão. Acho que, depois de um tempo pelada na frente de um monte de gente, você começa a entender que esse padrão é… Enfim. Eu aprendi muito.

Eu vi que para a personagem você resolveu parar de depilar o sovaco. Foi algo que foi para o papel, mas você trouxe para a sua vida, né? Como foi?

Quando eu li sobre o personagem, logo vi que não faria sentido ela raspar o sovaco. Ela tinha uma relação muito livre, muito tranquila com o corpo dela, não combinava. Aí eu resolvi parar, antes de filmar, e amei. Inclusive fiquei muito mais tempo, acho que raspei só semana passada. Mas eu continuei, achei uma liberdade muito grande. E comecei a ver as mulheres que não depilam… Eu acho muito bonito. Até porque traz uma coisa de uma personalidade forte. Eu recebi muito olhar de “hum” porque eu estava com o sovaco peludo. Você fala assim: “Caramba, você tem que ter uma segurança e uma personalidade muito forte para você encarar.” Então eu comecei a achar as mulheres mais atraentes quando elas não depilam.

Você comentou que está chegando perto dos 30. Eu já vi você dizendo que não acredita mais sabe tudo. Você está no retorno de Saturno. Independentemente de você acreditar nele ou não, chegar aos 30 muitas vezes é um marco. Como você se sente quanto ao seu amadurecimento e em relação a estar perto dessa idade?

Ah, eu acho que o próprio disco é muito um álbum de retorno de Saturno, sabe (risos)? É um disco meio olhando para o que aconteceu, olhando para mim. É muito reflexivo. Acho que nos dois primeiros eu estava sempre me botando muito em relação ao outro: “Ah, eu amo você”, ou “Não, odeio você”. E acho que esse é muito como eu estou me sentindo, independentemente do outro. Acho que o principal sintoma do meu retorno de Saturno foi muito esse disco (risos), ele é muito sintomático de um fechamento de ciclo e um começo de ciclo também, porque não existe um sem o outro.

Não acha que isso também ter a ver com um movimento de nós mulheres mesmas, de o outro parar de ser referencial? Eu vejo isso.

Total. Eu passei muito por isso. O primeiro disco era muito de amor, de obsessão e tal. Era zoando, era fazendo piada, e dizendo: “Nossa, como a gente é idiota quando está apaixonada.” Mas era um disco de amor? E o segundo era meio empoderado, mas ainda em relação a alguém: “Ah, eu estou melhor sem você”, “Eu não ligo para você”, “Não sou sua”. E que é importante, sim, é um momento de descoberta de independência. Mas esse de alguma forma, apesar de ele ser mais triste, acho que talvez seja o mais “empoderado”, ele é muito sobre, é um disco de autorreflexão, de autoconhecimento. É um álbum em que eu não estou pensando em mim mesma em relação a nada, eu estou pensando em mim mesma, ponto.

E depois desse movimento de pensar em si mesma e de todas as discussões que a gente tem tido sobre o feminino, sobre ser mulher, você acha que a forma de fazer humor fica a mesma. Por exemplo, sempre teve uma coisa de humor autodepreciativo, que hoje já tem quem bote em questão. Como ‘Nanette’, que fala dele em relação a minorias.

Eu acho que o humor autodepreciativo, pelo menos no meu caso, o que eu sinto é que eu parei de exagerar as coisas para me botar para baixo, mas eu acho muito bom também, pelo menos para mim, usar o humor para falar a verdade. Não quero ter que esconder as minhas inseguranças, como se eu fingisse que eu tenho as respostas quando eu não tenho. O que eu tenho fazer — e eu entendo totalmente a parada do humor autodepreciativo etc. —  é ver o quanto tem de verdade. Quando eu falo uma coisa como: “Estou muito nervosa por causa disso”, ou “Acho que não sei fazer isso bem” e é verdade, eu me sinto tranquila. Porque eu não estou me diminuindo, eu só estou sendo honesta. Acho que, no fim das contas, é importante a honestidade nesse sentido. Especialmente porque, às vezes, a gente pode se sentir muito sozinha, achando que só a gente está passando por isso, só a gente que se sente insegura com tal coisa, só a gente que se acha uma merda, e não é. Então eu acho que a sinceridade é boa também, nesse sentido.

Vai lá:
Clarice Falcão – ‘Tem conserto’
Quando: Sábado, 20 de julho, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 50 (meia-entrada ou com 1kg de alimento) a R$ 120 (2º lote, inteira)

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‘Estamos vivendo um momento louco, de muita repressão’, diz Luiza Lian http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/07/12/estamos-vivendo-um-momento-louco-de-muita-repressao-diz-luiza-lian/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/07/12/estamos-vivendo-um-momento-louco-de-muita-repressao-diz-luiza-lian/#respond Fri, 12 Jul 2019 23:10:43 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1002

Luiza Lian estreia sua turnê “Azul moderno”. Foto: divulgação/Fernando Banzi

Lançado em setembro do ano passado, o disco “Azul moderno”, de Luiza Lian, o terceiro da carreira da artista, foi escolhido o melhor disco de 2018 pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, figurou em diversas listas de melhores do ano e levou Luiza a ser convidada para ser apresentar no Lollapalooza. O show do disco, no entanto, originalmente concebido como um espetáculo audiovisual, foi pouco visto até hoje. É essa apresentação que chega sábado ao Rio de Janeiro, no IED, dando início à turnê que passa ainda por Recife, Goiânia, Porto Alegre e Salvador.

Luiza, que é formada em artes visuais, foi pioneira no formato de álbum audiovisual no Brasil, com “Oyá Tempo”, que ela lançou em 2017.  O trabalho anterior originalmente seria uma performance. Acabou se transformado em um disco. “Como a música é uma linguagem que é tão viva, tão importante foi mais fácil encaixar a música na minha ideia de visualidade do que tinha sido até então encaixar as artes visuais no meu show. E, no momento que eu fiz isso com o ‘Oyá Tempo’, eu percebi que era o que eu sei fazer. Que podia ser interessante e potente fazer um show e uma experiência visual, em que você mergulha. Que não é uma peça de teatro, mas tem um começo, meio e fim, que tem uma sensação, como uma poesia mesmo. Não é um livro de prosa, uma ficção, mas te leva de um lugar para o outro”, explica a cantora e compositora.

Em conversa com o blog, ela também falou sobre o momento de destaque das compositoras brasileiras, a Síndrome da Impostora (que seria a insegurança em desempenhar uma função em meios tradicionalmente dominados por homens) e machismo. “Por que constantemente as pessoas falam: ‘Nossa, que grande compositora mulher você é’, e comparam o amigo que está do meu lado ao Caetano Veloso? Então eu acho que é um momento que a gente tem que aproveitar e usar com muita sabedoria, mas sabendo que não está ganho. E que a gente precisa ter atenção em muitas coisas. Existem várias que precisam ser desconstruídas em nós mesmas”, analisa. 

Vi que você pensava em lançar um disco novo este ano ainda, mas resolveu dar mais tempo para o “Azul moderno”. O show chega ao Rio e segue em turnê por outras cidades depois de você já ter apresentado ele várias vezes, inclusive no Lollapalooza. Como é a sensação de chegar nos lugares depois que já pôde amadurecer esse trabalho?

Eu acho bem interessante que por um lado a gente fez o show algumas vezes, mas ele tem duas vertentes. Porque uma coisa é um show que eu apresento num festival, e você adapta o seu repertório para esse momento. E no caso desse show é mais do que encurtar o setlist. Ele tem um lugar também de transformação, não tanto musical, mas também da energia do show, porque ele tem toda uma atmosfera visual muito forte, e ela é adaptada para o festival. No caso do Lolla, a gente fez com painel de LED. Mas ele foi pensado para ser feito com projeção, e o laser, e a cenografia… Enfim. Acho que o show tem uma atmosfera que não foi apresentada tantas vezes, na real. Eu apresentei ele lá no Teatro Off-Sina, daí a gente fez no Sesc Piracicaba e agora acabou de fazer no Sesc Pompeia, um show grande. Agora eu estou começando a turnê dele já nessa atmosfera nova mesmo. A gente repensou a cenografia dele, então, de certa forma, o repertório está amadurecido, mas o show está muito fresco ainda. E está sendo pensado para cada cidade de uma maneira. Aqui ele vai ter uma coisa muito única de ser no terraço do prédio do Cassino da Urca, porque exatamente cria essa relação com o mar, com o espaço, com a natureza de fazer ele para fora, que é uma coisa que nós não fizemos. Esse desenho plástico, visual é muito importante para mim, e a gente está pensando muito em um para cada cidade.

Seu trabalho anterior já era um disco audiovisual, que até é uma tendência que eu acho que está crescendo aqui no Brasil. Como se dá a criação da parte visual em relação à música? Você pensa tudo junto? Como isso acontece, já que é um elemento importante para você?

Para mim foi um processo. A gente tem várias coisas que nos impulsionam, e as artes visuais sempre foram uma delas para mim, muito forte. É o que eu escolhi estudar, no que escolhi me formar mesmo. Às vezes quando você começa num caminho com a música você acaba acreditando em várias coisas. E quando eu comecei a fazer o “Oyá Tempo”, na verdade eu nem imaginava que ia ser um disco. Eu estava pensando: ‘Putz, eu acho que eu preciso fazer uma performance.’ E como a música é uma linguagem que é tão viva, tão importante foi mais fácil encaixar a música na minha ideia de visualidade do que tinha sido até então encaixar as artes visuais no meu show. E, no momento que eu fiz isso com o “Oyá Tempo”, eu percebi que era o que eu sei fazer. Que podia ser interessante e potente fazer um show e uma experiência visual, em que você mergulha. Que não é uma peça de teatro, mas tem um começo, meio e fim, que tem uma sensação, como uma poesia mesmo. Não é um livro de prosa, uma ficção, mas te leva de um lugar para o outro. É um pouco essa relação. E eu acho que as minhas músicas já são um pouco imagéticas. Porque eu tenho essa maneira de pensar. Foi um momento meio de ir tirando várias coisas da frente tentando encontrar qual era a essência desse meu pensamento como artista, onde essas coisas estavam juntas. Eu me uni a outros artistas — quem faz a iluminação, quem faz o laser, quem faz as projeções —, mas também parei diante deles para dizer: ‘Eu imagino o show assim, nessa música acontece isso, ela amanhece…’ E isso foi muito legal, foi uma nova descoberta de dirigir meu próprio trabalho. Visualmente, né? Claro que eu já dirigia de outras maneiras. Dirigir um show mesmo.

O disco se chamar “Azul moderno” também tem a ver com isso? Eu sei que é uma das faixas, mas é uma cor também…

Acho que tem sim. Tem uma certa homenagem à modernidade, no sentido do século 20 mesmo, das coisas que aconteceram, da Tropicália, 60 e 70, as coisas que ferveram na música, tem essa referência. Eu tenho essa sensação de que, quando a gente usa a palavra “moderno”, pode estar ou se referindo a uma coisa meio nova, mas também modernidade é uma coisa do passado agora, já. E de uma sensação de uma coisa que foi um processo de transformação, e essa palavra traz esse peso, de uma transformação na realidade, mas que já, de certa forma, é meio velha, meio retrô. É meio vintage a modernidade. E acho que o meu disco trazia um pouco isso de ter um olhar muito grande para essa música dessa época, para essa maneira de se relacionar dessa época, para a minha mãe, para a minha avó, essas mulheres, mas trazendo uma coisa do futuro literalmente, tentar ser mais futurista em relação a isso, então pegar isso tudo e mesclar numa doideira. Mas também, principalmente, eu tirei isso de uma música de mulher chamada Maria Damião, que é uma compositora acriana do começo do século passado, tipo 1920, o que é uma raridade. E ela era daimista (do Santo Daime, religião amazônica). E tinha essa música que falava de Nossa Senhora com manto “azul moderno”. E eu ficava imaginando e brincando com algumas amigas minhas: “Como era esse manto ‘azul moderno’? Era meio manto de proteção? Mas o que o significava o ‘azul moderno’? Era um azul psicodélico? Ou se todas as cores do céu são ‘azul moderno’?” Viajei nisso que ela falou. Fui descobrir depois que significava azul pacífico, no Acre. Como se fosse o azul do céu. Eles interpretaram a palavra moderno. Desde que eu fiz essa música, e isso veio muito naturalmente, porque era uma coisa que estava na minha cabeça, e era uma brincadeira que eu fazia com algumas pessoas, eu sentia que, sei lá, esse nome por si só é tão poético e tão forte. Ele já te faz imaginar um monte de coisa: o que é um azul moderno? É o azul tecnológico? Ele é esse azul transcendental? Foi o que eu busquei.

E tem a ver com os temas que você aborda, né? Porque acho que você fala desde coisas que possam remeter ao passado até assuntos de hoje. Eu já vi você falando sobre como pensa essa questão do tempo. É algo que te faça refletir?

Para mim é uma coisa muito central da minha pesquisa. É uma coisa meio até mais filosófica, de entender como é nossa relação com o tempo se dá, e como também ele é inevitável e é rei de tudo. E como a gente fica tentando driblar isso de todas as maneiras. E não só o tempo, mas também o tempo e a maneira como a gente se relaciona com o espaço, no sentido de estar vivo, envelhecer e acabar, ser efêmero, e, ao mesmo tempo, tentar se imortalizar nessa nova camada virtual — a nossa geração está vivendo meio a pré-história disso, né? A gente não sabe o que vai ser. Mas eu acho que as pessoas estão se transformando muito por conta disso, e isso é uma coisa que me instiga, me angustia, me faz pensar muito sobre, até por ter uma espiritualidade. Mas, ao tempo que eu tenho espiritualidade, viver tão fortemente essa coisa da tecnologia, dos avatares, das redes sociais e tudo mais. Entender para onde a gente está indo com isso. Que também é uma transformação no tempo, de alguma forma. E também é uma tentativa ao mesmo tempo de controlar o tempo e de se imortalizar e várias coisas. Ah, enfim. Eu não sou filósofa, eu sou artista, então vou viajando nisso, vou tirando minhas conclusões e fazendo minha poesias a respeito desses sentimentos e angústias.

Hoje a gente está vivendo um momento de muita luz em cima das compositoras, acho que em várias faixas: desde as artistas independentes mais conhecidas, como você e as pessoas da sua geração, até as do mainstream, a gente vê no sertanejo, no funk. A gente está vivendo um momento de atenção mesmo, de espaço. Os olhos estão voltados para as compositoras aqui no nosso país. Como você vê isso e como se sente sendo parte desse momento?

Nossa, acho que é a primeira vez que alguém consegue me fazer essa pergunta sem ser aquela coisa esdrúxula: “Como é ser mulher na música?” (risos).

Talvez por ser uma mulher te perguntando… (risos)

Não, mas olha, muita mulher já me perguntou no mesmo lugar. Acho que essas coisas estão se transformando muito, e isso é incrível. Eu acho que isso vem de vários lados, e um deles é: o próprio movimento que está levando a isso. Mas também acho que é uma necessidade inevitável para o mundo de ouvir uma outra voz, de gente que tem outras coisas para dizer que partem de uma perspectiva um pouco diferente, um tanto diferente, que é a mulher. Ao mesmo tempo, é um caminho longo ainda a ser percorrido. Está rolando esse movimento, acho que está rolando essa importância mesmo… Ah, essa luz mesmo, como você falou, sobre nós, sobre as compositoras. Tudo está sendo visto. Mas ainda sinto que tudo é muito frágil e que pode muito bem estar num lugar de moda ainda, que não dá muito para cantar vitória ainda. Porque, como eu te disse, a cada dez entrevistas que eu dou, nove têm uma pergunta tipo: “Como é ser mulher na música?”. Que é diferente dessa que você me fez, que é: “Como é estar vivendo esse momento em que está acontecendo?”. Ou então a pergunta: “Como é isso que estão te dando oportunidade para tocar nos festivais?” Já recebi. E aí eu fico pensando: pô, eu trabalhei tanto, eu estou batalhando tanto para, sei lá, tocar no Lollapalooza, por exemplo, um dia na minha vida. E aí a primeira pergunta que me fazem é: “O que você acha dessa generosidade dos festivais em colocar mulheres lá?”. Como se isso não fosse um mérito meu, e sim uma coisa que me está sendo dada. Como se não fosse uma conquista que eu tive, que as mulheres tiveram como um todo, e sim uma coisa com a qual estão me presentando, uma generosidade. Não um espaço que a gente abriu. E eu fico pensando nisso: se tudo isso está acontecendo, por que constantemente a gente fica sendo colocada nesse lugar? Por que constantemente as pessoas falam: “Nossa, que grande compositora mulher você é”, e comparam o amigo que está do meu lado ao Caetano Veloso? Então eu acho que é um momento que a gente tem que aproveitar e usar com muita sabedoria, mas sabendo que não está ganho. E que a precisa ter atenção em muitas coisas. Existem várias que precisam ser desconstruídas em nós mesmas. Porque eu acho que às vezes ser mulher nesses ambientes é você estar lidando com uma série de sentimentos. Do tipo: “Nossa, será que eu merecia estar aqui?”. Eu estava conversando com umas amigas e falaram sobre a Síndrome da Impostora, sabe? “Quando vão descobrir que eu sou uma farsa?”, “Será que eu sou boa o suficiente para fazer isso?”. Você está o tempo inteiro tendo que atravessar uma série de coisas que são crenças que foram enfiadas dentro de você desde que você é muito nova. Então eu acho que para mim, estar vivendo esse momento, é estar me deparando constantemente como um monte de coisa que precisa ser desconstruída na nossa visão, para que a gente possa ter espaços de fato generosos e igualitários, que não nos diferenciem tanto.

Eu também gostaria de não precisar falar sobre ser mulher quando eu entrevisto mulheres, e eu entrevisto muito — e por isso eu vejo esse movimento, de ver as compositoras aparecendo. Mas ao mesmo tempo a gente tem que falar, né?

É exatamente. Qual o limite? No fim, algum lugar é o limite de como a pergunta está sendo formulada. Se você está perguntando isso e me dando espaço para eu falar de quem eu sou, ou se você está me perguntando isso me colocando um pouco no mesmo lugar, me colocando “no meu lugar” — que tem a ver com essa pergunta que eu falei que me fizeram no Lollapalooza. Mas ao mesmo tempo é, sim, fundamental, e é, sim, um momento excepcional para nós todas. É um momento da gente estar atento, porque junto desse movimento que a gente fez está vindo todo um revés bizarro, né? Um momento muito louco, de muita repressão.

Você se sente mais exposta enquanto uma autora mulher? Eu lembro da Letrux falando que todo mundo que ficava querendo dizer que o disco dela era sobre o ex dela e não sei o quê, como se uma mulher não fosse capaz de ter criatividade, de não falar só sobre o literal. É óbvio que todo autor se inspira também no real, mas talvez os homens não sejam tão julgados dessa forma. Você vê isso acontece com você também? 

Sim, mas acho que talvez num lugar da minha espiritualidade. Eu entendo totalmente esse sentimento da Letrux, porque, como ela trata de relacionamentos, deve ficar muito mais gritante do que quando as pessoas vão conversar, por exemplo, com o Tim Bernardes sobre as composições dele, apesar de elas serem muito mais pessoais, nesse nível dos acontecimentos pessoais da vida dele. As minhas músicas têm esse lugar meio filosófico, que até fica meio frito às vezes, as pessoas ficam: “O que ela está falando?” (risos). O que eu sinto é que isso entra num lugar meio como se fosse muito excepcional ter uma mulher falando sobre filosofia, uma reflexão sobre o tempo e a transcendência… Estão sempre tentando te colocar numa caixinha: “Ah, então você está falando dos orixás”, “Ah, então você está falando do sexo”, “Ah, então você está falando do feminino”. Sei lá, também. Das entidades femininas. E de uma relação minha com o meu feminino. Pode ser. Mas ninguém vê um cara fala: “Nossa, ele está falando sobre o masculino nesse relacionamento.” Ele está falando sobre o amor dele: “Ah, essa visão masculina sobre o amor.” O que eu sinto é de ser colocada num lugar de “nossa, que loucura, que excepcional ela estar falando sobre uma coisa que não é relacionamento”.

Eu li que você fez as músicas do “Azul” e do “Oyá” ao mesmo tempo. Como é o seu processo de composição? Por exemplo, você tem mais coisa guardada? Já pensa nesse próximo disco que tinha mencionado?

Eu tenho um processo muito doido, eu vou criando uns tentáculos. Eu tenho muita música que eu não gravei, dentre elas existem músicas que eu ainda não sinto vontade de gravar, tem outras que eu sinto vontade, e tem coisas que eu penso: quero tentar experimentar uma outra coisa por aqui. Mas eu já super estou construindo meu próximo disco. Para mim, o que acontece é que eu vou levantando as coisas: então beleza, eu vou compondo essa música, ou fiz essa poesia e quero fazer uma experiência com ela, ver o que surge, fazer uma música a partir dela, tive essa ideia melódica aqui e quero ver o que acontece com isso, essa sensação. E daí eu vou entendendo o que encaixa onde. E por isso essas músicas foram feitas ao mesmo tempo. Eu estava no meu plano de gravar o “Azul moderno”, na verdade. A maioria das músicas do “Azul” foi composta até antes de algumas do Oyá. E eu estava com vontade de gravar o “Azul moderno”, estava fazendo um EP para lançar ainda de soltar meu próximo disco, que seria o “Azul”, e ao mesmo eu estava com umas coisas entaladas, uns sentimentos a respeito do tempo, a respeito da maneira como a gente está se relacionando com a transcendência, com o mistério. E como fica com essa realidade tão chapada que a gente está desenvolvendo nesse momento com a internet. E eu pensei: “Ah, vou fazer uma performance.” E ela tinha a ver com alguns cantos de entidade que eu estava fazendo com a minha irmã, eu juntei tudo isso. A performance acabou ganhando os cantos, as poesias acabaram ficando mais musicais e virou o “Oyá tempo”, que atravessou o processo do “Azul”. Eu já estava planejando ele, mas comecei fazer o meu EP e a minha performance, e isso acabou virando um disco. Quando eu estava finalizando esse álbum, a gente tinha planejado começar a gravar o “Azul moderno”, mas já tinha algumas coisas pré-gravadas. Então são dois discos que são meio trançados: na semana em que eu lancei o “Oyá tempo”, eu entrei no estúdio para finalizar as gravações do “Azul moderno”. E depois disso também tem uma coisa que o “Azul” estava indo numa toada de “vou fazer uma coisa com banda e tal”. E eu: “Beleza, vamos levantar o ‘Azul’ como a gente pensou (Tim Bernardes e Charles Tixier produziram o trabalho), só que eu acho que o que é mais verdadeiro, que está mais pulsando para mim é essa viagem mais eletrônica, então vamos usar levantar o ‘Azul’ como disco de banda, mas usar ele como a base para fazer o nosso disco eletrônico, desconstruir ele inteiro. Então depois que eu estava lançando o ‘Oyá’ e terminando de gravar violão, bateria, sopros do ‘Azul  moderno” eu virei para o Charles e falei: “Beleza, agora você destrói isso que a gente fez, completamente. Eu quero um outro disco. Em cima desse, mas é outro.” Isso é massa, porque eles realmente foram discos que se atravessaram.

O ‘Oyá’ se impôs, né?

Exatamente, o ‘Oyá’ se impôs, foi um raio mesmo.

Apesar do ‘Oyá’ ter tido bastante repercussão, acho que o ‘Azul moderno’ teve mais barulho, digamos assim, em torno dele. Isso traz uma pressão quando você pensa no próximo trabalho? Você se sente angustiada de alguma forma?

É, eu acho que um pouco. É uma coisa inevitável, quando as pessoas começam a ouvir mais o seu trabalho. Eu senti isso um pouco a respeito de todos os discos. Eu estava num caminho muito diferente quando eu lancei o ‘Oyá’. Então antes de lançar, até o último minuto, eu neguei que aquilo era um disco. Isso foi o que me deu toda a liberdade para fazer ele do jeito que ele tinha que ser, do jeito que ele é, uma outra viagem. E eu percebi que quando você coloca o seu trabalho em risco — beleza, tem uma pressão, e dá o maior frio na barriga lançar uma coisa que você não faz ideia de como as pessoas vão receber e tudo mais —, quando você se arrisca, o trabalho agradece muito. E as pessoas também, de alguma forma. Acho que a maior pressão que eu tenho para mim mesma é não ser muito repetitiva. De você estar falando de uma coisa que está pulsando. Ao mesmo tempo também não entrar numa paranoia de “precisa se renovar”. A maior pressão que eu tenho não é relação ao meu público — claro, em relação a ele também —, mas comigo mesma, de não deixar meu trabalho estagnar muito, não ficar numa zona de conforto. Acho que isso é o mais perigoso num trabalho artístico. O que mais tem em todas as áreas é as pessoas encontrarem um lugar e ficarem ali. E tudo bem também, está valendo. Acho que se você encontrou uma caminhada, achou uma coisa e quer ficar ali para sempre, está valendo. Neste momento, eu não me sinto “putz, achei um lugar”. Eu quero continuar buscando, tenho várias coisas para mostrar, tenho várias ideias. Eu cantava jazz antes de estar fazendo a minha parada solo (ela foi das bandas Noite Torta e Nuage Jazz), isso foi uma escola superimportante para mim, em algum momento eu acho que vou trazer isso de volta… Estou aí para me experimentar e ver até onde eu consigo chegar. Não acreditar na Síndrome de Impostora, acreditar que a gente é capaz de se reinventar muitas vezes.

Vai lá:
Luiza Lian — ‘Azul moderno’
Quando: Sábado, 13 de julho, às 18h
Onde: IED Rio. Av. João Luiz Alves, 13 – Urca
Quanto: R$ 20 (meia-entrada) e R$ 40

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Arraiás julinos aquecem o Rio neste fim de semana http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/07/05/arraias-julinos-aquecem-o-rio-neste-fim-de-semana/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/07/05/arraias-julinos-aquecem-o-rio-neste-fim-de-semana/#respond Fri, 05 Jul 2019 20:07:46 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=988

Geraldo Azevedo comanda o já tradicional Arraiá do Circo. Foto: divulgação/Felipe Diniz

Quem ama festa junina (assim como eu) sabe muito bem que é pouco junho para tanto arraiá. Já faz tempo que a festa se estende por julho — e por vezes até agosto — para nossa alegria. Para aproveitar o friozinho carioca (19 graus é frio, sim, OK, paulistas?), selecionei alguns arraiás neste fim de semana que prometem ser animados. Tem até festa exclusiva para mulheres, comandada pelas moças do bloco O Rebu. Bora pular fogueira?

Arraiá Cafuçu

Festinha no IFCS (o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da UFRJ) ao som do DJ Bbeça e do DJ convidado Letto. Ou seja: promete ser um ponto de encontro da galera da miçanga.

Vai lá:
Quando: Sexta (5), às 22h
Onde: IFCs. Largo São Francisco de Paula, 1 – Centro
Quanto: contribuição consciente

Arraiá da Lavradio

A feira, que ocupa a Rua do Lavradio todo primeiro sábado do mês, terá como atração musical o grupo Forró Calça Arriada, a partir das 16h30 (o show acontece na Praça Emilinha Borba, na esquina da Rua do Lavradio com Rua do Senado). Além disso, 400 expositores estarão lá com seus produtos.

Vai lá:
Quando: Sábado (6), das 10h às 19h
Onde: Rua do Lavradio, Lapa
Quanto: entrada grátis

Arraiá das Neves

Festa tradicional, organizada pela Paróquia de Nossa Senhora das Neves, que fica bem ali no Largo das Neves, em Santa Teresa. Com música, comidas e brincadeiras típicas.

Vai lá:
Quando: Sexta e sábado (5 e 6), das 18h às 21h. Domingo (7), das 10h à 0h
Onde: Largo das Neves, Santa Teresa
Quanto: entrada grátis

Arraiá do Circo

Geraldo Azevedo comanda a festa com repertório de forró, com canções próprias e clássicos do gênero. Na sexta, ele recebe no palco Chico César e Tadeu Mathias. Sábado, é a vez de Julia Vargas e Yessir Chediak. O arraiá ainda conta os trios Conterrâneos, na sexta e Trio Remelexo, no sábado, e o grupo de músicas e danças populares Zanzar. Barraquinhas de comidas típicas e a decoração completam o clima julino.

Vai lá:
Quando: Sexta e sábado (5 e 6), a partir das 22h
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: de R$ 50 (meia, com 1kg de alimento, 1º lote) a R$ 120 (inteira, 2º lote)

Arraiá do Horto

Festa julina tradicional de bairro, com música, comidas e brincadeiras típicas e outras atrações.

Vai lá:
Quando: Segunda e sábado (5 e 6), das 18h à 0h. Domingo, das  18h à 0h.
Onde: Largo das Pedras – Caxinguelê (entrada Rua Pacheco Leão, 1.235 – Horto)
Quanto: Entrada grátis

Arraiá dos Capuchinhos

Festa da tradicional igreja tijucana, com música ao vivo, brincadeiras e comidas típicas — quer coisa melhor em arraiá que as delícias preparadas pelas tias de igreja?

Vai lá:
Quando: Sábado e domingo (6 e 7), das 16h às 23h
Onde: Santuário Basílica de São Sebastião – Frades Capuchinhos. Rua Haddock Lobo, 266 – Tijuca
Quanto: entrada grátis

Arraiá no Museu

A pegada é meio gourmetizada (vai ter comida vegana, cerveja artesanal, kombucha, hambúrguer), mas a organização promete música, dança, brincadeiras, comidas e bebidas típicas também, e convida todos a ir a caráter (tira a camisa xadrez do armário, vai). Às 15h30 de cada dia haverá quadrilha.

Vai lá:
Quando: Sábado e domingo (6 e 7), das 10h às 17h
Onde: Jardins e estacionamento do Museu da República. Rua do Catete, 153 – Catete
Quanto: entrada grátis

Circuito Interno

A feira da Fábrica Bhering tem edição especial julina: além dos ateliês e lojas abertos, o evento vai ter DJ com brincadeiras e quadrilha das 16h às 18h e show do Trio Sentimento às 18h, tudo no pátio. As comidinhas são mais gourmetizadas e o clima, descolado.

Vai lá:
Quando: Sábado (6), das 13h às 20h
Onde: Fábrica Bhering. Rua Orestes, 6 – Santo Cristo
Quanto: R$ 5 (meia) e R$ 10 (inteira)

Festa de São João

A tradicional festa do padroeiro da igreja acontece no estacionamento e é concorridíssima: quem quiser provar as comidas típicas deve chegar cedo, ou periga ficar sem nada. Já falei que eu adoro receitas juninas de tios e tias de igreja?

Vai lá:
Quando: Sábado e domingo (6 e 7), das 17h às 23h
Onde: Igreja São João Batista da Lagoa. Rua Voluntários da Pátria, 287 – Botafogo
Quanto: entrada grátis

Festa Junina da Feira de São Cristóvão

O mais tradicional dos arraiás na cidade começa em junho e vai até agosto. Oba! Tem artesanato, comidas e bebidas típicas. Tem karaokê em diversas barracas. Sexta tem quadrilha às 21h e shows até 5h da manhã. Sábado tem quadrilha às 16h e às 21h e apresentações musicais até 5h da manhã. Domingo tem quadrilhas diversas durante o dia e shows das 13h às 20h.

Vai lá:
Quando: Das 10h de sexta (5) às 20h de domingo (7) — a feira fica aberta direto
Onde: Feira de São Cristóvão. Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas. Campo de São Cristóvão, s/nº
Quanto: grátis (sexta, das 10h às 18h) e R$ 5

O Rebu na Roça

O bloco lésbico O Rebu realiza uma festa exclusiva para mulheres, com xote, baião, maracatu, frevo e funk, que ninguém é de ferro. Também vai rolar o casamento de sapatão, tradição da festa.

Vai lá:
Quando: Sábado (6), às 23h
Onde: Cordão da Bola Preta. Rua da Relação, 3 – Lapa
Quanto: a partir de R$ 15

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‘Ninguém fala: o rapper hétero Fulano de Tal’, diz Jeza da Pedra http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/06/28/ninguem-fala-o-rapper-hetero-fulano-de-tal-diz-jeza-da-pedra/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/06/28/ninguem-fala-o-rapper-hetero-fulano-de-tal-diz-jeza-da-pedra/#respond Fri, 28 Jun 2019 18:30:26 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=974

Jeza. Foto: divulgação/João Pacca

Nascido no Complexo da Pedreira, no bairro de Costa Barros, na Zona Norte do Rio, Jeza da Pedra teve as mais diferentes influências: música evangélica, funk, rap, samba e pagode são alguns dos elementos que formaram a identidade do artista. Filho de uma caixa de padaria e um pedreiro, teve uma vida nada fácil e as mais diferentes profissões: trabalhou em sauna, foi gerente de motel, concierge de hotel, atendente de telemarketing, apresentador de karaokê. Quando fazia parte da ONG São Martinho, estudou música na Escola Villa-Lobos. Na sauna, conheceu um namorado rico, que o incentivou a fazer faculdade — ele se formou em Letras na PUC-Rio, com direito a uma passagem pela Sorbonne, na França.

Em 2015, largou o emprego de tradutor para se dedicar à música.  Em 2017, lançou seu trabalho de estreia, o EP “Pagofunk Iluminati”. De lá para cá, as coisas foram evoluindo de forma bem rápida: ele abriu shows importantes e foi convidado pelo produtor Kassin para um projeto em dupla. O JezaKassin, que hoje faz sua primeira apresentação — no Circo Voador, abrindo para a Nação Zumbi —, tem um EP de quatro faixas, lançado em abril, e ainda este ano solta um álbum. “Acho que o Circo se transformou no lugar onde eu mais me apresentei na minha vida. Inclusive hoje (quinta) eu também vou tocar lá. Essa vez com o Kassin acho que vai ser a quinta”, conta Jeza.

Sua carreira só faz crescer, mas os perrengues seguem. Ele se mudou da Pedreira, por conta da violência (é o segundo pior IDH da cidade, frisa), mas ainda denuncia o que chama de apartheid geográfico da cidade: morando em Campo Grande, leva cerca de três horas para chegar ao estúdio de Kassin, em Botafogo. Mas as dificuldades não param o rapper: enquanto termina o álbum em dupla, ele planeja um EP audiovisual para o segundo semestre, com três clipes. Para isso, abriu um crowdfunding. “Se não rolar, também, foda-se, eu vou fazer de qualquer jeito, eu vou soltar no segundo semestre na marra. A gente só trabalha com o impossível (risos)”, brinca.

Esse show do Circo é o primeiro de você e do Kassin? Como estão as expectativas?

É o primeiro! A gente está bem ansioso e com ótimas expectativas. Porque tendemos sempre a gostar mais do trabalho que estamos fazendo no momento.  Essa parceria com o Kassin está sendo incrível, ele é um puta músico, um gênio, compreensivo, e a gente está meio que na mesma sintonia. Então é muito gratificante, para além de putz, cara, estar fazendo essa parceria com um dos maiores músicos e produtores do Brasil.

E vocês têm muitas diferenças. O Kassin é mais velho, produtor de artistas do mainstream, um cara da classe média Zona Sul, branco. Você é um cara da favela, gay, negro, outras referências, outra geração. Como é esse encontro e essa troca com alguém que é de outro meio?

Eu acho que essas diferenças acabam sendo meio que complementares. Apesar da gente ter esse background musical e de vivências diferente, quando a gente parou para tocar ideia, a gente viu que tem muita coisa musical em comum. E a nossa onda, especialmente no que tange a coisa do humor, é bastante análogo um ao outro. Eu acho que essa nossa parceria é uma prova do quanto as diferenças podem ser complementares, elas conseguem dialogar e criar coisas bacanas. E é doido, porque quando eu conheci o Kassin, ele já conhecia meu trabalho, e eu o dele. E com cinco minutos de ideia que a gente trocou… É difícil de explicar, foi meio que um amor à primeira vista.

Eu li que você largou um emprego para se dedicar à música. O que você fazia?

Eu era tradutor. E aí começou a se agravar a crise econômica aqui no Brasil. Já estava tentando ser músico há muito tempo. E aí eu pensei: “Mano, eu estou com 33, a idade de Cristo, eu quero transubstanciar também.” (risos) E comecei a fazer mil rolês. Fui trabalhar de apresentador de karaokê em Campos (estado do Rio), procurando produtor, falando com várias galeras. Até que eu conheci o Juan Peçanha, lá em Campos, que é um produtor de lá, e ele me ajudou a fazer o “Pagofunk Iluminati”. A gente chegou a desenrolar e a trocar uma ideia com a Sony, para fechar o ano deles. Chegou em junho, eu já estava ensandecido, procurei uma distribuidora e soltei em junho e em julho eu já fiz o show de estreia, com o Afrojazz. O Eduardo Santana, que é do grupo, produziu a apresentação. Por acaso o curador do Circo, o Rolinha, passou em frente ao lugar onde estava rolando o show, viu o nome “Pagofunk Iluminati” — ele um show com a Rider, eu toquei junto com o Baco — e rolou, as coisas foram acontecendo.

É verdade que você trabalhou em sauna?

É verdade. Sauna, gerente de motel, concierge de hotel, atendente de telemarketing…

Você teve uma boa parte da vida uma criação dentro da igreja evangélica. E você fala sobre sexo, sexualidade. Como é isso para você hoje? 

Hoje para mim é muito natural, mas até os meus 19 anos eu era bem atormentado com essa coisa da penação eterna, do inferno. Até desconstruir esse pensamento, (entender) que a minha orientação sexual não era algo satânico, não era nada que eu precisasse ficar sofrendo. É complicado, né? Eu me assumi com 12 anos. Isso foi em 1998. Essa coisa da militância do movimento LGBT ainda era uma coisa muito tímida, né? A gente chamava de GLS. E foi fundamental ter ido às primeiras passeatas LGBTs que aconteceram em Copacabana, pequenas, e frequentar boates na Zona Norte, uma espécie de aprendizado com as travestis, essa galera da cena meio que underground mesmo. Foi muito enriquecedor e me fez aprender muito.

Você já era ligado ao rap ou ele veio depois?

Eu era ligado a muita coisa: rap, funk, pagode. Mas exercer mesmo, praticar foi com 30 anos. Eu fui trabalhar em sauna com 21 anos e aí eu namorei com um maluco gringo que era meio que milionário. E aí foi quando eu tive uma vidinha melhor. Por exemplo: eu conheci a Sofia (Vaz), da banda Baleia, que fez um feat comigo, na PUC. Lá, conheci toda uma cena musical, mas foi muito mais ligada à cena indie, de rock, de MPB. Lá, conheci amigos baianos, que me apresentaram ao Caetano. Mas eu sempre frequentei baile de favela, roda de Zona Norte, que é por onde eu circulo mesmo.

O que veio primeiro em termos de música?

Funk, pagode e música evangélica, porque foi a minha criança. Você vivendo nos anos 90 na favela tinha o boom do funk melody, MC Marcinho, das montagens, baile de espuma. Ao mesmo tempo, SPC, Raça Negra. E música evangélica. A minha identidade foi formada nisso, basicamente. E meu pai (que morreu quando Jeza tinha sete anos), que curte Tim Maia, MPB. Funk, samba e pagode tiveram caráter pedagógico na minha vida para eu perceber outras coisas.

Eu já vi você falando que Oscar Wilde é uma influência, você cita Bauman em música. Essas referências mais intelectualizadas, isso vem da época da PUC? De onde isso vem para o seu trabalho?

A minha mãe, apesar da gente ser bem fodido, ela sempre me incentivou muito à leitura. Antes de eu fazer faculdade, já tinha um background literário. Eu fiz parte de uma ONG chamada São Martinho, voltada para adolescentes em situação de risco. E aí eu ganhei bolsa para estudar inglês, espanhol. E tinha muitos professores que me incentivavam à leitura. Por exemplo, o Oscar Wilde foi no curso de inglês. E aí eu ficava: ‘Poxa, quero aprender, quero saber qual é.’ E aí tinha vestibular também. Eu tinha muito na minha cabeça que eu precisava fazer faculdade, porque ninguém na minha família tinha feito. Acho que minha mãe aproveitava esse meu ímpeto de leitura e me dava vários livros. Eu me lembro que muita coisa canônica que eu fui ver na faculdade eu já tinha lido para caralho. A faculdade só serviu para reforçar essa coisa de teoria formal. Acho que serviu muito mais para eu ter o diploma do que para, sei lá, formação de caráter.

Apesar de ter influências das mais diversas na sua música, você é um artista identificado com o rap. Como você acabou se envolvendo mais com o rap e com a cena dele?

Eu acho que você morando no Rio de Janeiro em favela nos anos 90, o funk, Racionais, o boom, a Golden Era do rap, acho que isso já estava inserido nas minhas referências musicais. Por exemplo, já me disseram: “Ah, você fala que faz rap mas ninguém nunca te viu em batalha ou rinha.” Mas é preciso também contextualizar que até pouco tempo, até o Rico Dalasam aparecer como um dos primeiros rappers assumidamente gays do Brasil, o rap tinha um clima meio hostil tanto para mulher como para pessoa LGBT. O meu trabalho, o do Rico, o do Hiran, e agora a Linn da Quebrada, a Monna Brutal, um monte de gente quebrando esse paradigma é uma coisa que causa um certo estranhamento ainda. Eu faço rap como qualquer outro maluco aí e dialogo com outras vertentes musicais, mas isso não é exclusivo meu. Você vai escutar por exemplo o Filipe Ret, ou o Baco, ou o BK, os caras também estão numa transdisciplinaridade musical que está além do rap. Eu não sei, ainda acho que, apesar de ter toda essa visibilidade para as figuras LGBTs que estão inseridas nesse nicho musical, ainda existe um pouco de resistência, falta mais inclusão. Porque visibilidade… De que adianta as pessoas só lembrarem que um monte de gente existe só quando está próximo, por exemplo agora da Revolta de Stonewall? Isso é uma coisa que está sendo mais combatido, mas discutido agora, mas acho que precisa de muito mais inclusão, porque ainda é uma visibilidade muito ínfima. É importante que as pessoas vejam isso e parem de olhar torto. A gente está fazendo o corre como qualquer pessoa, mano. O sol precisa brilhar para todo mundo (referência à faixa “Pedra do Sal”, do EP “JezaKassin”).

Hoje temos vários artistas LGBTs na cena.

Há sete anos atrás não tinha ninguém assumidamente gay fazendo isso.

Você usa pajubá nas suas letras, nas suas entrevistas. Outros rappers LGBT também fazem isso. Acha que isso é importante para vocês marcarem posição?

Eu acho superimportante, inclusive eu acho uma grande bobeira. Não quero apontar para ninguém, óbvio, eu acho que cada um tem que ter a sua individualidade respeitada. Mas eu não tenho o menor problema em ter meu nome associado, “ah, o artista LGBT”. Sim. Primeiro, porque eu sou LGBT, eu sou gay, nunca tive problema com isso. Acho que, se for para uma boa causa, por que não? A minha pontuação é que é uma faca de dois gumes: se por um lado é bom, porque você está dando visibilidade à causa, à individualidade de milhões de pessoas, por outro lado você acaba botando numa redoma, etiquetado, numa tag de “artista LGBT”. Você faz uma playlist de Dia do Orgulho LGBT. Num contexto que deixa a gente no gueto, sabe? Por que as pessoas não viram e falam para essa galera que já está em evidência no rap, os homens héteros: “o rapper hétero Fulano de Tal”? Essa é uma coisa que é meio bizarra, mas eu acredito que a gente precisa resistir e continuar lutando e gritando e tomando mais espaço para que as coisas melhorem. Para que as LGBTs do futuro sejam muito mais doidas que a gente, gritem muito mais.

Você é um artista negro, gay, da favela. Que preconceito você acha que vem primeiro, que você sente primeiro?

Olha… Eu nunca tentei colocar num ranking, não, porque eu acho que as três coisas me deixam… Eu já sofri e sofro até hoje com isso. Vou até sair do contexto da música, porque eu acho que quem está no meio musical tende a ter uma mentalidade mais aberta. Mas por exemplo, quando eu era concierge de hotel: eu era a pessoa de pele mais escura trabalhando no lobby. Tinha um monte de bicha, mas todo mundo tinha que ficar muito travada. E quem morava em lugares de risco, quando viam na entrevista de emprego, normalmente não era contratado. Então, estruturalmente, eu acho que os três lados. Talvez por ser gay mais tarde, porque pobre e preto já era um estigma que eu nasci com essa porra. Agora, até entender a minha orientação talvez um pouco mais tardiamente. Mas as três formas afetaram e me afetam até hoje com a mesma violência.

Você mora onde hoje?

Eu moro em Campo Grande, na Estrada da Posse, do funk, sabe? “(cantarola) Porque eu moro na Estrada da Posse”. Eu queria muito morar na Pedreira, tenho família, amigos lá. Mas é papo de você dar um Google e entender como é que está a situação lá. Eu sempre faço post nas minhas redes sociais de denúncia por impunidade policial. Costa Barros é o segundo pior IDH do Rio de Janeiro. As incursões policiais lá são uma coisa muito doida. E porra, eu já perdi emprego porque não estava conseguindo sair de casa porque o caveirão ia fazer ação lá segunda-feira de manhã e era foda, sabe? Eu fico bastante triste com isso. Inclusive tem gente que me pergunta: “Mas por que você Jeza da Pedra? Por que você não tira a Pedra?”. Não, porque para mim é muito importante que a comunidade onde eu nasci tenha algum representante. Nunca conheci nenhum artista lá da Pedreira. E eu falo com o maior orgulho, faço questão de estar sempre sublinhando isso, porque é muito importante, é onde eu nasci, fui criado, os meus amigos estão lá até hoje, para mim é missão mostrar para as pessoas que elas podem contornar essa realidade violenta e triste através da arte.

Até uma certa idade, você frequentou a igreja evangélica. Tem religião hoje?

Eu acho que eu sou gnóstico agora (risos). Acho que você deve ter visto muitas referências ligadas ao candomblé nas minhas músicas. Eu acho que eu não tenho uma religião, mas eu me ligo bastante em religiões de matriz africana, vou em umbanda, frequento terreiros de candomblé, mas eu acho que eu sou espiritualizado, mas não tenho uma religião em si. Mas acredito nos mistérios.

No ano passado, você fez seus primeiros shows internacionais, na Alemanha. Como foi a experiência?

Nossa, foi bem louco, foi do caralho. Um produtor de lá curtia meu trabalho e me convidou para fazer duas apresentações lá. Ele já tinha levado a MC Carol e a Linn, e aí depois me chamou para participar de um evento que ele produz lá, que se chama Favela Gay. E aí os organizadores da parada LGBT de Colônia, que é a segunda maior da Europa, também entraram em contato para que eu me apresentasse, foi bem legal. Imagina, com um ano que eu tinha soltado meu trabalho de estreia! Pô, eu fiquei feliz para caralho e a meta agora é Osaka, no Japão (risos).

Desde quando você faz música?

Eu já tive banda de rock e de pagode durante a adolescência. Por exemplo, tenho músicas que estou soltando agora que fiz antes do “Pagofunk Iluminati”. Porque eu escrevia — escrevo, na verdade, tenho pretensões editoriais, só estou esperando a oportunidade certa de soltar alguma coisa. É aquilo que eu te falei: a música e a literatura já estavam enraizadas desde a minha infância/adolescência. Mas profissionalmente, “agora eu vou escrever para produzir tal coisa” foi agora, com 30 anos já. Eu jamais imaginei que eu ia ter esse ímpeto largar um trabalho para me dedicar a essa parada de música porque é perrengue para caralho. Antigamente eu estava infeliz, mas tinha um trabalho das oito às cinco que garantia a minha subsistência, mas não me deixava feliz. Hoje em dia, eu garanto a minha subsistência fazendo uma milhão de coisas, mas estou correndo atrás do meu sonho e acho que, mesmo de uma maneira muito tímida, eu estou conseguindo realizá-lo. E, sinceramente, eu espero de viver disso.

É que eu ia dizer: desde que você lançou o EP, as coisas foram meio rápido. Como você se sente agora, nesse ponto da carreira, olhando para tudo que aconteceu até agora?

Eu me sinto muito grato e feliz, porque eu vi que valeu a pena ter passado por todas essas dificuldades. Porque até hoje: o estúdio do Kassin é na Zona Sul e, para eu chegar aqui, eu gasto três horas. Um dia fora é papo de passagem, mais alimentação, papo de mais de 20 conto. Isso aqui no Rio, imagina, tem outros parceiros que estão na Bahia, em São Paulo… Mais especificamente aqui no Rio, esse apartheid geográfico, esse sistema de transporte público escroto que não funciona, isso dificulta minha vida para caralho. Se eu for pensar que, em três anos, apesar de eu ainda estar aí, aos trancos e barrancos, lutando para ter meu lugar ao sol, para ser bookado em casas de show, coisa e tal, é muito gratificante. Mas acho que é só começo, ainda tem muita coisa aí para caminhar e para conquistar.

E você já tem um novo trabalho solo na manga, além do disco com o Kassin, né?

Eu estou produzindo um EP, vou soltar agora no segundo semestre. Estou fazendo um crowdfunding, para que a galera me ajude. O trampo com o Kassin está sendo feito em parceria e estou no amor, está tudo muito maravilhoso. Mas esse outro trampo eu estou fazendo por conta própria, requer pagar estúdio, produção, cuidar da questão audiovisual, toda essa coisa. Espero sinceramente que eu atinja a meta. Se não rolar, também, foda-se, eu vou fazer de qualquer jeito, eu vou soltar no segundo semestre na marra. A gente só trabalha com o impossível (risos).

Vai lá:
Nação Zumbi + JezaKassin
Quando: Sexta-feira, 28 de junho, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº
Quanto: R$ 50 (com 1kg de alimento, 1º lote) a R$ 120 (inteira, 2º lote)

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Festival Ultrasonidos une artistas brasileiros e outros latino-americanos http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/06/21/festival-ultrasonidos-une-artistas-brasileiros-e-outros-latino-americanos/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/06/21/festival-ultrasonidos-une-artistas-brasileiros-e-outros-latino-americanos/#respond Fri, 21 Jun 2019 21:31:40 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=960

MC Carol forma dupla com o equatoriano Ataw Allpa. Foto: divulgação/Vincent Rosenblatt

O Brasil sempre foi uma espécie de peixe fora d’água em relação à cultura dos outros países da América Latina: enquanto boa parte dos nossos vizinhos conhece e consome o que vem daqui, sobretudo a música, a gente costuma ignorar o que vem do nosso continente, com raras exceções. Buscando diminuir essa distância, o Festival Ultrasonidos, que começa neste sábado, vai apresentar quatro duplas formadas por um artista brasileiro e outro de algum país vizinho — no caso, Chile, Colômbia e Argentina.

Idealizado pelo jornalista Carlos Albuquerque, o também DJ Calbuque, e o artista visual Batman Zavarese, o evento traz os artistas para fazer residências no Lab Oi Futuro, ocupando o estúdio e a área de ensaios do Labsonica. Eles irão preparar um show conjunto, gravar uma música inédita e participar de debates.

As duplas são formadas por Yih Capsule (Chile) e Alice Caymmi, Las Hermanas (Colômbia) e Aori, The Holydrug Couple (Chile) e Dado Villa-Lobos, Ataw Allpa (Equador) e MC Carol. O evento ainda conta com o show de abertura da dupla argentina Defensa. “É uma honra para mim ser convidado para outro país para fazer música com as pessoas, isso faz tudo valer a pena”, comenta Las Hermanas, na verdade o produtor Diego Cuellar, que forma par com Aori. “Estou ansioso mesmo para trabalhar com Aori e Estêvão. Tenho certeza de que vamos chegar a algo muito legal”, diz.

Alice Caymmi também é atração do festival, ao lado da chilena Yih Capsule. Foto: divulgação/Gustavo Zylbersztajn

Ele conta que é especialmente fã de alguns nomes da música produzida no Brasil. “Estou ciente do vasto universo musical da música brasileira, mas sei que tenho que aprender muito. Quando eu era criança e adolescente, ouvia muito Sepultura e Ratos de Porão. Ratos, para mim, era muito especial. É uma banda muito divertida. Eu sempre amei a atitude deles, sabe, em termos de como ser realmente cru, mas ao mesmo tempo divertido. Com o tempo, conheci a Tropicália e respeitei muito a maneira de misturar música psicodélica com música tradicional brasileira”, explica o argentino.

Aori afirma também ter interesse pelo que é feito em outros cantos do continente.  “Sempre curti sonoridades diferentes e já curtia o rap de bandas latinas… Em casa, sons do Caribe sempre fizeram a cabeça da minha família. Não conhecia o trabalho do Las Hermanas, mas fiquei surpreso com a qualidade dos beats e afinidades dele com meu próprio trabalho”, diz o rapper.

O projeto Las Hermanas, do produtor colombiano Diego Cuellar, dupla do rapper Aori. Foto: divulgação

Cuella também não conhecia o som de sua dupla, mas conta que foi pesquisar sobre a música do rapper carioca e agora está empolgado para trabalhar com ele. “Eu ouvi o álbum ‘Anaga’, dele, e gostei da variedade nas músicas. Todas as músicas são meio diferentes no álbum e em cada uma ele tem uma maneira diferente de fazer rap, mas mantendo uma unidade. Também ouvi sua banda Inumanos e também gosto. Cem por certo sons funkeados dos anos 90. O ‘Volume X’ (álbum do Inumanos) é muito legal, é pesado e divertido. Espero que façamos algo divertido”, torce ele. “Tenho certeza que será uma experiencia única de troca de ideias e energias. Mal posso esperar”, devolve Aori.

Vai lá:
Festival Ultrasonidos
Quando: De 22 a 29 de junho (confira a programação completa)
Onde: Sede das Cias (Rua Manuel Carneiro, 12 – Lapa) e Lab Oi Futuro (Rua dos Dois de Dezembro, 107/5º andar- Flamengo)
Quanto: R$ 1 (meia) e R$2

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Teatro Odisséia comemora 15 anos como espaço de resistência na Lapa http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/06/14/teatro-odisseia-comemora-15-anos-como-espaco-de-resistencia-na-lapa/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/06/14/teatro-odisseia-comemora-15-anos-como-espaco-de-resistencia-na-lapa/#respond Fri, 14 Jun 2019 15:31:05 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=945

Leo Feijó, fundador do Teatro Odisséia. Foto: divulgação/Mariana Serran

Quando o Teatro Odisséia abriu, em 2004, o cenário era outro. A Lapa estava no auge de sua revitalização, com programação intensa em bares como o Semente e o Carioca da Gema. O Circo Voador, que havia sido fechado em 1996, abriria no mês seguinte. Era um momento de programação musical intensa e o bairro estava em uma curva ascendente de desenvolvimento. Quinze anos depois, as coisas já não são as mesmas. O Odisséia foi sobrevivendo como pôde. No aniversário de 15 anos, no entanto, busca retomar sua vocação de casa de shows: até o fim do ano, vão acontecer cerca de 40 shows no espaço, com artistas dos mais diversos estilos musicais. A estreia da programação é neste sábado, com Wander Wildner.

A primeira atração do lugar foi ninguém menos que o grupo Los Hermanos, que já tinha passado por outros espaços do proprietário do Odisséia, Leo Feijó — ele chegou a ter mais de dez casas. Com o tempo, muitos outros artistas novos passaram por lá. “O Mauricio Valladares (fotógrafo especializado em música, autor de capas de discos importantes, e radialista) tinha falado isso que a gente tinha se transformado numa plataforma de lançamentos do Rio. Inclusive promovíamos muito intercâmbio, vinha gente do Nordeste, do Sul, São Paulo, Minas, do Brasil todo tocar”, lembra Feijó. “Mas o Odisseia foi perdendo essa capacidade, porque nunca teve patrocinador. Foi ficando mais difícil. Você vai perdendo faturamento, tem que investir em trazer os artistas, pagar deslocamento, a comunicação — tem que divulgar para formar um público. Eu gostaria que ele voltasse a ser isso, mesmo sem patrocinador. Essa história dos 15 anos é uma dedicação nesse sentido”, diz.

Face to Face (EUA), Thiago Amud, Moyseis Marques, Gabz, Choice, Sinara, Camerata Laranjeiras, Brasov e um show reunindo João Ribeiro, Rita Beneditto e Zeca Baleiro são algumas das atrações já confirmadas. “Quisemos trazer artistas que se apresentaram na casa e que têm relação com essa trajetória, como o Wander Wildner, o Brasov, que vai fazer um show especial de 20 anos. E também sinalizar para a cena musical: ‘A gente está aqui, está vivo.’ Sei que a gente passou um tempo fazendo muitas festas, o funk está sempre presente — e tem que estar mesmo, ele é uma expressão musical carioca, então as festas de funk vão continuar. Mas a gente tem espaço para fazer os shows também, para investir em música ao vivo”, explica Leo Feijó. “A ideia foi fazer um panorama também, para mostrar que tem espaço para MPB, rock, heavy metal, rap, música instrumental. É uma casa de shows. Mesmo sem patrocínio, a gente vai insistir em fazer o que acredita”, garante.

Ex-subsecretário-adjunto e coordenador de música na Secretária de Estado de Cultura, coordenador do programa Música e Negócios: Empreendedorismo e Inovação na PUC-Rio, Feijó é articulador da rede Palcos do Rio, que reúne 24 casas de show de pequeno e médio porte, e busca investidores. “É uma iniciativa que vem para tentar construir um novo caminho, não só para o Odisseia, mas para todas os espaços que participam. Justamente para mostrar: essas casas juntas reúnem mais do que um Rock in Rio por ano. Onde estão as marcas? Por que não conseguem enxergar isso? A gente oferece experiência, conteúdo, tudo o que os megaeventos oferecem. Só que fazemos isso ao longo do ano, é uma programação contínua. E música se faz todo dia, os artistas precisam ganhar dinheiro toda semana, não é só num festival”, defende ele. “Manter um espaço cultural aberto no Rio de Janeiro hoje é um ato de resistência. Você não tem politicas públicas e as marcas querem só investir em megaeventos. É realmente uma luta”, afirma.

Vai lá:
Festival Teatro Odisséia 15 anos: Wander Wildner
Quando: Sábado, 15 de junho, às 21h (abertura das casa às 19h30)
Onde: Teatro Odisséia. Av. Mem de Sá, 66 – Lapa
Quanto: R$ 20 (meia-entrada ou antecipado) e R$ 40. Passaporte para todos os dias de festival: R$ 100

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Atração do Rio Montreux Jazz Festival, Yamandu Costa temeu não tocar mais http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/06/07/atracao-do-rio-montreux-jazz-festival-yamandu-costa-temeu-nao-tocar-mais/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/06/07/atracao-do-rio-montreux-jazz-festival-yamandu-costa-temeu-nao-tocar-mais/#respond Fri, 07 Jun 2019 14:02:37 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=928

Há cinco anos, Yamandu Costa descobriu que estava com o pulso quebrado e precisou cancelar três meses de shows. Ele vinha sentido dores havia algum tempo e fazia sessões de fisioterapia, mas a fissura não tinha sido detectada. Precisou operar e temeu não voltar à antiga forma. Desse período de repouso forçado, no entanto, acabou surgindo seu próximo projeto: o álbum “Vento Sul”, em que o instrumentista canta pela primeira vez profissionalmente. As canções são, em maioria, parcerias com o compositor carioca Paulo César Pinheiro, que completou 70 anos em 2019.

Ele não pretende fazer shows do trabalho. Mas a agenda segue com todo gás: além de shows — ele se apresenta esta sexta-feira no Rio Montreux Jazz Festival, ao lado da Camerata Jovem —, ele toca o aplicativo criado em há dois anos, webséries como “Visita Boa” (em que apresenta músicas ao lado de outros artistas) e prepara outros álbuns, como um ao lado do multi-instrumentista Marcelo Giran e outro com o acordeonista Bebê Kramer. “Eu sempre gostei de trabalhar muito e estar produzindo muito, e hoje em dia ter como escoar tudo isso é uma coisa muito boa”, garante ele. “Mas o meu tempo diminuiu demais. Não tem comparação. Cinco anos atrás eu tinha uma vida pacata, comparada com hoje. Mas eu gosto, acho legal”, diz.

O show no Rio Montreux acontece às 19h30, no Palco Tom Jobim, montado no Píer Mauá. O festival, que começou na última quinta, acontece até domingo e vai reunir cerca de 40 artistas, com nomes como Corinne Bailey Rae, Stanley Clarke, Hermeto Pascoal, Al Di Meola, Andreas Kisser e Steve Vai, entre outros. São oito palcos, sendo três nos armazéns 2 e 3 do Píer Mauá, e os demais no Parque Madureira, Praça Nossa Senhora da Paz, Varnhagem, Parque das Rosas e Largo do Machado.

O que está achando da chegada desse festival ao país, e sobretudo à cidade do Rio?

A importância é grande, ainda mais com essa nova onda política que estamos vivendo, essa discussão em volta da cultura. Esse grande questionamento que está em todo mundo: onde é que a gente vai parar? E tem um evento desse porte, que traz essa marca de tanta relevância. Eu já estive tocando lá no festival, na Suíça. Fico muito feliz que a cidade do Rio esteja tendo essa oportunidade de receber um evento dessa magnitude, com esses nomes todos que estão trazendo. Acho que é um respiro na vida cultural carioca, que está tão abalada nos últimos tempos.

Como foi a experiência quando você se apresentou lá em Montreux?

Poxa, foi maravilhoso. É um festival muito grande lá, são vários núcleos diferentes: tem o palco ao ar livre, que é para milhares de pessoas, e tem os palcos que para a música mais intelectual, para públicos menores. Eu toquei numa sala para umas 800 pessoas, uma coisa assim. Era uma série de violonistas, tinha o francês Sylvain Luc, que é um nome bastante forte também na Europa. Foi uma experiência magnífica. Faz bastante tempo, mais de dez anos. Tenho uma ótima recordação dessa história toda.

Aqui no festival, você vai se apresentar com a Camerata Jovem, um encontro que já aconteceu antes. Como é o concerto que vocês fazem juntos?

É muito legal. A Camerata Jovem, a orquestra da Ação Social pela Música do Brasil, eu conheci alguns anos atrás num festival de música clássica lá na Paraíba. E fiquei muito emocionado em ver como a música realmente é transformadora, como a música salvou, de alguma maneira, a vida desses jovens. E a paixão deles pela música. Eles estão chegando aqui daqui a meia hora na minha casa (na última quinta-feira), é o terceiro ensaio esta semana que a gente faz, e eu te digo que é um negócio muito legal tocar com músico que tenha essa força e essa empolgação que só a juventude mesmo tem. É um negócio que alimenta mesmo a gente. Eu convidei eles dois anos atrás para participar de um show meu na Sala Cecília Meireles, principalmente para ter um pouco mais de proximidade com eles. Essa semana eu já tive três ensaios com eles, da outra vez que convidei também tive três ensaios. Essa convivência é muito legal. E a orquestra já melhorou muito nesses últimos dois anos. Também não deixa de ser uma afirmação de que a cultura realmente transforma, ela não deve ser vista como algo que seja supérfluo. Muito pelo contrário. A participação deles deixa um pouco claro isso: que esses projetos sociais, todas essas iniciativas têm que continuar acontecendo. Isso é muito importante.

Na época em que você fez esse show com eles na Sala Cecília Meireles, você anunciou o lançamento do seu aplicativo também. Eu vejo você volta e meia em projetos diferentes, tem o aplicativo, para o qual você grava conteúdo sempre… Você acha que o músico hoje em dia tem que se virar, se desdobrar em mil papéis para acompanhar a tecnologia, a mudança no consumo de música?

Eu notei uma diferença bastante grande depois que eu comecei a mexer com essas coisas, passei a incrementar as minhas redes. Percebi uma mudança muito boa em termos de interesse do público. Tudo isso que está acontecendo á uma grande incógnita. Como eu sou um sujeito muito intenso, meio que me encaixo bem nessas novas tendências, porque eu sempre gostei de trabalhar muito e estar produzindo muito, e hoje em dia ter como escoar tudo isso é uma coisa muito boa. Até para o meu sentimento mesmo como artista. Por exemplo, os meninos estão vindo agora gravar aqui comigo. A gente vai filmar e vai gravar em áudio tudo isso, daqui a pouco vai colocar no YouTube. Você se aproxima mais do seu público, ele vê que você está a fim de mostrar as coisas, que você tem o que dizer. O aplicativo acaba sendo mais um espaço de mostra e de comércio, eu consigo vender algumas partituras e tal. A gente abraçou a causa digital de uma forma geral, o aplicativo é uma coisa a mais. Estou fazendo séries para o meu canal do YouTube direto, o número de assinantes subiu muito no último anos. Vai ter uma série chamada “Histórias do violão”, em que a gente está documentando quase todas as viagens, filmando os shows, as pessoas que aparecem nos bastidores, nas rodas de música, nos encontros. Tudo que seja além da coisa da apresentação, do palco. Tudo o que acontece na vida da gente. Para mostrar para as pessoas que é uma vida também muito dura, trabalhosa. Às vezes acham que o artista só vive um certo glamour. Claro que existe também, mas não é o principal. A gente trabalha demais, faz 20 projetos ao mesmo tempo. Eu ando viajando cada vez mais para o exterior, então poder estar documentando tudo isso eu acho muito importante, muito bacana. Eu não tenho bola de cristal para saber onde é que vai parar isso, só não tenho dúvida de que estou fazendo parte dessa nova tendência, e está me fazendo muito bem. Claro, o meu tempo realmente diminuiu muito.

Entre viagens e fazer esse conteúdo, como fica seu dia a dia? Você treina muito também?

Nossa! Eu não sou um cara de ficar estudando muito, não. Mas o meu tempo diminuiu demais. Não tem comparação. Cinco anos atrás eu tinha uma vida pacata, comparada com hoje. Mas eu gosto, acho legal. Acho que está na hora de fazer as coisas mesmo.

Você é uma pessoa que dorme pouco?

Mais ou menos. Eu preciso dormir umas oito horas por noite. Agora nas viagens isso aí não é fácil. Agora em julho já começo a viajar de novo para fora: vou para Miami, para a Colômbia, depois para a Europa, em agosto eu vou para a Austrália, Japão, China. É uma confusão. Mas é muito bacana, e tem que agradecer mesmo o privilégio de poder levar a música, enxergar como uma missão e se cuidar um pouco para conseguir dar conta de tantos compromissos.

Eu já vi você dizer algumas vezes que não gosta quando se fala em música instrumental. Então vou falar do violão: você é um dos grandes nomes na história de um instrumento que é superimportante no Brasil. Você sente que o tipo de música que faz é valorizado aqui? Ainda mais você que viaja bastante…

É uma história que tem uma raiz profunda. Esse nome foi inventado na América do Sul, isso só existe aqui. Não deixa de ser um preconceito e uma falta de entendimento a respeito dessa manifestação musical. É uma música feita de outra maneira, música intelectual. É para você ouvir, não é para você dançar, não é para você curtir, não é para você beber. É uma outra coisa. Isso mostra de alguma forma o despreparo da nossa formação educacional, que as pessoas não entendem esse tipo de música, não sabem que existe isso. É uma fotografia do que a gente é. A gente não tem que ter vergonha disso, mas tem que ter vontade que melhore. Que as pessoas tenham discernimento, não necessariamente para consumir, mas ao menos para entender. Isso acontece com todas as coisas mais intelectuais: você fala da Física, da parte científica, as pessoas não têm a menor noção. Esse tipo de rótulo só mostra o atraso de informação, de educação, de acesso à cultura, de valorização dessas coisas humanas que o nosso povo tem. Isso é tudo é um certificado de atraso social.

Você gravou um disco de canções no ano passado.

Gravei, está saindo agora em julho. Isso mostra que eu não tenho nenhum preconceito com a canção, muito pelo contrário. Eu estou falando de um tema que é muito maior que isso: é a compreensão da cultura de uma forma geral. Por exemplo: se você vai num concerto de um cantor, você não fala que vai num “concerto de música cantada”. Então por que tem que falar que vai assistir a um show de música instrumental? Música é música, independentemente da linguagem. Pode ser orquestral, pode ser batucada, pode ser cantada, pode ser recitada, pode ser hip hop. Tudo é música, e essas separações são um pouco perigosas. Eu comecei cantando desde muito pequeno, desde criança, a minha família tinha um grupo de música de baile lá no sul do Brasil (Os Fronteiriços) e a minha relação com a canção sempre foi muito próximo. Depois eu me dediquei ao instrumento, comecei a fazer uma carreira internacional… As pessoas pouco entendem que a palavra é uma questão limitadora de certa forma. A língua universal mesmo é o som. Então eu me dediquei muito mais a esse lado, e segui minha carreira dessa forma, e também não quero dar uma guinada, não tenho pretensão nenhuma de lançar esse material ao vivo, esse disco cantado. Não quero fazer show disso. Eu tive um acidente caseiro há uns cinco anos, na Copa do Mundo: quebrei um osso do punho e tive que ficar uns três meses sem tocar, para me recuperar. Tive que fazer uma operação e tal. E, durante essa época, eu comecei a pagar um pouco dessa dívida que eu tinha do início da minha infância, da minha família, que era me aproximar da canção novamente. Nesse tempo em que eu fiquei parado, compus várias melodias e tive o privilégio de trabalhar com o Paulo César Pinheiro, que inclusive está completando 70 anos. Noventa por cento das músicas do disco foram feitas com ele. Eu fiquei com vontade de registrar isso. Conversando com ele, durante as idas que eu fazia à casa dele para a gente finalizar as canções, ele me dizia: “Você que devia gravar isso aí.” Eu respondia para ele: “Tem que chamar alguém para cantar.” E ele: “Ninguém vai ter mais propriedade, mais dignidade do que você para mostrar essas músicas. Acho uma bobagem você ficar com esse receio.” E ele me convenceu. Na época eu estava começando a construir meu estúdio em casa, que é profissional, a qualidade sonora é ótima, e eu comecei a gravar essas canções. E demorou bastante para eu conseguir um resultado que me deixasse satisfeito. As coisas foram gravadas de uma maneira totalmente orgânica, voz e violão ao mesmo tempo, sem muitas afinações, sem essa parafernálias modernas. É um disco bastante intelectual, no sentido de que as músicas são bem densas, bem profundas. Não é canção para você passar uma hora no trânsito, é um negócio para você ouvir com atenção. Não é um trabalho que eu tenha a pretensão de que aconteça alguma coisa especial (risos). Não estou com essa expectativa mesmo, é realmente um registro das canções e foi feito com muito carinho, com muita verdade. São músicas que tinham que ser registradas assim. Seria um pecado se eu não tivesse a coragem de mostrar isso para o público, esse outro lado, esse outro braço do meu jeito musical. Que tem várias coisas, eu sou compositor também, são diversas formas de me comunicar com as pessoas. E a canção é uma delas também. 

O disco se chama “Vento Sul”?

Exatamente. Já foi para a fábrica, anteontem, para chegar aqui e eu devo lançar isso em 1º de julho. Vou lançar independente mesmo, vou botar nas plataformas digitais e vou fazer um bafafá para as pessoas ouvirem.

A gente pode descartar mesmo a chance de ver uma apresentação ao vivo desse disco?

Eu não quero fazer isso, não. Não quero mudar o caminho da minha carreira. Eu sou um instrumentista. Essas canções estão aí, quem quiser pode ouvir. Mas show não quero fazer.

Você gravaria canções outra vez ou foi uma experiência única?

Eu gravaria, sim. Quero continuar fazendo esse lado cancioneiro. Acho muito bonito. Inclusive esse disco “Vento Sul” tem 12 canções. Só com o Paulinho Pinheiro eu devo ter umas 25, fora com outros poetas. Então eu vou esperar agora um tempo, lançar isso com calma e logo depois fazer um outro apanhado. E aí devo gravar de outra forma, com arranjos, fazer um outro tipo de disco. Mas dessa forma, despretensiosa, registrando a obra.

E seus planos para este ano então são o lançamento do disco e os shows no exterior? Você está sempre com um projeto novo?

Nossa! Tem essas viagens todas, que são muito cansativas. Tem um disco também que eu estou finalizando semana que vem, tocando música caribenha, instrumental, para o qual eu convidei um músico mineiro para fazer os arranjos para mim, uma produção bem grande. Esse menino é um multi-instrumentista muito talentoso. Vai ser um disco de violão com vários instrumentos de sopro, muito dançável. Um disco popular, fácil das pessoas ouvirem de uma maneira descontraída, durante uma festa, tem bastante música para dançar, é um barato. Eu ainda não sei o nome, esse disco deve ser lançado até o final do ano. O músico se chama Marcelo Giran. É um talento, esse menino. Mora em Belo Horizonte e está vindo para a minha casa no dia 9 para a gente finalizar esse trabalho. Tem um outro CD com o Bebê Kramer, que é um acordeonista maravilhoso, a gente gravou junto aqui. Tem muita coisa acontecendo. Eu estou pensando em passar uma temporada fora no ano que vem, porque é muito difícil ficar indo e voltando, eu tenho muito show lá fora, então estou vendo a possibilidade de construir uma base fora do país.

Acaba fazendo mais shows lá, né?

Cada vez mais. Então fica muito cansativo ficar numa ponte aérea transatlântica.

Você vem de uma família totalmente ligada à música, desde novinho também cantou… Por que acabou escolhendo o violão? Qual a grande mágica, o que ele representa para você?

Meu Deus, é um instrumento interessante pela característica que ele tem. Na verdade é um instrumento para você fazer recital. Pelo menos o violão acústico é para você tocar para pouca gente. É portátil, você leva para qualquer canto. Mesmo tocando mal, muito pouquinho, você pode fazer uma grande festa: aprende a tocar duas canções e toca com os seus amigos. Você anima uma piquenique (risos). Ele tem uma função social muito linda, muito bonita, sabe? Ao mesmo tempo que é um instrumento encantador. Claro que, quando eu era criança, não conseguia enxergar dessa forma. O meu pai tocava muito bem. Sem dúvida foi uma grande influência. E ele era amigo na época de um grande violonista argentino que frequentava a minha casa, Lucio Yanel. Ele é um instrumentista genial. Quando eu vi ele tocar, eu tinha sete, oito anos, fiquei louco. Falei: “Nossa, eu quero tocar assim!” Eu vi ele se apresentando numa casa noturna em Porto Alegre. Entrei com o meu pai no lugar, na hora em que ele estava solando, e vi as pessoas boquiabertas. Parecia que o tempo tinha parado. O som dele era uma coisa que fazia com que a gente se transportasse para uma outra dimensão. É o que acaba acontecendo mesmo com a música. Quando eu vi aquela sensação, daquele cara se entregando em cima daquele instrumento, e as pessoas absorvendo aquilo, como se fosse um certo tipo de mágica, eu encontro um pouco do meu… pelo menos da minha intenção na época, do meu caminho. Eu falei: “Nossa, o que eu quero da minha vida é poder fazer esse tempo parar um pouco e me comunicar assim com as pessoas.” E, por sorte, a vida acabou me carregando para esse lado. Eu considero realmente um privilégio, às vezes até um processo de cura você tocar para as pessoas. É uma coisa muito especial, muito profunda. Independentemente de toda essa coisa da carreira, eu acho que a música é uma linguagem que é vista ainda de uma forma muito limitada. Agora uns neurocientistas estão começando a enxergar um pouco mais. Os lugares que a música afeta, a quantidade de dopamina que ela libera, a quantidade de coisa boa que faz para o sentimento humano você se comunicar através dessa linguagem. Independentemente do nível musical que você tenha, mas a música vista como saúde mesmo. Acho que é uma tendência na qual a gente tem que ficar mais ligado. Porque realmente é uma coisa que faz muito bem.

Quando você machucou o punho, teve medo de não voltar a tocar igual?

Tive, claro que tive. Na verdade, eu quebrei o punho e não identifiquei isso rapidinho. Eu estava no meio do meu turbilhão, da minha vida doida. Eu viajei para fora, fiz concerto com orquestra na Austrália com o punho quebrado, um osso chamado escafoide, que é importante. Só que não dá para ver facilmente. Então eu comecei a fazer fisioterapia, diziam que era tendinite, que não era… Também tive alguns diagnósticos errados. Até conseguir numa médica de fato responsável demorou um mês e meio, dois. Comecei a sentir dor, dor. Eu tocava, fazia os concertos e botava a mão dentro de um balde de água quente, de tanta dor. Imagina, eu estava com um osso quebrado! E uns profissionais não viram isso. Até que eu tive que fazer uma tomografia, detalhada e tal, com essa médica, Drª Denise. Quando ela viu, falou: “Nossa, você está se machucando, está abrindo o osso!”. Ele tinha uma fissura no início. Se eu tivesse parado de tocar acho que por um mês o osso teria cicatrizado sozinho. Mas eu não fiz isso, não sabia. Até que essa médica maravilhosa viu e disse: “Olha, amanhã a gente vai operar esse negócio.” Aí eu perguntei: “Como eu faço com a minha agenda?” Ela falou: “Pode cancelar tudo durante três meses.” Acho que foram uns 30 concertos, uma coisa assim. Foi um negócio bem complicado de organizar. Mas foi também um break que eu estava precisando e não sabia. Porque a gente entra nessa roda-viva da vida musical, da carreira, um turbilhão e não para mais. É meio doentio, meio louco. Eu costumo dizer que o artista começa como uma brincadeira, depois vira um prazer e depois vício, essas três fases. E eu tive medo, sim, de não poder voltar a tocar. Mas ela me deu segurança. E com muito menos de três meses eu já estava tocando de volta. Fiz um pouquinho de fisioterapia, mas foi um negócio muito rápido. Foi impressionante. No primeiro dia depois da cirurgia, que teve anestesia geral, tudo mais,  quando eu acordei a minha cabeça era como se fosse um balaio de sons, um balaio de melodias. Eu não sei se foi alguma percepção minha psicológica de que eu estava naquela situação e a cabeça reagiu daquela forma. Minha cabeça de sons, melodias compridas, desconhecidas, uma catarse mental que me deu, uma coisa assim que… sei lá, algum tipo de proteção, não sei. Até hoje eu não consegui entender direito aquilo. Eu sei que no final da história deu tudo certo. Foi um susto. E também uma certeza de você seguir na missão. Porque até eu ter sofrido esse acidente de vez em quando eu me fazia perguntas, questões: “Nossa, que vida louca essa que você foi inventar! Será que é isso mesmo, nesse ritmo maluco, de ficar sem parar e viajar?”. Depois que eu me recuperei, essa pergunta nunca mais voltou a me visitar. Foi uma coisa boa.

Vai lá:
Rio Montreux Jazz Festival
Quando: Até domingo, 9 de junho
Onde: Armazéns 2 e 3 do Píer Mauá, Parque Madureira, Praça Nossa Senhora da Paz, Varnhagem, Parque das Rosas e Largo do Machado
Quanto: a partir de R$ 25

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‘A relação com o feminismo tem dado voz às compositoras’, diz Tulipa Ruiz http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/31/a-relacao-com-o-feminismo-tem-dado-voz-as-compositoras-diz-tulipa-ruiz/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/31/a-relacao-com-o-feminismo-tem-dado-voz-as-compositoras-diz-tulipa-ruiz/#respond Fri, 31 May 2019 15:03:15 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=907

Tulipa canta no Circo. Foto: divulgação/Rodrigo Shimidt

Tulipa Ruiz começou a carreira profissionalmente há nove anos, quando lançou o disco ‘Efêmera’. Segundo ela, tudo sem maiores pretensões. Não demorou muito para a cantora e compositora cair nas graças da crítica e do público. “Eu não sabia nem se eu prensava ele ou não, se eu fazia o CD. Porque foi em 2010, ali a venda de CD já estava comprometida, várias lojas já tinham fechado“, conta ela, que se apresenta neste sábado no Circo Voador, em noite que também conta com o show de sua amiga Anelis Assumpção.

Depois de lançar em 2017 ‘TU’, um disco com regravações e algumas faixas inéditas, ela conta que planeja um novo trabalho para 2020, quando celebra dez anos de carreira. “Eu quero fazer muitas comemorações, ritualizar muito esse aniversário”, diz Tulipa, que celebra o destaque que as compositoras vêm recebendo atualmente, o que não acontecia tanto quando ela surgiu. “Acho que esse entendimento e essa nossa relação cotidiana com o feminismo têm nos dado muita voz, também têm nos fortalecido demais. As nossas expressões estão muito à flor da pele. Está sendo muito catártico, muito importante compor no contemporâneo”, comemora.

No Circo, ela sobe ao palco acompanhada do power trio Gabriel Mayall, o Bubu (que toca com o Los Hermanos, no baixo), Samuel Fraga (bateria) e Gustavo Ruiz (guitarra), irmão da cantora e produtor de todos os seus discos. O repertório vai passear pelos quatro álbuns da cantora: ‘Efêmera’, ‘Tudo tanto’, ‘Dancê’ e ‘Tu’. Já Anelis traz o show de ‘Taurina’, lançado ano passado.

Você e a Anelis têm uma relação antiga, você acabou de fazer o show de 70 de nascimento do Itamar com ela na Virada Cultural. Sei que vem desde o tempo que o seu pai tocou com o Itamar também. Pode falar um pouco dessa relação de vocês? E como vai ser essa noite, como vai ser a interação?

É, a gente tem essa aproximação, esse “parentesco”, porque meu pai (Luiz Chagas) faz parte da banda Isca de Polícia, que acompanhou o Itamar durante muito tempo, e também eram grandes amigos. A gente se conheceu e cruzou muitas vezes quando pequenas, quando bebês, nos camarins da vida e tal. Só que eu cresci em Minas, eu fui para lá pequena e fiquei até uns 20. Depois, quando eu me mudei para cá para fazer faculdade, o meu irmão já tinha banda com a Anelis (Massa Sonora, que depois virou Dona Zica), era amigo dela. O Gustavo veio para cá com 18 e eu, depois, com 22. Então, quando eu cheguei, essa reaproximação entre os filhos dos caras da banda já tinha acontecido. Eu fiquei amiga da Anelis logo quando eu cheguei em São Paulo para morar definitivamente. E nunca mais perdermos o contato. Na faculdade, eu tinha uma banda e a Anelis fazia parte. Eu lembro do dia que a Anelis ficou grávida. A gente é amiga mesmo, tem muita história para contar e, atualmente, mora perto, está vizinha, o que nos aproxima mais. Esse show que aconteceu na Virada, que comemora os 70 anos do Itamar, que faz parte de um grande projeto com várias celebrações, foi muito especial, porque para pensar no repertório para esse show a gente acessou muito a nossa memória afetiva, então foi muito forte. Dividir essa noite com a Anelis no Circo também é muito especial, por conta da nossa afinidade, do nosso afeto. Ela já participou algumas vezes do meu show, eu do dela, o release do disco anterior eu que escrevi, o ‘Taurina’ eu acompanhei muito o processo, gosto muito desse disco. A Anelis também está sempre comigo nos meus shows, estava no último do ‘Dancê’. Enfim, é uma noite de duas pessoas que se gostam, e as pessoas que tocam nas nossas bandas se conhecem, se curtem. Vai ser um grande barato elas estarem juntas. A gente está armando, vai ser inevitável a interação (risos). Não sabemos exatamente o que vai acontecer, em qual show. É muito fácil ser a qualquer momento, a gente tem intimidade para isso. São dois shows separados de duas pessoas que são muito amalgamadas, a interação vai ser natural.

O último disco que você lançou foi o ‘TU’, que era híbrido, tinha músicas novas e regravações de canções antigas em formato diferente. Mas, pelo que eu vi, não é esse show que vem para o Circo…

É isso. O ‘TU’ foi um disco que aconteceu no meio do caminho, sem ser um projeto pensado com muita antecedência. Ele veio da necessidade da gente registrar os arranjos das músicas de uma maneira mais crua. Porque eu fiz bastante com o Gustavo o formato voz e violão, sobretudo fora do país, e parecia que as músicas ficavam num estado mais natural. Então o ‘TU’ veio da necessidade de registrar as músicas desse jeito, o que não ia acontecer num disco novo. Só que, na hora de começar a gravar, eu acabei ficando empolgada no estúdio, e aí o que seria um disco de registro daqueles arranjos das músicas que já existiam se misturou com canções novas, a gente acabou compondo um monte de coisa que nem fazia parte do plano. Nós fizemos ele no Circo Voador e estamos no finalzinho da turnê dele, eu ainda tenho feito apresentações do ‘TU’. Só que, como é um show mais cru, eu tenho preferido fazer em teatros mais fechados, não é sempre que eu levo ele nos lugares. E, no Circo Voador, eu estou com saudade de fazer show com banda. Agora estou com um com o meu power trio, que é o carioca Gabriel Mayall, o Bubu no baixo, o Samuel Fraga na bateria e o Gustavo Ruiz na guitarra e na produção musical. É uma apresentação com todo meu repertório e com a sonoridade do Pipoco das Galáxias, que é esse meu power trio. Eu estou muito amarradona.

E você já pensa em um próximo trabalho?

A gente começa a pensar no disco novo este ano, no segundo semestre, para um pouquinho para inventar música nova. E eu já estou ficando com saudade de gravar. Eu não sou uma artista que componha freneticamente. Eu gosto de viver muito o tempo de uma turnê e ritualizar muito o tempo de estúdio. Mas eu sou mais do show do que do estúdio. E eu estou começando a ficar com saudade de gravar, e isso é uma coisa bem inédita para mim (risos). É um bom sinal.

Como você compõe normalmente? Usa o violão? Como é seu processo?

Varia muito. Eu sempre tenho um violão em casa, quando vou fazer música. Eu gosto de ter o instrumento para partir dele, se fizer parte do processo, então muita coisa começa no violão. Mas eu gosto muito de compor no Garage Band (software de gravação) também. Eu monto umas coisas, faço minhas garatujas sonoras ali, gosto demais desse programa, porque eu acho ele tão simples de mexer quanto o Paintbrush para desenho (risos). Então eu rendo bem no Garage Band. Faço muita música sozinha, mas eu tenho muita parceria com o Gustavo. E a nossa parceria é muito legal, porque não existe uma hierarquia na composição. Pelo fato dele ser um superinstrumentista, é muito fácil para mim a coisa da harmonia e até mesmo da melodia partir dele. Mas eu gosto de inverter bastante esses papéis, eu gosto de instigar o Gustavo em letra, eu gosto de sugerir harmonia para ele e as minhas melodias eu gosto de desenhar todas. É muito legal, porque, quando eu componho sozinha, é muito terapêutico e, quando eu exercito a parceria, é sempre uma troca muito nutritiva. Mas eu tenho sempre caderno, caneta, gravador, se puder ter um violão perto é bom. A forma de registrar é sempre parecida, mas o processo muda bastante. Às vezes a música vem inteira, vem uma Eureka que eu consigo fazer a maior parte, outras vezes ela vem de um exercício muito longo de composição. Varia muito.

E o que costuma te inspirar? São coisas pessoais, coisas que estão acontecendo no mundo?

Eu me instigo muito pelo agora. Pela presença e pelo agora. Eu costumo falar muito sobre o cotidiano, abordar coisas cotidianas de de maneira aprofundada, olhar o agora com mais presença. Acho que esse é meu principal exercício ao pensar em arte.

Todos esses anos trabalhando como o seu irmão, como fica a relação? Se você estão juntos é porque está dando certo, mas enfim, como é essa convivência?

Eu costumo falar que o Gustavo é meu irmão e meu brother. A gente é muito amigo e tem uma diferença de idade de um ano. Então, na adolescência chegou uma hora que os nossos amigos viraram os mesmos. A gente anda com a mesma turma. Independentemente de nós trabalharmos junto, nós sempre ouvimos som junto, falamos sobre os livros que estávamos lendo, fomos ao cinema juntos… Temos uma troca muito especial, por conta da nossa intimidade, do repertório de vida em comum. Então é muito prático trabalhar com o Gustavo. Ele entende muito a minha musicalidade. Acho que um produtor musical tem que ter uma psicologia muito gigantesca para lidar com a musicalidade do outro (risos). E isso vem pelos discos que ele produz, ele acabou de produzir o do Maurício Pereira, trabalha com várias outras pessoas, gravou esses dias no estúdio dele Mateus Aleluia. E é muito legal ver a relação, as pessoas falando do encontro com ele na música. Acho que, pelo fato dele ser um cara muito musical, a troca com ele flui. Então é prático fazer música com o Gustavo, é simples. A gente não gira muito lâmpada desse sentido. Ele tem os rolês dele na música também, eu tenho os meus, mas a gente gosta de som. Enquanto for bom fazer música junto, a gente vai fazer.

No ano que vem são os dez anos do seu primeiro disco, o ‘Efêmera’. É um marco. Como você vê esse percurso, essa trajetória até aqui?

Quando eu fiz esse primeiro disco, eu não tinha nenhuma expectativa em relação à profissão, em relação ao ofício de ser cantora, de ser compositora. Vim de uma família de músicos, andava com gente que fazia música, curtia fazer música e fiz um disco mais por curtir essa atmosfera do que esperar que pudesse ser um trabalho. Então o ‘Efêmera’ me surpreendeu desde o começo, porque eu não sabia nem se eu prensava ele ou não, se eu fazia o CD. Porque foi em 2010, ali a venda de CD já estava comprometida, várias lojas já tinham fechado. Eu falei: “Nossa, eu vou começar em um momento em que nem se vende mais disco.” E eu trabalhei em loja de disco na adolescência, eu observei com muito pesar as minhas preferidas fechando. E o ‘Efêmera’ é um álbum que eu lancei em 2010 e que eu nunca parei de prensar, eu não posso ficar sem CD dele. Até hoje ele me surpreende: ele tem dez anos, e uma vida e uma força que eu realmente não esperava. E eu aprendi muito com ele, porque eu não sabia o que era fazer disco, o que era uma editora, o que era registrar uma música. Eu só gostava de fazer som. ‘Efêmera’ me profissionalizou, me apresentou o ofício de fazer música: ‘Olha, este é o seu trabalho, esta é sua obra.’ Ele me fortaleceu demais. E dez anos, nossa, voou demais (risos). Passou muito rápido esse tempo. Eu quero fazer muitas comemorações, ritualizar muito esse aniversário. E tudo fez muito sentido, porque o ‘Efêmera’ fala da durabilidade poética. Então eu acho que isso deve ser muito relembrado. É um disco que me fortalece muito até hoje.

Nesses dez anos, mudou para caramba a forma de se consumir música, de se ouvir música. Hoje em dia nem se baixa mais um disco, soa uma coisa antiga. A gente vive uma era da playlist, existem gerações que já cresceram com esse hábito, conheceram a música de uma outra forma. Qual o sentido de se pensar em álbuns hoje em dia? A gente vê muitos artistas lançando single, uma faixa atrás da outra. Qual o sentido de se planejar um álbum, de se pensar numa obra fechada?

O meu processo eu gosto de pensar de uma maneira muito analógica e depois adaptar para o digital. Eu sempre vou pensar na capa do meu disco em vinil, que é a escala maior. Mas eu tenho também que entender que a capa que eu for inventar para um álbum ou para um single tem que fazer sentido numa escala muito pequenininha, que é a da tela de um celular, de um streaming. Existe esse desafio gráfico de escala de uma coisa para a outra. Eu gosto de narrativa, então sempre vou pensar num disco com onze músicas. Mas gosto depois de ‘picotar’ essas músicas, embaralhar, e elas podem fazer sentido como single. Desde o ‘Efêmera’, quando a gente colocava o disco no computador, o iTunes já dava uma embaralhada. A gente já perdeu isso da narrativa do álbum há muito tempo. Quem é apaixonado por isso vai buscar isso no vinil. O artista hoje na verdade tem que estar presente em todos esses lugares. É muito importante estar no YouTube, em todos os streamings. Porque as entregas são muitas. Essas são as lojas, essas são as prateleiras. Então a gente tem que inventar a música e colocar ela em todos esses lugares. E essa coisa do single eu gosto muito, e na verdade nem é uma coisa nova: nos anos 60 as gravadores lançavam um monte de singles, que eram aqueles disquinhos que tinham lado B e lado A (compactos). Eu continuo sendo romântica nesse aspecto: acho um charme lançar um single, mas eu sempre vou pensar na versão do disquinho pequenininho em vinil também. Acho importante a gente pensar analogicamente e adaptar para o digital. Se a gente pensa analogicamente, o conteúdo tem mais estrutura para ser picotado no digital. É mais ou menos por aí.

Você costuma pensar em conceito quando começa a fazer um disco?

Eu penso também. O ‘TU’ foi um disco que a gente pensou com muito conceito, o ‘Dancê’ também. Eu tenho intuições, mais do que conceito. E vou colecionando tudo o que faz sentido com o que eu intuo. O processo vai mostrando muita coisa para a gente. Eu começo a fazer um disco, eu presto atenção a todos os sinais. É como se eu colecionasse os sinais. Tudo passa a significar muito, desde que eu acordo até a hora de dormir: tudo faz sentido e tudo pode entrar para o disco de alguma maneira.

A gente está num momento, mais do que quando você começou, de destaque para as compositoras. Não que elas sejam uma novidade no Brasil — não são —, mas acho que hoje se fala muito. E a gente vê cantoras que são compositoras tendo algum destaque, desde o chamado ‘midstream’ até o mainstream mesmo. Como você vê esse momento, ou movimento?

Eu gosto muito da palavra cantautora. O Brasil é um país muito conhecido pelas suas intérpretes, maravilhosas, mas cada vez mais ele é um país também reconhecido por suas compositoras, por suas cantautoras. Eu só comecei a cantar porque comecei a fazer música. Compor me empoderou, me fortaleceu demais, me deu muita coragem. Foi libertador fazer música e entender que eu podia cantar o que eu estava inventando. E eu acho que esse entendimento e essa nossa relação cotidiana com o feminismo têm nos dado muita voz, também têm nos fortalecido demais. As nossas expressões estão muito à flor da pele. Está sendo muito catártico, muito importante compor no contemporâneo. Para mim, compor foi fundamental para me entender cantora e até me entender intérprete. Que foi uma segunda coisa, eu demorei para ficar à vontade e também ficar a fim de cantar as coisas de outras pessoas. Porque cantar as minhas é muito fácil, eu posso inclusive mudar na hora o que eu inventei. Às vezes eu até faço isso, tenho letras que hoje canto um pouco diferente. Eu faço essas coisas nas minhas músicas que já foram gravadas. Para mim, um disco é uma foto de uma música. Ela tem o antes e o depois dessa foto. Quando a foto é minha, eu tenho liberdade para mudar. E, como intérprete, eu já demorei mais para me entender como autora. E isso é um desafio na verdade muito mágico e libertador. Acho que também por isso a gente é um país reconhecido por nossas grandes intérpretes, porque elas são absolutamente autorais no que elas fazem. Na verdade, é tudo sobre autoria.

Você estava dizendo que gosta de olhar para o agora quando compõe, e, desde que você lançou o clipe de “Pedrinho”, eu vi você falando sobre o instante que o Brasil está vivendo. O que pensa sobre ser artista nesse atual momento do Brasil?

O clipe de “Pedrinho” veio dessa necessidade dessa reflexão sobre isso. Eu sempre tinha falado para o Pedro Henrique França, que é um dos diretores do clipe, que ele faria o clipe, porque muitas pessoas achavam que ele era o personagem da música. Eu dizia: “Se algum dia existir esse clipe, você vai fazer, para a gente confundir ainda mais as pessoas.” A gente demorou demais para fazer, e ele veio num momento que a gente precisava desse figura, desse eu-lírico para fortalecer, para estar perto nesse instante tão austero e tão difícil que a gente está vivendo. O Pedro falou: “Eu intuo que ele vem a partir da performance que o Wagner Schwartz fez e foi censurada (“A besta”, apresentada no Museu de Arte Moderna de São Paulo, que rendeu linchamento virtual ao artista e protestos no museu, com direito a agressões físicas).” O clipe começa com essa citação, ele é a partir dessa opressão. E ele fala sobre como a gente deve se libertar de todas essas opressões que estamos vivendo. Como libertar as nossas expressões, os nossos corpos. E eu acho que isso é uma reflexão cotidiana, não tem sido fácil estar no Brasil, viver no Brasil, esse é o pensamento que a gente tem o tempo todo como artista, como cidadão, e a gente tem entendido como não enlouquecer cotidianamente. E eu acho que fazendo arte, estando na arte é uma maneira da gente entender a nossa era, a nossa atmosfera de uma maneira muito profunda, mas também coletiva. Desde o final do ‘Dancê’ — ele termina com uma música que se chama “Algo maior” (com participação do Metá Metá) — eu venho com um aperto no peito. A gente está com um aperto no peito, e temos falado sobre isso nos nossos discos, nos nossos livros, na padaria, nos cafés, no banco, nas entrevistas, o tempo todo. Eu não sei nem se eu respondi sua pergunta.

Vai lá:
Tulipa Ruiz e Anelis Assumpção
Quando: Sábado, 1º de junho, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 50 (meia-entrada com 1kg de alimento, 1º lote) a R$ 120 (inteira, 2º lote)

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‘É essencial que eu diga que sou lésbica’, diz Maria Beraldo http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/25/e-essencial-que-eu-diga-que-sou-lesbica-diz-maria-beraldo/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/25/e-essencial-que-eu-diga-que-sou-lesbica-diz-maria-beraldo/#respond Sat, 25 May 2019 16:58:04 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=893

Maria Beraldo abre o show do Terno. Foto: divulgação/José de Holanda

Maria Beraldo já era conhecida pelo trabalho como instrumentista e arranjadora, tendo trabalhado com nomes do quilate de Arrigo Barnabé e Elza Soares. Também já integrava as bandas Quartabê e Bolerinho. Mas ainda faltava uma peça em seu quebra-cabeça musical e ela começou a compor — a única incursão como compositora tinha sido aos 18 anos, quando criou um choro. O canto já tinha sido despertado ao fazer parte da banda que acompanhava Arrigo no espetáculo ‘Clara Crocodilo’, que revisitava o trabalho mais marcante do artista, de 1980. Assim, pouco a pouco foi se delineando o disco ‘Cavala’, estreia solo da cantora e instrumentista, um show-de-uma-mulher-só que ela apresenta hoje, na abertura da apresentação da banda O Terno no Circo Voador.

Com altas doses de experimentalismo, o trabalho levou Maria a festivais Brasil afora e à sua primeira turnê no exterior, em Portugal. Sua condição de mulher lésbica permeia todo seu trabalho, o que, para ela, é fundalmental. “Enquanto eu não falo, eu estou escondendo, eu estou de alguma maneira sendo condescendente com a omissão da homossexualidade. Para mim é essencial que eu diga. E, ao mesmo tempo, eu só estou falando coisas da minha vida”, analisa ela. “Tem muita gente que acha que, ou por causa desse trabalho, ou por causa do jeito como eu me visto, que eu eu procuro um jeito de ser diferente ou algo assim. Mas na verdade eu só quero ter minha vida normal. O problema é que para isso a gente precisa dar um grito muito mais forte do que uma pessoa que está numa situação de não opressão. Mas na verdade as pessoas homossexuais só querem ter a vidinha delas, sem correr os riscos que a gente corre”, explica.

Como foram suas experiências no Rio, apresentando o seu trabalho solo?

Eu apresentei duas vezes o ‘Cavala’ aí ano passado. Primeiro, eu fiz o lançamento do meu disco aí no Rio dentro do Oi Futuro, num projeto que eles têm de shows. E era um lugar superpequeno, cabia pouca gente. Foi íntimo, foi uma coisa bem pequena, para poucas pessoas que estavam querendo muito ver e foi muito legal. Foi incrível. E aí depois eu toquei no festival WOW (Mulheres do Mundo), na Praça Mauá, e foi o contrário dessa vez no oi futuro, porque lá era imenso, na rua. Um foi dentro e com pouca gente e o outro foi na rua e com muita gente. Então as duas vezes foram muito legais e muito diferentes uma da outra. Sinto que o Rio, depois de São Paulo, é onde o meu público mais está. Tem muita gente que conhece o trabalho aí, também tenho muitos conhecidos músicos aí, enfim, tem uma ponte forte Rio-São Paulo forte. Eu sempre me sinto muito bem acolhida e converso muito também com meu público do Rio pelas redes, então é sempre bom tocar aí.

O seu show está sendo bastante requisitado: você se apresentou em diversos festivais pelo país. Acho que o ‘Cavala’ foi num crescente de popularidade e reconhecimento. Você concorda com isso? como foi esse movimento e como foi sendo para você lidar com isso?

Ah, eu acho que foi muito legal. O trabalho teve uma recepção muito boa, desde que eu lancei — agora vai fazer um ano, dia 30 de maio de 2018 foi quando eu lancei nas plataformas. Foi muita coisa, realmente intenso, numa crescente, toquei em muitos festivais pelo Brasil, festivais grandes. E o meu trabalho é bastante experimental, tem um pezinho na música pop, tem um pouco de música eletrônica, mas é muito experimental de maneira geral. E, ao mesmo tempo, eu acho que ele se conecta com o público através da canção mesmo, que é muito enraizada na canção brasileira, em autores que a gente está muito acostumado a ouvir. É uma alegria grande estar dentro de um circuito e estar crescendo dentro desse circuito, ainda que com uma música tão experimental. Nos festivais grandes em que eu estive, eu sinto que o meu trabalho é um pouco distinto dos outros, desses que têm um público grande. Ele tem um risco, uma coisa de música experimental mesmo, e eu fico muito feliz que o público esteja recebendo tão bem esse som nesses contextos, e acho que o público é muito aberto a todo tipo de música. Fiz muitos festivais, fiz o Molotov, WOW, Radioca, e agora em abril fui pra minha primeira turnê internacional com esse trabalho. Fiz cinco cidades em Portugal, fui muito bem recebida lá e fiz o lançamento do vinil lá, com um selo português que editar meu vinil lá, e agora está sendo aqui no Brasil. Acabou de sair, aliás. Tem muitas assim acontecendo. Esse trabalho está realmente crescendo e dando frutos muito legais. Estou muito feliz com a recepção das pessoas em geral.

Você já era uma pessoa conhecida no meio musical pelos seus colegas, porque você é arranjadora, instrumentista, só que fazer um disco solo eu imagino que seja um processo diferente, é você literalmente botando sua cara pra um trabalho. Como foi pra você? Como você se vê nesse novo lugar dentro da música?

Para mim fez muito sentido, foi uma transformação muito grande. Ainda que eu, de jeito nenhum tenha abandonado as minhas outras funções, acho que essa transformação em compositora e cantora, e uma pessoa que é frontwoman — na verdade mesmo sou só eu, inclusive —, mas esse nível de exposição que um trabalho solo exige, para mim fez muito sentido, porque acho que eu tinha coisas musicais, eu tinha muito a dizer. O meu desenvolvimento como musicista e instrumentista foi muito importante, mas acho que, quando eu comecei a compor canção, eu senti um salto, uma coisa que eu nunca tinha sentido antes. É um pouco “eu preciso disso”. Talvez o meu lugar na música seja esse principalmente, o de compositora. Enfim, quando eu comecei a produzir esse trabalho, a primeira vez que eu fui encontrar o Tó (Brandileone, do 5 a Seco),  que produziu o disco comigo, é uma coprodução nossa, depois eu senti uma coisa que eu nunca tinha sentido. Eu acho que essa transformação fez muito bem para mim e aí eu fui entendendo mais o meu lugar em cada trabalho, e tudo foi se encaixando muito bem com essa mudança mesmo. Continuo tendo a Quartabê e o Bolerinho, que são meus grupos, totalmente horizontais, onde todo mundo é compositor e compositora, todo mundo é arranjadora, todo mundo dá as ideias horizontalmente. Esses grupos são vitais para mim, em contraste com o trabalho em que eu sou a cabeça e eu tomo as decisões estéticas e todos os caminhos. Uma coisa complementa a outra, mas foi de suma importância eu tomar esse lugar. Fez muito sentido. Eu acho também que por muitas questões políticas. Nesse trabalho eu coloco a minha vida pessoal, exponho a minha vida pessoal por questões políticas. A vida de todas as pessoas é pública nesse lugar da sexualidade, e a gente é invadida desde criança, desde muito pequena. Então eu precisei dar um grito de liberdade mesmo e meio que tomar o lugar da minha figura e dizer quem eu sou. Porque o que a sociedade diz de mim, o que a sociedade lê de qualquer pessoa — principalmente de uma pessoa homossexual — não faz o menor sentido. Eu me sentia muito invadida por essa leitura, porque as pessoas olham para alguém, aquela pessoal é heterossexual e isso define muitas coisas da vida dela. Então eu precisei me colocar como mulher lésbica, mulher compositora, e esse passo foi a força-motriz de todo esse meu movimento de me colocar à frente da minha imagem, do que eu digo e do espaço do meu corpo. Meio que me apossar do espaço que o meu corpo tem no mundo. Esse trabalho tem essa importância. Por isso me fez e me faz tão bem.

Li uma entrevista em que você dizia que vinha compondo uns quatro anos antes de lançar o disco. Você sempre fez música? Como foi o processo de se descobrir compositora?

Eu tenho uma composição que eu fiz quando tinha 18 anos, que é um choro. Antes disso eu nunca tinha composto, depois disso também não. Foi com a minha vinda para São Paulo que isso começou a acontecer. Eu vim para cá para trabalhar com o Arrigo Barnabé. Estava terminando o meu mestrado na Unicamp e aí ele me ligou, eu vim. Entrei em contato com a metrópole, a cidade em si, que foi muito transformadora para mim. Porque eu nasci em Florianópolis e depois morei em Barão Geraldo, em Campinas, que são cidades pequenas e que têm uma estrutura social de cidade pequena mesmo. E aí vim para São Paulo, e isso foi uma mudança muito drástica na minha vida. E ninguém sabia quem eu era. Isso já foi uma coisa muito importante para mim, de não ter um background de família, de pode construir o que eu quisesse. Como um papel em branco, de alguma maneira. E aqui eu encontrei muita gente fazendo muita coisa que me tocou muito. Tanto o Arrigo Barnabé, o trabalho dele, que eu já conhecia, mas estar perto dele e viver aquele trabalho, tocar aquilo me transformou muito musicalmente. Ele me colocou para cantar aquelas coisas do “Clara Crocodilo”, coisas difíceis, e fazendo já um exercício, experimentando pela primeira vez estar assim como cantora, uma coisa que eu nunca tinha experimentando. Foi muito transformador para mim, porque o nível de exposição que você tem é outro, o contato com o público. Para mim, foi muito diferente de quando eu só tocava clarinete. E toda a estrutura musical do Arrigo, e a relação dele com a cena — ele não é um músico, compositor, ele é um artista. O Arrigo é completo. Isso virou minha cabeça, e eu acho que São Paulo tem muito disso. É muito influenciado pelo Arrigo, pelo Itamar, todo o pessoal da Vanguarda Paulista. E também São Paulo são muitas cidades, eu conheci muito a galera do samba, do choro e o pessoal que vem do samba e que está fazendo uma outra coisa, o que para mim foi muito importante: poder não tocar as coisas como a regra dizia a princípio, você chegar numa roda de choro e tocar aquilo daquele jeito, como era. É mais um espaço para criação. A minha vinda me colocou em contato com muitos artistas e muitas artistas criadores. Conheci Iara Rennó, Rodrigo Campos, Romulo Fróes, Juçara Marçal, o Arrigo, a Mariá Portugal… muita gente daqui. E aí eu fui estudar canto com a Regina Machado, porque eu precisava me resolver melhor com o fato de estar cantando com o Arrigo, tanto tecnicamente como em outros sentidos, e ela me deu alguns discos para eu estudar, para eu encontrar um repertório que fazia sentido para eu cantar. E eu comecei a ouvir ‘Joia’, do Caetano, que eu já conhecia também, mas fiquei seis meses mergulhada nesse disco, só ouvindo isso. Enquanto eu estudava essas músicas, comecei a compor. E aí veio a primeira canção que eu compus, que foi mais ou menos nessa época, 2014. Foi “Da menor importância”, que é uma música que eu fiz mergulhada no ‘Joia’. Ela inclusive tem uma estrutura versa à melodia do ‘Joia’. Eu acho que encontrei o meu lugar de criadora mesmo. Foi uma coisa de ir elaborando o meu lugar na música, isso de me tornar compositora. O que eu tenho hoje, o que eu sinto que faz sentido para mim, independentemente de eu estar como instrumentista, ou como cantora, ou como diretora musical, como arranjadora é que eu possa ter espaço para criar. O meu lugar é de criação, de invenção. E isso também está totalmente relacionado ao estudo. Estudar música de outras pessoas, mergulhar no trabalho de outras pessoas me dá material para eu transformar aquilo e acaba virando uma criação. No fundo, a invenção nunca vem de nenhum lugar. Não fui eu que inventei: eu estou só digerindo como eu vejo o mundo, o que eu escuto do mundo. Acho que é tudo muito coletivo, no final das contas. A gente vai se influenciando e se colaborando. A vida para São Paulo me deu esse clique de ver muita gente criando. Aqui muita gente compõe, tem muita compositora, é muito forte a canção, muito influenciada pelo Itamar, que outra pessoa também muito emblemática. Acho que tem muita gente aqui que me incentiva no processo de virar compositora.

Eu acho que a gente está num momento das compositoras no Brasil. O que você acha disso, talvez de estar existindo espaço para o trabalho das compositoras?

Acho que isso é vital. Sempre houve compositoras, desde o princípio. Desde que existe compositor existe compositora. As mulheres sempre escreveram, compuseram. Só que elas sempre foram reprimidas, claro, e muitas delas deixavam de fazer seus trabalhos artísticos porque tinham que fazer trabalhos domésticos, e isso não é uma coisa equilibrada. Tivemos mudanças, mas ainda não é. Não só a questão de trabalhos domésticos, mas toda a estrutura de gênero, como a gente já sabe, é muito desequilibrada. Acho que de uns anos para cá o Brasil começou a viver um momento político onde a gente estava começando a ter espaço para encontrar esse tipo de transformação. Acho que os governos de dez anos atrás estavam construindo um espaço social em que essas questões puderam começar a se modificar. Isso também é uma evolução que não tem volta. As compositoras estão ganhando espaço. Na verdade, elas precisam de muito ainda, é muito desproporcional. Os homens têm muito mais espaço que as mulheres no mercado. Enfim, acho que tem uma mudança social que já começa a acontecer um pouco no Brasil nos últimos anos e que agora estão tentando reprimir mais uma vez, mas existem transformações que perduram ao longo prazo. Isso é uma construção pela qual as mulheres, desde o princípio, começam a lutar, e a gente vai cada uma contribuindo um pouco. Por outro lado, eu acho que tem uma questão mercadológica também. O mercado da música de alguma maneira “comprou” (a ideia do) feminismo, ao mesmo tempo que ele não muda realmente as estruturas. Hoje se fala muito de mulheres na música, é um tema muito recorrente e muitas pautas de imprensa, enfim, o mercado está voltado para essa questão, porque o mundo está voltado para essa questão. Isso dá dinheiro também, isso é um produto. Acho que as mulheres, mais uma vez, estão sendo vendidas e também são um produto, ao passo em que elas continuam sem serem de fato valorizadas, sem que exista uma real transformação social no lugar da mulher. Isso é um assunto complexo, também. Mas acho que tem uma coisa mercadológica de vender e de falar de mulheres e de não mudar a estrutura. Ao mesmo tempo, tem muita mulher trabalhando para transformar essas estruturas de de fato, e ninguém vai nos segurar. São muitos movimentos acontecendo ao mesmo tempo. Que bom que no Brasil a gente está nesse momento de ter muitas compositoras em evidência, das cantoras não sejam mais necessariamente só intérpretes — não que seja menos, a intérprete pode ser tão criadora quanto a compositora —, mas as mulheres estão lutando por um lugar de abertura mesmo, onde elas possam desenvolver as funções que quiserem, um lugar de autonomia. A gente ainda passa por muitas dificuldades, mas, de alguma maneira, temos nos encontrado umas coisas as outras, e isso está, de uma forma muito lenta, talvez mudando mesmo. Espero que sim.  Eu tenho uma coisa na minha estrutura que é louca porque eu sempre convivi com mulheres. Eu aprendi a tocar com a minha mãe. Ela toca sax, flauta, é compositora, e ela morava nos anos 80 em São Paulo e tocava sax, o que era bem menos comum que hoje. Eu aprendi a tocar com ela, na escola de música dela em Florianópolis e, talvez por essa ser mulher e ter muitas professoras instrumentistas e compositoras, eu tenho um monte de amiga musicista desde criança. Eu sei que isso é uma exceção, mas é um privilégio eu ter crescido com um grupo de amigas instrumentistas.

Muitos profissionais são dominados por homens, eles são maioria. E a música não é diferente. Como é, apesar desse movimento de mudança que a gente está vendo, ainda ter que lidar com um meio que é permeado por machismo?

Eu acho que eu encontrei um lugar de força com relação a isso. Eu me sinto muito forte para encarar essas questões. E, ao mesmo tempo, eu estou rodeada de mulheres. A minha equipe de produção é só de mulheres, na minha banda Quartabê somos maioria, Bolerinho só tem mulher, no meu trabalho sou só eu no palco, então eu tenho o privilégio de trabalhar com poucos homens (risos). Uma coisa totalmente fora da média. Eu acho que a gente está encontrando um lugar de conscientização de todos os processos sociais — claro que cada um com as suas limitações, eu não sou uma pessoa que tenha supertempo para estudar, mas faço isso sempre que posso, troco muito com as mulheres à minha volta. Acho que a gente encontrou um lugar de força de de embate que é muito importante nas situações em que a gente se depara diretamente com uma pessoa machista, a gente consegue lidar com isso. Mas é claro que, as estruturas em si, a gente é muito oprimida por elas. Existem não sei quantos festivais e programações e premiações onde só homens ganham. Eles têm muito mais destaque. A minha posição é de enfrentamento disso e de tentar trabalhar cada vez mais só com mulheres. Eu já trabalho praticamente só com mulheres, manter isso e a gente se pensar como um exército mesmo, de ir encontrando e dominando espaços. Porque eu acho que é uma guerra, não existe paz nesse sentido. A relação entre opressor e oprimido não é de “vamos encontrar um caminho da paz”, é um embate mesmo. Isso é uma coisa que me fortalece: encontrar as minhas semelhantes e a gente se apoiar para ganhar espaço. E isso tem acontecido, as mulheres estão muito juntas. Acho que estamos num momento muito legal nesse sentido.

As mulheres lésbicas não são novidade na música brasileira, obviamente, mas poucas vezes no passado essa questão da homossexualidade feminina foi explícita nas músicas, como é, por exemplo, no seu trabalho. Você fala muito abertamente. Você sente que isso também te aproxima de um público lésbico? Recebe o contato do público dizendo que sua música ajudou de alguma forma, ou que ele se identifica com ela? Com é a relação do seu público com esse fato de você tratar abertamente desse tema?

Ah, isso é fundamental. Muitas pessoas me escrevem, e eu acho que eu fui criando um público de mulheres. Não sei se elas são em maioria lésbicas ou não, mas isso é muito presente no meu show. Mesmo as que não são necessariamente lésbicas, mas ou são bissexuais, ou sentem a necessidade de poder… Eu acho que a luta lésbica é uma luta feminista por definição. Mesmo que você não seja lésbica, se você é feminista, essa luta é sua também. O fato de um relacionamento entre duas mulheres excluir um homem é o que é tão agressivo para a sociedade patriarcal. E isso está diretamente ligado à luta pelos nossos direitos, nossa independência, nossa autonomia. O meu público é 100% de mulheres lésbicas ou simpatizantes dessa causa. Acho que existem muitas mulheres que não necessariamente são lésbicas e que se tocam muito com tudo o que eu digo. Mas sim, muitas meninas lésbicas, mulheres de várias idades, me escrevem. Desde o começo do trabalho eu recebo muitas mensagens de gente agradecendo e às vezes perguntando coisas, pedindo conselhos, é engraçado isso (risos). Eu me sinto bem falando com essas pessoas, porque eu senti muita falta de uma figura que ocupasse um lugar como o que eu ocupo hoje, e que outras mulheres também ocupam, de dizer que são lésbicas. Porque, como você falou, sempre houve mulheres na música, óbvio, mas isso não era dito antes. Se você sabe de uma coisa e sabe que ela é omitida, você entende que aquilo é errado, não pode ser dito, que aquilo é proibido. Eu não tinha um espelho de uma mulher lésbica que tivesse uma vida normal, em que pudesse falar do relacionamento dela, que pudesse viver a vida dela sem restrições. Conheci muitos casais de mulheres que fingiam não ser casais, que fingiam não ser lésbicas. Isso foi muito difícil. Meu momento de dar essa volta por cima tem muito a ver com isso, porque é muito importante que a gente fale. Enquanto eu não falo, eu estou escondendo, eu estou de alguma maneira sendo condescendente com a omissão da homossexualidade. Para mim, é essencial que eu diga. E, ao mesmo tempo, eu só estou falando coisas da minha vida. Como a gente tem muita opressão, eu estou levantando uma bandeira com a minha música. Ao mesmo tempo, se a gente não tivesse essa opressão, seria igual a quando as pessoas heterossexuais falam da vida delas. Não tem uma coisa imperativa, de dizer “faça isso, você tem que entender, não sei o quê”. Não, eu só falando… Sei lá, estou contando uma história de amor com uma mulher, aí tem outra música em que eu conto para os meus pais que eu sou lésbica. O que também é uma coisa que… O dia que a gente conseguir tirar essa etapa das nossas vidas vai ser uma glória, porque você ter que contar para cada pessoa do seu círculo que você é lésbica significa que até então todo mundo estava achando que você era hétero, né? Aí você vai lá e decepciona cada pessoa. Isso é uma coisa muito exaustiva emocionalmente, muito. Tem muita gente que acha que, ou por causa desse trabalho, ou por causa do jeito como eu me visto, que eu eu procuro um jeito de ser diferente ou algo assim. Mas na verdade eu só quero ter minha vida normal. O problema é que para isso a gente precisa dar um grito muito mais forte do que uma pessoa que está numa situação de não opressão. Mas na verdade as pessoas homossexuais só querem ter a vidinha delas, sem correr os riscos que a gente corre.

Você costuma receber mensagem de hater?

Não costumo, mas já aconteceu, sim. Volta e meia acontece, mas não é uma coisa muito frequente, não. Eu acho que meu público já tem meio que um recorte e, ao mesmo tempo, eu não tenho uma projeção tão grande assim a ponto de rodar muito, ficar aparecendo. Eu acho que eu estou num circuito onde as pessoas não são muito homofóbicas. Mas sim de vez em quando acontece. Aí eu tento ser didática e, se a pessoa é muito agressiva, eu bloqueio, coisas assim.

No seu dia a dia, você passa por situações homofóbicas?

Com certeza. Mesmo porque, acho que pelo jeito como eu me visto, o corte de cabelo, o fato de eu não me depilar, tudo isso configura um lugar social diferente de um padrão. Pelo jeito como eu me visto, as pessoas sabem que eu sou sapatão. Poderia não ser? Poderia. Mas existem códigos, né? E inclusive isso é uma coisa que tem a ver com eu me sentir bem com a minha imagem, porque eu tenho orgulho de ser sapatona. Claro que eu sinto, mas faz tempo que ninguém fala comigo ou me agride. Eu acho que também, ao mesmo tempo, quando eu comecei a assumir mais esse visual, eu me protegi. Não sei se só o visual, mas a partir do lançamento do disco, quando eu passei a me expor mais, eu fui encontrando lugares de proteção. Na época das eleições, até no começo desse ano, quando o Bolsonaro fez aquele primeiro discurso dele, falando que ia acabar com “ideologia de gênero” e todas esses coisas, eu fiquei e fico muito insegura. Eu não tenho a tranquilidade de andar com a minha namorada de mão dada na rua como as pessoas heterossexuais tem. Isso é homofobia em um de seus estados superviolentos, né? Porque eu vivo a minha vida com medo, isso é um fato. Claro que eu fui encontrando meu jeito de proteger e de encontrar minha segurança. mas é um fato que as pessoas homossexuais vivem com medo. Então sim, homofobia faz parte do meu dia a dia, estou sempre em contato com isso. Às vezes eu evitar de me referir à minha namorada como minha namorada, isso também é uma coisa muito homofóbica na estrutura social.

Vai fazer um ano do disco. Você já anda compondo coisas novas, já planeja um trabalho novo ou ainda está vivendo o ‘Cavala’ e não pensando nisso?

É um pouco de cada coisa, na verdade. Eu não tenho composto muito, porque não tenho tido tempo. Fiz uma música, na verdade, desde o lançamento (risos). Acho que tem uma só inteira que eu compus, que inclusive levei para o meu ensaio com a Laura (Diaz), do Teto Preto, é uma música que a gente fez no show que a gente fez na Virada Cultural, talvez a gente lance alguma coisa juntos, com essa próxima composição. Fiz algumas parcerias também, fiz uma música com o Rodrigo Campos. Tem algumas coisinhas pontuais. Ao mesmo tempo que eu não estou pensando num disco para este ano, por exemplo, eu sei que eu já me transformei bastante, com relação a tudo isso que eu tenho vivido, musicalmente e pessoalmente, e em breve devo mergulhar, sim, num trabalho novo. Ao mesmo tempo, tenho feito muitas coisas. Fiz a trilha de uma peça, ‘O fim’, agora vou fazer a direção musical de uma outra, com a Mariá Portugal (também da Quartabê), as duas do Felipe Hirsch, e essas me nutrem muito, são um pouco lugares de experimentação, para testar sonoridades. E é isso, pegando material de vários lugares, assim que vai surgindo o meu trabalho. Eu estou elaborando, sim, um novo disco, não de uma maneira objetiva, mas através de tudo que eu tenho vivido, que é muito plural.

Vai lá:
O Terno + Maria Beraldo
Quando: Sábado, 25 de maio, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 50 (meia-entrada com 1kg de alimento) a R$ 100

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Slam das Minas: ‘Ninguém precisa levar arte para a favela, ela já vive lá’ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/18/slam-das-minas-ninguem-precisa-levar-arte-a-favela-a-arte-ja-vive-la/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/18/slam-das-minas-ninguem-precisa-levar-arte-a-favela-a-arte-ja-vive-la/#respond Sat, 18 May 2019 11:00:13 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=879

As organizadoras do Slam das Minas RJ. Foto: divulgação/Laura Jeunon

O primeiro campeonato internet de poesia falada da América Latina, o Rio Poetry Slam, aconteceu em 2014 na FLUPP – Festa Literária das Periferias. De lá para cá, esse formato só fez se espalhar pelo país. Criados na década de 1980 nos Estados Unidos, os slams chegaram ao Brasil apenas nos anos 2000. Nas competições, cada participante tem até três minutos para ler seu poema, que pode ter sido escrito previamente ou ser improvisado na hora. Um júri dá notas, e quem tiver a maior pontuação vence.

O primeiro Slam das Minas RJ aconteceu há quase dois anos, em 23 de maio de 2017. Hoje, a batalha é organizada por Andrea Bak, Carol Dall Farra, Débora Ambrósia, Genesis, Letícia Brito,  Lian Tai, Rejane Barcellos e DJ Bieta. Formado por mulheres periféricas, o Slam tem como missão “proporcionar experiências poéticas e empoderadoras para pessoas LGBTIQ+ e mulheres cisgêneras”. Letícia falou com o blog sobre o coletivo, que se apresenta nesse sábado no Santo Cristo, em evento onde convida a Chora  — Mulheres na Roda, que reúne musicistas em torno do gênero musical de Pixinguinha. 

O que é o Slam das Minas RJ, na definição de vocês?

Slam das Minas é uma batalha lúdico poética organizado por Andrea Bak, Carol Dall Farra, Débora Ambrósia, Genesis, Letícia Brito,  Lian Tai, Rejane Barcellos e DJ Bieta. Após as manifestações de 2013, o slam começou a se propagar em outros estados para além de São Paulo. O Slam Resistência de São Paulo foi um dos primeiros a postar seus vídeos na rede social mais conhecida da época. Entendemos que as viralizações dos vídeos de poesia, em oposição ao crescimento do conservadorismo no país, ajudaram a promover os slams como uma forma artística de resistência.

Qual o objetivo do coletivo?

O Slam das Minas RJ surgiu em reação às opressões estruturais mais frequentes: racismo, machismo e LGBTIQfobia e na perspectiva de se tornar um espaço seguro para o desenvolvimento da potência poética e artística de mulheres e LBTIQs. O primeiro evento do Rio de Janeiro foi realizado no Largo do Machado, em 23 de maio de 2017.

Qual o objetivo do coletivo?

Agir para manter a dignidade e visibilidade das mulheres de modo contínuo de exercitar o poder contra as desigualdades sociais e violências de gênero. Essa ação sustenta o Slam das Minas RJ. O rompimento de toda forma de opressão é bancado através do fortalecimento da oralidade, pela expressão artística performática, pelo revigoramento da imaginação poética, pela valorização das raízes culturais locais, bem como a ressignificação do luto como forma de criar autonomia e engajamento social. Pela  linguagem artística, nossa missão é proporcionar experiências poéticas e empoderadoras para pessoas LGBTIQ+ e mulheres cisgêneras. Exceto homem cis. Viver de nossa arte e ajudar outras mulheres e LGBTs a também se fortalecerem de suas dores por meio da poesia, da oralidade, da leitura e da escrita.

Como costuma ser o efeito das apresentações nas plateias?

A poesia atravessa as dores e as potências das pessoas. São muitos os efeitos. Desde a menina que deseja ler seu primeiro poema no microfone aberto e se sente acolhida pra isso, até a mulher que pede apoio no inbox pra sair de um relacionamento abusivo no qual sofre de violência doméstica. A poesia cura, transforma, empodera e revoluciona.

Vocês iam participar de um evento no Vidigal domingo (adiado por conta das chuvas). Qual a importância de ir até a favela com o Slam?

A maioria de nós vive em favelas. Ir até a favela é apenas dialogar com pessoas que vivem realidades semelhantes às nossas, e ajudar a identificarem e estimularem as potências locais. Ninguém precisa levar arte para a favela. A arte já vive lá. Só é preciso que as artistas se reconheçam e se aceitem para alcançarem suas máximas potências.

Vai lá:
Slam das Minas convida Chora — Mulheres na Roda
Quando: Sábado, 18 de maio, às 16h
Onde: Bar Molejão. Rua Carlos Gomes, 74 – Santo Cristo
Quanto: contribuição voluntária

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