Rio Adentro http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua. Sat, 18 Jan 2020 01:10:36 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 ‘O brasileiro não se reconhece enquanto negro’, diz Malía http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2020/01/17/o-brasileiro-nao-se-reconhece-enquanto-negro-diz-malia/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2020/01/17/o-brasileiro-nao-se-reconhece-enquanto-negro-diz-malia/#respond Fri, 17 Jan 2020 23:39:44 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1285

Malía canta este sábado no Verão do Spanta. Foto: divulgação

Ela ficou conhecida nas redes sociais, onde postava vídeos em que cantava versões de músicas de outros artistas. Logo eles foram fazendo sucesso e chamaram atenção da Universal, que contratou a artista. Isadora Machado trocou o nome de batismo por Malía, de inspiração africana, e deu início a uma trajetória que está em plena ascensão.

Embora cante e componha desde os 14 anos (ela está com 20), a jovem nascida na Cidade de Deus demorou para acreditar que pudesse seguir carreira na música. A decisão veio quando fez o Enem e não conseguia escolher uma faculdade — não se identificava com nada. Começou a postar os vídeos e foi tendo sinais de que deveria enveredar por sua grande paixão.

Feliz em se sentir parte de uma época em que diversas cantoras e compositoras negras estão destaque, ela diz que ainda falta naturalizar a presença do negro em muitos ambientes. “Acho que temos um bom começo, mas precisamos começar a nos aprofundar. É muito fácil a gente se perder pelo caminho e parar na parte estética, porque estamos vendo corpos negros estampados no outdoor. Mas eu quero saber: quantas pessoas negras estão espaço de desenvolvimento da publicidade?”, manda.

Malía se apresenta neste sábado no Verão do Spanta, na Marina da Glória, dividindo o dia com Henrique & Juliano, Kevin O Chris, Anavitória, Gabz, É O Tchan, Homenagem a Beth Carvalho com Roberta Sá, Moacyr Luz, Nelson Sargento e Mumuzinho, Netinho de Paula, MC Rebecca, Chupeta Elétrica, Tatau, Marcelo Mimoso, Céu na Terra, São Clemente e União da Ilha e os anfitriões do evento: Roda do Spanta e Spantosa Bateria. O festival terá edições ainda nos dias 25 de janeiro e 1º de fevereiro.

Você lançou seu primeiro disco, “Escuta”, há mais de seis meses. Como está a sua carreira de lançar o disco?

Olha, o retorno está sendo bem legal. É algo que eu, como uma artista nova, lançando meu primeiro álbum, há seis meses, mas já tendo resultados como três músicas em novelas da Globo — tem uma em ‘Malhação’, “Dilema”, tem uma em ‘Bom Sucesso’ (“Arte”) e agora em ‘Amor de mãe’, “Faz uma locuura por mim”, que é a minha releitura da Alcione. Eu já representei o Brasil em Tulum, no Prêmio Platino de Cinema Iberoamericano, no México, fiz um Rock in Rio… Essas grandes coisas fazem com que eu tenha muita vontade de, cada vez mais, me posicionar enquanto artista e alcançar espaços.

Além das coisas que você já citou, você cantou com a Alcione, gravou com o Rodriguinho com o seu disco… Para você, teve algum momento na sua carreira em que você pensou: “Caramba, isso está acontecendo mesmo?”. Caiu uma ficha para você?

Cara, tem vários momentos. Chegar no estúdio e me deparar com a Alcione, ouvi-la colocar a voz na harmonia que eu pensei, na roupagem que eu pensei (para a música), foi uma parada muito surreal para mim. Outra coisa também — é muito engraçado, eu acho que vai caindo a ficha aos poucos — é quando você chega no show e cantam a sua música. Eu fico assim: “Gente, como assim vocês estão cantando a minha música?”. Para mim é uma coisa muito engraçada. As pessoas ficam assim: “Malía, como assim você está surpresa com isso?”. Mas é que a música para mim é um processo muito natural e, muitas vezes, introspectivo, então quando isso transborda, vai ao público, quando eu externalizo isso e vejo que pessoas gostam, se conectam comigo e, mais do que isso, elas potencializam a música, isso faz com que eu me sinta muito abraçada, faz com quem caia um pouquinho a minha ficha, porque eu acho que não tem como eu saber, entender tudo o que tem me acontecido na proporção que tem sido. Mas dá para eu me sentir feliz e grata. E tendo noção, pelo menos um pouquinho.

E como é que a música surgiu na sua vida? Como você foi tendo desejo de trabalhar com música?

A minha educação musical sempre foi algo presente na minha vida, eu sempre ouvi muita música em casa, os mais mais sempre tiveram muitos CDs. O meu pai, por exemplo: ele construiu duas caixas de som. Comprou madeira, fórmica, tudo. A gente tinha e tem toca-discos. Então sempre foi algo a que eu tive muito acesso. E a minha mãe sempre me falou sobre a importância da música brasileira para mim, sobre a importância de eu me reconhecer enquanto Brasil, de eu gostar daquilo que vem de onde eu moro. Então sempre foi um processo muito natural. Todos os dias na minha casa tia música. Sempre cantei todos os dias. Até que um dia as outras pessoas perceberam que eu era afinada, porque eu canto porque eu gosto. É um negócio que eu me sinto bem (fazendo). As pessoas que foram perceber era algo com que eu poderia trabalhar, para mim foi difícil pensar na música enquanto profissão. Hoje eu me entendo enquanto marca, mas foi difícil. Nem passava na minha cabeça que eu poderia ganhar dinheiro com música, porque era algo que eu amava e fazia parte do meu dia a dia mesmo.

Eu li que você achava que iria seguir carreira acadêmica. Em que momento teve uma virada em que você falou: “Eu posso ser cantora como profissão”?

Eu amo estudar, é uma coisa que eu amo fazer. Por mais que eu não gostasse tanto do sistema da educação, eu acho que é um pouco agressivo. Eu estudava no Jardim Botânico, morava na Cidade de Deus, então a meritocracia não se aplica, era algo completamente difícil, não era só estudar, existem várias dificuldades que cercam esse “ter acesso à educação”. Mas era um negócio que eu gostava de fazer. Sendo que, quando eu comecei a pesquisar faculdade… Porque eu não acredito que o jovem entenda cem por cento, tenha informação suficiente para entender o que é faculdade. Com 17 anos, eu não sabia o que era. Até hoje talvez eu não saiba totalmente o que é. Óbvio que entendo muito mais e tal, mas eu não sei o que é viver uma faculdade. Eu ficava ali, sem saber muito o que fazer. Assisti diversas palestras em algumas faculdade, inclusive na escola onde eu era bolsista, e concluí que não era vida acadêmica que eu queria seguir. E foi algo muito difícil, porque eu, enquanto jovem negra favelada, era o que minha mãe poderia me dar: informação, estudo, para eu para o meu futuro. E eu decidi que não queria fazer, porque eu vi que não era por aquilo que meu coração pulsava. Todas as vezes que meu coração pulsava era quando era falado sobre arte, fazer o que sente vontade. E foi aí que a minha chave virou. Mas foi algo muito tranquilo, porque, assim que eu acabei o ensino médio, eu assinei com a gravadora. Eu encontrei a Duto, que é uma produtora situada em Madureira, e juntos nós fizemos a conexão com a Universal Music.

Mas você começou como?

Eu postava vídeos nas redes sociais e isso foi crescendo, cada vez mais. As pessoas foram se conectando a mim. Alguns artistas se conectaram a mim também, porque eu fazia covers deles, versões — sempre gostei de fazer, sempre gostei de brincar com a música. Na época, eu nem era Malía, eu era Isadora Machado ainda, e pessoas como Emicida, Caetano, Ludmilla, Elza Soares já interagiram comigo, por conta dos vídeos, e isso foi só crescendo e potencializando.

Você estava comentando que cresceu na Cidade de Deus. Ainda vive lá?

Eu vivo lá no modo de falar. Por exemplo, hoje, eu estava dormindo lá. Eu não moro mais lá, mas a minha família é toda de lá, meus amigos estão lá, é meu lugar, eu estou sempre lá. Pelo menos uma vez na semana, eu estou na Cidade de Deus. Seja dormindo na casa da minha madrinha, encontrando meus amigos…

Você está morando onde, hoje em dia?

Estou morando no Pechincha, que é bem próximo também, Jacarepaguá.

Você sempre fala da sua origem, da favela. Como sente a importância de uma artista como você — mulher, negra, vinda da favela, associada a todo aquele estereótipo, ainda mais a Cidade de Deus, que tem o filme…?

Eu vou fazer as pessoas entenderem que várias coisas que elas desnaturalizam são naturais. Porque elas sempre colocam nesse lugar de: “Nossa, você conseguiu isso!”. Eu realmente sou negra, favelada, da Cidade de Deus. O meu papel eu sinto que é fazer que as pessoas entendam que estar nos lugares e ocupar os espaços com características diferentes entre si é algo normal. Eu não necessariamente vou cantar sobre a Cidade de Deus, mas não é por isso que eu não tenho a Cidade de Deus na minha música. É fazer ser natural mesmo, porque as coisas às vezes são muito caricatas. Tipo: “Eu sou da Cidade de Deus, sou negra, vou falar que sou negra na música e que sou da Cidade de Deus.” Posso fazer? Sim, posso fazer. Mas eu posso ser o que eu quiser. Isso eu vou continuar sendo para sempre, independentemente de eu falar ou não. É algo natural. E aí é agir com essa naturalidade mesmo, eu acho que acrescento isso para as pessoas que vêm de onde eu venho. Primeiro, para elas entendem que têm direito a todos os espaços, e para as pessoas que não acham que certos lugares são para a gente compreenderem que é a coisa mais normal uma pessoa viver e transitar pelos espaços. Eu acho muito importante bater na tecla, com naturalidade, de que eu vim desse lugar, de que eu sou isso, porque ainda agem como se isso fosse algo anormal.

E a gente está passando por um momento de evidência para as compositoras em geral, como a gente nunca teve aqui no Brasil e, nessa cena, se destacam várias cantoras e compositoras negras. Não é que não existissem antes… Só que estamos vivendo uma época de finalmente ter esse espaço. Como você vê esse momento na música?

Acho que a gente iniciou uma discussão que precisava ser iniciada, porque o Brasil, enquanto país colonizado, está muito atrasado mesmo nessas questões de identidade. Acho que temos um bom começo, mas precisamos começar a nos aprofundar. É muito fácil a gente se perder pelo caminho e parar na parte estética, porque estamos vendo corpos negros estampados no outdoor. Mas eu quero saber: quantas pessoas negras estão espaço de desenvolvimento da publicidade? É muito importante iniciar essa discussão, mas, mais do que isso, efetivar essa discussão. E a gente vai fazer isso aos poucos. Ao mesmo tempo, eu, enquanto artista — e eu entendo que o meu papel também é político — quero fazer com que as pessoas pensem criticamente sobre isso. Porque eu não quero que pareça que eu estou nos espaços, eu quero me ver nos espaços de fato. Eu quero que isso seja efetivado. Essa naturalidade vai ajudar as pessoas entenderem que uma pessoa preta publicitária é algo legítimo também. Isso é muito importante. O brasileiro não se reconhece enquanto negro, muita gente ainda não sabe, ainda estamos nessa discussão de quem é negro e quem não é, por incrível que pareça. Isso é importante para que as pessoas se reconheçam e saibam seu valor. A música vem para informar, conscientizar. As pessoas falam sobre empoderamento. Essa é uma palavra que eu não costumo usar. Porque empoderar significa dar poder. E eu não acho que alguém dá poder a ninguém. Acho que as pessoas se conscientizam de que existem ferramentas que permitem que elas exerçam esse poder. “Dar poder” fica muito no campo do raso, da imagem, da estética. A gente precisa falar de educação, de informação, de como exercer esse poder, para além da estética. Em muitos lugares aonde eu chego, as pessoas ainda se espantam: “Nossa, o cabelo dela!”. Como assim, se 53,6% da população é negra? Como as pessoas se chocam porque tem pessoas negras nos espaços? Então é isso, ocupar mesmo, mudar no ato. Mas acho muito importante que existam essas cantoras. E também acho muito importante exaltar quem veio antes de mim. Porque sabem de onde eu vim. Tenho muito mais segurança para onde eu vou. Acho muito importante ter gente como a Ludmilla, periférica, LGBT, compositora, tem uma qualidade enorme no trabalho dela. Iza também. É importante ter mulheres negras em vários espaços. Não só as faveladas, porque existe mulheres de outras origens. Uma pluralidade mesmo dentro do “ser negro”.

Mudando de assunto, com quem você gostaria fazer um feat este ano, se você pudesse escolher?

O meu sonho, que eu sonho bem alto (risos), é Djavan. É o artista que eu mais ouvi na minha vida. Mas depois da Alcione, que foi tudo tão natural, tão bom, leve, eu acho que não duvido mais de nada.

E o que você planeja para 2020? Vai lançar coisas?

Eu fiz um songcamp, reuni alguns compositores, cantores dentro de um estúdio lá em São Paulo. Em dois dias, saíram 23 músicas. E o formato de lançamento eu ainda não sei, mas eu vou soltar bastante música este ano.

Quando foi?

No fim do ano passado.

E que compositores estavam com você, pode adiantar?

Tinha Luccas Carlos, Day, Carol Biazin, Amanda Coronha… Ah, tinha uma galera.

Vai lá:
Verão do Spanta
Quando: Sábado, 18 de janeiro, às 16h
Onde: Marina da Glória. Av. Infante Dom Henrique, s/nº – Glória
Quanto: R$ 120 (meia-entrada) e R$ 240

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‘Amor é amor, e não interessa o que tem por baixo da roupa’, diz Ana Vilela http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2020/01/10/amor-e-amor-e-nao-interessa-o-que-tem-por-baixo-da-roupa-diz-ana-vilela/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2020/01/10/amor-e-amor-e-nao-interessa-o-que-tem-por-baixo-da-roupa-diz-ana-vilela/#respond Fri, 10 Jan 2020 16:35:17 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1270

Ana Vilela canta de graça no domingo. Foto: divulgação/Som Livre

Ela estourou com apenas 17 anos, quando uma música que postou no YouTube se tornou sucesso estrondoso. “Trem-bala” hoje tem mais de 150 milhões de visualizações e sua autora, a cantora e compositora Ana Vilela, 21, acumulou alguma estrada. Em agosto do ano passado, ela lançou seu álbum mais recente, ‘Contato’, o segundo de sua carreira, com o qual está em turnê atualmente.

Produzido por Fernando Lobo e Juliano Cortuah, o disco traz uma sonoridade que vai além do pop-folk fofinho que consagrou a cantora, com o uso de batidas eletrônicas. “O ‘Contato’ é um disco que trouxe as mudanças que eu achei necessárias para a minha carreira, para o meu trabalho, para aquilo com que eu me identifico hoje. E eu tive muito receio mesmo do público, da galera não aceitar muito bem o álbum, até porque ele tem uma outra pegada, um pouco mais pop”, admite a cantora.

O repertório do disco poderá ser visto este domingo no Claro Verão Rio, na Casa de Cultura Laura Alvim, onde Ana apresenta um pocket-show gratuito. Assumidamente lésbica, casada desde 2018 com Amanda, ela conta que representar a comunidade LGBTQ+ é algo muito natural. “O que eu tento passar e mostrar sempre, inclusive mais para os meus fãs que não se encaixam na comunidade LGBTQ+, é que é normal”, diz. 

Ana conta que o feedback vem não só de seus fãs LGBTQ+, mas também daqueles que contam que tinham preconceito com a homossexualidade e mudaram sua visão. “E isso é muito bonito também. Eu recebo muita mensagem falando: ‘Eu pensava N coisas sobre a comunidade LGBTQ+, sobre os homossexuais, depois comecei a seguir você, acompanhar seu relacionamento com a sua esposa, a minha visão mudou.’ Essa vivência é importante”, avalia. 

O show é de graça, como é para você fazer esse tipo de show?

Cara, eu me amarro. Acho que a proposta do evento tem tudo a ver com o verão. Eu acho gostoso demais, eu me importo muito com o ambiente do show, acho que faz muita diferença na hora de tocar, e é muito gosto quando é assim, quando tem essa vibe boa de todo mundo.

Você morou aqui no Rio. Ainda está em Londrina?

Não, eu estou aqui no Rio de novo, inclusive. Desde agosto.

E como está sendo? Eu entrevistei você no início do ano passado, e você falou que tinha voltado para Londrina porque queria ficar perto dos seus avós e morar num lugar menor. Como foi a mudança de volta para o Rio? Foi a carreira que exigiu?

Foi, foi. Na verdade eu troquei de empresário, e aí acabou que a minha operação ficou toda concentrada aqui no Rio. Eu acabei tendo que voltar. Mas eu gosto muito daqui, sou apaixonada.

De lá para cá, você lançou um disco novo. Como está sendo a turnê do ‘Contato’? Porque às vezes os fãs são apegados a músicas antigas…

Nossa, está sendo muito tranquilo. O ‘Contato’ é um disco que trouxe as mudanças que eu achei necessárias para a minha carreira, para o meu trabalho, para aquilo com que eu me identifico hoje. E eu tive muito receio mesmo do público, da galera não aceitar muito bem o álbum, até porque ele tem uma outra pegada, um pouco mais pop. Mas a recepção está sendo incrível, as pessoas estão gostando muito, estão elogiando bastante o trabalho e acho que entenderam a proposta, não ficou parecendo muito distante do que o primeiro disco foi.

Rolou aquela pressão de segundo disco? Você sentiu?

Eu acho que mais da minha parte para comigo mesma do que das pessoas. Eu me cobro bastante com relação a isso, eu acho que eu queria entregar um trabalho que realmente disse que, poxa, eu não sou só o primeiro disco, eu não sou só “Trem-bala”. Dentro de mim, eu tinha muito mais o que provar do que para as pessoas, né? Mas foi incrível, a recepção foi muito, muito boa, muito melhor do que a gente imaginava, graças a Deus.

Outra coisa que você tinha me dito, quando eu entrevistei você, é que você se cobrava fazer outra “Trem-bala”, ou seja, um supersucesso como essa música foi e é. Como está isso? Conseguiu relaxar, abrir mão disso?

Eu acho que é um processo natural. Eu acredito que quando a pessoa passa — principalmente na idade que eu passei — por tudo que eu passei com a música, é muito intenso, e a gente tem muitas questões que a gente mesmo não entende. Então, para mim foi um processo muito natural: parar de criar expectativa em cima disso como se fosse uma obrigação, sabe? Claro, eu dou o melhor sempre no meu trabalho, nas composições, mas não necessariamente buscando outra “Trem-bala”. Até porque ela é muito única, conforme o tempo foi passando, eu fui entendendo isso. A “Trem-bala” é muito mais do que só uma música para as pessoas. As opiniões que eu escuto, as histórias que eu ouço, ela acabou virando uma coisa muito maior, onde as pessoas buscam conforto e tal. Então acho meio difícil até buscar reproduzir isso, porque foi uma coisa muito natural, espontânea.

E tem alguma história que você possa contar, que tenha impressionado você, de alguém com a música?

Ah, tem várias histórias incríveis. Eu brinco sempre com os meus amigos que a gente podia fazer um filme só com as histórias das pessoas contando como elas conheceram a “Trem-bala”, porque são muito bonitas. Tem histórias felizes, tristes, de gente que lembra de alguém que foi embora ou de alguém que gostava muito da minha música e veio a morrer a pessoa guardou isso como uma lembrança boa. Também de gente que entrou no casamento com a música. São muitas histórias. Acho

que eu não tenho como, hoje, escolher uma para contar, seria muito injusto. Mas todas são lindas.

E você teve seu momento youtuber, você passou um tempo fazendo o ‘Cafofo da Ana’ (série no YouTube). Como foi para você essa experiência?

O projeto do YouTube é uma coisa que está meio na geladeira por enquanto, porque eu estou muito ocupada com todo esse reposicionamento, mas é uma coisa que não saiu do meu campo de visão, das minhas possibilidades. Eu sempre gostei muito de YouTube e tenho muita vontade de voltar a fazer. A gente inclusive tem se movimentado nesse sentido: de montar outro cenário e começar a fazer tudo de novo.

Sua geração tem uma forma de lidar com a sexualidade de uma forma mais livre que as anteriores, me parece. E tem a questão da representatividade, por você ser uma artista que não performa os estereótipos da feminilidade. Você recebe retorno das fãs, dizendo que que você as encorajou de alguma forma? Como você se sente representando um grupo que sofre muito preconceito no nosso país?

Eu acho que é uma posição que, por maior que seja a responsabilidade, o que eu tento passar e mostrar sempre, inclusive mais para os meus fãs que não se encaixam na comunidade LGBTQ+, é que é normal. Que a gente ama, vive, a gente quer ter uma vida normal. Eu inclusive procuro sempre passar isso nos meus clipes. Geralmente me perguntam: “Ah, de onde vem a inspiração para botar um casal lésbico no clipe?”. E, na verdade, é uma coisa que não tem de onde ter tirado inspiração, é a minha vida. A minha natureza é: eu sou uma mulher homossexual, casada com uma mulher, então não tem como eu fugir disso ou tentar fazer algum tipo de… Eu não sei bem qual a palavra, mas eu não queria que as pessoas ficassem achando que é para tentar englobar a comunidade LGBTQ+. Não, eu faço parte dela, eu tenho que representar a comunidade. Já que eu tenho lugar de fala, é o meu papel.

E, no seu caso, por causa de “Trem-bala”, o público é muito amplo, né? As pessoas que admiram essa música vão de criança até velhinhos…

Com certeza. E eu tenho muito esse feedback também das pessoas que estão do outro lado, que tinham algum tipo de preconceito. E isso é muito bonito também. Eu recebo muita mensagem falando: “Eu pensava N coisas sobre a comunidade LGBTQ+, sobre os homossexuais, depois comecei a seguir você, acompanhar seu relacionamento com a sua esposa, a minha visão mudou.” Essa vivência é importante. Passar o nosso cotidiano, as nossas ideias, os nossos amores para que as pessoas entendam que isso é meganormal, que não tem nada de errado, que amor é amor, e não interessa o que tem por baixo da roupa.

Você é supernovinha, fez sucesso com 17 anos, é casada… Sente que tudo isso que aconteceu na sua vida de alguma forma acelerou o seu amadurecimento?

Eu não sei se acelerou. Acho que o processo todo pelo qual eu passei profissionalmente, começar uma carreira com 17 anos de idade, já nos charts, no ponto mais alto onde as pessoas sonham chegar na música, realmente exigiu uma responsabilidade muito grande da minha parte, para entender como lidar com a questão do assédio, da fama, de ter uma empresa, de administrar um negócio que antes não existia, que não era realidade para mim, e que eu nunca fui educada para. Com certeza isso exigiu muito de mim, no sentido de estudar a profissão e de entender como funciona o negócio. E de chegar a algumas conclusões na minha vida pessoal também, entender do que eu estou a fim de abrir mão, do que eu não abrir mão de jeito nenhum, o que vai fazer sentido ou não. Acredito que me ajudou a amadurecer bem, mas não que tenha acelerado alguma coisa. Foi um processo muito natural também.

A fama traz uma exposição grande, que com certeza tem um lado positivo, o que você falou do carinho dos fãs, mas deve ter um lado negativo. Como tem sido lidar com isso, de ter sua vida exposta, de ter as pessoas acompanhado?

Eu sou muito tranquila com isso, na verdade. Eu acho que a gente quando sonha com — e isso foi uma coisa que fez parte da minha vida sempre, esse sonho de ser cantora, de trabalhar com música —, a gente acaba sonhando com as duas coisas: com estar em cima do palco, mas também com as pessoas que vão estar ali assistindo, pedindo foto e tal. Acaba sendo uma coisa gostosa, até. É muito bom, porque eu falo que eu tive a sorte de descobrir e poder fazer o que eu amo fazer com muito pouca idade. E, poxa, se eu estou fazendo o que eu faço hoje é por causa dessas pessoas, que me abordar, que querem saber da minha vida, e é por isso que sai notícia, e é por isso que estão sempre falando. E isso é incrível, acho que não tem do que reclamar, não. É parte da profissão. Óbvio que algumas vezes as pessoas agem de sacanagem mesmo, de má-fé, mas a gente acaba tendo que aprender a lidar com isso também. Não me incomoda, não.

Você tem planos de lançar singles, já tem coisas previstas para este ano?

O planejamento agora é mesmo trabalhar o álbum novo. A gente se dedicou bastante no ano passado a terminar esse disco, que, como eu falei, traz essa roupagem diferente, traz uma Ana que eu acho que as pessoas não conheciam e que tem muito a minha cara, de ser um álbum bem alegre, mais divertido. Então o planejamento para este ano é a gente trabalhar esse disco, de repente desenvolver mais algum outro projeto em cima dessas músicas, mas a proposta inicial mesmo agora, nesse primeiro semestre pelo menos, é continuar trabalhando o álbum. A gente tem alguns clipes para lançar, e é isso.

No disco, você canta com o Vitor Kley e o 3030. Com quem você gostaria de fazer feat? Você já falou que o Ed Sheeran, né (risos)? Tem mais alguém com quem você gostaria de cantar?

Sim, esse é meu sonho impossível (risos). Acho que o Ed é um cara que me inspira muito. Mas acho que hoje, se eu for olhar para o cenário nacional, eu queria fazer um feat que é muito diferente, acho que ninguém imagina também: com o Baco Exu do Blues. Eu acho ele fantástico, é um dos caras que eu mais tenho escutado, acho que seria incrível fazer um feat com ele.

Vai lá:
Claro Verão Rio
Quando: Domingo, 12 de janeiro, às 19h.
Onde: Casa de Cultura Laura Alvim. Av. Vieira Souto, 176/3º andar – Ipanema
Quanto: Grátis

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Lenda do dub, Mad Professor se apresenta domingo no Rio http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/12/29/mad-professor/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/12/29/mad-professor/#respond Sun, 29 Dec 2019 11:00:29 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1260

Mad Professor se apresenta domingo na Casa da Glória. Foto: divulgação

Mad Professor é quem começa a entrevista: “Você é do Rio ou de São Paulo?”, pergunta. Respondo: “Do Rio.” E ele emenda: “Estou apaixonado por uma garota do Rio.” “Quem é ela?”, quero saber. “Uma Garota de Ipanema”, ele se diverte. “Qual o nome dela?”, insisto. “Maria.” Eu: “Maria, arram. Como vocês se conheceram?”. Ele: “Não a conheci ainda. Mas ela está em meus sonhos. Eu só sonho com ela. Tenho que encontrá-la um dia.”

Neil Joseph Stephen Fraser, nascido na Guiana e radicado na Inglaterra (mais especificamente, em Londres) desde os 13 anos, é uma lenda viva do dub. É também um velho conhecido do Brasil — e vice-versa. Trabalhou com nomes como Chico Science & Nação Zumbi, Marcelinho Da Lua e Cidade Negra, entre outros. Aos 64 anos, com um álbum prestes a ser lançado, “Riddim and Dub 2019”, previsto para janeiro de 2020, e produzindo o seguinte, ele se apresenta este domingo na Casa da Glória, ao lado de Marcelinho Da Lua e Digitaldubs. De seu estúdio em Londres, ele conversou com o blog.

Você já esteve no Brasil e no Rio muitas vezes. Queria saber: como foi o tempo que você passou aqui? Como foram suas experiências aqui?

Bem, a primeira vez que eu fui ao Brasil acho que pousei no Rio e pensei que era um lugar tão lindo, muito lindo, gostei mesmo da cidade. É, eu estive por toda a parte (no Brasil), estive em Curitiba, Santa Catarina, Fortaleza — gosto muito de Fortaleza —, Recife, Bahia, muitos lugares. Brasília, Londrina… É um país fascinante. É difícil de acreditar que tenha sido desenvolvido em um tempo tão curto. É muito fascinante.

E a música? Você gosta de alguma coisa na música brasileira?

A música brasileira é um belo encontro entre ritmos africanos, caribenhos e europeus. É unica. É um lugar muito especial mesmo em termos de música.

Você é da segunda geração do dub e está sempre lançando discos. Como vê o dub hoje em dia? A cena, os trabalhos…

O dub é uma dos primeiras formas criativas technomusic, onde o engenheiro formata e reformata a coisa toda. É muito importante nesse sentido.

E o que você pensa da música hoje em dia? Gosta dos trabalhos que tem visto e escutado por aí?

Bem, eu não ouço tanta música moderna assim. Na verdade, quase não ouço.

O que gosta de ouvir?

Eu sou apaixonado pelo som dos anos 70. A maior parte do que eu escuto é da década de 70. Eu quase não ouço música feita agora, porque eu não gosto muito da tecnologia de fazer música com computadores, então eu não escuto muito isso.

Então você não usa computadores para compor e fazer música?

Não, não uso.

É verdade que você quase comprou um terreno no Brasil há uns anos?

É. Fiquei tentado (risos).

Onde no Brasil? Você se lembra?

Sim, era perto do Rio. Perto de Niterói. Eu gosto muito dessa parte.

E por que desistiu?

Porque estava ficando complicado para entender português. Então eu vou comprar no futuro, quando conseguir entender mais da língua.

Então talvez um dia…

É, um dia, um dia. Quando eu passar a falar mais a língua.

Você já fala português?

Não… Quando eu estou no Brasil, eu falo, e aí quando eu vou embora, esqueço (risos). Que vergonha.

Você fez uma tour com o Lee Perry aqui há alguns anos (em 2015). Como foi?

Bem, eu fui ao Brasil com o Lerry talvez quatro ou cinco vezes… E também estive com o Natiruts. Também fiz alguns turnês com o Natiruts. Você conhece Natiruts?

Sim, claro.

Trabalhei em álbum com eles também (ele mixou “Raçaman”, de 2009).  Esse tipo de música é muito bom.

Mas o Lee Perry faz o mesmo tipo de música que você. Ele é uma lenda do dub, você também, só que de uma geração diferente. Como é trabalhar com ele?

Não tão diferente assim (o jamaicano Lee Perry tem 83 anos, Mad Professor tem 64)… Bem, agora faz 40 anos que venho trabalhando com ele. Então não é bem uma geração diferente. Ele é alguns anos mais velho eu, mas não é muito diferente. Não mesmo. Tem sido sempre divertido.

O que as pessoas podem esperar da sua apresentação domingo aqui?

Diga a elas para esperar qualquer coisa. Certo (risos)?

Está trabalhando em algum material novo?

O tempo todo. Já comentei com você que neste momento estou no estúdio trabalhando em um material novo.

E vai trazer esse material novo para o Rio?

Sim, vou levar algumas dessas músicas. Músicas novíssimas, novíssimas. Vocês vão ouvir.

Você está preparando um novo álbum?

Sim, sim. Eu tenho saindo, que foi feito em 2019, e… É, tenho algumas coisas a caminho. Muitas coisas.

E o disco que você gravou em 2019 já tem nome?

Sim. “Riddim and Dub 2019″. Vou te mandar a capa. Vou te mandar algumas coisas. E algumas faixas também. Aí você vai poder ver e ouvir.

A capa do próximo álbum, previsto para janeiro

Vai lá
Pré-Réveillon na Casa da Glória
Quando: Domingo, 29 de dezembro, das 16h20 à meia-noite
Onde: Casa da Glória. Ladeira da Glória,  98 – Glória
Quanto: R$ 35 (2º lote) e R$ 45 (3º lote)

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‘Fomos humilhados, mas resistimos’, diz Deize Tigrona sobre o funk http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/12/20/fomos-humilhados-mas-resistimos-diz-deize-tigrona-sobre-o-funk/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/12/20/fomos-humilhados-mas-resistimos-diz-deize-tigrona-sobre-o-funk/#respond Fri, 20 Dec 2019 16:15:38 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1247

Na primeira década dos anos 2000, Deize Tigrona era uma das principais MCs do funk carioca. Seu primeiro sucesso foi “Injeção”, sampleada pela cantora cingalesa M.I.A. na música “Bucky Done Gun” em 2005. Àquela altura, a faixa já era conhecida nos bailes e nas rádios da cidade. Deize passou a se apresentar em casas da Zona Sul do Rio e logo estava embarcando para uma turnê na Europa.

Sua carreira tinha começado em 1997, quando gravou pela primeira vez. Ela, que trabalhava como empregada doméstica, escrevia poemas e logo começou a fazer músicas. Quis cantar. Acabou registrando “Hilda Furacão” com o DJ Duda, que comandava um baile no Coroado. “Injeção” viria ser composta em 2002. Em 2008, de volta da Europa, Deize se sentia estranha. Demorou para entender que era depressão. Sumiu da vida artística.

Voltou a ser notícia em 2014, quando foi trabalhar como gari em um hospital. Tinha passado em um concurso na Comlurb. Todos queriam entender o que tinha acontecido com a cantora e compositora. Apesar do sucesso, Deize não tinha ganho tanto dinheiro assim. Começou a fazer um show aqui e outro ali, ainda de forma esparsada. Lançou algumas músicas.

Aos 40 anos, Deize comemora a retomada de sua carreira. Em 2019, fechou parceria com a Batekoo Music, selo do coletivo que organiza a famosa festa, e partiu para 11 shows na Europa em outubro. Atualmente, está em licença não remunerada da Comlurb. Lançou na sexta passada o single “Vagabundo” e prepara um álbum. Segue morando na mesma comunidade, a Cidade de Deus, com o marido e três filhos.

Hoje, a cantora se apresenta duas vezes no Rio: na Maré, na Mostra Maré de Música, com Duda Beat, Afrofunk Rio e Amaréfunk, e na Batekook, no Viaduto de Madureira. Deize bateu um papo com o Rio Adentro sobre a volta de sua carreira, depressão e o atual momento do funk, entre outros assuntos.

Como está sendo a volta da sua carreira artística? Como você está se sentindo?

Para mim, é impressionante, porque, você sabe, trampo de artista musical é uma coisa bem difícil para segurar e manter. Quando você para por dez anos e volta desse jeito, já fazendo evento, voltando para a Europa, coisa que para mim parecia impossível, é totalmente impressionante. Eu estou muito feliz.

Como está sendo para conciliar seu outro trabalho? Ou você está só com a música de novo?

Eu estou no mundo artístico de novo e só. Estou numa licença não remunerada na Comlurb, onde fiquei cinco anos. Eu tenho mais um ano para pegar se eu quiser.

Você é de um tempo em que os artistas do funk acabaram não ganhando muito dinheiro, apesar do sucesso que fizeram…

É. Naquela época, foi o momento da luta, da insistência, para o funk estar hoje do jeito que está, nesse capital que tomara que chegue para mim também. Fomos humilhados, pisoteados, paralisados, mas resistimos, sabe? Apesar de hoje estarem tentando terminar com o funk de favela, ainda temos essa resistência com o baile de rua, aos trancos e barrancos. No início, de 1997 para 1998, existia baile de briga, que era lado A, lado B, que era um corredor. Com o baile que a gente fazia no Coroado (comunidade em Laranjeiras), com o tempo, o de briga acabou e só ficamos nós no Coroado fazendo funk putaria, duplo sentido, como eles falavam. E hoje está uma mudança geral, eu ouço muito mais funk do que pagode nas rádios.

Hoje a gente vê os artistas ganhando dinheiro, mas os bailes nas favelas sendo perseguidos, a gente viu Paraisópolis agora…

Foi um massacre, né? Como isso acontece num lugar onde eles chegam e veem que tem uma multidão? Matar adolescente do jeito que mataram, nossa…

E você foi uma das primeiras mulheres cantando no funk, e hoje a gente vê muitas se destacando nele. Tem a Anitta, que foi para outros estilos, mas ficou conhecida pelo funk. Como você vê isso hoje? O que você acha das mulheres das novas gerações no funk?

É como eu estava falando: lá atrás foi aquela resistência, aquela luta para hoje o funk estar do jeito que está. Eu torno a dizer que estou ouvindo muito mais funk na rádio, em todo lugar que a gente passa. A Anitta iniciou no funk e hoje em está em outro patamar. Então é isso: o funk abre portas. As meninas e até os meninos cantando funk hoje… é uma coisa diferente. Antigamente, o pessoal queria ser jogador de futebol. E hoje em dia quer ser um DJ, um MC, e isso é um movimento revolucionário. A Anitta estar onde está, isso é ótimo. E eu vejo que ela não esquece das mulheres do funk, apesar de ela ter falado com que falou (risos). Ela foi infeliz nesse fala (Anitta disse em uma rádio espanhola que foi a pioneira a abrir espaço para as mulheres no funk), mas acho que foi um lapso.

E vejo os garotos querendo também ser dançarinos de passinho, que surgiu nos bailes…

Sim, sim. O mercado hoje em dia para o funk se tornou uma porta escancarada. São vários processos. Antigamente, a gente dava entrevista falando que o funk movimentou o comércio, as bebidas, o DJ, o motorista, o cara que carrega as caixas de som. Não é uma coisa mais só da favela. É de fora também. E tem o pessoal que está desenhando roupa, vestindo a gente, maquiando, fotógrafo. O mercado tem bem mais oportunidade.

Vi que você ia viajar com a Batekoo. Como foi?

Nós fomos em outubro para a Europa, fizemos acho que sete países.

E como foi seu encontro com a Batekoo?

Eu já conhecia o Maurício (Sacramento, um dos criadores da Batekoo) desde 2014. Teve uma festa em Salvador e ele me convidou para ir. Na época, eu não estava bem ainda, mas o que aparecia eu estava fazendo e, pelo fato do povo saber que eu estava parada, estava aparecendo pouco. Então, quando ele fez esse convite, eu fui, até a minha irmã foi comigo. Ele tinha acho que 18 ou 19 anos. E ele contou que queria fazer uma festa. E o Maurício, nossa, teve essa ideia de fazer essa festa com o nome Batekoo, e deu certo. Hoje em dia, é uma realização não só para eles, mas para o movimento todo. Porque a Batekoo dá importância aos LGBTs, aos negros, e isso faz com que as pessoas vão na festa e aceitem sua cor, seu cabelo. É um movimento totalmente positivo em relação à autoestima.

E essa parceria tem tudo a ver com a sua volta, né?

Tem, sim. A Batekoo fez esse convite para eu trabalhar com eles. Eles são pessoas novas e muito inteligentes, que procuram também ouvir os outros para fazerem as coisas darem certo. Eu, no caso, também sou uma das pessoas que eles procuram escutar (risos).

E como foi para uma pessoa pobre ter passado pela depressão? A gente sabe que tem preconceito, tem gente que acha que depressão é frescura, que pobre não tem depressão…

Quando eu me vi estranha, eu tinha voltado da Europa, tinha gravado com os Buraka Som Sistema em Portugal. E voltei para o Brasil e tinha uma data para fazer em Porto Alegre. Eu falei que eu não ia, que eu não estava bem. E realmente eu não estava, eu menstruei umas duas vezes no mês na Europa, e eu fiquei dois meses lá. Voltando, eu falei que eu estava mal e não ia fazer o show. Teve uma entrevista para a revista Rolling Stone e ali mesmo eu já falava o que estava acontecendo comigo, mas sem saber o que era. Só que foi se intensificando, e eu fui procurar ajuda, fui no hospital e tudo, e o médico disse que era depressão. E eu falava: “Não, quem tem depressão é rico.” Até eu mesma… Foi difícil de aceitar. Fui em outro, outro, outro: só dava a mesma coisa. Para mim, foi: “Nossa.” Para uma pessoa na favela, era como se eu estivesse maluca, sabe? Então é difícil. O meu marido me apoiou, me ajudou muito, mas tinha vez que acho que nem ele acreditava. Eu acordava ele e falava: “Eu não estou bem, não estou conseguindo dormir.” E ele com sono, tinha outras coisas para fazer, acabava dormindo. E às vezes ele me pegava na rua, de madrugada, querendo conversar com alguém. Até que, conversando com a minha tia, ela disse: “Deize, eu tive depressão.” Na favela, era considerado maluquice. Mas, hoje em dia, o pessoal está vendo que a depressão existe, seja para pobre, para rico. Agora a favela está dando essa importância a psicólogo, psiquiatra, conversas, um apoiando o outro. E isso é uma coisa fundamental. Estou vendo a comunidade com uma visão diferente, e isso é ótimo.

Como você está hoje? Está bem?

Estou bem, estou bem, estou ótima (risos). Trabalhando mais agora, compondo, fazendo minhas letras, trabalhando com a Batekoo, para que, se tudo der certo, esse giro de capital também venha para mim.

Às vezes também o artista não sabe tudo a que ele tem direito, no sentido dos direitos autorais, por exemplo…

É, mas naquela época, eu cheguei a fazer dez shows num fim de semana. Por cada um, eu ganhava R$ 300. Hoje em dia, que o funk realmente está na mídia e o pessoal está vendo a importância de ter o funk, de abraçar o funk, de trabalhar no funk, grandes empresas estão investindo. E aí que está o capital. Naquele época, era diferente. É hoje o mercado.

Você sentia falta? Sempre desejou voltar com a sua carreira?

Eu sempre desejei, sim. Na época, eu lembro que, mesmo com deprê, um amigo me ligou e pediu uma música. Foi quando eu passei “Prostituto”. Nem sabia o que ia acontecer, não conhecia Jaloo nem nada. Só fui para São Paulo uma vez e ele estava no mesmo evento que eu, mas ele estava tão doido, eu também estava tão doida que acabamos passando direto. Hoje em dia é que a gente conversa bastante e até tem a promessa de fazer um outro trabalho, ele está querendo fazer de novo. Então é isso, nesse meio-tempo, eu tinha vontade, mas achava que tinha acabado para mim. Porque as pessoas falaram tantas coisas: que eu tinha medo de voo, que não pegava avião, que eu tinha virado cristã… Nossa, mil coisas. Eu passei um tempo até chateada com a mídia, até que queriam que eu mudasse a “Prosituto” para fazer programa de TV, e eu não quis mudar, e eu no meu canto, não queria mais fazer mídia nenhuma. Eu bloqueei meu Orkut na época, meu MySpace, tudo, não estava falando com ninguém. Só mesmo o amigo que pediu “Prostituto” e eu passei. Fiz essa e “Madame” e conheci o Maurício, que hoje é da Batekoo. Essa vontade estava escancarada. Mas hoje em dia tudo é uma produtora, é uma grande mídia, eu esperava o momento certo.

E como é sua vida hoje em dia? Seus filhos moram contigo e seu marido na CDD?

Sim, mora todo mundo junto: meus filhos, meu marido. De vez em quando meus sobrinhos vêm, fica todo mundo junto.

São quantos filhos?

Eu tenho três: duas menina de sangue e o meu filho de coração, que é o João.

Vai lá:
Mostra Maré de Música
Quando: Sexta, 20 de dezembro, às 19h
Onde: Centro de Artes Maré. Rua Bitencourt Sampaio, 181 – Maré
Quanto: Grátis

Batekoo
Quando: Sexta, 20 de dezembro, às 23h
Onde: Viaduto Negrão de Lima. Rua Carvalho de Souza – Madureira
Quanto: R$ 10 (antecipado) a R$ 25. Grátis para pessoas trans.

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‘Estou aprendendo a lidar com o meu próprio machismo’, admite Céu http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/12/06/estou-aprendendo-a-lidar-com-o-meu-proprio-machismo-admite-ceu/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/12/06/estou-aprendendo-a-lidar-com-o-meu-proprio-machismo-admite-ceu/#respond Fri, 06 Dec 2019 16:25:06 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1234

Céu traz a turnê de ‘Apká!’ ao Rio. Foto: Fábio Audio

Sem nenhum anúncio prévio, em setembro Céu lançou nas plataformas digitais seu quinto disco, ‘Apká!’. Produzido por Pupillo, marido da artista, e o francês Hervé Salters, que já tinham assumido a função no trabalho anterior da cantora, ‘Tropix’ (2016). Com 11 faixas, o trabalho passeia por estilos que já estavam presentes em outros trabalhos de Céu, como reggae, disco music, rock, trip hop, entre outros, numa mistura de elementos eletrônicos e orgânicos. Neste sábado, ela apresenta o novo show pela primeira vez no Rio, no Circo Voador.

A experiência do parto natural, que ela viveu ao dar à luz seu segundo filho, Antonino, serviu de inspiração para o álbum. Por sinal, ‘Apká!’ foi a primeira palavra dita pelo menino, que repetia o termo inventado toda vez que estava feliz com alguma situação. Além disso, a canção “Ocitocina (charged)” faz referência direta ao parto. Céu conta que quis fazer um disco sobre amor, que falasse sobre seu mundo particular, mas que também conversasse com o todo. “A minha arte se transmuta na minha vida, eu não consigo separar uma coisa da outra. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que o ‘Apká!’ é um disco ligado ao coletivo também. Ele não é só sobre o micromundo. É o micromundo pensando no macromundo”, explica a artista.

Com uma filha de 10 anos (Rosa, do relacionamento com cantor e compositor Gui Amabis) e outro de um ano e dez meses (Antonino, dela e do músico e produtor Pupillo, com quem é casada), ela diz que busca um equilíbrio entre a carreira e a vida pessoal, além de buscar dividir as tarefas e decisões com o marido. “Tudo isso envolve muitos sentimentos meus, deles, dos nossos filhos. É uma equação mesmo diária para a gente sentir que está num caminho legal para todo mundo”, garante. “Eu estou aprendendo a lidar com o meu próprio machismo interno. Porque antes era aquela coisa de: ‘Não, eu resolvo, eu dou conta.’ E não, cara, eu não posso dar conta de tudo (risos). Eu tenho que aprender a abrir mão e a dividir, e aceitar também, quando eu entregar, o que vai ser entregue para mim de volta. As revoluções são diárias”, analisa Céu.

Você contou que teve muita inspiração para fazer o disco depois que deu à luz seu segundo filho. Falou que o seu primeiro parto tinha sido de cesárea, e que dessa vez foi natural. Como foi a diferença entre as experiências?

Foi bem forte. É muito importante dizer que não pode existir nenhum tipo de idealização num parto. Porque a cesárea também uma importância muito grande. É uma solução quando a gente está uma situação específica. Eu devo muito a ela. Agora, claro, é uma operação, a mulher fica muito mais vulnerável, mais fragilizada, ela está com um corte, ela demora muito mais para se sentir e estar ativa de fato. Tem uma série de questões que não são faladas de verdade. Muito pelo contrário. O Brasil é um país cesarianista, que espalha aos quatro ventos que a melhor opção para a mulher é ficar deitada numa cama — sendo que essa é a pior posição para uma mulher parir, a gravidade pode dizer isso (risos). O segundo parto, para mim, foi de fato muito inspirador, no sentido de eu ter tido esse privilégio ter podido e de estar entregue para vivenciar essa experiência sem tanto medo. Porque acho que a mulher fica muito acuada, existe uma indústria da cesárea que fica botando na cabeça de todas nós que é mais fácil, é mais rápido, tem menos dor. Se você quer ter um parto natural e poder se conectar com esse seu lado, tem que fazer um esforço enorme. Tem que descobrir médicos que não enganam, porque muitos falam que fazem partos naturais ou normais e na hora não fazem. É toda uma máquina que a gente tem que vencer para conseguir. Eu consegui. É difícil, no Brasil. Eu era quase um E.T. no hospital. Ao mesmo tempo, acho que não pode existir nenhum tipo de idealização. É um assunto extremamente delicado. A cesárea também é bem-vinda, tudo está certo. Mas foi interessante vivenciar isso e poder dividir um pouco com as mulheres. Porque acho que isso fica meio num lugar de tabu, pouco falado, e eu quis falar, escrevi uma música sobre isso, me trouxe bastante inspiração. Mas também não só o fato do parto. Acho que o me trouxe foi o fato de eu poder me aquietar na minha casa, porque essa vida de viagem, vai para lá, vai para cá, tem uma hora que bastante estafante, sabe? Acho que eu me conectei com o que mais prezo no mundo, que é criar mesmo, fazer som. No ‘Vagarosa’ (2005), meu segundo disco, que também tinha o elemento da maternidade, que eu também estava grávida, aconteceu a mesma coisa. Eu escrevi um álbum que também tem esse fundo que fala de amor e de mim e tal. Acho que também vem da minha natureza me aquietar, me dedicar. Eu sou supercaseira, apesar de gostar de viajar, de tocar. Eu tenho um elemento de casa, de curtir família. Acho que foram coisas importantes para me inspirar.

Na época, você pegou o seu filho e foi com para Berlim para fazer uma das etapas do disco. Agora, ele já está com um ano, né?

Um ano e dez.

Está com quase dois, então. Você é cantora, viaja, agora está em turnê. E o Pupillo, apesar de agora estar muito voltado para a produção, é músico também. Como vocês fazem? Sabendo que o Pupillo não vai ouvir essa pergunta… Como fica, já que os dois têm a rotina da música, que a gente sabe que é bem dura?

É, é muito dura. Olha, é um desdobramento sem fim. Momentos, às vezes, torturantes de entender qual é a linha. De não aceitar coisas, de parar, e um entregar para o outro. E a gente tem que ter essa parceria, porque ele também está tocando para caramba, com o Nando (Reis), e fazendo discos dele… Então, a gente realmente tem que se desdobrar. Eu tenho que ter uma pessoa muito de confiança comigo, que eu acredite que eu possa deixar as minhas crianças, que possa também viajar comigo. O Antonino já foi para a turnê, já encarou estrada. Bom, ele já encarou estrada desde aquele momento que você mesma citou, eu peguei ele e fui para Berlim (risos).

Ele estava com que idade ali?

Ele estava com sete meses. E eu sempre fiz isso, com os meus dois filhos. A Rosa viajou o mundo inteiro. Depois que ela fez seis anos, eu percebi que não dava mais, que ela tinha que ter o tempo dela, a rotina dela. Não dava mais para ela ficar para lá e para cá.

Por causa da escola também, né?

E por causa da escola. Aí eu mudei, fiz um novo rumo, onde eu priorizava shows no Brasil. Isso calhou de ser bem ‘Caravana’ (‘Caravana Sereia Bloom’ de 2012). Fiquei mais por aqui, e não tanto lá fora. Eu sempre vou, mas comecei a ir por menos tempo. Eu fui administrando minha carreira e minha vida pessoal de forma que uma alimente a outra, e não uma destrua a outra. Porque a minha família realmente é tudo para mim, eu tenho um lado de querer estar presente para os meus filhos, de educar. Eu sofro muito com fins de semana em que estou fora. Ao mesmo tempo, isso também me alimenta. A música é o alimento da minha alma para eu ser uma boa mãe. Essa medição do que está me alimentando e do que está me exaurindo tem que estar constantemente aqui, sussurrando no meu ouvido, para eu poder tomar as decisões (risos). Isso cabe ao Pupillo também. Eu tenho uma enteada, ele tem uma filha, uma mulher, que eu considero minha filha também, que tem 23 anos. E ele não pôde estar superpresente quando ela era pequenininha. Ele já tinha a Nação andando para lá e para cá. Neste momento, ele está vivenciando ainda mais de perto o que é o bebê, todo dia, e repensando a história dele com a filha dele também. Tudo isso envolve muitos sentimentos meus, deles, dos nossos filhos. É uma equação mesmo diária para a gente sentir que está num caminho legal para todo mundo.

É bem difícil essa equação.

É difícil, é difícil. Superimportante a gente poder falar disso, porque quem trabalha com arte — e eu digo todas as artes — no Brasil, são poucos os suportes que a gente tem, e sendo mulher menos ainda. É uma equação muito complicada. Mas que vem de um lugar do afeto, do amor, e eu acho que essa força motora em que eu prefiro focar mais, para crescer e tentar achar o caminho.

Esses sentimentos — do parto, maternidade mais uma vez, a família —, isso acabou também influenciando na sua hora de compor, já que quase todas as músicas do disco são suas?

Acho que sim. A minha arte se transmuta na minha vida, eu não consigo separar uma coisa da outra. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que o ‘Apká!’ é um disco ligado ao coletivo também. Ele não é só sobre o micromundo. É o micromundo pensando no macromundo. Por isso eu quis falar que o ‘Apká’ é um álbum de constrastes: micro/macro, carne e osso/digital, parto normal/cesariana… Sonoramente, ele tem estilos contrastantes, traz coisas superantigas com hiperfuturistas. Por exemplo, “Off” é uma canção que já mostra isso: tem ruído branco, que fala de um assunto hiperfuturista, que é a inteligência artificial, mas, ao mesmo tempo, tem o violão do Pedro Sá, acústico, remetendo a uma sonoridade anos 50, com aqueles coros. Então é um disco de contrastes. E eu não queria ficar falando do meu mundinho, eu queria poder usar a minha voz e essa potência do meu micromundo —  que é isso que eu te falei, do amor e tal — para levar para o coletivo, que eu acho que é também um motor muito importante para mim.

Eu vi, em várias entrevistas, perguntarem a você sobre falar explicitamente do atual momento do Brasil e das questões que a gente tem hoje. Você se sentiu, de alguma forma, cobrada? Porque as suas canções não são literais, dão margem para alguma interpretação.

A minha forma de escrever, a minha poesia vem de lugar onde eu dou espaço para as pessoas refletirem, e eu não tenho a obrigação de ser literal. Essa é a minha maneira de escrever. Mas eu acho que reflexões sobre o coletivo, no geral, eu faço sobre o meu primeiro disco. E no ‘Apká!’ eu continuei fazendo. No primeiro (‘Céu’, 2005), eu já falava: “Minha beleza não é efêmera/ Como o que eu vejo/ Em bancas por aí” (na faixa “Bobagem”). Eu já estava falando do feminismo, do que é a cobrança feita para a mulher. E tantas outras coisas. Em “Cumadi” (do disco ‘Vagarosa’) eu também abordo o feminismo, de quanto a mulher acaba tomando lugares e não sendo cuidada, e fica sobrecarregada. Em “Rapsódia brasilis”, no ‘Tropix’, eu já falava sobre essa questão de que existe um ‘Casa-grande & senzala’ dentro de cada casa e apartamento de classe média ou classe rica brasileira, onde babá cuidam dos filhos e as mães terceirizam (a criação deles), as babás com aquela roupinha branca. As reflexões sempre foram propostas. O ‘Apká!’ tem uma música quase que mais literal — eu acho, na minha opinião, minha maneira de ver, né (risos)? —, que é “Forçar o verão”. É uma música sobre a corrupção, e a que existe dentro também do próprio cidadão brasileiro. Eu acho que a gente tem que observar muito. É uma corrupção estrutural que existe no Brasil. Então as minhas reflexões sempre foram propostas. E talvez o que está se pedindo hoje sejam coisas mais literais, não sei. Fica a critério de cada um. Eu não me sinto cobrada. Eu sinto que as pessoas estão querendo falar. E acho importante o Brasil ter essa cultura da gente discutir sem brigar, da gente discordar sem brigar. E, para isso, só falando mesmo.

Quando você começou — já são quase 15 anos do primeiro disco —, a gente não tinha tanta visibilidade para as compositoras. Claro que sempre existiram, mas você era uma das poucas compositoras que estavam tendo espaço.

Naquele momento. Naquele nicho também, de música contemporânea, que estava acontecendo, não havia tantas.

Como você vê hoje, que a gente está tendo mais luz nas compositoras? Elas existiam, mas não apareciam. Hoje estão tendo mais destaque. Como você enxerga essa mudança de cenário? E você também acabou sendo uma parte nessa mudança: quando elas viam você, podiam se sentir representadas e inspiradas a fazer o mesmo.

Sim, totalmente. Eu sinto que eu pude, de alguma maneira, participar dessa revolução aí. Que foi uma revolução particular minha interna, eu também não achava que eu podia compor. Quando eu comecei a querer fazer música, achava que só ia ser cantora. Mas, de repente, eu estava escrevendo, e criando melodias, fazendo som. E tive modelos também de compositoras, que vieram muito do rap, e eu me inspirei também. Já havia mulheres abrindo caminhos, mas de outro rolê, outro universo, e eu pude, por conta delas… Cito Erykah Badu, Lauryn Hill, e, pensando no Brasil, Deize Tigrona, e antes Chiquinha Gonzaga, Marina Lima, a própria Marisa já estava começando a fazer, não fazia tudo, mas já fazia bastante coisa. Eu faço parte disso aí, da galera (risos). E fico feliz. É muito mais legal poder ver tantas compositoras surgindo, estabelecidas e criando linguagens diferentes de composição.

Hoje as mulheres falam muito mais em machismo e feminismo. Eu lembro que você foi uma das primeiras cantoras que eu entrevistei com quem falei sobre esse tema, de você contar situações pelas quais passava, de vir alguém e começar a explicar como você tinha que se explicar ali no palco…

Nossa, eu ouvi demais isso (risos).

Hoje, ainda tem muitas funções que são dominadas pelos homens. A gente tem mulheres, mas não são tantas. Como é, hoje, estar cercada de homens? Nesse disco, por exemplo, você esteve. A coisa mudou? Melhorou?

Olha, eu acho que a gente está no processo. Não vai ser de um ano para o outro, sabe? Vai demorar para de fato as coisas estarem mais iguais. E essa transição se estende para muitas coisas. Eu me sinto uma artista em transição eternamente. Para mim, é muito trabalho. Porque é isso: é mulher, já está num universo masculino, quer compor, quer viajar, quer ser mãe, não quer terceirizar filho, quer cuidar de filho, quer cuidar de relacionamento íntimo, o casamento, quer viver a vida sendo mulher sendo quem é. Eu quero ser a mulher que eu quero bancar, quero poder fazer o que eu quero. São muitas coisas e muitas revoluções diárias a serem feitas. Papéis a serem divididos. Eu estou aprendendo a lidar com o meu próprio machismo interno. Porque antes era aquela coisa de: “Não, eu resolvo, eu dou conta.” E não, cara, eu não posso dar conta de tudo (risos). Eu tenho que aprender a abrir mão e a dividir, e aceitar também, quando eu entregar, o que vai ser entregue para mim de volta. As revoluções são diárias. E a gente mudou, mas nem tanto. A gente ainda tem muito o que mudar. A própria mulher tem muito o que mudar, e os homens também estão tentando entender. É um trabalho feito em conjunto e no qual a gente vai se entendendo cada vez mais. Mas vai demorar ainda, eu acho.

Saindo um pouco desse assunto: como foi o período em Berlim? Qual foi a importância de estar lá para o disco?

Foi muito interessante. Bom, eu estava naquele puerpério ainda. Na verdade, estava terminando, era o final. Mas a mulher fica amamentando, fica naquele mundo de dedicação total. Claro que existem mulheres que nem isso podem, já têm que voltar a trabalhar e já vira aquela loucura. Mas, no meu caso, eu pude fazer isso. E eu acho que viagem faz parte da minha vida, e eu sempre botei meus bebês, para saber que tipo de bebês eles eram. Porque podiam muito bem vir pessoas que não curtem viajar, né (risos)? Então era uma maneira de eu testar. A Rosa também foi testada muito rápido em avião e tal. Tem uma coisa dos próprios pais também aguentarem esse tranco. Porque é trampo, quem já viajou com os seus bebês, uma viagem internacional sozinha, sabe o quanto é difícil o neném chorando a viagem inteira, o quanto as pessoas olhando para você com aquela cara de “putz”, sabe? E eu sempre tive que me propor a fazer esses testes, porque é isso: filho meu ia cair na estrada. Eu queria ver como o Antonino ia dar conta, e ele deu superconta. E era uma maneira legal de testar, porque o Hervé, que eu já sabia que ia produzir o disco com o Pupillo, mora em Berlim, e tem um estúdio equipado com muitos teclados analógicos — ele é um produtor que gosta de som analógico. E, depois do ‘Tropix’, eu e ele tínhamos muita cumplicidade, parceria, no processo de composição — a gente fez “Varanda suspensa” e tal, músicas que se tornaram importantes no repertório. Então eu tive vontade de ir lá, fazer esse rolê com o meu filho, testar ele e, ao mesmo tempo, fazer uma pré mesmo. Que já estava sendo feito em casa pelo Pupillo, poder levar esse material mais rascunhado para o Hervé, e poder fazer uma processo de composição mais seminal lá em Berlim. Então foi isso: foram dez dias, acho, que eu fiquei lá, e a gente deu um gás. Foi ótimo. Eu trouxe de volta o material que ele fez, o Pupillo já continuou o trabalho, e assim começou o processo.

E a cidade em si? Por mais que se fiquei muito tempo no estúdio, estar em Berlim trouxe algo para o disco?

Berlim é uma cidade muito inspiradora, mas eu tive mais essa coisa de estúdio, nesse caso.

Você gravou uma música que o Caetano fez para você (“Pardo”). Como foi? Sei que você pediu para ele fazer.

Eu pedi para ele, bem cara de pau mesmo. Ele foi muito doce e querido, e me cedeu uma canção inédita. Demorou um pouquinho, porque ele estava em turnê, ele é superocupado. Mas, quando chegou no meu inbox, eu fiquei muito surpreendida pela maravilhosa canção que ele tinha feito. Ela tinha o que eu queria: a assinatura dele, na composição em si. Era uma música caetânica, sabe? E eu amei isso. E foi um desafio também: trazer para o meu universo de maneira que não ficasse destoante do resto do som do disco. A meu ver hoje, ouvindo a música, vendo ela no show, a força que ela ganhou ao vivo, eu acho que os produtores tiraram de letra, realmente conseguiram fazer do Caetano ‘Apká!’ (risos).

Você lançou mais um álbum. Pensa em apostar em single, feat, que são duas coisas que estão super em alta? Não que sejam novidade, mas são dois formatos que estão em evidência.

Inclusive no próprio ‘Apká!’ eu tinha pensado em fazer single. Mas eu ainda sou um pouco à moda antiga, tenho um pouco de dificuldade. Foi difícil para mim desmembrar o disco e ir soltando singles. Mas eu penso, sim. Eu acho que são desafios. Feat eu superpenso. Já tenho em mente coisas que eu quero fazer em breve. E single quem sabe? Bem, fazendo feats vão vir singles. Mas lançar singles antes da obra, do disco ainda é, para mim, um pouco difícil, porque eu tenho ainda esse apego de não ser uma millienial, de não conseguir pensar na coisa separada. Eu penso muito como um conjunto. Eu vejo ele muito ele como uma composição de várias partes. Sei lá, é coisa de gente que realmente foi criada ouvindo vinil, e disco, e som. Disco inteiro, a obra com capa e não sei quê. Ainda estou nessa transição. Mas não abro mão de aprender e, até fazer, sim, quem sabe o próximo disco.

Você vai trazer o show para o Rio, no Circo, um lugar onde você já se apresentou várias outras vezes. Como tem sido a turnê e como é fazer no Circo? Você é do tipo que vai mexendo, ajustando o show?

Eu ajusto o show para cada cidade, cada casa que eu vou. Tenho o maior prazer em fazer isso. O ‘Apká!’ é um show muito divertido, quente. A gente está curtindo muito fazer, tanto eu como a banda. Tem sido um grande presente mesmo. E o Rio, em particular, o Circo mais ainda, eu diria, é uma casa que tem um lugar especial no meu coração. Sempre me acolheu de uma maneira especial, e é uma data que a gente sempre espera com muita ansiedade. Não só quem curte, os fãs, mas eu mesma. Quando eu marco uma data no Circo, para mim, é um dia feliz que vai acontecer no meu ano. Então eu estou supercontente em estar de volta.

Vai lá:
Céu — lançamento de ‘Apká!’
Quando: Sábado, 7 de dezembro, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 60 (meia-entrada com 1kg de alimento, 2º lote) a R$ 120 (inteira, 2º lote)

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‘Não precisam dar voz para a periferia, mas os ouvidos’, diz Edgar http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/29/nao-precisam-dar-voz-para-a-periferia-mas-os-ouvidos-diz-edgar/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/29/nao-precisam-dar-voz-para-a-periferia-mas-os-ouvidos-diz-edgar/#respond Fri, 29 Nov 2019 16:20:26 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1225

Edgar já tinha uma carreira de oito anos e três álbuns quando chamou a atenção de Pupillo, então baterista da Nação Zumbi e produtor musical, ao participar do programa ‘Manos e minas’. Eles começaram a trabalhar no quarto disco do rapper paulista, que sairia em 2018 — alguns meses antes, no entanto, ele chamaria atenção na faixa “Exu nas escolas”, canção dele e de Kiko Dinucci gravada por Elza Soares, em que canta com a diva.

De lá para cá, sua música passou a chamar cada vez mais atenção. Depois de lançar o disco, vem rodando o Brasil em alguns dos eventos mais importantes do país. “Está sendo uma parada que está em expansão, cada vez mais. Eu estou gostando muito, estou aproveitando”, comemora Edgar, frisando que procura manter o ego sempre sob controle. “Tento ser o menino que eu sempre fui”, resume.

Ele se apresenta este sábado na Fundição Progresso, de graça, como atração do Mimo Festival. Depois de ter sua edição carioca cancelada no ano passado, o evento está de volta à cidade.

Você já tinha uma história quando lançou o ‘Ultrassom’, o seu quarto disco. Mas foi um que teve mais visibilidade, que você ficou mais conhecido do público e você está se apresentando em vários eventos importantes pelo país. Como é que está sendo essa fase pós lançamento do ultrassom?

Eu tenho gostado muito, porque eu estou conseguindo não só trabalhar a música, mas também nas artes plásticas, figurino, direção de show. Tenho colocado outras ideias também no palco, em vez de só reproduzir o disco. Tem sido bem interessante, uma faculdade.

Como é para você, que foi por anos um artista independente, ter sua visibilidade crescendo dessa forma?

Para mim está sendo acho que satisfatório. Eu tento não me iludir muito, que nem eu sempre fiz. Desde 2009 eu já venho fazendo. Antes de conseguir ser convidado para festivais com passagem aérea e hospedagem pagas, eu sempre fui para os lugares. Fiz show em Minas, Recife, Rio Grande do Norte desse jeito, de custear da mesma forma, pedir carona chegar nos lugares para me apresentar. Hoje é uma outra maneira, uma outra realidade. Tem sido muito legal. Ontem eu recebi o Prêmio Zumbi dos Palmares (da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), para personalidades negras que lutam contra o racismo. Estou fazendo meu terceiro desfile também, com as roupas que eu uso no show — o segundo na Casa dos Criadores, mas é o terceiro desfile. Estou como curador do palco da TNT que está tendo num evento de moda também, indiquei cinco artistas. Está sendo uma parada que está em expansão, cada vez mais. Eu estou gostando muito, estou aproveitando.

Você falou que segue tentando não se iludir. A vida artística é muito diferente das outras profissões. Acha que é difícil a questão do ego quando se é artista, quando se tem seu trabalho reconhecido?

Acho que sim, é o que eu tento trabalhar todo dia. Que é essa ideia de não se iludir na questão do ego. Tento ser o menino que eu sempre fui. Acabei de tirar uma foto com uma menina agora que me reconheceu na rua. E sempre na mesma verdade, na mesma batida, mesmo BPM de realidade que eu vivo. Já passei várias situações para as quais pretendo não voltar. O ego às vezes é o buraco que pode me arrastar para esse lugar aonde eu não quero ir, que eu posso ficar arrogante, posso ficar todo cheio de mim, que é uma parada que pode me confundir… Tem artistas que eu vejo que são donos da razão. Não escutam as outras pessoas, não conseguem olhar para o lado. É uma coisa que eu evito. Quanto mais eu ficar famoso, mais eu for subindo os degraus da música brasileira, mais eu quero descer esses degraus para encontrar as pessoas que são como eu era no começo da minha carreira. Essas pessoas têm muito o que dizer, as que estão lá no fundo, que estão fazendo o trabalho delas. A necessidade de se expressar, pelas coisas que estão acontecendo à volta. Quanto mais eu vou sendo retirado da minha realidade, que é a periferia, as músicas vão se alterando também. Porque alguns músicos que eram de periferia a letra deles nem fala mais de lá, já fala de uma outra coisa, de um outro lugar. Que eu ainda não acessei, e eu acessando quero também voltar para encontrar essas pessoas que são iguais a mim, que ainda têm muito o que falar.

Você não mora mais na periferia?

Eu não moro mais em Guarulhos (SP). Eu divido uma casa agora na Praça da Árvore, agora eu estou me mudando para o Alto do Ipiranga. Mas a minha mãe ainda mora lá na periferia de Guarulhos, na Favela do Coqueiro. Tento visitar ela o máximo possível para não perder as raízes também. Mas, como a vida tem rodado em São Paulo — tem que fazer reunião, eu estou participando da direção de arte do espetáculo sobre o Itamar Assumpção, que vai estrear agora no Sesc Pompeia (‘Pretoperitamar — o caminho que vai dar aqui’, idealizado por Anelis Assumpção), fiz esse desfile na Casa dos Criadores, fiz a curadoria do Palco TNT, são muitas coisas ao mesmo tempo. Tem uma demanda em que eu preciso estar em São Paulo diariamente. Aí eu fiz uma conta de quanto eu estava gastando de transporte, de ônibus, saindo de São Paulo para Guarulhos, era quase o preço do aluguel de uma casa em São Paulo. Eu pensei: “Pô, por que não?”.

Você falou sobre essa questão do ego, mas, ao mesmo tempo, sendo uma pessoa negra no Brasil, é muito importante cultivar a autoestima, né?

Sim, eu cultivo a minha autoestima, mas não o meu ego. Ele é uma coisa que eu tento observar bem para saber o que não fazer com ele. Saber quando utilizar. O ego tem o seu lado bom, sim, que é a autoestima. Mas ele também é traiçoeiro, né? E total: hoje em dia eu sei muito do meu potencial, do meu valor, e cada vez tendo mais consciência do que eu sou, do que eu posso fazer e da qualidade do meu trabalho.

Você é um artista com um trabalho que vai além da música: você tem relação com as artes plásticas, performance. Qual a importância das outras artes para o seu trabalho na música?

Ela não fica unilateral. Imagina você botar aqueles óculos de realidade aumentada e assistir um filme onde você é o personagem principal. A minha arte vai bem para esse lugar: dimensões. Eu tenho a trilha sonora do espetáculo, mas o meu show também também pode ser uma peça de teatro com a trilha que eu reproduzo do disco. Cada vez mais híbrido e entendendo isso. Então eu faço uma roteirização do show, penso em performances que podem elevar o nível do entendimento das canções. A corporalidade é uma coisa que estou tentando entender mais agora também, do gestual, conseguir trazer mais essa potência de entendimento também. Num show na França que eu fui fazer, as pessoas não entendiam o que eu falava. Então eu tinha que ter uma expressão corporal que fizesse elas compreenderem. Eu fui e engoli quase 13 sacolas plásticas e comecei a vomitar elas no meio do palco antes de cantar a música “Plástico”. É como se eu colocasse a realidade em excesso, como se ela fizesse um contraste mais forte. É o que eu tenho trabalho. As outras artes conseguem fazer isso comigo.

Para você, qual a força e a importância da arte e da cultura surgidas na periferia? No Brasil essa expressão é muito grande, né?

Total. Sabe qual a importância? Não precisar de uma gravadora grande para fazer a melhor música, ou de uma câmera de cinema para fazer o melhor filme.

Por que você acha que a nossa periferia produz tanto?

Porque ela sofre. Porque ela é criativa. Porque ela necessita de expressão. Tem gente que precisa dar voz para a periferia. Mas, na verdade, essas pessoas que acham que precisar dar voz para periferia precisam é dar os ouvidos delas para a periferia. Ela está gritando a todo momento.

Estamos em um momento em que está tendo visibilidade para os artistas negros na música, de diversos estilos musicais. Como você vê esse momento?

Eu acho que não tanto o Brasil. Quando fala “o Brasil”, eu acho meio engraçado. Na realidade, é o sul do país. O Brasil sempre teve músicos negros muito fortes. Subiu para Pernambuco, você vai ter a Lia de Itamaracá, que é um ícone. Você vem para o Maranhão, tem o Edson Gomes, que é outro. Você vai para a Bahia, tem o Gilberto Gil, outro ícone. Todos eles sempre foram pretos. Ou o Brasil começou a olhar para eles como negros agora? No sul, talvez a indústria do sertanejo, com a indução do Gugu, os showmícios de políticos, trazendo essa questão do branqueamento da música brasileiro, fica mais claro. Mas ela sempre foi uma coisa muito escura. Sempre teve Elza Soares, Emílio Santiago. Sempre teve artistas negros fazendo o que fazem. A visibilidade é no olho de quem vê, sabe? Acho que as pessoas tampavam os olhos a esses artistas. Não deixava eles atuarem como atuam hoje em dia, como uma Xenia França, uma Luedji Luna na capa da (revista do) Boticário, da Avon, a Tássia Reis. Esses artistas agora têm mais voz, sim, no sul. Karol Conka, que vem dominando uma cena muito forte. Rincon Sapiência, que vem colocando sempre essa questão de “pretas e pretos estão se amando”. É a mesma coisa que dizer: “Ah, a questão indígena no Brasil agora está muito em alta.” Como assim? Sempre esteve, desde 1500 estava em alta. Agora que vocês estão dando bola e querendo falar sobre. Entre eles, a galera já está preocupada em demarcação de terra faz tempo.

E o rap cresceu muito, no país e no mundo — onde é o estilo musical mais ouvido. Como você vê a cena atualmente?

Eu acho a cena do hip hop muito forte. Dinheiro na cena do hip hop agora que está entrando, mas ela se fez nas ruas. Desde 2009 eu faço rap em praça, em batalha de MC, roda de freestyle, evento da comunidade. E nunca tinha dinheiro envolvido. O único rap que está nas casas de shows era o Racionais MC’s. E se limitava muito a eles — acho que o Marcelo D2 deve ter sido um dos que mais ganharam dinheiro também, fazendo rap, talvez. Ele teve essa sacada de misturar com samba, que fez uma galera perceber: “Nossa, o rap é música!”. Se você for prestar atenção, o rap traz muita potência para quem é músico, de perceber que às vezes duas notinhas que você ali no piano, se você ‘loopar’ elas, você tem uma base perfeita. Também a noção de que tudo já está pronto, todas as músicas já estão feitas, é só reorganizar a ordem delas. O sample. Pegar o começo da bateria da música do Jorge Ben, o violão Antonio Carlos e Jocafi, uma linha de baixo do Charles Mingus de um solo dele ao vivo, misturar tudo e você tem uma música nova, numa fusão muito foda, com alguém querendo fazer um desabafo do que está acontecendo na sua realidade. O rap é muito potente. E ainda bem que agora ele consegue ganhar visibilidade dentro de casas de show, programas televisivos, sites, revistas e tudo mais. O que eu entendo por fazer rap, há dez, é que ele nunca precisou disso para se validar.

E como é para você se apresentar no Rio? Você tem alguma relação com a cidade?

A relação maior que eu tenho com a cidade é a Elza Soares, é uma relação muito forte, estou indo praí também para poder encontrar com ela. Eu não ia muito ao Rio, não tinha muito o que fazer na cidade, sempre fui mais para o Nordeste, mesmo o Rio estando muito perto de São Paulo. Mas acho que é um lugar que tem muito artista foda, escondidos no Baile da Colômbia (no Complexo do Lins), no Baile da Gaiola (no Complexo da Penha). E eu não estou falando só de funkeiros, não. Estou falando de vários outros artistas que fazem corres muito incríveis. Tipo a produtora Akasha, que faz desde artes plásticas a editoriais de moda. Na periferia deles, no morro, pegando a galera preta, vestido de rede que eles acham dos pescadores e transformam em looks. Cada ida ao Rio de Janeiro é uma descoberta fantástica. Madara Luiza, que faz cinema negro, faz uma galera. A própria Doralyce e Bia Ferreira. Esses dias eu fui ao Rio só para encontrar com elas, era aniversário de Doralyce, onde eu conheci Janamô, que participa do musical ‘Elza’. Conheci Luellen (de Castro), nossa, que cantora fantástica! Mandou uma letra lá falando que o povo está se matando para saber quem é mais preto. Nossa, achei lindo! Tem muito artista aí incrível, e ainda bem que a maioria (dos trabalhos) é feita por mulheres pretas, que são a minha base na vida: vim de uma, quero ter outra. É essa minha relação com o Rio: muitos artistas fantásticos, fantásticas e fantástiques.

Vai lá:
Mimo Festival
Quando: De 29 de novembro a 1º de dezembro
Onde: Fundição Progresso e Museu da República (shows) e Cine Odeon (filmes)
Quanto: Grátis

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‘No desenvolvimento do país, o Nordeste ficou com migalhas’, diz Afrocidade http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/23/no-desenvolvimento-do-pais-o-nordeste-ficou-com-migalhas-diz-afrocidade/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/23/no-desenvolvimento-do-pais-o-nordeste-ficou-com-migalhas-diz-afrocidade/#respond Sat, 23 Nov 2019 17:25:31 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1211

Afrocidade se apresenta pela primeira vez no Rio. Foto: Rafael Kent/divulgação

Pela primeira vez no Rio, onde se apresenta no evento Madrugada no Centro, o Afrocidade é hoje um dos destaques da cena musical baiana que vem conquistando o país. O grupo, formado em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, surgiu a partir do projeto Cidade do Saber, no qual o baterista e diretor musical da banda, Eric Mazzone, era arte-educador. O som é uma mistura de estilos de raiz negra: pagode baiano, arrocha, dub, reggae, ragga e afrobeat.

Com apenas um EP de seis músicas lançado, “Cabeça de tambor”, de 2016, eles preparam o primeiro álbum, previsto para o primeiro semestre de 2020. A produção é de Mahal Pitta, conhecido pelo trabalho com o BaianaSystem. “Ele trouxe referências muito grandes, de a gente pode voltar para a África, voltar donde a gente veio para poder entender todo esse processo de dentro para fora, esse processo intimista de humanidade”, comenta o vocalista José Macedo, que forma o grupo ao lado de Eric Mazzone (bateria e direção musical), Rafael Lima (percussão), Fernanda Maia (percussão), Douglas Santos (percussão), Marley Lima (baixo), Sulivan Nunes (teclado) e Fal Silva (Guitarra). O trio de sopro é formado por músicos convidados. O grupo ainda conta com dois bailarinos, Guto Cabral e Deivite Marcel.

O Madrugada no Centro traz edição inspirada na exposição sobre o Egito Antigo em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil. A civilização negra daquela região é uma das inspirações do afrofuturismo e é citada na música baiana desde o samba reggae. A começa com a festa Disritmia, que também encerra o evento. Em seguida, o show do grupo baiano, previsto para a meia-noite. Depois é a vez do bloco Agytoê.

O Afrocidade faz parte de um momento em que vários artistas da Bahia, de estilos diferentes, estão sendo reconhecido no país inteiro. Como você vê essa cena?

É um momento em que a gente está observando essa ressignificação da musicalidade baiana, independentemente do gênero, como você falou. É uma musicalidade preta baiana, de fato. Porque vivemos durante muito tempo um monopólio da indústria fonográfica. Na época da Tropicália, havia grandes artistas que nos representavam, que viveram a ditadura, a censura das rádios e da televisão, em que eles traçavam outras estratégias. Eu enxergo as coisas hoje de uma forma  muito mais positiva. Essa ressignificação da música preta, tendo esse viés dos meios de comunicação independentes — o sistema tem sua estratégia branca, de elite, e a gente vai tipo Tartaruga Ninja ali, pelo subterrâneo. Hoje temos uma voz de representatividade muito maior, após a queda da indústria da axé music, que foi uma grande apropriação da música preta do Recôncavo Baiano. Muitos artistas travaram uma guerra lá atrás para que isso acontecesse. É gratificante a gente dar continuidade a uma história de guerreiros que conseguiram quebrar isso com a musicalidade independente preta. É como se a gente estivesse pegando um cajado e dando seguimento a isso. Na axé music, a indústria se apropriou muito da musicalidade preta, com a percussão, inclusive muitos percussionistas maravilhosos daquela época vivem no anonimato hoje. Ela já seguiu outra estratégia, está lá no sertanejo. Mas essa queda foi necessária. Essa cena hoje, de Luedji, de Xenia, de Baco, do Àttøøxxá, da gente, BaianaSystem é ressignificação de luta mesmo, de guerreiros que fizeram isso lá atrás. O pagodão hoje é a cena que representa a voz da favela na Bahia, em Salvador e Região Metropolitana. Uma cena preta que sofreu muito por causa da indústria do axé. É o cotidiano da periferia, eles falam muito de sexualidade, independentemente de gênero, como uma fonte de poder, sem aquela visão pejorativa que o sistema elitista colocava da dançarina ou do dançarino do pagode. Hoje a gente vê essas expressões como uma fonte de libertação: a nossa dança do pagodão. É um respiro mesmo do cotidiano que a gente vive. Não tem como falar de uma coisa só, tudo está interligado. As religiões de matriz africana, que são frutos do nosso cotidiano, e os orixás são reverenciados através do toque. Ele desce para reverenciar o universo e a natureza como uma conexão só. E a nossa música é essa libertação. Eu enxergo tudo isso como uma contemplação divina mesmo do que está acontecendo. Ver essa música preta baiana hoje tomando um outro lugar do que foi imposto para a gente. Estamos invadindo os espaços com o que é nosso de direito: a nossa fala, a nossa representatividade, a nossa vivência cotidiana, as nossas mídias independentes tomando poder.

Para vocês, sendo de Camaçari e não de Salvador, foi mais difícil, tem sido?

Muito. A própria cena da região, da metrópole de Salvador, sempre monopolizou o espaço. e Quando um ou dois, três artistas de Salvador conseguiram ter um espaço, a Região Metropolitana não invadia a cena. “Olha a gente já tem dois ou três artistas de Salvador aqui, agora ninguém passa.” Hoje a gente está conquistando um marco na nossa história, da música brasileira e baiana, muito grande. A gente é a primeira banda da Região Metropolitana a participar do Radioca (importante festival que acontece em Salvador), por exemplo. É muito mais do que isso: a gente vive numa cidade que é tida como interior, sendo que é do lado de Salvador. É a 40 minutos de Salvador, 40 quilômetros. Uma cidade rica. Tem a visão de fora de que é uma cidade industrial, que de que ela só existe a partir do polo petroquímico. Mas o polo tem 40 anos e a cidade tem 260 anos. Antes desses 40, aquilo já existia, já havia uma vida lá, com uma musicalidade de quilombo. Para nós, ficou muito mais fácil fazer toda essa história, mesmo nesse processo de século 21 de desenvolvimento urbano, porque Camaçari tem uma existência quilombola muito grande, o maior número de quilombos rurais existentes da Região Metropolitana de Salvador, e expansão territorial muito maior que Salvador, com uma zona urbana menor. Mas existe o desenvolvimento da cidade ali, de coisas que sempre aconteceram, na música, no skate, na arte de rua, e sempre existiu o anonimato. Eu travei duas vivências: uma com o hip hop, antes do Afrocidade, que é a minha primeira experiência com banda. Fui altas vezes sabotado. Eu ia participar de batalha de MC em Salvador, chegar em final, não passar, e as pessoas falarem: “Velho, você ganhou aquela batalha.” Então tem essa parada, é como se fosse um reflexo das migalhas que sobraram para a gente disputar, do que sobrou no Nordeste. Falo isso com um contexto social: seja na música, na arte, no meio de trabalho, no meio social, no desenvolvimento do país, o Nordeste ficou com as migalhas. E aí esse pouco que sobra para tanta gente, nós acabamos não se unindo, aprendemos isso. Então, para gente sair, é muito mais difícil, nós sentimos isso na pele. 

Você estava falando da questão da sua vivência anterior, no hip hop. Hoje o rap é um estilo que está fazendo bastante sucesso, é um estilo cada vez mais escutado. Como você vê também esse momento do rap, no Brasil e no geral?

Essa pergunta é bem inspiradora para mim, porque o rap é uma música que surgiu do movimento hip hop ali do Brooklyn, em Nova York, porque necessitava ter uma instituição política que falasse a língua da comunidade. E era uma música preta, no funk, e, com a linguagem afrofuturista, surgiu a musicalidade do rap, o movimento hip hop e sua visão, e isso se espalhou pra todo mundo, sendo a música mais tocada nas rádios e nos veículos independentes de comunicação. Eu enxergo isso como uma nova linguagem para que a gente entenda o que é o nosso rap, o que é o rap brasileiro. Nessa questão internacional, a gente vê que todo o mundo — na África tem a galera que faz um rap com as suas vivências, em vários países, tem o rap cubano que traz a periferia, os Orishas, você vê que o rap de determinados lugares que tem o seu toque especial da música popular que tem em cada lugar. O nosso rap é isso, é o nosso pagodão, é a linguagem da periferia hoje, falando no rap no contexto do baiano, né. Eu enxergo nessa forma. O Baco, em um momento que chegou e traz essa identidade na musicalidade dele. E a evolução do trap que está sendo muito importante para se entender essa sintetização, porque o rap veio lá desde o miami bass, que veio antes, aí veio o boombap, nos anos 90, depois os anos 200 e hoje está vivendo a era do trap. As celas do trap dialogam muito com as do pagodão, os tempos, é diálogo, cotidiano mesmo que a comunidade respira e como se comunica. O rap é isso. Então não consigo colocar essa distância entre as musicalidades populares e o rap está inserido no meio de todas essas linguagens populares. Essa consegue comunicar com todas essas linguagens populares que existem no mundo. Ele está presente como veículo de comunicação, está em Cuba com Orishas, tocando santeria com rap. A gente está aqui tocando a macumba com rap, os caras lá denominaram o jazz, o soul, a música preta que eles mais fazem no mundo e surgiu o rap, a linguagem falada. E aqui a gente consegue trazer o rap dentro da musicalidade que a gente tem. O rap é uma parada muito foda. Hoje ele conseguiu se estabelecer no mundo e, entre todas as linguagens populares que existem, ele está presente também, nesse processo de ressignificação. Nação Zumbi mesmo tem uma história muito louca comigo. Quando eu comecei a fazer som no Afrocidade, eu vinha da vivência do rap gringo, norte-americano, que vinha de fora para a gente. Participava de um coletivo de rap com uns amigos, e a nossa influência era essa, e ele acabou. Com o Afrocidade, eu entrei num outro universo. Eric, que é nosso diretor musical, vinha mostrando um outro leque. Só que, até pelo meu processo de insegurança — eu sou um homem preto, a gente tem esse processo —, passei por um início de incerteza. Eu ficava meio naquela: “Será que eu estou no caminho certo? Será que essa parada de misturar o rap com pagode, é isso?”. Até que eu assisti um documentário sobre Chico Science que rodou a minha chave. Lá atrás, ele já tinha essa visão. Antes de Nação Zumbi, eles tinham um grupo de rap. O que eles ouviam? Beastie Boys, toda aquela musicalidade que vinha de fora. E aí eles viram a necessidade de falar: “Velho, vamos criar o nosso rap?”. Como eu interpretei isso? Eles aí pegaram toda aquela musicalidade do coco, do maracatu, e surgiu o movimento mangue bit. Por isso que vem aquela ideia: antena parabólica surgindo da lama, que é o que a gente pega da nossa realidade aqui e vai levar para o mundo, não o que o mundo trás para a gente. Quando eu entendi isso, falei: “Velho, é isso! Meu rap é o pagodão, é o samba de roda, é a macumba que toca aqui.” Às vezes eu preciso dizer essa história, o que eu percorri pela minha vivência. É isso: o rap está presente em todas essas linguagens de música popular. E a nossa música regional e popular é isso, o pagodão, é a levada de percussão, os toques de candomblé. Na linguagem século 21, afrofuturismo, o rap consegue dialogar. Aquela parada cíclica: passado, presente e futuro. Não existe nada se não tiver esse ciclo. A existência humana está presente nele. O universo, a natureza.

Vocês tinham só um EP esse tempo todo de banda e estão fazendo um álbum. Como está sendo? Vocês estão em que fase? Para quando deve ser o disco? 

Está sendo inédito. Vai ser a partir daí é que a gente vai lançar o nosso primeiro disco mesmo. É aquela parada: “Somos o Afrocidade, é isso aí.” É afirmar mais aquilo que a gente é. O processo do EP, quando ele surgiu lá em 2016, a gente ganhou o edital Calendário das Artes da  Funceb. Naquele momento, era o essencial, o Afrocidade estava nascendo, o nosso som estava saindo mesmo. Então a gente não tinha como gravar um disco naquela época. O que a gente tinha para mostrar para o mundo era aquilo. De lá para cá, a gente amadureceu bastante musicalmente, nosso discurso, contexto, representatividade, afirmações de pertencimento, temos mais composições, coisas novas, nosso repertório aumentou, o nosso show, a dinâmica, tudo isso veio amadurecendo. A gente se sente muito mais forte. Hoje, é o momento de fato de nós gravarmos esse disco. Estamos com composições que não tínhamos gravado mas que tocamos no Showlivre, que estão no Spotify, alguns desses conteúdos estão no disco, com outras coisas inéditas e aí vai ficar de surpresa mesmo. Mas está vindo com aquele carinho, aquele tesão de querer colocar mesmo o nosso primeiro filho no mundo mundo e reafirmar. Quem vai vir na produção com a gente, a gente tem a honra de quem vai estar produzindo e dirigindo o nosso disco é o Mahal Pita, que era do BaianaSystem, Tive algumas vivências com ele há uns tempos, ouvindo bastante o que ele tem para dizer, foi muito enriquecedor, de ele trazer referências que a gente vai poder usar pro disco, e aí também levar referências para entender qual é o processo. Essa troca que ele teve comigo, vai ter com várias pessoas do grupo, para entender o que pulsa na vivência de cada um musicalmente, o que referenciou cada artista. Porque cada músico do Afrocidade traz consigo uma verdade, e essas verdades se multiplicam. Nanã presidiu a verdade. O mundo só é uma realidade infinitas verdades, acredito que cada um tenha a sua. É cíclica assim, não é parada imposta pelo eurocentrismo, de que existe só uma verdade. A gente está vindo justamente para mostrar isso com a nossa realidade, com a nossa música. Ele trouxe referências muito grandes, de a gente pode voltar para a África, voltar de onde a gente veio para poder entender todo esse processo de dentro para fora, esse processo intimista de humanidade. A gente tem uma vivência muito grande com o samba reggae na nossa música, aquela linguagem urbana, dele surgiu o pagodão que a gente faz, que é o groove arrastado. É uma evolução sintetizada disso, e esses ritmos foram os que vieram dos negros da época da Revolta dos Malês, negros muçulmanos. Então a gente vai passar por esse processo de profundidade mesmo, histórico, que é tentar trazer o que é o Afrocidade agora. Estamos em pré-produção, já gravamos umas vozes-guia em algumas faixas, coisas assim.

E como é se apresentar no Rio, para vocês?

A gente está ansiosão, primeira vez aí no Rio, na Madrugada no Centro. A gente está daquele jeito!

Vai lá:
Madrugada no Centro
Quando: Sábado, 23 de novembro, das 22h às 4h
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Primeiro de Março, 66, Centro
Quanto: R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira) ]]> 0 ‘O afrofuturismo é também uma atitude política’, diz Jonathan Ferr http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/16/o-afrofuturismo-e-tambem-uma-atitude-politica-diz-jonathan-ferr/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/16/o-afrofuturismo-e-tambem-uma-atitude-politica-diz-jonathan-ferr/#respond Sat, 16 Nov 2019 11:30:37 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1201

Jonathan Ferr faz show gratuito domingo. Foto: reprodução

Desde que lançou o disco “Trilogia do amor”, em abril deste ano, o pianista Jonathan Ferr tem sido presença cada vez mais frequente em festivais e eventos importantes pelo país. O maior deles, sem dúvida, foi o Rock in Rio, onde se apresentou no Espaço Favela. Neste domingo, ele faz show na Praça do Ó, na Barra, como parte do evento de skate e cultura urbana Oi STU Open, ao lado de DJ Tamenpi, Black Alien e DJ Saddam.

Ferr, de 32 anos, aposta na mistura do jazz com estilos como o hip hop e o R&B. Sua ideia é levar o jazz, que muitas vezes seus amigos chamavam de “música de dentista”, para cada vez mais perto do povo. Nascido no Morro da Congonha, em Madureira, ele enfrentou muitos obstáculos até conseguir ter uma carreira para chamar de sua. “Escolher tocar piano, para mim, que vim da periferia, foi um desafio que eu trouxe para a minha vida. Hoje eu me sinto realizado, pois outros jovens me escrevem, ou falam comigo no show, dizendo que eu sou uma referência para eles”, comemora o artista.

Ele é considerado um dos atuais expoentes brasileiros do afrofuturismo, estética que combina elementos de ficção científica, novas tecnologias e ancestralidade negra. Na música, um dos principais nomes foi o pianista e compositor norte-americano Sun Ra (1914-1993), que misturava em seu trabalho referências à cultura africana antiga, sobretudo do Egito, e a vanguarda da era espacial. Este ano, por sinal, Jonathan Ferr participou de um encontro com a Sun Ra Arkestra, banda que acompanhava o artista. “Para mim, o afrofuturismo, mais do que uma estética visual, filosófica, é também uma atitude política, que visa uma unificação e emancipação do pensamento negro, colocando o negro novamente no seu lugar de destaque, como protagonista de sua própria história”, define.

Você cresceu em Madureira, um bairro com uma história que se mistura com a do samba. O que ouvia?
Como fui criado dendro de uma família evangélica, eu ouvia muita música gospel. Meus pais tinham muitos vinis em casa, de bandas e corais, o que me trouxe uma riqueza e diversidade musical. Já na adolescência, me apaixonei pelo rock e passei boa parte deste período tocando em bandas de rock, curiosamente como baixista e guitarrista, apesar de já tocar piano. No entanto, por conta dos vizinhos, eu acabava ouvindo muito funk e hip hop.

Como surgiu seu interesse pelo jazz?
Acredito que tenha sido de uma forma gradual, já que eu me lembro, de quando eu era criança, parar nos sábados à noite, com meus pais, para assistir a um programa chamado “Pianíssimo” (de Pedrinho Mattar, exibido pela Rede Vida, emissora católica), cuja maioria do repertório do apresentador, que tocava piano, era jazz.  Então, acredito que meu interesse tenha despertado nesse momento. Mais conscientemente, conheci o jazz aos 18 anos, quando um professor de música me apresentou o disco “A Love Supreme”, de John Coltrane. Após isso, minha escuta mudou para sempre.

O piano no Brasil é um instrumento elitizado. Além disso, temos pouco destaque para os artistas negros do do instrumento: apesar de termos grandes nomes, muitos ainda são pouco conhecidos do grande público, como o próprio Moacir Santos (1926-2006), que é uma grande referência para muitos artistas. Que barreiras enfrentou (ou enfrenta) por ter escolhido o piano?
A primeira dificuldade quando se escolhe tocar piano é no valor que se paga por uma aula de piano, pois não é acessível para quem não tem recursos financeiros. Sem contar o próprio instrumento, que no Brasil ainda é caro para a maioria. Escolher tocar piano, para mim, que vim da periferia, foi um desafio que eu trouxe para a minha vida. Hoje eu me sinto realizado, pois outros jovens me escrevem, ou falam comigo no show, dizendo que eu sou uma referência para eles. Isso, para mim, é a melhor recompensa que o meu trabalho pode me dar.

Em que momento percebeu que o tipo de som que queria fazer era o jazz urbano? Como chegou a ele?
Quando comecei a pensar nesse som, eu tinha 24 anos. Eu queria que a minha geração também ouvisse jazz, porém, toda vez que eu mencionava o tipo de som que eu ouvia, achavam que era música antiga e diziam: “Isso é música do meu avô”, “Isso é música de dentista” (risos). Daí resolvi, de forma intuitiva, juntar outras linguagens que eu também gostava, como hip hop, música eletrônica, neo soul, e até um pouco de rock. Sempre pensei na minha música como um som que atravessasse a cidade, da Zona Sul à Zona Norte e da Zona Oeste à Baixada. Assim nasceu a ideia do jazz urbano.

Como conheceu o afrofuturismo? O que acha da expressão dessa estética aqui no Brasil?
A primeira vez que eu ouvi falar sobre afrofuturismo foi em 2016. Comecei, então, a pesquisar do que se tratava esse tema e quem eram os artistas que representavam essa estética. E, claro, como homem negro, me identifiquei muito rápido. Comecei a ler assiduamente tudo que orbitava esse assunto. Até que cheguei a duas grandes referências para mim, que foram  Sun Ra e Kamasi Washington. Este ano tive a oportunidade de abrir o show do Kamasi Washington e conhecer todo o pessoal da Sun Ra Arkestra, num encontro promovido pelo Sesc Pompeia. O meu álbum “Trilogia do amor” nasceu dentro dessa atmosfera de estudo, leituras e pesquisas, que me ajudou a ter uma consciência ancestral ainda maior e me fez gerar o meu filme afrofuturista “A jornada”. Para mim, o afrofuturismo mais do que uma estética visual, filosófica, é também uma atitude política, que visa uma unificação e emancipação do pensamento negro, colocando o negro novamente no seu lugar de destaque, como protagonista de sua própria história. O afrofuturismo é um dos muitos pensamentos negros que nos possibilitam a noção de pertencimento e que nos devolvem o lugar de fala.

E como foi a experiência de tocar no Rock in Rio? O que achou das críticas ao Espaço Favela?
Tocar no Rock in Rio foi uma ótima experiência. Foi interessante ver a engrenagem por traz de um evento tão gigante, e ser o único artista de jazz/instrumental do festival. Sobre o Espaço Favela, é sempre importante problematizar as coisas. Quer dizer, tudo é discutível e deve ser debatido. No entanto, acredito que tenha havido interpretações distorcidas do Espaço Favela por falta de conhecimento de quem não entendeu a proposta. Ao mesmo tempo, foi uma importante plataforma para muitos artistas ampliarem sua arte, o que para mim é o mais relevante.  Inclusive, muitos artistas usaram o espaço como protesto para falar de temas relevantes como a violência policial contra a favela. No meu show, por exemplo, eu trouxe à reflexão sobre a morte prematura da juventude negra, que quase sempre acontece de forma violenta dentro de um regime repressor.

Você volta e meia se apresenta em eventos gratuitos, como foi no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, por exemplo, e como vai ser agora no Oi STU Open. Como é a experiência de tocar para os públicos desses shows abertos?
É uma experiência muito boa, pois conversa diretamente com a filosofia da minha música, que é tornar o jazz acessível de ponta a ponta. Gosto de falar que a minha música é “exclusiva para todos”. Eventos gratuitos são importantes para democratizar o acesso à arte e a promoção da diversidade artística. Este ano toquei em três eventos gratuitos e que para mim foram marcantes: o Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, o Marien Calixte Jazz Music Festival e o Jazz Out Festival. Em todos eles eu fui abraçado pelo público que não conhecia o meu trabalho e que talvez, em outras circunstâncias, não conseguiria estar ali. Sobre o STU, que vai acontecer neste domingo, a expectativa está muito grande.  Primeiro, porque sempre fui fã de skate, e a final do campeonato de skate onde estarão os melhores do mundo. Depois, porque sou fã do DJ Tamenpi, DJ Saddam e Black Alien, e estar no mesmo line up que esses gigantes é a prova que o meu trabalho está no caminho certo.

Você lançou um curta junto do seu álbum. Por que quis apostar no formato? Acha que a música hoje é indissociável da imagem?
Sim. Acho que a música é indissociável da imagem. Sob esse ponto de vista, estamos na geração YouTube. Assim, a imagem torna-se ferramenta para ampliação da experiência sensorial do ouvinte. Quando idealizei o álbum, enquanto trilogia, eu pensava numa extensão audiovisual afrofuturista. Comecei a ideia de forma embrionária, com algo relativamente simples. Logo, ela foi amadurecendo e ampliando até onde eu queria chegar. Convidei a roteirista Kesia Pacheco para desenvolver o argumento que eu tinha, depois a produtora de cinema Erika Cândido e a produtora-executiva Tânia Artur, que me ajudaram a realizar esse trabalho. Assim, juntamos 20 pessoas, majoritariamente negras, para realizar esse curta, em que assinei pela primeira vez a direção. Como resultado, fomos aceitos em todos os festivais de cinema em que formos inscritos, concorremos a melhor filme, melhor trilha (“Luv is the Way”, música do álbum) e ganhamos prêmio de melhor figurino.

Tem algum novo lançamento em vista?
Em primeira mão, informo que vou lançar uma faixa em colaboração com dois rappers que admiro muito e que convidei para participar de uma track minha. Vai ser minha primeira love song, com participação de Choice e Nill, O Adotado. Estamos em processo de mixagem e vai vir um trabalho bem bonito ainda este ano.

Vai lá:
STU Open: DJ Tamenpi, Jonathan Ferr, Black Alien e DJ Saddam
Quando: Domingo, a partir das 17h30
Onde: Praça do Ó, Barra da Tijuca
Quanto: Grátis

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‘É um desafio viver sendo mulher negra’, diz Drik Barbosa http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/08/e-um-desafio-viver-sendo-mulher-negra-diz-drik-barbosa/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/08/e-um-desafio-viver-sendo-mulher-negra-diz-drik-barbosa/#respond Fri, 08 Nov 2019 13:27:48 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1195

Drik Barbosa traz o novo show ao Circo. Foto: Bruno Trindade

Depois de lançar no ano passado o EP “Espelho”, a rapper paulista Drik Barbosa lançou no mês passado seu primeiro álbum, que leva seu nome e que ela apresenta pela primeira vez no Rio este sábado, no Circo Voador. Na sequência, quem se apresenta é Rael.

Artista da gravadora de Emicida, a Laboratório Fantasma, Drik compõe desde os 14 anos e chamou atenção do grande público ao participar da música “Mandume”, de Emicida, em 2015, espécie de precursora das cyphers que se tornariam moda por aqui logo em seguida. Desde o mesmo ano ela integra também o coletivo Rimas & Melodias, que conta ainda com Alt Niss, Karol de Souza, Mayra Maldjian, Stefanie Roberta, Tássia Reis e Tatiana Bispo.

Para ela, houve um avanço no espaço para as mulheres no rap nos últimos anos, mas ainda há um longo caminho a ser trilhado. Aliás, não só nesse estilo musical, mas em tudo. “É como se a mulher negra sempre tivesse que provar várias vezes mais que ela é capaz e que ela é talentosa no que faz”, analisa ela.

O disco tem pop, R&B, funk 150BPM, pagode baiano… Como você chegou a esses outros estilos musicais?

No EP Espelho dá para sentir mais influência de rap e R&B. No meu disco de estreia, eu queria manter essa marca, mas também colocar outros sons que fazem parte da minha vida. Eu sempre ouvi muita coisa dentro de casa. O disco leva o meu nome e ele precisava dar amostras sonoras de mim: desde a maneira como me divirto a maneira como luto pelo que acredito.

Aliás, o que você cresceu ouvindo? E o que mais costuma escutar hoje?

Posso dizer que uma das lembranças da minha infância é a do meu tio ouvindo rap. Eu devia ter uns cinco, seis anos na época. Parte da nossa família morava em um vila, então tínhamos esse contato. Lembro daquela batida. Aos 15, eu conheci a batalha de MCs da Santa Cruz, de onde saíram nomes como Emicida e Rashid. Foi ali que entendi que queria fazer isso para a vida. A presença masculina sempre foi maior nesse meio e ainda é… Eu ouvia Sabotage e outros caras, por exemplo. Depois fui atrás de ver quem eram as minas do rolê. Conheci Dina Di, Negra Li, Sharylaine… E tenho outras inspirações. A Beyoncé é umas das minha maiores inspirações como artista. Também Erykah Badu, The Fugees…

Você já teve um EP e lançou há um mês um álbum. Qual a importância de se lançar um trabalho nesse formato em tempos de streaming e singles?

Sem pensar no mercado, acho que, antes de mais nada, é a realização de um sonho. Sempre quis lançar um disco que me apresentasse, que mostrasse quem eu sou, o que penso, o que gosto. Mas é muito difícil, inclusive financeiramente falando. O disco faz a nossa verdade chegar em diversos lugares. O disco “Drik Barbosa” tem a voz de uma mulher negra falando de amor, mas também de luta, de representatividade, de liberdade. É muito importante amarrar tudo em um conceito. E o disco representa isso.

Hoje temos mais visibilidade para as mulheres negras no rap. Como andam coisas nesse sentido? Sente que as mulheres têm mais espaço na cena?

Uma das músicas do disco é um trap, “Rosas”. Fiz ela justamente pra questionar o machismo no meio, que ainda é muito forte. Entra nas playlists de trap e vê quantas músicas de minas você vai encontrar…  Não é que não tem mulheres fazendo. Existem músicas boas, mas são ignoradas. Eu integro o Rimas & Melodias, vê quanta mulher maravilhosa tem ali fazendo o seu corre, com trabalhos muito obrigada bons. Acho que tem um progresso, mas também um longo caminho a ser trilhado. Tive a preocupação de me cercar por muitas mulheres nesse disco.  

E como é o retorno das fãs? Sente que meninas e mulheres se sentem incentivadas a fazer rap também pelo destaque que seu trabalho vem ganhando?

Olha, tem sido muito emocionante o retorno do público. Fiz um show de lançamento na Casa Natura, em São Paulo, e vi tantas pessoas, jovens, mulheres negras cantando as músicas e se sentindo representadas. Isso é valioso demais! Faz tudo valer a pena!

Os artistas negros também vêm se destacando na atual cena independente (como Luedji Luna, Attooxxa, Rincon que participam do seu álbum). Como vê o atual momento?

Luedji Luna, Attooxxa, Rincon… Tem muita gente incrível fazendo música. São artistas que vivem pela arte e amam de produzir arte. Fico feliz com reconhecimento, porque sabemos a dificuldade que é fazer arte no nosso país, ainda mais quando se é negro, as barreiras são muito maiores para nós.

Aliás, como surgiram as participações?

As participações surgiram de forma muito natural, como se as músicas pedissem aquelas pessoas, que, claro, são nomes que eu admiro muito. Em “Quem tem joga”, por exemplo, fiquei pensando quem seria legal pra agregar num som (um funk) falando do poder da expressão de ser quem somos, como nos vestimos, como a gente se expressa no mundo… Karol Conka e Gloria Groove são perfeitas pra representar essa mensagem. Ter a Luedji e a R.A.E cantando sobre liberdade feminina também. Tem o Emicida e o Rael que eu sou fã e fazem parte da minha história, além do Attooxxa, que traz esse pagodão que eu amo.

Acredita que ser apresentada como uma aposta do Emicida ajudou a abrir caminhos para você? Qual a importância desse aval?

Antes de mais nada, eu sou uma grande fã do Emicida. Eu ia em shows dele, acompanhava tudo. O Fióti via tanto a gente na plateia que até cumprimentava já… Desde os 15 anos eu já tava compondo, cantando com outros rappers e comecei a compartilhar meus trabalhos na internet. Mandava link de MySpace para eles darem uma olhada (risos). Hoje, sou uma artista da Laboratório Fantasma e tem hora que ainda não acredito… Sou muito grata por eles acreditarem no meu trabalho. Além de tudo, o Emicida me deu duas músicas nesse disco que são verdadeiros presentes.

Quais os principais desafios de ser uma mulher negra fazendo música no Brasil hoje? E as alegrias?

Na música de abertura do disco, “Herança”, digo que somos “mil vezes mais forte, mil vezes mais alvo, mil vezes mais ágil”. É como se a mulher negra sempre tivesse que provar várias vezes mais que ela é capaz e que ela é talentosa no que faz. É um desafio viver. Mas a alegria é poder colocar esse discurso na minha música e ver minha irmã mais nova, por exemplo, com orgulho de ser quem ela é, da cor, do cabelo que ela tem.

Vai lá:
Drik Barbosa + Rael
Quando: Sábado, 9 de novembro, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/n° – Lapa
Quanto: R$ 50

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‘Quero o negro em todas as áreas’, diz Chico César http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/01/quero-o-negro-em-todas-as-areas-diz-chico-cesar/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/01/quero-o-negro-em-todas-as-areas-diz-chico-cesar/#respond Fri, 01 Nov 2019 19:47:47 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1187  

Chico César lança disco novo. Foto: José de Holanda/divulgação

Depois de lançar em setembro seu disco mais recente, “O amor é um ato revolucionário”, Chico César traz o show ao Rio neste sábado, no  Circo Voador, com noite que conta com abertura de Mariana Aydar. Com 13 faixas assinadas pelo artista sozinho, o disco alterna canções politizadas com músicas de amor, como “Like” e “History”, que falam de afeto em tempos de redes sociais. Para ele, é importante não perder a ternura. “É bem isso: fazer tudo com poesia”, resume.

O trabalho foi quase todo produzido por André Kbelo Sangiacomo e do próprio Chico César, que assina a direção com Helinho Medeiros, pianista de seu grupo. As exceções são “History” (produzida e arranjada por Márcio Arantes), “Pedrada” (produzida e arranjada por Eduardo Bid) e “Eu quero quebrar”, que, além da versão original, com o artista e sua banda, ganhou uma versão-bônus produzida por André Abujamra.

Ele conta que foi desconvidado de um programa de TV por causa da música “Pedrada”, teve seu nome vetado na Virada Cultural de São Paulo durante vários anos e que volta e meia é atacado por perfis de direita nas redes sociais. “Isso se dá não apenas por causa das canções, mas também por causa da minha postura de apoio aos movimentos populares”, analisa Chico César.

Acha que um artista tem que refletir seu tempo?

Qualquer pessoa que queira ter o mínimo controle ou pelo menos compreensão sobre seu tempo precisa refletir sobre ele.

Estamos vivendo uma época de muita agressividade contra quem expõe certas posições políticas. Aliás, a arte e os artistas em geral vêm sendo muito atacados. Sofreu algo por conta do conteúdo político das canções do novo disco?

Sofri censura num programa televisivo para o qual fui convidado e depois desconvidado por causa da música “Pedrada”, tive meu nome vetado na Virada Cultural de São Paulo durante vários anos, tanto na capital quanto na Virada estadual, perfis de direita de vez em quando me atacam. Isso se dá não apenas por causa das canções, mas também por causa da minha postura de apoio aos movimentos populares.

Seu disco fala em tacar fogo nos fascistas, mas também em likes, em redes sociais… Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás (risos)?

É bem isso: fazer tudo com poesia.

Hoje se fala muito sobre apropriação cultural e apagamento de personalidades negras na música brasileira — como no caso do samba, do axé etc. Como você vê esse processo ao longo da nossa música? E como analisa o cenário hoje?

Eu não tenho uma reflexão aprofundada sobre isso, honestamente falando. Meus ídolos são negros: Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Vale. Sempre vi os negros ocupando espaços na área artística e nos esportes. Sinto falta de vê-los nas redações de jornais e TV, ocupando cargos de direção de grandes empresas, assumindo ministérios da área econômica e a presidência da república. Quero que nossa contribuição possa ser dada em todas as áreas.

Hoje também olhamos para atrás e vemos letras de música que consideramos inadequadas, por vezes preconceituosas, racistas, homofóbicas etc. O seu trabalho sempre teve uma carga de politização. Mas sentiu alguma mudança na sua forma de compor, nos assuntos que atraem seu interesse, que te inspiram?

Eu ainda canto “Atirei o pau no gato” como antigamente e também “paraíba masculina mulher macho, sim, senhor” como foi composta por Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga. Penso que tudo é contexto. Sempre me interesso por tudo, todos os temas, não é à toa que estava cantando “já fui mulher, eu sei” em meu primeiro disco, gravado 25 anos atrás.

Acredita que o amor vai fazer a revolução que vai salvar o Brasil?

O Brasil nunca será salvo, não é disso que se trata. O amor vai abrir os olhos e a soma das pessoas e da sociedade para a necessidade de inclusão social, de estado laico, de respeito às questões de gênero. O amor vai incendiar os corações e as cidades até que viver seja prazeroso para todos, ou quase todos.

Vai lá:
Chico César
Quando: Sábado, 2 de novembro, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 50 (meia-entrada, 2º lote) a R$ 120 (inteira, 3º lote)

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