Rio Adentro http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua. Thu, 17 Oct 2019 20:32:20 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Aos 75 anos, Lia de Itamaracá lança livro de memórias e novo disco http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/17/aos-75-anos-lia-de-itamaraca-lanca-livro-de-memorias-e-novo-disco/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/17/aos-75-anos-lia-de-itamaraca-lanca-livro-de-memorias-e-novo-disco/#respond Thu, 17 Oct 2019 17:22:35 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1168

Lia de Itamaracá se apresenta na Virada Sustentável e na FLUP. Foto: divulgação

Maria Madalena Correia do Nascimento começou a cantar música quando tinha 12 anos, na beira da Praia de Jaguaribe, na Ilha de Itamaracá, em Recife.  Hoje, aos 75 anos, é o maior símbolo da ciranda, ritmo que ajuda a preservar e a popularizar, trazendo em seu nome artístico a terra onde nasceu e cresceu. Declarada Patrimônio Vivo de Pernambuco, Lia de Itamaracá chega ao Rio hoje para uma programação que começa com a abertura da Virada Sustentável, ao lado do Jongo da Serrinha, encontro que promete ser memorável, em noite que ainda conta com As Bahias e a Cozinha Mineira. “Rio de Janeiro é minha praia. Gosto muito da cidade, adoro. Teve uma época que fiquei no Rio uns dois ou três meses. É uma maravilha”, elogia ela.

O ano de 2019 tem sido bastante movimentado na carreira da artista. Em janeiro, foi lançado o livro de memórias ‘Lia de Itamaracá: 75 anos cirandando com resistência, sorrisos e simplicidade’, feito a partir do da dissertação de mestrado do jornalista pernambucano Marcelo Henrique Andrade. “Ele é filho de Itamaracá, se interessou por fazer esse livro, eu também me interessei em passar a minha história”, conta Lia. “É mais uma realização, para mim está sendo muito importante esse livro. Foi emocionante demais lembrar dos momentos da minha vida”, diz.

Em agosto, ela recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Também participa de ‘Bacurau’, o elogiado filme de Kleber Mendonça Filho. “Gostei de fazer. Já tinha feito o (curta-metragem) ‘Recife frio’ (2009) com o Kleber, e agora o ‘Bacurau’. Se Deus permitir, quero fazer mais cinema, sim”, revela a cantora, que participou de ainda de ‘Sangue azul’ (2o15), de Lírio Ferreira, e foi tema dos documentários ‘Eu sou Lia’ (2003), de Karen Akerman, ‘O mar de Lia’ (2010), de Hanna Godoy, e o curta ‘Encantada’ (2015), entre outros filmes.

Em breve, ela também lança seu quarto disco, ‘Ciranda sem fim’, produzido por DJ Dolores e e a produtora cultural Ana Garcia. O disco chega às plataformas digitais no dia 8 de novembro, e traz Lia cantando em 11 faixas que vão além da ciranda. Ela surge cantando “O relógio”, bolero que em sua versão em português foi eternizado por Altemar Dutra, e “Apenas um trago”, do cantor e compositor José Ribeiro, sucesso na década de 70.

“Eu gostei de fazer, mostrei um outro lado. É um pouquinho diferente, né? Nunca cantei bolero, aí cantar bolero, cantar não sei o quê, música dos outros, é muito difícil. Você não acha? É muito difícil sair da sua praia para a dos outros. Mas está sendo bom. Espero que o público goste, que o Brasil goste”, diz a artista, que frisa: “Eu não posso deixar de gravar ciranda nem posso deixar de ser cirandeira. Minha praia é a ciranda.”

A faixa-título do álbum foi uma homenagem do cantor e compositor Lucio Sanfilippo a Lia. Ela também gravou “Falta de silêncio”, de Alessandra Leão, “Peixe mulher”, de Ava Rocha, e “Desde menina”, composição de Chico César feita para ela e que conta com a participação do artista, entre outras. Lia tem três discos anteriores: ‘Rainha da Ciranda’ (1977), ‘Eu Sou Lia’ (2000) e ‘Ciranda de ritmos’ (2010).

Prestes a começar a nova turnê, que abre dia 16 no festival Coquetel Molotov, em Recife, ela diz se sente feliz com sua trajetória. “Eu me sinto realizada, graças a Deus. É o dom que Deus me deu, que eu quis fazer, que gosto de fazer, que estou fazendo”, explica. Aposentada como merendeira de uma escola, ofício que exerceu por 28 anos, ela diz que gostaria de ver sua música mais valorizada em sua própria terra. “Para desempenhar meu trabalho, preciso sair de Recife para o exterior. Saio daqui para o lado de lá e sou bem-recebida”, lamenta.

No Rio, ela ainda participa do lançamento do livro sobre sua história, que acontece sexta no Rio Scenarium, com um bate-papo com ela e o autor, Marcelo Henrique Andrade, sessão de autógrafos e show das Filhas de Baracho, liderado por Dulce e Severina, cantoras de coco de roda que fazem parte da banda de Lia.

No domingo, às 21h30, ela do encerramento da FLUP — Feira Literária das Periferias, comandando uma ciranda nos pilotis do Museu de Arte do Rio (MAR). A ideia da atividade, chamada ‘Ninguém solta a mão de ninguém’, é que no final todos os participantes do evento abracem o museu.

Vai lá:
Virada Sustentável — Lia do Itamaracá e Jongo da Serrinha
Quando: Quinta-feira, 17 de outubro, às 19h
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: 1kg de alimento não perecível

Lançamento do livro ‘Lia de Itamaracá: 75 anos cirandando com resistência, sorrisos e simplicidade’
Quando: Sexta-feira, 18 de outubro, às 19h30
Onde: Rio Scenarium. Rua do Lavradio, 20 – Centro
Quanto: R$ 50
FLUPP — Feira Literária das Periferias
Quando: Domingo, 20 de outubro, às 21h30
Onde: Museu de Arte do Rio. Praça Mauá, 5 – Centro
Quanto: Grátis
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‘Nós, minorias, sofremos ataques diariamente’, diz Romero Ferro http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/11/nos-minorias-sofremos-ataques-diariamente-diz-romero-ferro/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/11/nos-minorias-sofremos-ataques-diariamente-diz-romero-ferro/#respond Fri, 11 Oct 2019 11:00:05 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1157

Romero Ferro apresenta o show de seu segundo disco. Foto: divulgação/Lana Pinho

No primeiro disco, ‘Arsênico’, de 2016, Romero Ferro apostou no pop dos anos 80 com influências de funk, rock e R&B. No segundo trabalho, decidiu dar uma guinada em sua sonoridade: ao lado de ao Patrick Tor4 e Leo D. (tecladista do Mundo Livre S.A.), diretor artístico e produtor do álbum, respectivamente, no recém-lançado ‘Ferro’ ele aposta na mistura de brega e new wave, que prefere chamar de tropical wave.

Um dos destaques da música pernambucana independente hoje, ele conta que o processo de composição do trabalho foi também o processo pelo qual se assumiu gay por completo. “Eu consegui me entender muito mais. Nunca achei que isso poderia acontecer, eu acreditava que eu já estava muito bem-resolvido, que a minha cabeça já estava muito OK (risos)”, admite ele, atração da primeira edição carioca do festival 5 Bandas, nascido em São Paulo, que ainda tem Tantão e os Fita, Àiyé (projeto de Larissa Conforto, da banda Ventre), Leto e John Film.

Ele também defende que é “de suma importância” que artistas LGBT se posicionem a respeito disso, mas que cada um vai entender como abordar a questão. “Porque nós estamos num momento em que todo mundo está cobrando muito coisas e posicionamentos dos outros, quando na verdade eu acho que a real é você se autoconhecer e cobrar esses posicionamentos de você. Quando você faz isso, deixa o outro em paz e se melhora”, argumenta.

Você lançou um disco há pouco tempo. Como está sendo a recepção ao álbum novo, que marca uma mudança no seu som — embora antes você já tenha lançado singles que davam uma pista do que vinha por aí. Como está sendo essa nova fase?

Eu estou num momento bem feliz e bem realizado com esse processo todo. Lançar um disco — esse é o meu segundo — é sempre um processo que demanda muito esforço psicológico, físico, financeiro. Você precisa ficar parado de fato para poder criar, para poder pensar em todos os detalhes da melhor forma possível. Eu adoro esse processo de criar mesmo. Porque, agora que o disco foi feito, eu basicamente vou repercutir, o que eu já lancei, já escrevi, já compus. E eu estou tendo uma aceitação muito positiva nesse trabalho como um todo. Diferentemente do álbum passado, que eu lancei todo de uma vez só, nesse trabalho novo a gente resolveu ir soltando pílulas do disco do final do ano passado para cá, porque aí eu já estava dando de fato um indicativo do que eu ia fazer, de como estava a minha cabeça e tal, e também para sentir o público. Lancei o primeiro single, depois o segundo, a receptividade foi muito positiva. Aí eu soltei o terceiro single e mergulhei nesse universo da música tropical misturada com new wave, misturada com a música pop. Tem sido divertidíssimo para mim fazer música dessa forma, de uma maneira despretensiosa, pensando em divertir as pessoas, em fazer com que elas dancem e ao mesmo tempo pensem. Para mim foi um desafio, está sendo, mas eu me sinto alimentado em perceber que o feedback está sendo real, honesto, que o público está se identificando, está gostando, que o meu trabalho está crescendo muito por conta desse esquenta que eu fiz para o disco e do álbum, que chegou agora, há exatamente um mês. Só estou pedindo ao universo que as coisas continuem caminhando nesse fluxo, porque eu tenho a certeza de que o final deste ano e o ano que vem serão muito frutíferos e de muito trabalho.

Estamos num momento em que a cena pernambucana independente está chamando atenção, tem muita coisa sendo vista pelo resto do país. Mas uma boa parte dessa cena tem um estilo diferente do seu, mais calcado no violão. Você está indo por um caminho diferente, com uma sonoridade particular. Como você vê esse momento da música pernambucana independente? E como se vê trilhando um caminho à parte?

Eu acho a música pernambucana muito rica. É um estado muito plural de sonoridade. Não sei se você conhece Pernambuco, se já foi em Recife. Você vai encontrar artistas fazendo todo tipo de música que você imaginar, e fazendo isso bem. Desde as músicas voltadas para os ritmos regionais de lá, mas muitas não voltadas para eles. A gente tem uma gama de artistas muito importantes. Quando eu comecei a fazer esse projeto, eu sabia que ele era diferente do que se fazia lá e dos nomes que estavam passando a despontar para fora do estado. Isso para mim foi instigante, porque eu sou sempre muito seduzido pelas coisas novas — eu sou ariano, então tudo que é novo me seduz, e tudo que é desafiador também — e, ao mesmo tempo, eu fiquei um pouco aflito. Porque, quando eu iniciei o processo de composição desse álbum, eu sentei com o Patrick Tor4, que fez a direção artística do trabalho junto comigo, e eu estava em dúvida se eu ia fazer um disco só de brega pernambucano, só de new wave — foi inclusive ideia do Patrick misturar tudo num álbum só. E a gente não tinha nenhuma referência exata de ninguém que tivesse feito ou que estivesse fazendo aquilo nesse período. A gente ficou um pouco aflito, mas ao mesmo tempo se sentiu desafiado por isso. Inclusive foi um dos motivos que nos fizeram soltar o trabalho aos poucos. Porque, se a gente tivesse lançado o primeiro single e ele não tivesse dado certo como deu, a gente provavelmente teria pensado em levar o resto do disco para um outro lado. Eu fico feliz em estar fazendo isso, estar me colocando nesse processo. Acho que num primeiro momento talvez eu não tenha sido completamente compreendido na cena do meu próprio estado, mas logo no segundo instante eu consegui impor o que eu estava querendo fazer de uma forma verdadeira. E acho que todo trabalho no qual você bota verdade transcende. Independentemente se está numa cena que já está rolando ou não. E foi o que aconteceu e está acontecendo comigo. Hoje a artista que faz uma sonoridade mais próxima do que eu faço de Pernambuco é Duda (Beat), mas mesmo assim ainda são sons diferentes. Porém, a gente brinca com essa coisa da música tropical, temos elementos da música brega no nosso trabalho — eu tenho muito mais o brega no meu disco como um todo. Para mim, está sendo um desafio bom. E, graças a Deus, como eu disse, está tendo um feedback muito positivo, e estou completamente mergulhado nisso.

O disco fala muito de sexualidade, de amor, dor de cotovelo, todo esse universo afetivo e sexual. Como é falar abertamente de amor e sexo gays, principalmente neste momento que a gente está vivendo no Brasil?

A música sempre me ajudou a superar os meus medos e minhas inseguranças. Quando eu lancei o ‘Arsênico’, em 2016, eu já sabia da minha sexualidade, já me entendia mais ou menos com relação a tudo nesse meio LGBTA+, mas eu não falava sobre isso abertamente nem em público. Porque, primeiro eu não me sentia seguro o suficiente para falar sobre isso e para levantar uma bandeira, tinha medo de levantar uma bandeira e parecer que eu estava sendo oportunista ou estava querendo calcar o meu trabalho sobre isso. E a música me ajudou a encontrar um caminho de falar sobre isso do meu jeito, de uma forma bem Romero de dizer. O processo de composição desse disco foi também foi o processo em que me assumi por completo, externamente, para todas as pessoas que de repente tinham alguma dúvida ou que sabiam e não queriam comentar. Eu conversei com a minha família e disse que não ia mais tratar isso como se fosse uma coisa errada — porque não é, nunca foi, mas eu sou do interior de Pernambuco e eu ouvi isso a minha infância inteira: que era pecado ser homossexual, que era pecado você falar sobre sexo explicitamente, que era pecado ir de encontro a pessoas mais velhas e religião e tal… E a música me ajudou a pular todos esses obstáculos, abrir a minha cabeça e entender que o sentido da vida vai muito além de todas essas coisas que tinham me dito quando eu era pequeno e quando eu era jovem. Tanto que a capa do disco é um coração de ferro. Por conta do meu nome, mas também dessa ideia de que eu me protegi do mundo por achar que eu tinha que me fechar, que eu não precisava dividir, que eu não precisava falar sobre isso. E nesse disco eu faço o inverso do que eu fiz a minha vida inteira, que foi me me proteger. Nesse álbum eu me abro até para possíveis ataques ou qualquer coisa negativa, mas me abro, porque hoje eu sinto que a minha voz precisa existir nesse meio, porque tem um público que está junto comigo e que eu para esse público e esse público fala para mim, então é uma troca diária, é uma troca de uma força, é uma troca de energia. Eu tinha que fazer isso. E a música me ajudou a chegar e a encontrar esse ponto para abordar todas essas questões que estão nesse disco. Que, ao mesmo tempo, são pontos muito em comum a todas as pessoas: sofrimento, desilusão amorosa, sexualidade, sociedade, política, autoaceitação, mal aceitação, medo, ego. Todas essas coisas que o meu álbum trata são coisas que você viveu e vive, eu vivo e vivi o tempo inteiro. Eu sabia que isso contectar mais as pessoas, porque você faz a arte — eu, pelo menos, faço — pensando em conectar pessoas. Eu fui buscar pontos de conexão em todas as músicas que eu escrevi para que qualquer pessoas de qualquer lugar do mundo pudesse ouvir e pensar: ‘Putz, eu passei por isso, eu estou passando, eu vou passar, tem alguém que está passando.’ E é isso, a nossa função como artista é conectar pessoas e dar voz a quem de repente não tem força para falar. Eu recebo mensagens diariamente de fãs, de admiradores, de familiares que ficaram contentes com o meu posicionamento desde então e que (contam que) isso tem ajudado a vencer algum obstáculo. Eu fico superfeliz, porque eu sou um ser humano em constante amadurecimento, aprendendo, acertando, errando todos os dias. Poder ter um pouco de importância na vida de uma pessoa nesse sentido para mim já vale toda a pena, o esforço que é feito em cima da música, do que eu faço. Cada vez eu fico mais certo do que eu estou fazendo.

Eu ia perguntar mesmo isso, se você tem retorno dos fãs…

Tenho muito, agora que eu tenho mesmo (risos).

Como você se sentiu abordando esse assunto sem meias-palavras? Foi um sentimento de alívio?

Foi um mix de muitas coisas. Eu acho que, por mais que você: ‘Ah, eu sei de mim, as pessoas que me amam já sabem quem eu sou’, quando você fala sobre isso, parece que vai se autoanalisando no mundo. Eu consegui me entender muito mais. Nunca achei que isso poderia acontecer, eu acreditava que eu já estava muito bem-resolvido, que a minha cabeça já estava muito OK (risos). Mas, quando você passa a falar sobre o assunto, passa a se colocar no lugar do outro, a desenvolver empatia, a pensar em você vai dizer da melhor maneira, em que lugar de falar você está, em que lugar no mundo você está, em que lugar de falar as pessoas lhe veem, como as pessoas lhe veem… Isso foi e é um processo de amadurecimento muito grande para mim. Porque é uma troca. Eu não estou sozinho, eu não estou falando sozinho, eu escuto coisas também. Tudo isso é muito importante.

Hoje a gente está passando por um momento de extremos: muitos avanços por um lado e, ao mesmo tempo, pessoas e movimentos querendo perda de direitos, querendo voltar para o passado. Você acha que neste instante é importante que um artista LGBT, por exemplo, se posicione e trate desses temas?

Eu acho de suma importância. Porque a gente está num momento social, político muito crítico. E não só no Brasil, como no mundo no todo. Mas principalmente no nosso país, por conta desse governo, por conta desse presidente que foi eleito. Eu vejo hoje que o fato de você ser você e peitar isso no mundo e para as pessoas é o maior ato de resistência que você vai estar fazendo na sua vida. Isso reverbera para tudo. Logicamente, eu acho que como artista você tem que entender como vai falar, como quer abordar isso. Tem artistas que vão falar muito sobre isso. Tem artistas que vão falar, mas que não vão botar nas músicas. Tem artistas que vão botar nas músicas, mas não vão falar pessoalmente. É uma construção individual de cada um. Mas você ser você e assumir isso é importantíssimo, porque isso estimula as pessoas que estão à sua volta, que estão junto de você, que estão acompanhando você a fazerem a mesma coisa. E a gente vai quebrando essa hipocrisia, esse preconceito, esse machismo arraigado que existe na nossa sociedade. E que vai sempre existir. É uma utopia achar que isso vai acabar cem por cento. Mas você precisa acreditar que isso pode ser menor, você precisa acreditar que pode combater um pouco disso a cada dia. E, se todo mundo tiver essa consciência de que é uma atitude sua, que vai reverberar nisso e vai trazer várias outras coisas de forma positiva, a gente vai crescer e galgar muitos avanços e amadurecimentos. Porque nós estamos num momento em que todo mundo está cobrando muito coisas e posicionamentos dos outros, quando na verdade eu acho que a real é você se autoconhecer e cobrar esses posicionamentos de você. Quando você faz isso, deixa o outro em paz e se melhora. E, se você se melhora, você melhora seu entendimento, sua empatia, compreende o que está fazendo, o que está falando, com quem está falando. Eu costumo dizer que, se cada pessoa que está aí, reclamando de alguém parasse para falar e entender os erros que estão dentro de si — que são muitos, a gente vai estar sempre se melhorando e amadurecendo — a gente ia estar anos-luz na frente.

Você falou que se abriu de uma forma nesse trabalho que isso poderia expor você a tudo, inclusive a ataques. Já sofreu algum tipo de ataque?

Já sofri, sim. Tanto sendo artista, ataque de preconceito mesmo. Nós, minorias — LGBT, raciais, religiosas —, sofremos ataques diariamente. Como já sofri também com pessoa não sabendo que eu era um artista, e que me atacou por causa da minha orientação sexual, pela maneira como eu estava me vestindo, como eu estava falando, alguma atitude minha. É o que eu falei: você ser você e bancar isso é um ato de resistência, sim. Isso é importantíssimo.

Vai lá:
5 Bandas
Quando: Sábado, 12 de outubro, a partir das 19h
Onde: Casarão Floresta. Ladeira dos Guararapes, 115 – Cosme Velho
Quanto: R$ 20 (meia-entrada) a R$ 40

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‘Não me assumia compositora por causa do patriarcado’, diz Julia Branco http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/04/nao-me-assumia-compositora-por-causa-do-patriarcado-diz-julia-branco/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/04/nao-me-assumia-compositora-por-causa-do-patriarcado-diz-julia-branco/#respond Fri, 04 Oct 2019 19:55:03 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1143

Julia Branco faz show hoje na Casa Julieta de Serpa. Foto: divulgação/Florence Zyad

Conhecida como vocalista da banda Todos os Caetanos do Mundo, a mineira Julia Branco decidiu se lançar como cantora solo. Mas ainda não sabia muito bem como. Chamou o produtor Chico Neves, que tinha trabalhado no primeiro disco do grupo, “Pega a melodia e engole” (2016), e a cantora e musicista Luiza Brina, da banda Graveola e o Lixo Polifônico, e foi para o estúdio de Neves. Foi dele que veio o empurrão para que ela gravasse as próprias canções. “Eu acho que é essa coisa mesmo desse patriarcado horroroso, que é difícil a gente se assumir, falar: componho, escrevo, canto. Tudo a gente fica meio pedindo desculpa, sempre”, analisa ela.

O produtor e diretor musical do álbum propôs que ela criasse um roteiro com início, meio e fim a partir de seus textos. Ela levou o material para o estúdio e, a partir daí, o disco foi nascendo. “Fui com medo mesmo”, lembra a artista. ‘Soltar os cavalos’ foi lançado em julho de 2018 e recebido pela crítica com um dos melhores do ano. De lá para cá, ela foi amadurecendo o show — que apresenta hoje, na Casa Julieta de Serpa, no Flamengo, primeira vez com a participação de Juliana Linhares, da Pietá — e tomando consciência da construção de sua carreira.

O disco é perpassado por temas que têm a ver com a questão da mulher. Julia conta que não foi uma opção consciente, mas entende que foi influenciada pelo crescente debate em torno do feminismo. “Acho que os últimos anos têm sido tempos em que a gente tem discutido e conversado, e colocado a nossa voz de uma forma diferente, tem tomado consciência dos abusos que rolam o tempo todo. Nenhuma dessas composições é muito antiga, o máximo é de três anos para cá, então eu acho que também fui escrevendo coisas que de fato eu estava vivendo”, resume.

Ela também acabou se cercando de mulheres em todo o processo do trabalho (atualmente, apenas dois homens estão em sua equipe: Chico Neves, que passou a integrar sua banda, e o técnico de som de seus shows) e conta que a decisão por investir em uma carreira solo veio muito inspirado pelo atual contexto, em que cada vez mais mulheres vêm conquistando seus espaços como cantoras e compositoras.

Já tem mais ou menos um que você está apresentando esse show…

Tem. Tem um pouco mais de um ano. A gente lançou no finalzinho de julho o disco nas plataformas, e em agosto foi o primeiro show de lançamento, lá em BH, pela turnê da Natura. Depois a gente fez algumas cidades, ainda pela Natura Musical: Rio, São Paulo e Curitiba. E depois voltamos nesses lugares, no Rio eu voltei um pouquinho depois, em outubro, para um show menor, na Etnohaus, e teve outro em julho no Circo Voador, abrindo para o Zeca Baleiro. E agora esse retorno.

E como tem sido esse período levando para o palco levando para o palco essa experiência? Porque pelo que você falou o disco foi surgindo muito no estúdio, de uma forma orgânica…

Sim, sim. Eu falo que ele nasceu muito no estúdio. O processo de criação mesmo foi acontecendo lá dentro. Que eu acho que isso também tem a ver um pouco com a forma do Chico Neves, que é o produtor e diretor musical do álbum, trabalhar. Ele é um produtor que aprofunda, mergulha mesmo no processo. A gente começou totalmente do nada, conversando dentro do estúdio, com ideias do que poderia ser. Falávamos da vontade de fazer um disco que também passasse por outras experiências artísticas, que além da música pudesse transitar pelo teatro, porque eu também sou atriz, pela palavra, porque eu também escrevo. Tinha uma vontade de passar por outros lugares. Mas a gente não tinha muita clareza do que seria. E aí o Chico me pediu para fazer um roteiro, como se fosse uma peça de teatro, com começo, meio e fim, com os meus textos. Foi uma provocação dele como diretor. Tinha uma coisa que eu não me assumia muito naturalmente como compositora, porque, embora eu já tivesse composições na banda da qual eu fazia parte, Todos os Caetanos do Mundo, a gente gravou música minha, eu já tinha música com a Luiza Brina. Mas eu acho que tem um pouco o fato de ser mulher, que a gente demora um pouco para assumir as coisas, por conta de tudo (risos), e também porque eu não toco muito bem nenhum instrumento. Agora que eu estou aprendendo violão. Então eu ficava com esse lugar da compositora meio tímido: “Ah, eu escrevo, mas não sou compositora.” Uma coisa até que a gente tentou reforçar no disco, o Chico bateu muito na tecla, ele falou: “Eu acho que você tem que gravar os seus textos, o que você escreve, e a gente vai descobrir a música aqui.” Então foi muito assim: eu levei um roteiro mesmo, que já tinha esse título, “Soltar os cavalos”, com imagens, coisas que de algum jeito me inspiravam. E aí tinha música que existia, que tinha uma ideia de melodia; tinha música que não existia, que era só o texto; tinha coisa que estava mais avançada. Tinha umas variações. Mas, durante o processo, ninguém ouviu nada do que já existia. Foi tudo eu cantando, e aí a Luiza Brina pegava o violão — ela fez os arranjos junto do Chico e fez as harmonias do disco. Então ela tocava, aí o Chico já pegava outro instrumento e gravava, e aí eu já ia cantando. E assim a gente foi encontrando essa sonoridade, esse universo, num período de imersão: a gente ficou junto uns dez dias. O processo todo durou um ano, mas o que eu acho que foi o grosso para a gente entender, esse levantamento foi mais ou menos um processo de mais ou menos dez dias. E muito sem tempo contando no estúdio, muito fluido, de mergulho mesmo, que eu acho que é uma riqueza de trabalhar com o Chico. Ele mora num lugar no meio do mato, que é perto de BH, mas já é natureza, então tem todo um clima que contribui com esse processo de imersão.

E o vídeo-álbum, como surgiu a ideia?

Eu estava no meio do processo do disco quando fui aprovada no edital da Natura Musical, que inicialmente tinha até a intenção de ser para um segundo trabalho: eu queria fazer um álbum visual, na vida. Não sabia se seria desse disco ou de outro. Mas eu estava muito imersa dentro desse processo, então não fazia muito sentido começar um outro. E, como eu já estava querendo que esse disco pudesse transitar por outras experiências artísticas, resolvi escolher algumas faixas para fazer um vídeo-álbum: seis músicas, sendo que duas se interligam, “Sou forte” e “Estrela”, para fazer cinco vídeos.  E como, depois desse levantamento todo, eu percebi: “Nossa, é um disco muito feminino!”, “Nossa, é um assunto que está muito nesse lugar!”. Eu pensei: “Quero fazer um vídeo-álbum todo dirigido por mulheres.” E aí veio esse segundo processo. O disco já estava mais encaminhado, mas aí veio um encontro com essas mulheres. Foi muito incrível, porque cada uma delas dirigiu um dos vídeos e assumiu uma outra função dentro do vídeo-álbum: uma dirigiu e fez direção de arte de todos, outra dirigiu e fez a direção de fotografia… Não tinha uma hierarquia da “diretorona”, estava todo mundo junto. E também foi um grande exercício de escuta de todos os lados. Meu, de ver a visão delas de uma coisa em que eu já estava mergulhada, e de cada uma também. Então foi muito interessante, muito especial. E depois veio o processo de pensar num show. Já é uma terceira etapa, que eu fiz muito… Em diálogo sempre com a Luiza e com o Chico, mas eu bolei muito esse roteiro. Claro que a gente está sempre mexendo na apresentação, acho que ela está muito mais madura agora do que quando estreou, é natural. Mas desde o início eu tive uma vontade de ter os textos no show, assim como tem no disco, então tem momentos falados. De ter uma troca com o público muito próxima, muito íntima, porque eu acho que o disco também tem esse lugar muito forte da intimidade, da vulnerabilidade. Recentemente, tem sido uma surpresa para mim maravilhosa — porque foi um show que inicialmente eu pensei muito para teatro, até pensando nessa coisa do texto, da luz, tinha uma ideia de criar um clima e tal. Mas a gente fez o Circo Voador e foi incrível, e fez agora no Distrital (em Belo Horizontal) abrindo para o Arnaldo Antunes, um lugar enorme, e foi demais, e fez alguns festivais e foi incrível. Isso tem sido maravilhoso de perceber: que nesses lugares tão dispersos há força da palavra. Eu falava: “Não vai ter condições de, no Circo Voador, alguém prestar atenção em texto (risos).” Mas tem sido uma surpresa positiva para mim: são momentos em que a plateia se conecta muito com esse diálogo direto. Então eu acho que o show também foi amadurecendo passando por esses diversos lugares. Sempre vai ser diferente vai ser no teatro, na Julieta acho que vai ser outro clima, mas tem funcionado em vários lugares distintos, mesmo não sendo uma apresentação ultradançante, que a gente poderia pensar que seria um show para um lugar como o Circo. Ele tem muito silêncio. Mesmo tendo músicas em que dá para dançar, é uma dança diferente, acho que mais fluida (risos). É um disco que tem muito esse lugar da escuta, muito forte.

Você estava dizendo que só depois se deu conta de que falava muito das questões femininas e feministas, mas você foi se cercando de mulheres, consciente ou inconscientemente, para fazer esse trabalho, né?

Sem dúvida. Quando eu falo isso, eu quero dizer que não foi uma coisa assim: “Olha, eu vou fazer um disco superfeminista.” Não foi uma coisa que partiu desse lugar de consciência. Mas eu vinha também muito povoada por tudo isso que está acontecendo no mundo (risos). Acho que os últimos anos têm sido tempos em que a gente tem discutido e conversado, e colocado a nossa voz de uma forma diferente, tem tomado consciência dos abusos que rolam o tempo todo. Nenhuma dessas composições é muito antiga, o máximo é de três anos para cá, então eu acho que também fui escrevendo coisas que de fato eu estava vivendo. No início, eu não sabia muito como seria o assunto do disco. Mas eu já estava querendo que a minha equipe fosse mais feminina. Muito por isso tudo que está ocorrendo (risos). De perceber mesmo: eu vivia o tempo todo cercada de homens, eu era de uma banda de homens, e é aquela coisa que vai parecendo meio natural. E até o convite da Luiza Brina foi uma coisa assim: “Poxa, eu quero chamar uma mulher para fazer parte desse processo.” E aí é muito legal, porque eu acho que de fato é o Chico de homem e talvez o nosso técnico, eu acho. O resto todo da equipe, hoje, de ‘Soltar os cavalos’ — a minha produtora, a própria Ju (Julianna Sá, assessora de imprensa), as meninas que dirigiram o vídeo-álbum, as meninas do cenário e da luz, a Sônia Pinto, que me veste — são todas mulheres. Foi muito feliz, porque de fato eu tive que abrir meu olhar para isso, mas foi possível chegar nisso.

E fico pensando que as discussões sobre feminismo cresceram tanto aqui nos últimos tempos que acho que é impossível para quem é mulher escrever da mesma forma. Os temas mudam, o foco muda, o centro muda…

Exatamente. Mudou tudo, é impressionante como mudou tudo. Eu acho que escrever da forma e ouvir da mesma forma. Tem música que a gente escuta hoje e já fala: “Poxa, não dá.” É difícil. A gente entende que faz parte do contexto de uma época, mas você ouvir aquilo sem pensar sobre aquilo. A própria bossa nova, a gente escuta coisas que fala: “Não dá.” Tem coisa que não dá. Mas eu acho que tem a ver com isso: foi uma transformação muito radical. Enfim, ainda estamos num grande processo de mudança, a gente infelizmente ainda está muito longe de falar: “Ah, está tudo superigual agora.” Não estamos mesmo, existem muitas questões, mas eu percebo que tem um farol que se acendeu, um alerta. Estamos falando sobre isso, e isso é muito legal. E transformando, com certeza, as nossas relações, a nossa forma de compor, a nossa forma de montar uma equipe, de nos relacionar uns com os outros. E eu me sinto aprendendo o tempo todo. Até esse processo do vídeo-álbum, com as cineastas mulheres, foi de um aprendizado muito grande. Até isso de não ter uma exatamente hierarquia é uma coisa com a qual não estamos tão acostumadas assim. Foi maravilhoso, a gente cresceu muito, mas não foi tão simples a gente chegar num acordo, um roteiro de como seria esse vídeo-álbum. Porque a gente estava tentando justamente transformar, fazer uma relação diferente ali, mas é novo para todo mundo, de certa maneira, trabalhar dessa forma. Eu acho que a gente está em busca ainda, mas é muito bom poder ter consciência de que se está em busca.

Você falou da sua insegurança de se assumir compositora. Como foi também se assumir uma artista solo, depois de ter uma banda?

Eu acho acho que meu processo do disco solo, e da carreira também, agora eu sou uma artista solo, e é nesse lugar que eu quero estar — eu falo sempre que é um solo com muitas aspas, porque sempre tem muita gente envolvida. Mas é completamente diferente mesmo de estar numa banda. É você puxando as coisas, a sua carreira, o seu nome. Eu comecei a querer fazer um disco com o nome de Julia Branco muito, eu acredito, por esse processo também feminista. Sentindo que eu precisava ter o meu espaço, sentindo também essas opressões todas de algum jeito, por mais que minha história com a banda tenha sido superfeliz, não é nem nada relacionado exatamente a isso. Mas sentindo que eu precisava colocar a minha voz. Mas é muito louco, porque a gente fala isso, mas, na hora que eu entrei para gravar o disco, eu não tinha clareza de que eu ia gravar as minhas composições, sabe? Não era uma coisa tão forte assim. É muito doido, que eu acho que tem a ver com como a gente vai se apropriando. Porque eu já compunha, mas eu cogitava de repente não gravar as minhas músicas, porque eu não sabia se era isso mesmo, se era tão bom. Conversando com o Chico, ele falou: “Poxa, eu acho que você tem que gravar as suas coisas, é seu disco.” E ai depois eu falei: “Claro, gente, eu componho, sim.” Mas isso não veio imediatamente. Eu acho que é essa coisa mesmo desse patriarcado horroroso, que é difícil a gente se assumir, falar: componho, escrevo, canto. Tudo a gente fica meio pedindo desculpa, sempre. Acho que o processo do meu disco veio muito desse lugar: “Poxa, eu quero ter essa coragem.” E, ao mesmo tempo, eu digo sempre que — não foi consciente, mas é curioso que o disco seja ‘Soltar os cavalos’, e não ‘Soltei os cavalos’. Parece que tem sempre um movimento de ação para ser feito. E não é que eu fiquei supercorajosa, forte e: “Uh, vou gravar meu disco!”. Acho que eu fui com medo mesmo. Isso está até no meu CD, eu escrevi: “Coragem é ir com medo mesmo.” Acho que em algum lugar passa por isso. Eu vou acolher essa vulnerabilidade, e isso vai ser a minha potência. Então eu acho que o disco fala da força, mas fala do medo, fala dessa potência quando a gente conhece a nossa “falha”. Também teve um processo natural da banda, cada um foi seguindo seu caminho. Então foi tudo um pouco acontecendo junto. Mas eu acredito também que eu tenha decidido por essa direção por todo o contexto social em que a gente está, também ver outras mulheres fazendo seus trabalhos… Isso é muito poderoso. Hoje eu recebo muitas mensagens de outras mulheres me falando de como o disco tem inspirado elas a fazerem os seus próprios projetos. Isso é tão maravilhoso, da gente pensar que uma vai meio puxando a outra mesmo, que a gente se motiva quando vê a outra fazendo e sente que também pode, e está tudo certo. Eu acho que fui muito inspirada por isso, por outras mulheres que estavam soltando a voz.

Claro, isso é algo que a gente nota: hoje a gente fala muito mais das compositoras do que há alguns anos, né?

Sem dúvida. E não é que elas não existiam: elas sempre estiveram aí. Talvez com mais dificuldade de colocar o trabalho no mundo e até de ter esse espaço. É curioso que teve um homem muito importante também no meu processo, que foi o André Midani (morto em junho de 2019). Ele foi um grande conselheiro para mim. E ele foi uma pessoa que falava muito disso. A gente se conheceu na época da banda Todos os Caetanos do Mundo, ele era muito amigo do Chico, tem muito a ver com a história dele. Quando eu estava no processo de querer fazer meu disco, eu me encontrei com ele várias vezes aqui no Rio, nós tivemos conversas que eu queria lembrar de todas. Porque parecem aquelas que você aprendeu em algum lugar, entendeu em algum lugar alguma coisa, mas depois você esquece, não fica guardado exatamente na cabeça. Ele foi uma figura que, mesmo sendo um homem, sendo quem ele é, é muito legal, porque ele ficava dizendo isso da força da música feita por mulheres. Que ele achava que realmente a música só ia se reinventar se agora mudasse o discurso, as mulheres tinham que cantar a sua própria voz, a sua própria história. Nós tivemos muitas conversas sobre isso. Ele foi uma pessoa que escutou o meu disco logo que ficou pronto, a gente trocou muito nessas discussões sobre a música brasileira, e ele falava: “Nossa, não vai vir nada de novo de homem (risos).” Foi legal ouvir uma pessoa que é de outro tempo. Mas, sobretudo, eu acredito que me inspirou mesmo foram as mulheres, ver outras mulheres, trocar com elas. E tem sido muito legal, em vários shows eu tive convidadas mulheres: teve a Letrux, que participou do lançamento aqui no Rio; teve a Mariana Volker, que participou de outro show; lá em São Paulo, a Aíla; em Curitiba e em BH, a Uyara Torrente, que também está no disco; a Lio e a Lay da banda Tuyo; e agora vai ter a Juliana Linhares. A única vez que eu dividi o palco com um homem que não era do processo foi com o Arnaldo, na semana passada, porque era o show dele. Mas sempre tenho chamado mulheres para participar do show, e mulheres com quem eu me identifico, tenho uma troca. Isso tem sido maravilhoso, porque a cada encontro eu sinto que a gente se alimenta de alguma coisa.

 Você falou um pouco, não sei se tem mais a dizer sobre: por que você escolheu esse nome, ‘Soltar os cavalos’?

É tão louco, porque eu acho que esse nome veio quase de um processo meio de intuição. Não teve uma coisa lógico. Quando fui fazer esse roteiro com começo, meio e fim para levar para o estúdio, esse nome surgiu na minha cabeça: ‘Soltar os cavalos’. E aí eu achei um pouco estranho: “Que nome é esse? O que isso quer dizer?”. Mas eu gostei, me provocou uma coisa quase meio que física: “Nossa, isso é interessante?”. Levei o roteiro já com esse título. Conversando com o Chico, ainda tinha a curiosidade de que eu nunca tinha subido num cavalo na vida, até ano passado. Ele, que é supersensível, achou isso interessante: “Acho que isso tem alguma coisa aí, que eu não sei o que é.” E aí teve um dia que a gente foi gravar, e ele falou: “Vamos andar a cavalo?”. Lá perto da casa dele tem um haras, e aí a gravação foi andar a cavalo. E foi superlegal. E depois, pensando sobre o nome, eu acho que ele remete a muitas coisas. Tem essa coisa que o cavalo primeiro é um animal que eu acho que muitas vezes é associado à figura masculina. É doido porque agora o cavalo está super no universo das mulheres, tem o disco “Cavala”, da Maria Beraldo (de maio de 2018), que eu até lembro que, quando saiu, eu falei: “Nossa, que loucura! Nossa, está rolando um negócio meio cavalo aí…”

Tem uma música da Letrux, “Além de cavalos”…

Exatamente! Depois eu comecei a ver cavalos everywhere (risos). Mas de fato eu achei curioso, porque inicialmente é um animal visceral, viril, não sei se estaria associado de cara à figura feminina. Mas eu acho que justamente por isso é interessante, porque está, sim. Tem esse lugar do selvagem, que é um pouco o que a palavra “cavalo” me provoca, de liberdade, aventureiro, que eu acho que é bom a gente pensar, porque isso faz parte das mulheres, mas a sociedade finge que não. Então me veio um pouco isso, ‘Soltar os cavalos’ com esse lugar muito forte da liberdade, de desbravar os lugares, de soltar aquilo que te prende, as amarras e tal. Mas, olhando mais profundamente para o disco e pensando que ele tem essa questão muito presente da vulnerabilidade também, assim como da força, eu acho que também tem a ver com soltar tudo aquilo que faz parte de você. Soltar o medo, soltar aquilo de que você tem vergonha, aquilo que você talvez não gostaria de mostrar. De algum jeito esse disco fala disso também, de se acolher por inteiro. Foi um nome que partiu muito de um lugar misterioso, mas que hoje faz muito sentido para mim, para o que eu estou cantando. Tem uma única música que fala de “cavala”, que é “Estrela” — que fala: “Nunca pensei que seria cavala/num galope certeiro/saltando essa vala” — que surgiu depois que eu já tinha pensado sobre o título. É uma parceria com a minha mãe (Lúcia Castello Branco), eu pedi a ela uma letra: “Mãe, estou aqui pensando sobre cavalo, manda uma letra aí meio cavalo, cavala.” E ela mandou essa letra que teve tudo a ver com tudo, e eu já fiz essa melodia e depois a gente trabalhou ela no estúdio, junto do Chico. Agora, é muito interessante. Eu tenho observado. Primeiro, que acontece muito no show das mulheres se emocionarem, chorarem, virem falar comigo, contarem coisas muito íntimas. E tem uma dimensão do disco — isso também não esperava, foi meio surpresa — de cura. Eu recebo muita mensagem de gente que está às vezes num lugar mais holístico, uma coisa meio de espiritualidade e cura que não era intencional e toca um pouco nisso. Até de gente que está passando por processos muito pessoais e está precisando se fortalecer, de terapia e tal. É muito engraçado, é algo que eu tenho percebido. Até quando eu vejo lá nas playlists do Spotify, os lugares onde a música toca, as preferências, muitas vezes tem essa coisa do sagrado feminino, do autoconhecimento. E eu também acho muito legal, porque isso de fato foi algo que eu busquei muito: às vezes eu recebo retornos de homens me falando que é um disco que eles não se sentem agredidos. Eu achei muito legal, porque tem algo muito forte de escuta mesmo. Às vezes rola um constrangimento, eu percebo que no show às vezes acontece. Agora que eu fiz show lá no Distrital, via que de vez em quando rolava um incômodo. Mas depois eu recebo um retorno muito grande, de: “Poxa, eu saí pensando no seu show, entendi o que você estava dizendo, não me senti excluído da conversa.” Eu acho isso muito especial, porque é importante que eles também pensem sobre isso, né? Importantíssimo, até.

Eles têm que pensar sobre isso. Foram eles que inventaram o machismo… Mas engraçado, cavalo me remete um pouco ao inconsciente. Talvez por isso mexa com as pessoas. Além dos temas todos…

Tem vários significados, depois eu pensei. Eu sei que na umbanda quem recebe (entidade) é o cavalo. Existem diversas coisas em volta do universo do cavalo. Eu acredito que as palavras têm muita força. Eu acho que é uma palavra que tem muita força.

Você contou das mulheres se sentirem tocadas no seu show. Mas o seu disco também teve um reconhecimento formal, dos críticos. Depois disso, como está seu processo? Pensa num próximo trabalho, já compôs outras coisas? Ou ainda quer um tempo para digerir esse trabalho?

É louco, né? Eu ainda me sinto muito dentro desse trabalho. Embora já tenha um ano. E o tempo hoje em dia é muito acelerado, a gente vive esse velocidade muito grande de lançamento. Claro que eu já começo a pensar num segundo disco, mas eu ainda estou muito nesse. Eu acredito que vou entrar num processo de segundo álbum mais no segundo semestre do ano que vem. Eu quero rodar um pouco mais com esse, tenho uma vontade de desdobrar em outras coisas — quero muito fazer um segundo vídeo-álbum, também dirigido por mulheres, das músicas que não ganharam vídeo, porque para mim esse disco todo é muito audiovisual. Tenho um desejo de fazer algumas faixas acústicas e algumas em versão remix. Eu não estou também totalmente sem pensar nisso. Já começo a imaginar coisas que vão dando vontade de experimentar, já estou começando a compor de novo. Porque quando você lança, fica até meio seca. Pelo menos eu. Parece que você lançou tudo aquilo e fica um tempo sem ter ideia, muito doido (risos). E agora estou me sentindo voltando a ter ideia, começando a brotar. Mas acho que ainda demora um pouquinho para nascer um segundo disco.

Mas também cada coisa tem seu tempo, né?

Mas é doido, porque a gente vive esse tempo acelerado. E, como é muita novidade o tempo todo, parece que a gente tem que estar o tempo todo trazer algo novo. E tem gente que é mais rápida, mesmo, que já lança um disco e já tem outro na cabeça. Vai muito de cada pessoa. Para mim tem sido um processo tão intenso, e até porque eu acho que esse álbum tem um tempo mais dilatado. Embora eu fique feliz, meu primeiro disco, quase que minha carreira solo nasceu com ele mesmo, porque eu não tinha uma história como Júlia Branco antes dele, é tudo muito recente, é lindo estar nessas listas de jornal, isso é muito importante, também nos dá força para continuar fazendo, acreditar e ter energia para continuar fazendo. Mas, por mais que tenha todo esse reconhecimento, prêmio e tal, eu acho que tem gente que está descobrindo agora ainda. Como se até a velocidade dele foi mais dilatada, acho que ele não é um disco assim: ouvi, arrebatei. Como se ele tivesse um tempo mais alargado.

A internet possibilita isso, né? Antes um disco estava nas lojas, passou o tempo, acabou, recolheu. Agora as coisas estão lá, você pode descobrir depois…

E, como é muita coisa o tempo todo, de fato a gente não consegue acompanhar tudo. Então tem um tempo mesmo que vai correndo, da música. Que é menos veloz, que é da descoberta.

Quem nunca descobriu um disco tempo depois de ser lançado?

Exatamente. E é tão bom, porque às vezes chega na hora certa. Você fala: “Gente, o trabalho saiu há um tempão e estou descobrindo agora e está batendo em mim agora, que incrível.” É muito bom.

Você sente que a música hoje tem que estar atrelada a outras formas de expressão artística, ou ao audiovisual especificamente?

Eu acredito que a questão audiovisual hoje é muito forte. A gente está muito visual o tempo todo. Eu sempre falo que a gente não tem ideia de como o Instagram mudou as nossas vidas. Desde os nossos comportamentos, porque a gente está vivendo uma experiência maravilhosa aqui e já está querendo postar, e já está fazendo stories. Isso já mudou o nosso relacionamento, e eu mesma sou super Instagram, conectadíssima, estou totalmente nessa (risos). Mudou mesmo. Quando a gente pensa: “O que eu vou postar?”, de algum jeito está interferindo na nossa criação, isso está reverberando de algum jeito na forma como você cria, percebe, entende. Além de tudo, estamos o tempo todo recebendo estímulos visuais. Eu acho que o poder hoje de se lançar um single e vir já com clipe é muito forte. Parece que essa é a estratégia do momento. Ao mesmo tempo, eu também tenho percebido que a gente por outro lado está bem cansado de imagem. Eu, por exemplo, tenho adorado ouvir podcast, porque às vezes não aguento ver vídeo. Adoro ouvir. Tenho visto que até a coisa dos posts na internet, de algum jeito o texto está voltando, porque só imagem a gente está meio argh, é imagem demais. Eu decidi fazer a coisa do vídeo-álbum porque, para além do processo da imagem, eu queria muito atuar. Como é um disco que também traz esse lugar do teatro forte, eu queria muito ter essa outra dimensão, trazer a Julia atriz para dentro do trabalho. É como se fosse um filme mesmo, só que com a ideia de videoclipe. Mas acredito que tem essa potência. Tem sido difícil a gente pensar em lançar alguma coisa sem vídeo. Mas eu também acho que daqui a pouco isso vai mudar. Se todo mundo começa a lançar sempre com vídeo, daqui a pouco isso se esgota.

A Julia atriz continua também firme e forte? Porque a Julia cantora e compositora deslanchou…

É (Risos). Mas eu vou te falar que agora eu estou muito feliz podendo ser atriz nos shows. Porque, quando eu estava nos Caetanos, ficava uma angústia muito grande: “Nossa, nunca mais atuei, não estou mais trabalhando com teatro, que saudade de estar uma peça…”. Eu sentia que era uma coisa meio separada: “Ah, agora estou na música, deixei o teatro de lado.” Que foi meio isso: a partir do momento que os Caetanos foram ficando maiores, eu fui fazendo menos teatro. Mas eu entendia como uma coisa muito separada. E agora eu estou entendo que no meu show eu posso trazer a atriz. Então, de algum jeito, eu estou muito realizada. Claro que, se surgir alguma oportunidade, algum espetáculo de teatro, de trabalhar em algum film, alguma coisa assim, eu vou adorar, eu adoro atuar. Mas parece que eu entendi que eu já sou tudo isso e que dá para ser atriz no meu show. E aí encontrei um lugar de paz com isso. Não fico mais: “Ah, meu Deus, não estou mais atuando” ou “Não estou mais no teatro”. Não, estou em tudo. E dá para explorar esses lugares todos. Dá para se realizar em todas essas experiências ao mesmo tempo.

Vai lá:
Julia Branco
Quando: Sexta-feira, 4 de outubro, às 21h
Onde: JClub. Casa Julieta de Serpa. Praia do Flamengo, 340 – Flamengo
Quanto: R$ 30 (meia-entrada) e R$ 60

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‘Conseguir viver de arte hoje já é um ato de resistência’, diz Nina Becker http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/28/conseguir-viver-de-arte-hoje-ja-e-um-ato-de-resistencia-diz-nina-becker/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/28/conseguir-viver-de-arte-hoje-ja-e-um-ato-de-resistencia-diz-nina-becker/#respond Sat, 28 Sep 2019 19:57:26 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1131

Nina Becker se apresenta com o projeto Fira Banaba. Foto: divulgação/André Passos

Com uma filha de seis anos, a cantora Nina Becker volta e meia se sente agoniada quando quer ir a um show aonde não dá para levar Cora, seja pelo horário, seja por falta de infraestrutura para receber crianças. Esse foi o ponto de partida pela que ela criasse o projeto Fira Banaba, voltado para “crianças de zero a cem anos”, com o qual se apresenta este domingo no Audio Rebel, em Botafogo. Ao lado de Alberto Continentino e Eduardo Manso, ela apresenta um repertório autoral, com músicas como “Batata Frita”, “Ela ela ela ela” e “Lamina animal”.

De volta às apresentações do show “Minha Dolores”, do disco homônimo de 2014, em que homenageia a cantora Dolores Duran, ela falou sobre o novo trabalho, contou que tem se dedicado mais a outras áreas do que à música (Nina é diretora de arte e cenógrafa), lembrou o período difícil da descoberta do alcoolismo do pai de sua filha, o também cantor e compositor Marcelo Callado, e comentou a dificuldade em fazer arte e cultura no Brasil hoje, entre outros assuntos. “E a gente está vivendo uma abertura imensa e, ao mesmo tempo, um movimento ultrarretrógrado, né? É muito louco. Como dizem por aí, quem disser que está entendendo é porque não está entendendo nada (risos)”, resume. 

Como surgiu o Fira Banaba?

O Alberto tocou comigo na banda do ‘Acrílico’, é meu amigo há muitos anos, tem filhos pequenos, eu tenho a Cora, que é pequena também, e a gente sempre ficava um pouco agoniado de muitas vezes não dar para levar os filhos nos shows, porque é tarde. Às vezes o lugar não é agradável, não tem uma infraestrutura… Por exemplo, a Cora é superfã da Gal Costa, eu levei ela no show do Vivo Rio, começava umas dez, ela dormiu no meio. E a gente é de uma geração que sempre ouviu tudo quanto é tipo de música, nossos filhos também ouvem, não tem essa coisa do filão da música para criança. Eu fico lembrando das coisas que eu gostava quando era pequena e pré-adolescente, e não era nada para um filão de criança, as coisas que eu mais gostava não eram. Então a gente ficou com muita vontade de fazer uma banda que os adultos gostassem mas que as crianças pudessem ir também. E acho que hoje também mudou muito, na classe média ninguém mais tem babá, ninguém mais pode sair e deixar o filho em casa com a babá. Todo mundo está na ralação de cuidar dos próprios filhos, a gente está passando por uma mudança grande na nossa sociedade, as pessoas estão muito mais envolvidas, pelo menos eu vejo isso, muito mais pais envolvidos em levar e buscar criança na escola, cuidar da casa e ter uma vida mais orgânica no que envolve criação de filho. E eu acho que fazer programa junto é muito saudável para a família. Esse negócio de “programa de criança”, “programa de adulto”… A gente teve muita dificuldade de entender como ia comunicar isso, porque, se você não falar que é uma banda infantil, ninguém vai entender que pode levar o filho, sabe? No início, pensamos: “Ah, vamos fazer uma banda e é só marcar o horário às cinco da tarde, que aí todo mundo que tem filho vai acabar levando, porque não vai saber o que fazer com a criança.” Mas a gente achou que ia ser confuso para comunicar isso, então a gente abriu para falar: “Ah, é uma banda para criança de zero a cem anos (risos).” Aí fizemos uma experiência. Há uns meses, a Laura Erber fez o lançamento do site dela, de conteúdo para criança, com coisas de literatura infantil. A gente fez um show dentro da casa dela e foi incrível, porque os pais começaram a dançar primeiro, depois as crianças passaram a dançar também, todo mundo fez um trenzinho, foi maravilhoso, ficou todo mundo muito empolgado. E agora a gente vai trazer para a vida lá fora, para o mundão. Estamos compondo, o Alberto é um puta músico, arranjador, aí a gente convidou o Manso, que é produtor e também está fazendo uma parte de eletrônicos, e a gente é esse trio, no momento. Tem alguns parceiros, mas em geral o Alberto manda as bases, eu faço as melodias e as letras, a gente leva um som, faz uns temas, eu toco teclado um pouco também, e aí está evoluindo assim. Eu fiz uma parceria com a Laura, ela me mandou uma letra, fiz uma parceria com o Marcelo Callado, a Cora participou, ajudou a fazer a letra também… As crianças (foram) ajudando a fazer o flyer, sempre rola toda uma coisa inclusiva para elas, “kids friendly” que chama, colocando elas no nosso esquema, que é a nossa realidade (risos).

E a sonoridade é inspirada no synth pop, nos anos 80?

Eu nunca fiz um trabalho que fosse uma coisa deliberadamente feita para dançar. E eu já estava com vontade de fazer isso. Acho que criança adora dançar, gosta de coisa animada. Eu fico botando música calma para a Cora, e ela fala: “Não, eu quero coisa animada!”. Ela se amarra em dançar. E eu me lembro de quando eu era criança, pré-adolescente: as primeiras coisas que eu ouvi de música punk, tipo Ramones, The Clash, (isso) parece música de criança, são umas melodias muito simples, poucos acordes. E eu acho que a música punk tem uma criancice nessa coisa de não se enquadrar muito nas regras da (escola de etiqueta) Socila (risos). Então sempre achei que música punk tem a ver com criança, sabe? Então eu queria fazer uma banda meio punk, meio envenenada e que tivesse essa… Como eu posso dizer? Uma coisa um pouco ingênua mesmo, na abordagem. Músicas simples, que sejam simples de compor, de escrever, de letrar, de ficar pronta. Uma coisa que não dê trabalho. A gente é muito ocupado (risos), tem outros trabalhos, tem que cuidar dos filhos. Um troço que seja para a gente se divertir, fazer coisas simples, sem pensar muito. E aí o Alberto estava querendo aprender a mexer no Live (software de música), nessas coisas, fazer umas batidas e tal, e a gente estava gostando de compor junto, e é um jeito legal que a gente encontrou de experimentar. Eu fiquei me lembrando das coisas que eu ouvia também quando era criança. Eu gostava muito de Blitz, que era uma banda que não era para criança, mas que elas adoravam, que era toda colorida e era animada. É uma referência importante para mim. Sei lá, Cindy Lauper, várias coisas dos anos 80 que vinham com essa estética um pouco. Então acho que acabou vindo naturalmente como nossa referência de coisas animadas, coloridas e interessantes para se fazer eletronicamente.

E de onde você tiraram o nome do projeto?

Eu queria fazer um nome que tivesse cara de que era uma coisa em português, mas que não fosse, e que a pessoa olhasse e falasse: “Cara, o que é que é isso?”. Aí eu comecei a pesquisar nomes de ilhas no planeta. Achei uma ilha grega que se chamava Fira (é a capital de Santorini, ilha na Grécia) e Banaba é uma ilha da Polinésia. E aí eu juntei esses dois nomes, porque eu achei que o nome composto dava um caráter quase como se fosse um personagem, o Fira Banaba. Sei lá por que ele virou O. Não entendi direito ainda o gênero dele, eu tenho falado que é “ele”, mas sei lá. E aí ele virou uma entidade, tem nome e sobrenome, e não é a gente, é essa coisa. E aí legal, porque tem uma sonoridade que parece português, só que não é nada.

O repertório é todo autoral?

É. A gente tem vontade de fazer versões, mas não fez ainda, por falta de tempo. Temos canções e tocamos umas coisas mais abertas de fragmentadas de levação de som, de ficar experimentando os sons na hora. Tem uma coisa forte de canção também, mas com esse pensamento de ser tudo mais simples.

Eduardo Manso (esq.), Nina Becker e Alberto Continentino. Foto: divulgação/Pedro Henrique. Arte: Lelê

Paralelamente a isso, você tem várias outras coisas. Não tem muito tempo você fez o show da Dolores Duran…

Pois é, dei uma ressuscitada nesse show.

Tem o ‘Acrílico’, que também não tem tanto tempo assim que você lançou…

Não, pois é, eu lancei no final do ano retrasado…

E aí como é que está? Você está pensando num disco novo?

Estou pensando num disco novo, mas é muita coisa. Fora que eu tenho cinco trabalhos: eu trabalho na Fábula (marca de roupas infantis, na qual é diretora de arte), faço cenário para outros artistas e empresas… Eu lancei o ‘Acrílico’ num momento um pouco complicado, eu não consegui trabalhar direito esse disco. Era um álbum de banda, aí tinha muito convite para fazer o show sem poder levar ela toda, isso me desanimou um pouco. Eu preferi não fazer o show do que fazer só com guitarra e bateria, porque o piano era superimportante. E acho que eu lancei também num momento em que estava mundo meio deprê, sei lá. Eu meio que fui desencanando. Volta e meia alguém me escreve falando: “Nossa, eu ouvi o ‘Acrílico’ outro dia, é muito incrível.” Eu acho que é um álbum que tem uma vida mais longa, mais espalhada, não é que  todo mundo vai ouvir no lançamento e sair curtindo. É uma outra história. E tudo bem. E eu também não gosto de ficar muito tempo no mesmo assunto, eu vou enjoando e querendo pensar em outras coisas. Esse lance da Dolores, eu recebi um convite para tocar num evento, no lançamento do DVD do programa “Cantoras do Brasil” — que inclusive foi por causa desse programa que eu gravei o disco, e programa existe porque eu gostava da Dolores e sempre tocava uma música da Dolores no meu show. Elas viram e tiveram vontade de fazer o programa por causa disso (risos). Aí elas me convidaram para tocar no show de lançamento do DVD (dia 26 de julho, no Centro da Música Carioca Artur da Távola), eu tive que reensaiar o show, aí eu falei: “Já que eu reensaiei, eu vou fazer de novo.” E aí estão pintando algumas apresentações por causa disso e estou superanimada, eu amo esse show, quero fazer ele para o resto da minha vida, porque é muito legal, as pessoas curtem. Eu estou pensando em outro disco, mas meio sem pressa, uma coisa para produzir no ano que vem. Estou num processo de construção do que vai ser, como eu vou fazer.

Você pensa em fazer shows do ‘Acrílico’, uma turnê meio tardia? Alguns artistas fazem.

É, eu pensei em fazer depois um vinil, talvez. Só que, realmente, eu trabalho muito, e não tenho tempo de fazer tudo que eu queria, entendeu? Então eu vou meio que seguindo o fluxo. Em geral, as coisas que dão certo na minha vida são as que eu não planejei e que vão rolando sem pensar muito. Pode ser que eu role, eu gostaria de fazer alguma coisa do ‘Acrílico’. Mas a gente está num momento muito complicado para a cultura. E foi um disco feito com uma megainfra, porque teve patrocínio da Natura Musical, e eu não tive como seguir com isso, manter a formação da banda. Um monte de festival que existia não acontece mais, não tem mais verba, toda essa cena bizarra que está acontecendo na música e na cultura em geral teve um impacto muito complicado para alguém que está começando a trabalhar um disco. Eu fiquei muito mal também, no ano passado. Primeiro, com as eleições. No início do ano passado, eu perdi meu tio, que era como se fosse um pai, e logo depois o Miranda (Carlos Eduardo Miranda) morreu e eu fiquei muito mal com a perda dele. Fiquei digerindo isso também, não estava com muita energia para sair correndo atrás de um monte de coisa. Então sei lá, pode ser que role. A gente vive também um momento que não tem muita gente conseguindo e querendo trabalhar como empresário vendendo show, porque é difícil. Eu não tenho tempo de ficar vendendo show. Então a gente faz as coisas que rolam, que estão fluido. E o que não está fluindo a gente vê, de repente acontece depois, assim como a Dolores está rolando agora, de novo, incrível. Nunca imaginei que isso fosse acontecer, mas estou superfeliz.

E ainda teve aquela história do Callado, li uma entrevista em que ele contava que passou por uma coisa punk, isso com certeza foi mais uma coisa que afetou você, né (o também cantor e compositor, ex-marido de Nina e pai de sua filha, contou ao jornal O Globo que teve que enfrentar o alcoolismo)?

Na verdade, isso rolou há um tempão, quando a Cora era bem pequena. Isso certamente me afetou. Foi na época da Dolores, o disco (‘Minha Dolores’, de 2014) fala muito sobre isso, porque a gente estava se separando na época, e aí o álbum com as músicas de dor de cotovelo todas… Foi difícil, mas foi uma construção bonita também. Achei superimportante ele expor isso e se posicionar em relação a isso, se abrir e poder falar sobre isso com sinceridade e honestidade, porque muita gente passa por isso e ninguém gosta de falar. Eu acho que ele deu um exemplo superlegal de tratar isso como uma coisa que é supercomum. E foi uma batalha para a gente, mas, hoje pensando, foi muito legal, a gente foi muito corajoso, e aprendeu e cresceu muito nesse processo. Porque, quando a gente se separou, eu fiquei pensando: “Bom, está um problema, eu não posso confiar cem por cento nele, porque ele está com essa questão de saúde séria, mas ele é o pai dela, né? Não vou banir ele da vida dela.” Então eu tive que trabalhar muito em mim também uma coisa de confiança e de valorizar a presença dele na vida dela. Então, com todos os perrengues, nós continuamos fazendo programas juntos, nós três, às vezes nós quatro — eu, ele, ela e o Duda (Mello, produtor, engenheiro de som e marido de Nina). Um trabalho de inclusão, a gente não brigar na frente dela… E eu acho que deu certo, porque ele conseguiu superar o lance, ele está há muito tempo já sem beber, está muito saudável, produtivo, presente. É ultrapresente, eu confio nele cem por cento. Acho que, de todos os pais que eu já conheci na minha vida, no meu círculo de amizades, e de pais de amigos da Cora e da minha família, é o pai mais presente que eu já vi. Não temos babá, e só eu e ele que buscamos na escola, damos comida, damos banho. Cara, é muito maneiro. E a gente é muito amigo, a gente estava agora conversando, se fala todo dia. É tão bonito. Achei maneiro ele compartilhar. Quando saiu a matéria, ele ficou preocupadão: “Será que você vai ficar chateada de eu ter falado?”. Mas eu sou muito a favor das pessoas serem sinceras, porque isso melhora tudo para todo mundo.

Ele deve ter tirado um peso de esconder uma coisa…

É, acho que ele não escondia, mas acho que ele também…

Não escondia, mas talvez só os amigos soubessem. Expor assim…

É, para as pessoas entenderem, também. Porque, a partir do momento que elas entendem que ele tem essa questão, elas podem ajudar.

Sim, e as pessoas são complicadas com a coisa do álcool, é difícil elas entenderem quando alguém não bebe, seja porque não quer ou porque não pode. 

No começo, eu achava que era falta de amor, falta de consideração. Eu não entendia que era uma coisa que ele não conseguia dar conta.

Porque deve ser difícil de entender o limite, a diferença de quando a pessoa está sendo irresponsável ou quando é uma doença.

Exatamente, esse limite da responsabilidade. O que me ajudou muito foram pessoas que sacaram e vieram comentar comigo: “Ah, meu pai tem isso”, “Eu tenho um irmão que tem isso”… Um monte de gente que tem casos na família e que veio compartilhar comigo, dar apoio. E, cara, é uma quantidade absurda de pessoas que vive isso e isso não se fala, fica meio oculto. Existe uma galera vivendo isso, então acho maneiro compartilhar.

Até para deixar de ser um estigma, né? Acho que tira um peso de todo mundo que tem quando alguém conhecido se expõe.

E acho que o Marcelo é um puta exemplo. Porque, embora ele tenha tido esse problema, ele nunca chegou atrasado no trabalho, ele nunca chegou num show e errou tudo, nunca deixou ninguém na mão. É o exemplo de uma pessoa que consegue ser produtiva, sem deixar a peteca cair totalmente. Mesmo quando ele estava no pior momento, estava produtivo, fazendo as coisas dele e correndo atrás e dando atenção para a Cora. E aí você começa a entender que várias pessoas que são produtivas e capazes e tal também podem estar tendo esse problema e você nem sabe, nem sonha. Porque não é aquele estereótipo da pessoa que está largada, na rua.

Muito madura a forma de vocês lidarem com tudo isso.

Acho que é muito amor. Eu amo ele, virou outra coisa. A gente é muito amigo, continua sendo uma família. Tenho um amor profundo por ele, quando tem alguma crise, qualquer coisa, eu converso com ele, é meu melhor amigo. E é tão bom ter isso, faz um bem enorme para a Cora, ela sente que está junto, próximo, apoiando ela, está presente. E achei legal ele expor também por conta disso também, para ele mostrar a importância da gente estar junto nessa. Não é: “Ah, o problema é seu, vai se tratar.” Não, eu estou aqui junto, para ajudar.

Mudando de assunto, e a Orquestra Imperial? Está meio sumida…

Aconteceu uma série de coisas. Primeiro que todo mundo está mais velho, cheio de filho, cheio de trabalho, e não tem mais tanta disponibilidade. Segundo que, quando o Nelson (Jacobina) morreu (em 2012), já deu um certo desânimo. A gente tinha acabado de fazer um disco, e ficou todo mundo triste, foi duro o processo. Aí depois, quando morreu o Seu Wilson (das Neves, em 2017), já rolou um outro desânimo. Aí a Talma (de Freitas) e o Rodrigo (Amarante) foram pra Los Angeles, o Moreno ficou um tempo em Salvador. Ficou tudo mais difícil. E aí está todo mundo trabalhando muito, é outro momento da vida, sei lá, então eu acho que é natural. As pessoas falam: “Ah, a Orquestra acabou?”. Não, a Orquestra não vai acabar nunca, eu acho. De vez em em quando vai rolar, quando, mas não tem dado, sabe? E também já passou muito tempo, não tem mais tantos shows pra fazer, a gente já fez tudo. Nunca foi o foco principal da vida de ninguém que a Orquestra bombasse, virasse um trabalho… Não houve esse esforço. Então, tudo bem. A gente até estava falando de fazer uma temporada em janeiro, mas precisa estar todo mundo aí, vamos ver. Mas a gente vai continuar todo velhinho fazendo show da Orquestra. 

Eu lembro de vocês falarem que era tipo a pelada…

É, é isso também pra não dar muito trabalho, pra se divertir. Se começar a dar trabalho demais, perde a graça.

Você estava falando disso de estar difícil ser artista neste momento, e a gente toda hora tem um exemplo disso. É uma coisa que influencia você na hora de compor? Isso acaba passando para o seu trabalho ou não?

Diretamente, não. Eu não estou mudando meu modo de compor porque eu preciso fazer um esforço maior para as pessoas gostarem ou porque eu ache que precise falar sobre tudo que está acontecendo, necessariamente. Para o artista hoje em dia só o ato de sobreviver neste cenário já é um ato de resistência. Conseguir viver de arte hoje já é um ato de resistência sinistro, então não me sinto moralmente compelida a ter que falar sobre isso na minha música, embora eventualmente eu até fale. Porque isso é natural, eu falo inspirada pelas coisas que acontecem no dia a dia, e isso acaba aparecendo, como outros assuntos. Diretamente, não, mas acaba influenciando, no sentido de que acabo trabalhando mais com outras coisas, então eu tenho feito menos música, de alguma forma eu não tenho feito tantas músicas como antes. Mas acho que, como tenho outros trabalhos —  graças a Deus eu sempre tive essa outra opção, sempre tive, agora estou mais ativa na outra do que música, no sentido do dia a dia: embora eu seja produtiva, as horas do meu dia são muito mais ocupadas com as outras coisas —, tem uma coisa também de: já que eu não estou fazendo isso pra sobreviver, então eu quero é ser feliz, não preciso agradar ninguém, não tenho cliente, patrocínio, ninguém para dizer o que eu tenho que fazer e o que não fazer. Isso dá uma liberdade também, é uma coisa reconfortante. Eu vou ser feliz, então isso é bom também. No Fira Banaba a gente tem uma música que fala de batata-frita, e estou achando isso maravilhoso.

Você é uma artista que está sempre compondo ou compõe quando chega e para: “Ah, vou fazer um disco”?

Eu não costumo compor solto, não. Normalmente, componho quando tenho um prazo para entregar alguma coisa. De vez em quando, até rola, tem uns momentos de mais inspiração. O lance é que eu só consigo compor quando estou sozinha, o que é raríssimo. Tendo filho pequena e sendo casada, realmente, são momento raros. as agora estou desenvolvendo esse método de compor via Zap que está sendo bem bom. Eu componho muito no Uber, que estou sozinha. O Alberto manda a base, eu mando a melodia, e depois ele manda a base com a melodia, e eu mando um pedaço da letra, por Zap. Mas eu não muito assim de muita profusão de composições, eu vou fazendo o que precisa, não tenho assim uma caixa cheia de músicas guardadas.

Até porque, com você trabalhando em outras coisas…

Pois é, não sobra muito tempo e energia para isso. Essa coisa da maternidade, também é muito… Eu fiz essa opção, de ser uma mãe presente que leva e busca a filha na escola. Então, enquanto eu tiver que fazer isso, vou ter sempre menos tempo (risos). Mas tudo bem também. Eu faço o que precisa. O lance do prazo me ajuda muito. Aprendi a trabalhar assim, comecei fazendo assim no cinema, e aprendi a trabalhar com essa dinâmica. Quando precisa, vou lá e faço. É ótimo, dá supercerto. 

De uns tempos para cá, a gente está com um foco nas cantoras que são compositoras. Não que elas não existissem, sempre existiram, há muito tempo — pelo menos desde a Chiquinha Gonzaga —, mas sinto que a gente passou a dar mais espaço para elas. Como você vê isso, sendo uma também?

Acho importante. O Brasil é um país de cantautores, e isso não acaba nunca. A gente tem esse veio muito forte. Toda hora aparece mais uma cantora compositora incrível. Eu estou impressionada. Agora tem a Josyara, é um negócio incrível, tem a Juliana Perdigão, Aninha Frango Elétrico. São um reflexo dessa nossa tradição. E que sempre teve. Ainda acho que o mercado, talvez até inconscientemente, ainda priorize muito bandas de meninos e tal, mas acho que isso vem mudando radicalmente e numa velocidade estonteante. Amanhã já não vai mais estar igual a hoje. Acho maravilhoso esse reconhecimento, porque nunca se falou sobre isso. Mesmo na época da Marina, quando ela apareceu, ninguém ficava falando: “Ah, ela compõe também.” Era uma nova cantora, ninguém ficava pensando se ela compunha as músicas que cantava ou não. É muito legal as pessoas falarem sobre isso.

Muda até um pouco as letras em si, as composições. Há uns anos, a Letícia Novaes, antes de ter o Letrux, falava: “A maioria das músicas da MPB era escrita pra mulheres, as pessoas estão menos acostumadas quando é um muso homem.” E, se a gente for parar para pensar, realmente, tem a Rita Lee, aquela série de músicas que ela fez para o Robertotal, mas a gente se acostumou com cantoras e compositoras fazendo aquelas músicas sem gênero, que você fala de amor sem dizer para quem é.

Tinha sempre essa questão do gênero, se a música estava composta no masculino, será que eu mudo pro feminino, né?

Sim, e as músicas que falam de amor e que você não percebe se estão falando para um homem ou para uma mulher. E acho que agora agente tem de tudo…

Tem de tudo. E a gente está vivendo uma abertura imensa e, ao mesmo tempo, um movimento ultrarretrógrado, né? É muito louco. Como dizem por aí, quem disser que está entendendo é porque não está entendendo nada (risos). Quanto mais se abre, mais a gente vê o movimento contrário, em certos setores e instâncias, então, sei lá, tomara que no final dê tudo certo (risos).

Vai lá:
Fira Banaba
Quando: Domingo, 29 de setembro, às 17h
Onde: Audio Rebel. Rua Visconde de Silva, 55 – Botafogo
Quanto: R$ 20

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‘Amar num país onde estão pregando ódio é revolucionário’, diz Bia Ferreira http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/20/amar-num-pais-onde-estao-pregando-odio-e-revolucionario-diz-bia-ferreira/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/20/amar-num-pais-onde-estao-pregando-odio-e-revolucionario-diz-bia-ferreira/#respond Fri, 20 Sep 2019 18:15:38 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1115

Bia Ferreira lançou recentemente seu álbum de estreia. Foto: divulgação

 

Ela ficou conhecida quando um vídeo em que cantava a música “Cota não é esmola” viralizou, no ano passado. Mas sua estrada na música é antiga: filha de uma professora de canto, a mineira Bia Ferreira começou a tocar piano com apenas três anos. Mais tarde, entrou no conservatório de música e hoje sabe tocar 16 instrumentos. Bia também cantou durante anos na igreja evangélica (seus pais são missionários). Mas o discurso inflamado começou a tomar forma no contato com os movimentos sociais, que suscitaram nela o desejo de cantar para falar daquilo em que acreditava.

Agora, acaba de lançar seu primeiro álbum, “Igreja Lesbiteriana, um chamado”, um disco com influências de soul, R&B, funk e gospel, com letras que falam sobre racismo, homofobia e amor, entre outros temas. Os fãs cariocas vão poder ter um gostinho do novo trabalho esta sexta no “Levada”, no Lab Oi Futuro, em que ela se apresenta em formato violão. Já os paulistas conferem sábado a estreia do novo show, em que Bia se apresenta com sua banda, na Comedoria do Sesc Pompeia. “As pessoas que ouvem o disco têm duas opções: ou elas mudam de atitude, porque entenderam alguma coisa ali que está errada, ou se assumem racistas”, manda ela.

Você já tinha um projeto chamado Igreja Lesbiteriana. Por que escolheu este nome?

Igreja Lesbiteriana é um espaço de acolhimento para todas as pessoas que o movimento pentecostal e o protestante dizem que não são amadas por Deus. E um espaço para pautar tecnologias de sobrevivência para pessoas pretas e LGBTs no país que mais mata LGBTs no mundo e onde a cada 23 minutos um jovem preto é assassinado. É um espaço para pregar teorias e conteúdo intelectual para construir base teórica para que essas pessoas, e também indígenas, tenham acesso à informação, porque a gente acredita que ela transforma, para resistirem e sobreviverem neste mundo onde a gente vive hoje. Com protagonismo de pessoas lésbicas, bissexuais e transsexuais, por isso le-bi-t-eriana.

A ideia de chamar de igreja veio pelo fato de você ter crescido frequentando uma?

Essa ideia veio da contestação do que é igreja. Se você for olhar, na visão cristã da coisa, a Bíblia diz que a igreja somos nós mesmos e que nós somos templo. Então eu gostaria de saber: por que esses “nós” não contemplam as pessoas LGBTs, as pessoas de religiões de matriz africana? A gente veio para contestar, para dizer que, se igreja é um lugar de acolhimento, então é isso que nós somos. Veio da ideia de contestar esse pseudoamor desse Deus que castiga, que despreza pessoas LGBTs, pessoas de religiões de matriz africana. A gente vem para contestar esse lugar, porque entende que evangelho significa “boas novas”. Boas novas são as notícias que a gente vem trazendo, de uma  revolução que já está em curso, e que a gente precisa se informar para que ela aconteça, porque os meios de informação querem manipular o acesso que a gente tem a ela. E, quando você tem acesso à informação nua e crua, é quando você tem a possibilidade de escolha. Você pode até não concordar comigo, mas pelo menos você recebeu a informação. É uma opção sua não concordar. Agora, quando você não tem opção, isso vira uma imposição. E é contra isso que nós lutamos. Por isso esse nome: queremos criar o questionamento do que é igreja. Várias pessoas vêm dizer à gente que isso é uma coisa ofensiva aos cristãos. É aí que nós queremos falar: por que é ofensivo pautar um lugar de acolhimento para pessoas LGBTs? Por que isso agride os cristãos, se Jesus disse: “Amai ao próximo como a ti mesmo”, se Jesus pregou o amor ao próximo, curava leprosos, andava com mendigos, com prostitutas? Já que ser cristão é seguir os passos de Cristo, por que não seguir esses passos? É para criar esse debate. A gente vem para questionar e para pautar que, no ano de 2019, que foi quando consolidou-se a derrocada política do Brasil, a gente se posicionou e não se calou diante dessas opressões, dessas censuras, desse fanatismo religioso, desse conservadorismo que tem avançado no Brasil.

Você é uma pessoa de fé? Você tem uma fé específica?

Olha, eu sou uma pessoa que tem muita fé. Tenho fé nas pessoas e na música com ferramenta de transformação. Acredito no poder da informação, da ancestralidade, então eu não posso falar para você que não tenho fé, porque eu sozinha não diria as coisas que digo. Eu tenho uma conexão ancestral que me possibilita falar sobre o que eu falo. Eu preciso lembrar de todas as pessoas que morreram para que eu estivesse aqui. Que morreram sem poder falar. Hoje, eu preciso lembrar que, a cada 23 minutos, morre um jovem preto assassinado no Brasil, então, a cada 23 minutos que eu estou viva, alguém precisou morrer, porque as estatísticas não diminuem. Eu tenho fé no poder da informação, na missão que eu recebi de falar enquanto eu tiver voz e honrar a vida de todas as pessoas que perderam a vida para que eu pudesse estar aqui falando. Eu tenho fé. Fé na música.

No seu disco você fala de vários temas que causam polêmica, na falta de uma palavra melhor. Você surgiu cantando “Cota não é esmola” e, no disco, você dá uma cutucada no feminismo branco, por exemplo? Como está sendo a recepção ao seu disco, que é bastante politizado, em termos dos temas que traz nas músicas?

A recepção tem sido a melhor possível. Eu tenho ficado muito feliz com o resultado que tenho alcançado, por encontrar muita gente disposta a dialogar e construir essa revolução. São pessoas que estão vendo o que está acontecendo e entenderam que não podem mais ficar caladas. Essas pessoas, quando encontraram esse disco, se encontraram com um discurso que contempla o que elas acreditam também. Tenho conhecido muitas pessoas brancas que ouvem o meu som e entendem que não é contra as pessoas brancas: a gente é contra um sistema que se chama branquitude, que foi construído pra oprimir outras pessoas que sejam diferentes, que endossa o capitalismo, o racismo, a misoginia. É contra esse sistema, não contra as pessoas brancas. Esse disco deixa isso bem explícito. Ele mostra que a gente tem que lutar junto, que, quanto mais pessoas lutando junto, menos gente contra. Ele é um disco para informar a pessoas que vêm de onde eu vim, que não tiveram acesso a mesma informação que eu, para as pessoas que tiveram a mesma informação que eu se sintam contempladas, mais fortes para continuar lutando, e para as que nunca viveram o que eu vivo, que não têm a minha vivência, tenham acesso a como é que eu vivo e se preocupem em lutar junto comigo.

Eu já li que você era de família evangélica…

Eu sou de família evangélica, meus pais continuam sendo.

Essa vivência na igreja foi o que te levou a cantar e a compor?

Eu acho que o que me levou a cantar foi a minha mãe, que é professora de canto e canta em coral, e que é regente, e tem uma voz maravilhosa, e que cantou para mim desde quando estava grávida. Acho que minha paixão pela música surgiu pela minha mãe, que canta, e que me incentivou a ter uma educação musical. Desde os três anos de idade eu estudo piano, foi quando fui introduzida no estudo musical. O movimento protestante tem um cuidado maior com a questão musical, e a gente vê isso. Obviamente as influências gospel são presentes na minha vida, porque foi a minha criação. Mas eu acho que, para falar sobre o que eu falo, para escolher viver de música e cantar, foi algo que veio do meu contato com movimentos sociais, veio com entender que eu era boa fazendo isso, com o não pertencimento no mercado de trabalho — eu estava tentando fazer qualquer outra coisa que não dava certo, eu ia trabalhar numa loja e tinha que alisar meu cabelo para trabalhar ali, eu estava tentando fazer qualquer outra coisa que eu tinha que me mudar para fazer — e que a música me dava a possibilidade de ser quem eu era e de falar sobre coisas que eu acreditava. Foi quando eu compreendi que queria cantar. A princípio, o meu sonho era ser instrumentista ou backing vocal, eu sempre pensei em alguma coisa assim. Pensei em ser médica, pensei em ser várias coisas (risos). O propósito de cantar e de viver de música veio a partir do momento em que eu me dei conta da ferramenta que eu tinha recebido e dos lugares que eu conseguiria alcançar com essa arte. E obviamente a igreja foi um lugar onde eu aprendi a não ter medo de falar em público, a me portar em palcos — eu canto no coralzinho da igreja desde que eu sou criança. Meu pai e minha mãe me criaram nesse meio. Dizer que não há influência seria hipocrisia, há muita, mas acho que o que me fez atinar para o “vou cantar, vou viver de música, acho que minha arte consegue me sustentar” foi quando eu entendi que a música era o único lugar onde eu podia ser eu mesma, sem precisar mudar, e onde eu conseguia alcançar pessoas e comunicar o que eu estava pensando. Eu sempre fui muito aflita para falar aquilo que eu estava pensando, as coisas que eu descobria. Mas é isso: a igreja me incentivou a não ter vergonha de falar em público, a querer cantar, a querer me envolver com música. Porque, você sabe, músico de igreja tem dez chances a mais de ser melhor do que qualquer outro músico, porque essa galera se dedica mesmo. Minha família continua sendo evangélica, e todos os meus irmãos também tocam e também cantam, nós somos cinco filhos. Lá em casa todo mundo foi influenciado a cantar. Acho que é de família. Agora, eu fui a única que seguiu essa profissão.

Você tinha que idade quando começou a se envolver com os movimentos sociais, a se interessar?

Nos meus 15 anos foi quando eu descobri que existia um movimento chamado Unegro, que é um coletivo preto. Depois eu conheci a galera que trabalhava com quilombos, depois eu conheci o movimento estudantil e fui tendo acesso a informações, fui querendo ler a respeito. Fui querer entender sobre história. Fui querer falar sobre como é para mim ser mulher preta, sobre como eu não me sentia contemplada nesses movimentos, como eu não via pessoas defendendo as coisas que para mim eram importantes, que defendiam a minha vida. Foi nesse lugar que eu vi o feminismo não contemplando a vida das mulheres pretas. Foi quando eu tivesse acesso que eu vi que é muito bonito você falar sobre feminismo, mas que lá na favela, na quebrada onde eu morava ninguém nunca foi falar sobre isso, mas as mulheres já praticavam há muito tempo. Faz muito tempo que as mulheres pretas largam a filha com a vizinha para ir lavar roupa no rio. Não é agora. Então sororidade já existe para a mulher preta há muito tempo, só não tinha esse nome, porque ele é academicista. Aí as pessoas começam a inventar termos difíceis para teorizar, esquematizar aquilo que a gente já vive e excluem a gente desse conhecimento. Foi nesse momento que eu falei: “Poxa, não está chegando para as minhas, não está chegando no lugar de onde eu venho. Preciso falar sobre isso. Preciso falar sobre essas mulheres brancas, universitárias, que estão discutindo feminismo e que vão lá na favela só para escrever a teoria dessas da faculdade, mas que não querem saber qual a vivência daquelas mulheres.” Nesse lugar eu comecei a não me ver contemplada. Comecei como mulher preta lésbica a não me ver contemplada nas pautas. Não ver as pessoas falando sobre genocídio da população preta, sobre encarceramento, sobre racismo. Essas questões são pautas que surgiram depois da criação do Ministério da Igualdade Racial, que veio com governo Lula. E a gente precisa falar disso — não é ser lulista, não é ser petista, porque eu não sou, mas é entender que eu só tive acesso a isso por causa de uma política implementada por ele que foi a criação desse ministério, que inclusive foi banido. Precisamos falar disso, que foi isso inclusive possibilitou que Angela Davis viesse ao Brasil pelo menos umas quatro vezes e que eu pudesse ter acesso ao conhecimento a respeito do feminismo negro, do feminismo interseccional. Foi aí que eu comecei a ver e a me entender como um corpo político nessa sociedade e como eu ia me portar diante das informações que eu estava recebendo.

Nessa época você morava já em Aracaju?

Não. Nessa época eu estava em Piracicaba (SP). Meus pais moraram muitos anos lá. E, como eles são missionários, a gente sempre se mudou muito, morou em várias cidades. Hoje em dia eles nem vivem mais lá, estão no sul do Brasil.

Essas suas questões da militância causaram atrito ou estranhamento, pelo fato de a sua família ser religiosa, ou isso foi bem resolvido?

Eu acho que a gente sempre tem conflito quando pensa diferente. Qualquer pessoa. Mas não precisam ser violentos, são conflitos de ideias, intelectuais. A gente passou a acreditar em coisas diferentes. Houve embate, claro, como você deve ter algum amigo que discorda politicamente de você com quem você já deve ter tido alguma discussão. Sempre há o embate pelo novo. Por você entender: “Eu te ensinei tanta coisa a vida inteira, para você chegar agora e falar todo o contrário do que eu disse para você?”. Gera um conflito, mas gera a possibilidade de mais informação, de você criar um senso crítico: você não concordar comigo, mas pelo menos vai se informar sobre o que as pessoas que pensam diferente de você pensam. Aí você vai poder escolher a forma de pensar. E é só isso. Não sou uma pessoa impositiva. Até porque eu acho que cada um nasce numa época, tem uma vivência, tem as suas questões. Eu sou pela liberdade de escolha, para que as pessoas tenham acesso às informações e possam decidir no que acreditar. Houve esse embate, mas ele também foi importante para que eles compreendessem quais foram as informações externas que eu recebi e passei para eles. Tenho duas irmãs mais novas que são feministas, que acreditam nas mesmas coisas que eu. Tenho meu irmão mais velho, que está num processo de se construir um homem melhor. É um homem preto nessa sociedade, ele pode morrer a qualquer momento, porque é isso, nós estamos num país que a cada 23 minutos mata um jovem como ele, e tem essa compreensão. Eu consegui passar informação para os meus irmãos, e os meus pais hoje em dia respeitam o meu posicionamento. Eu acho que isso é o mais importante, para além de concordar comigo ou não: que a gente consiga conviver em harmonia e ter respeito. A gente consegue conviver bem, mesmo com divergência de algumas ideias.

E a reação a esses temas? Você falou da galera que gosta e está entendendo. Mas tem também quem não goste, você falou de quem não gosta do nome Igreja Lesbiteriana, e tem racismo, homofobia são temas que infelizmente dividem as pessoas. Isso atrai reações de ódio? Você recebe esse tipo de coisa?

Claro que atrai. A gente recebe. Várias pessoas que são seguidoras de Cristo que querem arrancar minha cabeça, várias pessoas que acham que o que eu estou fazendo é ofensivo a Deus. Mas acontece. Esse disco veio para isso mesmo. As pessoas que ouvem têm duas opções: ou elas mudam de atitude, porque entenderam alguma coisa ali que está errada, ou se assumem racistas. Você pode falar que é incômodo, que não concorda. É só você se assumir racista, uma pessoa misógina, homofóbica. E a gente precisa saber quem são as pessoas que estão contra nós, para não correr o risco de segurar a mão do inimigo. E eu entendo como inimigo porque são pessoas que não estão dispostas a lutar pela minha vida. Se não estão dispostas a lutar comigo pela vida das pessoas pretas, indígenas, LGBTs, que são as que mais morrem, que mais sofrem opressão, então não faz sentido, não preciso segurar a mão mesmo. Também é fazer entender que essas pessoas que estão falando “não gostei” pelo menos tiveram acesso à informação, e agora elas não têm mais desculpa para falar que não sabiam. Existem as pessoas brancas que falam: “Nossa, o seu disco é um soco no estômago, é um tapa na cara!”. É um tapa na cara para pessoas brancas que ouvem e se sentem incomodadas em algum momento por causa do que está sendo dito. As pessoas pretas, LGBTs, indígenas que ouvem não sentem um tapa na cara num um soco na boca do estômago, elas se sentem contempladas, muito felizes e realizadas, elas vêm dizer que eu estou falando aquilo que elas queriam ter dito. Para elas é enxergar uma mulher preta, lésbica, periférica como elas falando aquilo que muita gente queria dizer e que às vezes não tem coragem, ou que não tinha tido essa compreensão daquilo. Tem gente que fala: “Mudei várias atitudes minhas depois de ouvir seu disco, Bia. Sou uma pessoa branca que está num processo de reconstrução e revi várias coisas depois de te ouvir.” E existem as pessoas que falam: “Nunca senti tanto orgulho na minha vida de ser preto como foi no seu show.” Então é isso. Existem as pessoas que se sentem contempladas independentemente de cor. Eu fui agora fazer show na Galícia, na Espanha, e recebi um retrato, uma moça me desenhou, e nele estava escrito: “As pessoas da Galícia sangram com você.” São pessoas que entenderam aquilo que eu estou falando e que estão dispostas, da forma delas, a contribuir de alguma maneira para que essa revolução aconteça. E ela precisa continuar. Ela já está em curso, já está havendo um levante de mulheres, revolucionárias, se posicionando não só na política como na música, como na arte, como na literatura, como CEOs de empresas, em todos os âmbitos. Porque a gente entendeu que essa sociedade em que a gente vive deu errado. Porque ela foi pensada e criada por homens brancos. É aquela história do patriarcado, da branquitude, que é um sistema, não são pessoas, mas as pessoas reproduzem o sistema e o sistema reproduz o indivíduo. É contra esse sistema. A gente entende que essa revolução está acontecendo e é encabeçada por mulheres. E, para você participar disso, se for um homem, tem que colocar nas suas pautas de vida a defesa da igualdade de gênero. E nós precisamos de homens que pautem a igualdade de gênero, porque os homens ainda detêm o poder e os espaços. Eles ainda recebem mais. O feminismo não é uma luta contra os homens: é uma luta pela igualdade de gênero. E qualquer pessoa que queira lutar por essa igualdade é bem-vinda. Assim como o racismo não é uma problema das pessoas pretas. Elas sofrem com o racismo porque elas morrem todos os dias. Porque elas são agredidas todos os dias. O racismo é um problema das pessoas brancas, daquele sistema chamado branquitude. Tem que ser discutido por essas pessoas. Quanto mais pessoas brancas quiserem discutir o racismo e lutar contra ele junto comigo, para mim está ótimo. Porque o que eu quero é não precisar falar sobre racismo. O que eu quero é que ele não exista. Então eu preciso que pessoas lutem comigo contra o racismo. Eu preciso que se posicionem no café da manhã quando o pai faz uma piada racista. Eu preciso que as pessoas entendam que, no almoço de domingo, elas precisam reprimir aquela piada homofóbica que o avô fez. Se essa revolução começa a acontecer, trabalho de formiguinha mesmo, cada um fazendo sua parte, fica impossível de ser ignorada. Esse disco vem para falar: “Saia de cima do muro. De qual lado você está? Porque quem fica em cima do muro toma tiro dos dois lados.”

Há uns anos eu vi você dizendo que não podia se dar ao luxo de falar de amor, por causa do racismo, de um monte de questões. Só que seu disco agora tem músicas de amor. Qual a importância de falar nele hoje?

O disco tem duas músicas falando de amor.  A primeira é “Levante a bandeira do amor”, que pauta: cuide da sua vida, não é da sua conta com quem o outro dorme, seja feliz, “ame, e que ninguém se meta no meio/porque o belo definiu o feio pra se beneficiar”. É um levante para que as pessoas se sintam aptas a amar, dispostas a isso sem medo. E “Só você me faz sentir” foi a primeira música que eu escrevi para o amor da minha vida (a também cantora Doralyce). Quando eu dei essa entrevista que você citou agora, eu ainda não a conhecia. E foi quando eu entendi que o amor é necessário nessa revolução, porque ele é o que mantém a gente de pé, vivo e saudável para continuar na luta. Não adianta você só bater, só apanhar e não ter um afago. O amor é o que mantém a gente vivo, disposto, no gás para continuar lutando. É o que faz você entender que não está sozinho, que tem gente para segurar a sua mão. E eu não estou falando só de afeto sexual, eu estou falando de amigo, família, de construir redes de afeto. E aí é quando a gente entende que o amor, nessa sociedade em que a gente vive hoje, para além de ser um ato político, é uma tecnologia de sobrevivência e sanidade mental, para que as pessoas se mantenham bem para construir essa revolução. Por isso a gente fala de amor também. Depois desse encontro, eu descobri que sem o amor não seria possível. As pessoas pretas foram privadas de amar durante muito tempo. A gente foi a ama de leite, a gente foi a babá. A gente nunca foi o objeto do desejo. Durante muito tempo a gente foi a mulher preta que aparecia na Globo como Globeleza, pelada, toda pintada. Foi feita uma política de turismo sexual no Brasil colocando a mulher preta nesse lugar. Foi uma construção da depreciação e da hipersexualização do corpo da mulher preta. Então, quando você vê mulheres pretas podendo amar, ser amadas, entendendo o que é reciprocidade, é quando você vê uma mulher forte. Existe aquela história de que a mulher preta é forte, aguenta mais. A mulher preta não recebe o mesmo tanto de anestesia no parto, por exemplo. Isso é uma violência. Sempre teve esse estereótipo da mulher preta ser forte. Uma mulher bem-amada, bem-resolvida é uma mulher forte. A gente entende que o amor é o que te mantém firme, é o que te fazer se sentir poderosa, o que faz com que você sinta vontade e ânimo para construir essa revolução. Por isso a gente entendeu a necessidade de pautar o amor. E com esse disco não ia ser diferente.

Vocês estão juntas há quanto tempo, Bia?

Se eu for falar da forma que eu enxergo, eu acho que há muitas vidas. Mas nessa vida vai fazer dois anos.

Acredita que o fato de vocês duas serem da música acrescenta artisticamente ao trabalho de uma e da outra?

Eu dei uma entrevista ontem que depois que acabou a galera começou a tirar um sarro da minha cara, porque eu estava me derretendo falando disso. Mas é porque existe uma Bia antes da Doralyce e existe uma Bia depois da Doralyce. Acho que a minha forma de escrever mudou, a minha forma de pensar música mudou, a minha forma de pensar arte… Eu estou aqui sendo zoada. Mas é real. E não é para fazer graça, para ganhar like: é o que eu vivo. É todo dia. É acordar, olhar para o lado e agradecer pela sorte que eu tenho de conviver com essa mulher, porque ela é uma mulher incrível. É entender que não há competição: é a gente ir contra o sistema. É nós sermos duas mulheres pretas que falam de política na música, que compõem, que se pautam como mulheres intelectuais. É ir contra o sistema que prega que não dá para ter duas mulheres pretas no mesmo espaço, que apaga. A gente vem para segurar a mão uma da outra e dizer que mulheres pretas não precisam competir, que a gente pode se amar e construir essa revolução juntas. É entender que a gente tem um monte de amigas que também são mulheres pretas, intelectuais e que estão construindo com a gente a forma que a gente pensa, que a gente vive. É viver na contralógica do sistema. Depois que a Doralyce apareceu na minha vida, eu mudei a minha maneira de entender várias coisas. Principalmente a necessidade pautar o amor nesse espaço de arte, de falar que é possível a reciprocidade, que é possível o amor, e que ele mantém você vivo.

O amor entre duas mulheres pretas é a forma mais revolucionária de amor?

Olha, eu acho que existem várias formas revolucionárias de amor. E eu acho que quando você ama um corpo preto aqui no Brasil, o último país a escravidão, onde até o meio do último século era proibido por lei que pessoas pretas estudassem, um país que criminaliza a cultura das pessoas pretas — como o samba era crime, onde a capoeira era crime —, um país onde ainda há a reprodução do sistema racista colonial, quando você entende essa história, amar uma pessoa preta, amar uma pessoa indígena — que são donas dessa terra e que a gente não vê, porque está havendo uma política de real extermínio delas — é revolucionário. Quando é uma mulher preta amando outra mulher preta. Ou quando é um homem preto amando uma mulher preta. É revolucionário também quando uma pessoa branca leva uma pessoa preta na sua casa e apresenta para a sua família, quando você ama uma pessoa preta. Porque, normalmente, as mulheres pretas são aquelas com quem os caras fazem sexo, acham bem gostosas, mas, na hora de apresentar para a mãe: “Ah, ela não ia entender que eu estou namorando uma pessoa da sua cor.” E aí levam uma branca. Então, toda vez que você assume andar na rua segurando a mão de uma pessoa preta, isso é revolucionário, porque você sabe que aquela pessoa é alvo, a qualquer ela pode ser “confundida”, que a qualquer momento a vida dessa pessoa está em risco. Quando você segura a mão dessa pessoa, é quando você diz: “Eu estou com você.” É quando você entende que as pessoas pretas, as pessoas LGBTs não estão sozinha. E, mais uma vez, eu não estou falando só de afeto sexual, eu estou falando de amizade, de: quantos amigos indígenas você tem? Quantas pessoas LGBTs frequentam sua casa? Quantos pessoas pretas saem com você no rolê? Quem você está amando? Amar pessoas pretas, indígenas, LGBTs é revolucionário. Amar num país onde as pessoas estão pregando o ódio, o preconceito, o genocídio, mais armas, onde as pessoas estão querendo queimar e prender livros. Amar é um ato político e revolucionário.

Vai lá:
Bia Ferreira
Quando: Sexta, 19 de setembro, às 20h
Onde: Lab Oi Futuro. Rua Dois de Dezembro, 107/5º andar – Flamengo
Quanto: Grátis (ingressos esgotados)

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Centenário, Bar Luiz adia fechamento e realiza roda de samba este sábado http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/14/bar-luiz-adia-fechamento/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/14/bar-luiz-adia-fechamento/#respond Sat, 14 Sep 2019 11:00:20 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1106

O Bar Luiz é especializado em comida alemã. Foto: divulgação/Alexandre Macieira

Depois do anúncio de que o Bar Luiz fecharia as portas neste sábado, uma onda de solidariedade trouxe um sopro de esperança para o centenário bar, patrimônio carioca e uma verdadeira joia da boemia da cidade. Neste sábado, uma roda de samba acontece na calçada do estabelecimento, e a proprietária da casa, Rosana Santos, diz que já não sabe se ele irá encerrar as atividades. Ela contou que recebeu propostas para tentar salvar a casa, mas ainda não conseguiu avaliar todas.

Durante a semana, o carioca compareceu em peso ao lugar. Na segunda-feira, foram cerca de 600 pessoas, formando uma fila na calçada. Um dos clientes era o empresário Ottmar Grunewald, do Otto Bar, na Tijuca, que cedeu funcionários para a casa por toda a semana, para dar conta do grande movimento, além de insumos. Pela primeira vez uma mulher serviu as mesas do bar, que ficou cheio todos os dias.

A mobilização começou com os trabalhadores da casa e logo contagiou nomes como a chef Roberta Sudbrack, o colunista de bares Juarez Becosa e Grunewald, entre outros. “O Ocupando o Bar Luiz é um movimento que surgiu dos funcionários e que vai acontecer na parte de dentro do bar mesmo. Isso é para mostrar que nós temos respeito pelos cariocas e que não queremos que o nosso trabalho aqui acabe”, conta o garçom Eliseu Sales, que trabalha no lugar há dez anos.

O Bar Luiz foi o primeiro lugar no Rio de Janeiro a servir chope, bebida que logo foi incorporada aos hábitos do carioca. Apesar de todas as mudanças, até hoje seu cardápio tem principalmente comida alemã: o carro-chefe é o kassler com salada de batata, que serve bem duas pessoas.

A Prefeitura, que autorizou o evento deste sábado na rua, se prontificou a instalar banheiros químicos, gradil para fechamento de parte da via, palco e agentes de Guarda-Municipal e da CET-Rio. Para dar conta do serviço, o bar instalará chopeiras elétricas na área externa.

Desde 2013, o lugar vem enfrentando problemas. Em 2014, Rosana Santos recebeu uma ordem de despejo do Grupo Opportunity, que, em 2012, havia comprado 18 imóveis do lado ímpar da Rua da Carioca da Venerável Ordem Terceira da Penitência (de um total de 41 imóveis no Centro do Rio). Ela resistiu: entrou na justiça e buscou ajuda do então prefeito, Eduardo Paes, que anunciou que desapropriaria os imóveis, todos tombados pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) desde 1983.

Em 2015, novamente o grupo anunciou o despejo da casa. A prefeitura outra vez entrou em campo. Atualmente, dez lojas da rua estão fechadas, o que fez com que o movimento na região caísse consideravelmente. O pagamento do aluguel foi suspenso por conta da questão que envolve o processo de desapropriação dos imóveis.

O Bar Luiz foi fundado em 1887, na Rua da Assembleia, por Jacob Wendlind, um filho de suíços nascido em Petrópolis, com o nome de Zum Schlauch (“à Mangueira” ou “à serpentina”). Desde então, mudou de nome diversas vezes. Em 1927, já com o nome de Bar Adolph, em homenagem ao afilhado do fundador, Adolf Rumjaneck, aportou na Rua da Carioca. Em 1942, em plena Segunda Guerra, estudantes do Colégio Pedro II invadiram o local pensando que seu nome era uma homenagem, mas o compositor Ary Barroso impediu que a casa fosse destruída. A atual proprietária, Rosana Santos, é a viúva de Bruno Kurowsky, neto e herdeiro de Rumjaneck.

Vai lá:
Roda de Samba do Bar Luiz
Quando: Sábado, 14 de setembro, das 12h às 19h
Onde: Bar Luiz. Rua da Carioca, 39 – Centro. Telefone: (21) 2262-6900
Quanto: Entrada grátis

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‘É um momento difícil para escrever’, diz Jorge du Peixe, da Nação Zumbi http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/06/e-um-momento-dificil-para-escrever-diz-jorge-du-peixe-da-nacao-zumbi/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/06/e-um-momento-dificil-para-escrever-diz-jorge-du-peixe-da-nacao-zumbi/#respond Fri, 06 Sep 2019 21:11:14 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1091

Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi e do Los Sebosos Postizos. Foto: divulgação/Deu Zebraa

O projeto Los Sebosos Postizos surgiu despretensiosamente em 1998, um ano depois da morte de Chico Science, criado por integrantes da Nação Zumbi. O que era para ser apenas um show em Recife com as versões do grupo para as músicas de Jorge Ben, sobretudo do período dos anos 60 aos 70 (quando ainda não era Ben Jor), acabou se transformando em um projeto que rodou o Brasil por anos, além de render um álbum, de 2012. Fãs da obra do cantor e compositor, eles adicionaram ciranda, maracatu e dub às suas faixas preferidas da obra do Alquimista.

Agora, eles se debruçam sobre a obra de Bob Marley & The Wailers, em show que chega pela primeira vez hoje, no Circo Voador, em noite que ainda comemora os 30 anos dos também pernambucanos do Eddie (de quem a Nação gravou “Quando a maré encher”). Jorge du Peixe (voz), Lúcio Maia (guitarra), Dengue (baixo), Da Lua (percussão) e Samuca (bateria), da Nação Zumbi, além de Carlos Trilha (teclado) e Pedro Baby (guitarra) formam o Sebosos, que toca músicas do ídolo jamaicano como “Kinky Reggae”, “Rastaman Vibration”, “Slave Driver”, “Stir Tt Up”, além de algumas do repertório de Ben.

Jorge du Peixe conta que eles estão gravando um disco com essas canções, previsto para o ano que vem, assim como o próximo trabalho da banda principal da turma, a Nação. “Um momento difícil de escrever, tem que ter cuidado com a caneta”, comenta ele. “Você viu aquele documentário que tem no Netflix (sobre Bob Marley), acho que é ‘Who Shot The Sheriff’? Parece muito com o Brasil a situação lá. Veja esse documentário e veja a relação com a situação do país agora”, indica.

Como foi essa mudança de repertório dos Sebosos de Jorge Ben para esse repertório novo, do Bob Marley?

Tocar Bob Marley não é novidade. A gente ouviu tanto quanto Jorge Ben. A gente sempre ouviu Bob Marley & The Wailers. Reggae é uma coisa que sempre esteve presente. Muito marginalizado, inclusive: tanto hip hop como reggae são coisa de maconheiro. Reggae além da conta… O link é ancestral. Vamos fazer mais um. Difícil também cantar Bob Marley & The Wailers. O cara cantava lá em cima, estou trazendo mais para baixo (o tom), coisas que eu alcanço, meu tom. Inicialmente são 14 músicas no repertório do show, uma hora e alguma coisa. Assim começamos também tocando a obra de Jorge Ben. Tocamos tanta coisa antes até de tocar Jorge Ben, a gente tinha umas gravações sob a alcunha de Los Sebosos. E aí depois que veio a ideia de, como Sebosos, tocar outras coisas, fazer versões e tal. E a ideia estava guardada. Numa viagem dessas recentes, virei: “Pô, já foi, Jorge Ben, gravamos discos, demos um rolê legal. Vamos dar uma mudada agora? Vamos tocar Bob Marley & The Wailers?”. Eles se olharam assim: “Alguém já fez.” “Não, alguém já fez uma música ou outra. Independentemente disso, a gente vai fazer da nossa maneira.” O que vale é isso. E Bob Marley & The Wailers sempre se chamaram de rockers, né? O reggae não deixa de estar ali. “Catch a fire” foi um disco gravado na Jamaica, depois que o (produtor) Chris Blackwell botou um guitarrista americano, para amolecer mais o disco e ficar mais fácil para o mercado americano. Ele teve essa visão, e ele realmente deu um brilho no “Catch a Fire”. Ele deixou os caras ensaiando, deixou um dinheiro e nem sabia se o disco ia rolar. Só que o Bob Marley, muito determinado, botou os caras para ensaiar e gravaram. Um grande disco. E até hoje um dos mais ouvidos ao redor do mundo.

Tem uma chance de virar álbum, como o show do Jorge virou?

Já gravamos, antes de ontem e ontem (risos).

Olha, era isso que vocês estavam gravando, então? Em São Paulo?

É, meio na surdina. No Carlos Trilha. Ele está tocando agora com a gente, também.

Tem previsão?

Acho que janeiro. Começamos agora, dá um trampo ainda, acho que ano vem, mesmo. Ainda tem que botar voz depois, gravar o resto coisas. Mas está bem interessante, ficou bonito. Fiquei feliz assim com os trabalhos. Meio corrido: tu gravar 12 músicas em dois dias (risos)!

E disco da Nação?

Está no processo também. Estou na fase de escrever. A ideia não é para este ano mais: a gente pensou que fosse para o segundo semestre deste ano, mas a gente viaja, tem as correrias, outras coisas. A gente está mexendo, acho que no mesmo processo, tem algumas bases em curso. Um momento difícil de escrever, tem que que cuidado com a caneta. Mas estou mexendo nisso, estou fazendo umas bases. Está encaminhado para o ano que vem, também. Não pode parar, né? Agora mais, então, tem que se manter em movimento.

Você estava falando do momento ser difícil para escrever…

Pois é. Nunca vi nada igual. Nunca vimos.

A Nação sempre teve bastante músicas politizadas.

De certa forma. A gente tenta trazer, né? Chico sempre se calçou no social. Ele era muito mais direto. Hoje talvez seja mais implícito. Mas a gente está calçado nisso sempre no palco. Falar sobre é difícil, para um público misturado, que contesta. Se fosse Chico, falaria: “Tu nem presta atenção nas letras, cara! Tu não sabe nem o que ouve. Não me incomodo com o funk, não. Tenho minha postura, minha maneira de pensar. É isso aí. Vá ouvir outra coisa.”

Bob também era superpolitizado, né?

Sim, sim. Levou tiro. Você viu aquele documentário que tem no Netflix, acho que é “Who Shot The Sheriff”? Parece muito com o Brasil a situação lá. Veja esse documentário e veja a relação com a situação do país agora. Eles divididos lá, esquerda e direita, e ele teve que sair da Jamaica uma época, depois que levou um tiro ali (na noite de 3 de dezembro de 1976, sete homens armados entraram na casa do cantor de reggae e deram mais de 80 tiros; a mulher dele na época, Rita Marley, levou um na cabeça, Bob levou outro no coração e o agente do artista levou cinco na barriga, mas ninguém morreu). Mas alguns falam que ele tomou um tiro não por causa da política. Naquela época, ele tinha um amigo chamado Allan Cole, que era um parceiro dele ali. Allan Cole ficou um em tempo em Recife, ele foi jogador do Náutico, você sabia disso? Dizem que ele levou um tirou porque Allan Cole era apostador de corridas, tem várias histórias, e ele sem sair da ilha, Bob Marley levou um tiro por causa do cara. Já outros dizem que a história era por represália de um outro político, que ele estava fazendo uma campanha… Bob Marley voltou para a Jamaica para tentar fazer as coisas mudarem.

Vai lá:
Los Sebosos Postizos + Eddie
Quando: Sexta-feira, 6 de setembro, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 60 (meia-entrada e pessoas com 1kg de alimento, 2º lote) e R$ 120 (2º lote)

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‘As compositoras estão mais em evidência agora’, diz Sofia Vaz, da Baleia http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/08/30/as-compositoras-estao-mais-em-evidencia-agora-diz-sofia-vaz-da-baleia/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/08/30/as-compositoras-estao-mais-em-evidencia-agora-diz-sofia-vaz-da-baleia/#respond Fri, 30 Aug 2019 11:00:59 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1081

A banda Baleia se apresenta na Casa Julieta de Serpa. Foto: divulgação

No ano passado, a banda carioca Baleia começou um processo que chamou de disco vivo: uma obra em aberto, que vem sendo mostrada aos poucos para o público nas redes e nos shows, com participação dos próprios fãs em algumas etapas. O trabalho foi batizado de ‘Coração fantasma’ e já teve dois capítulos lançados. O primeiro saiu em setembro do ano passado e trouxe três músicas. O segundo, em abril de 2019, veio com seis — uma delas, “Eu Mal Estou Aqui”, conta com as participações do trio paranaense Tuyo e do pianista pernambucano Vitor Araújo.

Enquanto um capítulo foi revelado ao público, outro estava sendo criado. Nos shows, músicas já lançadas se misturam com as que ainda estão sendo trabalhadas. Nesta sexta, na Casa Julieta de Serpa, no Flamengo, é uma chance de conferir ao vivo essa proposta. “É um caminho que não foi feito ainda, então nós estamos nos deparando com as possibilidades e com os obstáculos enquanto fazemos”, comenta Sofia Vaz (voz, teclados e guitarra), que forma a banda com seu irmão Gabriel Vaz (voz, bateria e guitarra), Felipe Pacheco Ventura (guitarra e violino) e Cairê Rego (baixo). Em entrevista ao blog, ela também sobre o aumento da visibilidade das mulheres na música brasileira, entre outros temas. “Acho que isso tem ver também com as discussões sobre as questões das mulheres, o feminismo. Acaba se refletindo na música também”, analisa.

Como está sendo o processo do disco vivo? Vocês já lançaram duas partes. Como tem sido até agora?

Pensando profissionalmente, criativamente, é um processo totalmente diferente e que tem sido uma experiência muito rica. Ao mesmo tempo muito trabalhosa. A gente tem, por um lado, a possibilidade de criar as músicas de uma forma mais orgânica, mais no fluxo. Elas vão sendo trabalhadas ao longo do processo, então nós tocamos nos shows, sentimos como ela está, trabalhamos um pouco mais no arranjo, voltamos com ela. Não é aquela coisa da gente ter que resolver tudo de uma vez — geralmente, vamos para um estúdio e gravamos tudo de uma vez, é como se fosse um fotograma daquele momento. Desta vez, no instante em que a gente registra a música, ela já passou por um processo, a gente já teve ideia, mudou de ideia… Essa possibilidade tem sido muito interessante para nós. Por outro lado, é extremamente trabalhoso, porque a gente está constantemente nesse processo. Não consegue focar nisso de uma vez e depois seguir com os shows. Está o tempo todo trabalhando. Pessoalmente, eu sinto que é um caminho mais divertido, mais interessante do que o medo que sempre foi feito, que é a imersão em uma semana, dez dias dentro de um estúdio. É bem bacana, a gente consegue trocar mais com o público, consegue desenvolver outras coisas que não eram possíveis antes e que se tornaram por conta do mercado ter mudado, das opções de lançamento, das plataformas digitais, tudo foi permitindo uma agenda mais flexível e um trabalho mais fluido entre o que nós fazemos aqui dentro, fazemos no show, o público, a participação: isso tudo misturou.

Como tem sido essa troca com o público? Até que ponto está indo a influência dele no resultado do que vocês estão fazendo?

Na prática, o que nós temos feito bastante que tem sido mais viável e mais interessante é trabalhar as músicas e mostrar essas músicas muito antes de elas estarem prontas. Nessa hora do show, a gente está realmente, de um forma muito mais vulnerável, testando as músicas. Nós tocamos — claro, com público, sem público — e estamos pensando: “O que está funcionando? O que (ela) está pedindo? Como está sendo a recepção?” Tem gente que vem falar conosco a respeito da música: “Ó, eles tocaram música nova, eu nunca ouvi!”. E aí dá opinião. Temos brincado quando possível. Então, se a gente começa a gravar, muitas vezes a música não está fechada, a gente não tem um nome para ela, então joga a letra que numa rede social e fala: “O que vocês acham? Que nome isso aqui pode ter? Como vocês interpretam isso?”. Já fizemos isso também, e foi bem interessante. Está indo por aí, a gente está testando coisas. É um caminho que não foi feito ainda, então nós estamos nos deparando com as possibilidades e com os obstáculos enquanto fazemos.

E vocês têm um prazo final para terminar o processo? Porque, enfim, vocês estão numa gravadora, que tem todo um calendário…

É, mas é isso: o mercado mudou muito. Aquela coisa da gravadora, que você tinha um contrato e tinha que mostrar um produto até um prazo tal não funciona mais assim. Até dá para ver outros artistas que vão lançando singles, hoje em dia é uma coisa muito mais normal do que você lançar necessariamente um álbum todo de uma vez. E o que a gente tem com a Sony também já é um outro tipo de negociação, eles distribuem as músicas. Não é aquele tipo de contrato antigo, em que uma gravadora investe e você tem que devolver de alguma forma. A gente continua sendo uma banda independente e faz uma distribuição através de uma gravadora. É mais fácil. Agora o prazo está sendo interno. A brincadeira é a gente se propor a não ter controle. Então existe a possibilidade de terminar quando nós sentirmos que queremos. Tem uma hora em que a gente fala: “Já deu, já desgastou, vamos finalizar isso aqui?”. Ou: “Vamos fazer mais um?”. Ou mesmo: “Vamos terminar”, e daqui a um tempão, depois ter lançado outra coisa, a gente abre esse projeto de novo e continua. Isso tudo é possibilidade ainda em aberto. Agora, neste momento, está pintando uma vontade de ter um fechamento para esse disco, para ver o que ele se torna. Depois, mesmo fechando, se nós quisermos mexer nisso, tudo é possível.

Por que vocês escolheram esse nome, ‘Coração fantasma’? Escolher um nome para um projeto em aberto talvez seja diferente…

Foi (risos). Foi um desafio. Foi esse pensamento: “Como a gente vai dar nome para uma coisa que ainda não existe?”. E, ao mesmo tempo, o quanto esse nome não pode representar justamente essa proposta? Acho que nós fomos muito por aí. O fantasma era muito essa brincadeira entre o que existe e o que não existe, o que está ali e o que ainda não está. E ao mesmo tempo, era uma coisa muito humana para a gente botar como fantasma, não é simplesmente como se fosse um disco fantasma. É também, mas é uma coisa humana. O coração vem muito por aí. E a gente juntou.

Hoje a gente vive um momento em que, apesar de ainda haver uma disparidade muito grande, porque a maioria dos compositores ainda é homem, existem mas compositoras independentes em evidência na cena independente do que há alguns anos. Como você se sente sendo compositora neste momento?

Eu não posso falar de como era antes, só do que eu vivi… Eu só vivo isso agora, e sinto que as compositoras estão mais em evidência, sim — as independentes, principalmente — e acho isso bom, claro. Acho que isso tem ver também com as discussões sobre as questões das mulheres, o feminismo. Acaba se refletindo na música também. Ainda falta muito, mas a gente já vê algum avanço. Porque não é que as compositoras não existissem, mas muitas vezes não notavam que ela estava lá. É como se eu estivesse na banda e fosse tratada como um bibelô, em vez que participar do processo de criação, e não levassem em conta as minhas opiniões. Nas entrevistas, muitas vezes ainda tem isso: quando perguntam sobre composição, falam com os homens, e quando querem saber de figurino perguntam para mim. Tem muita coisa assim. Mas dá para ver um avanço, sim, até nos festivais, que escalam mais mulheres. E existem festivais contratam toda a equipe técnica de mulheres, o que é ainda mais difícil do que na música em si, e de propósito. Isso tudo tem que ser um esforço consciente para conseguir avançar em algo que está muito defasado. A melhora dá para ver, principalmente da consciência de que isso é uma questão. Como resolver isso ainda temos que estudar, mas pelo menos a compreensão de que existe um gap, uma lacuna.

Hoje em dia os artistas, se quiserem, têm contato direto com os fãs, receber o feedback direto do público em tempo real pelas redes. Acontece de mulheres que também são da música, que são iniciantes te procurarem para falarem que você inspirou elas?

Isso acontece não só comigo, como todas as mulheres que estão na música. Isso é a grande questão da visibilidade e da representatividade. É uma coisa que muda. Claro, se eu estou começando na música e eu vejo uma pessoa — claro, estamos no mercado independente, é uma coisa pequena, né? Mas eu vejo um exemplo, eu vejo alguém que me representa e que se apresenta como uma possibilidade real, isso faz uma diferença colossal para a cabeça da pessoa, para a sociedade. Naturalmente, acontece em show, acontece às vezes em mensagem. E é bom, né? Eu ainda sinto falta de ser representada em coisas que eu não me enxergo lá. Eu vi muito isso agora, com o lance da Fernanda Young, que foi uma perda horrível, muito do nada. Vi uma quantidade grande de pessoas colocando justamente isso: de alguma forma, pela primeira vez nós vimos a figura de uma mulher forte num meio extremamente masculino. Uma roteirista bem-sucedida, e ao mesmo tempo do jeito dela, assumindo as coisas dela, a forma de fazer dela sem pedir desculpas. Isso tudo inspira muita gente. Eu tenho amigas que são roteiristas e vi elas falando sobre isso, como a descoberta de alguém ali te motiva a fazer aquilo de fato. Senão a gente desanima mesmo.

E essa valorização do trabalho das mulheres agora deve criar um ambiente que até nos backstages da vida você encontra outras mulheres, né? Sinto que poucos atrás não era assim, o próprio line up dos eventos não tinha essa quantidade de mulheres…

Não tinha. E o que é bacana é que o público mesmo está cobrando isso. E está notando, e está reparando, e está atento. E a possibilidade dessas mulheres enfim se encontrarem e se esbarrarem, poderem compartilhar as experiências, isso é tremendo, faz muita diferença.

Voltando ainda para a história do disco: apesar de ele ainda estar em aberto, você sente que teve um conceito que norteou o trabalho? A essa altura, vocês entendem qual é o tema ou clima do disco?

Eu acho que, para ter a noção completa, a gente tem que esperar ele fechar. Vamos conseguir ter a perspectiva e distanciamento para te dar uma resposta melhor: “Acho que o conceito acabou perpassando isso, isso e isso.” O que acontece enquanto nós estamos no processo criativo — que aconteceria também se esse processo não estivesse sendo público, exposto, se estivesse sendo só entre nós e a gente fosse gravar logo depois — é você ir reparando nas coincidências, ir notando como as coisas vão se interferindo e se conectando. Toda vez que estamos compondo, começamos a notar essas semelhanças e essas coisas que vão costurando. E isso é divertido: a gente está fazendo a música e, quando vai chegando mais para o final, fala: “Olha, como isso na verdade, seja musicalmente, seja na letra, já estava ali antes e isso aqui está sendo uma evolução?”.

No outro disco (‘Atlas’, 2016) vocês lançaram um livro. Eu vi vocês falando que têm o desejo de lançar algum objeto, alguma outra coisa física com esse disco que seja complementar de alguma forma. Vocês já têm alguma ideia?

A gente já teve algumas conversas sobre o que poderia ser essa materialização do disco (risos). Mas não tem nada fechado. Até porque depende muito de como isso se dá, em que momento vamos fechar isso, deve ser mais para o começo do ano que vem. E aí, a partir de então, vamos poder, com conteúdo, pensar em como transformar isso em forma. Gostamos de trabalhar com símbolos. O livro já foi um passo inicial, agora eu acho que a gente quer ir um pouco mais radicalmente para um lado de… Peraí: o livro foi como se fosse uma sequência lógica do que seria um encarte de disco. Agora eu me pergunto mais: “Precisa ter alguma relação com o que a gente entendia como disco?”. Eu acho que não, eu acho que pode ser qualquer coisa. Só que tem que se construir isso baseado no conteúdo que aquilo propõe. A discussão agora está sendo essa: “Para onde vamos? Que tipo de forma conseguimos linkar e relacionar com esse conteúdo e que pode ser ao mesmo tempo interessante, um objeto, alguma coisa que para a gente faça sentido e dê um entusiasmo de fazer?”. Porque a gente precisa se empolgar: “Eu queria ter isso. Isso seria uma coisa louca e interessante e diferente.” A gente fica sempre pirando nas coisas (risos).

Para a Baleia, a música precisa dialogar com outros tipos de arte? Vocês têm esse anseio?

Eu acho que inevitavelmente esse diálogo acontece. O quanto é possível caminhar por essas outras áreas vai muito também das possibilidades concretas de fazer. É claro que eu acho que imagem e músicas estão juntas. Eu ouço uma música, eu visualizo. Independentemente do que seja. Então, a minha vontade — e a vontade da banda, com certeza — seria poder trabalhar isso ao máximo, brincar com isso. Só que é claro que, de novo, a gente está num mercado independente, então não tem nem recurso financeiro para fazer tudo que gostaria de fazer. Ficamos superfrustrados, tipo: “Nossa, eu queria poder fazer um vídeo”, “Queria poder fazer uma instalação”, “Queria poder usar o show como não só um palco para estarem músicos com uma caixa com som saindo, mas brincar com tudo que é possível, fazer 3D, e matéria e luz e cor.” A gente tem muito interesse, o que freia é até onde a gente consegue ir dentro dos limites dos nossos recursos. Por isso que é sempre um jogo difícil. Para toda banda independente, né?  É difícil pesar isso do investimento.

Vai lá:
Baleia
Quando: Sexta, 30 de agosto, às 21h
Onde: Casa Julieta de Serpa. JClub. Praia do Flamengo, 340 – Flamengo
Quanto: R$ 30 (meia-entrada) e R$ 60

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‘O artista independente no Brasil está muito estrangulado’, diz Wado http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/08/23/o-artista-independente-no-brasil-esta-muito-estrangulado-diz-wado/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/08/23/o-artista-independente-no-brasil-esta-muito-estrangulado-diz-wado/#respond Fri, 23 Aug 2019 17:47:07 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1073

Wado abre noite no Circo Voador. Foto: divulgação/Alzir Lima

Celebrado pela imprensa e o próprio meio musical desde sua estreia solo, o disco ‘Manifesto da arte periférica’ (2001), o catarinense radicado em Alagoas Wado comemora 18 anos de sua trajetória (antes, ele integrou as bandas Ball e Santo Samba). Depois de lançar o álbum “Precariado”, no ano passado — o conceito vem do filósofo norte-americano Noam Chomsky, que classifica como “precariado” o que é produzido no terceiro mundo com mão de obra barata para o consumo nos países desenvolvidos — ele planeja passar um período entre Maceió e São Paulo para ampliar seu público, que ele diz ter encolhido, assim como o cenário da música independente brasileira em geral.

Eu estava vivendo de música há mais de dez anos, tive que começar a rebolar outras coisas pra conseguir pagar minhas continhas”, conta Wado. “Mas eu estou com essa força de menino de novo de tentar ir para o Sudeste, ficar indo e voltando, porque tenho filho, mas estou com esse otimismo de seguir adiante. Porque eu acho que a pertinência do trabalho está aí, mas eu precisava que isso expandisse para mais gente”, analisa.

Ele também foi buscar diálogo com as novas gerações: “Precariado” tem as participações de Tuyo (em “Janelas”), Baleia (“Bailar dos barcos”), Peartree (“Janelas”) e Teago Oliveira, do Maglore (“Onda permanente), além dos contemporâneos Kassin e Momo, e de seus conterrâneos Reuel Albuquerque (da banda Morfina) e Givly Simons, da dupla Figueroas.

Depois de levar ao Audio Rebel uma versão de seu show com três guitarristas (ele, Kassin e Igor Peixoto, de sua banda), ele se apresenta pela primeira vez no Rio com os arranjos originais do disco, no sábado, no Circo Voador, acompanhado por Vitor Peixoto (guitarra, violão de nylon e voz),  Dinho Zampier (teclado e voz), Igor Peixoto (baixo e voz) e Rodrigo Sarmento ‘Peixe’ (bateria).  Wado abre a noite, que ainda conta com Arnaldo Antunes.

Você fez um show recentemente no Audio Rebel, né?

Isso. Eu fui produzir o disco de uma cantora, Flora Uchôa, tive que ficar uns dias no Rio, aproveitei e fiz esse show.

Foi o primeiro show do disco aqui?

Na verdade, o show da Audio Rebel foi o primeiro, mas lá é bem pequenininho, intimista. Foi uma apresentação com três guitarras, foi um formato meio maluco. Eu, o Kassin e o Igor, que estava comigo também, tocando. Esse show agora é com a banda mesmo, bateria, guitarra, baixo. Vai ser a apresentação com os arranjos fiéis ao disco mesmo, com o grupo que tocou comigo no álbum.

Eu vi você falando nas entrevistas do lançamento do disco que os artistas têm circulado menos, que você também tem. Você se sente que o mercado independente se retraiu, está mais complicado?

Eu acho que tem algumas coisas dentro desse aspecto. Porque, como eu comecei em 2001, eu já estou na segunda ou terceira geração de fãs. Então os fãs da minha idade estão meio que nem eu: em casa, cuidando de filho (risos), acaba indo menos a show é natural. Teve uma renovação, mas eu sentia o bicho pegar junto com a crise que chegou no Brasil desde o golpe. Com aquilo ali, a gente se viu em crise, e o mercado independente desaqueceu muito. Eu estava vivendo de música há mais de dez anos, tive que começar a rebolar outras coisas pra conseguir pagar minhas continhas.

E o que você está fazendo? Trabalhando como jornalista?

Eu fiquei um tempo no jornal do Collor, como diagramador, mas ele está me devendo um dinheiro também, 16 contos. Até botei na Justiça do Trabalho, ganhei, mas ele não pagou ainda.

Qual é o jornal do Collor?

É a Gazeta de Alagoas. Ele é dono da rádio FM de maior audiência, da (afiliada da) TV Globo e do jornal de maior audiência também.

E hoje em dia, além da música?

Acabou que eu fui diversificando: ano passado eu lancei dois livros, comecei a pintar umas coisas, e esse lance da produzindo. Agora mesmo eu estou produzindo o disco dessa cantora que eu falei, estou nos finalmentes, estou mixando, está bem bonito. É uma estreia bem forte. O pai dela é um dos ícones da geração 80 de pintura brasileira. É maior nome daqui de Alagoas, o Delson Uchôa. Ela vem de uma família de artistas, então tem uma visão bem clara, já está chegando madura, eu acho.

Você sempre desenhou também, sempre teve essa ligação com artes visuais, né?

É, eu sempre gostei. E aí fiz umas três exposições, me rebolo para todo lado para conseguir (risos). Deu uma aquecida agora de novo, eu fiz o circuito do BNB (Banco do Nordeste), rolaram uns shows de Sesc, agora tem o Circo. E, como o meu neném está mais durinho, estou preparando passar mais temporadas no Sudeste, principalmente São Paulo, que é onde está mais a grana. Estou com plano de alugar um quartinho na casa de alguém lá e ficar indo e voltando para restabelecer esses espaços. Porque, por conta de ficar aqui, a gente encolhe um pouco.

É complicado, né? O Brasil é muito grande, e acaba que São Paulo atrai mais a visibilidade.

É. Metade do PIB está ali e fica meio que a vitrine mesmo, está todo mundo… Quem não foi para Portugal está em São Paulo.

É mesmo (risos). É um bom resumo. Acho que pode trocar o “ordem e progresso” da bandeira por isso. E foi isso também acabou te inspirando a buscar no Noam Chomsky o conceito do “Precariado”?

Pois é. Eu acho que é quase uma vidência. Porque eu fiz o disco, lancei ano passado, e cada vez mais a gente está precarizando. Pretendo no ano que vem fazer outro disco até para ver se a gente muda de assunto, porque está difícil. Agora, o álbum tem esses assuntos políticos, mas é um disco de samba que eu considerado irmão do “Samba 808” (2011), que é um trabalho muito bem-sucedido meu. É meio que um desdobramento. Eu fiquei bem feliz com ele. É um disco que, para o meu gosto, eu não preciso passar faixa. Eu fiquei feliz com o repertório inteiro. Eu tenho essa paixão pela música brasileira, principalmente pelo samba e pelo ijexá. Eu tinha feito anteriormente o “Ivete” (2016), que era mais para o axé e para o ijexá, e este para mim é massa. Quando eu me proponho a dar esse mergulho no samba, é onde eu fico mais feliz.

Este disco tem um marco: é o décimo da sua carreira. Além disso, em 2019 são 18 anos da sua carreira, desde que você lançou o ‘Manifesto da arte periférica’ (2001). É a maioridade do seu trabalho. Como você avalia seu percurso até aqui? Você faz esse balanço?

Eu sou muito orgulhoso e muito feliz das coisas que eu construí. Os amigos que eu fiz de profissão, gente que eu admiro e que acabou virando amiga e me admira também, como o Chico César, o Marcelo Camelo, a Mallu, o Zeca Baleiro, o próprio Kassin. Uma turma que trabalhou comigo, de quem eu já era fã e que acabou que me admiram também. Para mim, é muito legal. Foi além do que eu imaginava que fosse ser. Mas, ao mesmo tempo que tem isso, tem essa questão de que está difícil de viver. Isso me coloca numa sinuca: eu tenho que me propor, me colocar de novo no olho do furacão, ou partir para outra coisa. Mas eu estou com essa força de menino de novo de tentar ir para o Sudeste, ficar indo e voltando, porque tenho filho, mas estou com esse otimismo de seguir adiante. Porque eu acho que a pertinência do trabalho está aí, mas eu precisava que isso expandisse para mais gente. Ficou meio secreto, ultimamente. Deu uma encolhida de mercado para mim.

Você é um artista de quem a crítica e o próprio meio gostaram desde o primeiro momento, né? Seu trabalho sempre foi elogiado. Você esperou que em algum momento fosse atingir bem mais gente?

Essas coisas são cíclicas. O que eu digo é: tem que continuar fazendo. Porque, às vezes, aquilo toca um monte de gente, às vezes toca um nicho só. Acho que ali por volta de 2012, quando eu fiz o ‘Samba 808 ‘(2011) e o ‘Vazio tropical’ (2013), que foram discos que vieram juntos, mercadologicamente foi quando eu estive maior. Mais o disco seguinte, em que a coisa diminuiu (‘1977’, de 2015), que era para considerar um erro, eu acho um álbum lindíssimo. Então, não tem erro, tem uma coisa cíclica de interesse das pessoas. Acho que a gente tem que continuar trabalhando. E às vezes se propor a se colocar no eixo, porque senão você acaba virando uma coisa que eu digo de brincadeira que a gente vira minhoca. Porque as pessoas começam a te chamar de “artista da terra”. Artista da terra é minhoca, que revira o chão. Para mim, é artista e ponto. Eu fiz e faço as coisas para o Brasil, para circular nele, para rodar. Até porque aqui é um estado pequenininho. Se eu for viver de música aqui, não vou conseguir. Então eu sempre fiz as coisas pensando no Brasil mesmo.

Você já foi contemplado por edital?

Já. Ganhei o Projeto Pixinguinha para fazer o disco ‘Atlântico Negro’ (2009), depois fiz uma turnê pelo Pixinguinha junto com a Rita Ribeiro (hoje, Rita Benneditto), Totonho e Carlos Malta, em que a gente fez Sul, Sudeste e França — fizemos o Ano do Brasil na França… Depois ganhei um edital para a Alemanha, também, naquela PopCom. Prêmios locais aqui pela Secretaria de Cultura. Eu estou sempre tentando colocar os projetos dentro de algum edital. Mas tem essa coisa, que é natural, porque a gente envelhece e, se você for parar para pensar… Eu fui ouvir o disco do Arnaldo Antunes (‘RSTUVXZ ‘, de 2018), que ele vai tocar com a gente (no Circo). É muito lindo, meio samba, meio rock. Principalmente a metade samba, achei sensacional, os timbres ótimos, tudo o que o Curumin (produtor do trabalho) fez. Mas é difícil você imaginar que uma pessoa diga: “Vou parar para ouvir o décimo disco do Arnaldo, o décimo disco do Wado.” É natural que não tenha uma demanda tão grande, e que o consumo maior seja da obra da pessoa, e não um álbum específico. Eu acho que as pessoas para mim já funcionam mais no macro. É o Wado, não é necessariamente o disco da vez. Apesar que eu sempre faço o disco da vez sempre achando que vai ser o maior sucesso, que vai estourar (risos). Aquelas coisas. Você acredita, tem tesão de fazer, de timbrar. Nesse mesmo eu chamei a moleca que está estourando, Tuyo, Baleia. Eu tenho ver o que a molecada está fazendo, me colocar próximo, interagir e entender como é que a turma está timbrando, como é que eles pensam música. Acho que é importante.

Eu ia te perguntar agora dessa galera jovem que você chamou para para participar do álbum.

Pois é. Eu fiz uma assessoria de imprensa com o André Felipe, que é um menino lá de São Paulo, e ele tem um trânsito legal com essa molecada. E eu sempre faço um exercício: toda vez que está fechando um ano, eu faço um apanhadão do que está mais nas listas e ouço tudo, pego uns 50 discos do ano para ver o que está rolando, para eu saber. Porque é o nosso trabalho. Eu preciso saber o que os meus pares estão fazendo. E, a partir dali, eu separo as coisas que eu gosto. Nesse caso do disco, eu chamei e tive sorte que alguns toparam interagir comigo.

Você estava falando que tem que fazer um disco novo para mudar de assunto. Você já tem trabalho novo mesmo, Wado? Ou foi só uma piada?

Eu, na verdade, tinha e tentei, mas desisti. Eu geralmente faço de dois em dois anos, já seria para estar fazendo agora, dentro do ritmo que costumo fazer. Mas eu protelei, porque estou com uma ideia muito maluca, que vai dar muito trabalho. E eu sei que é uma coisa boa, sabe? Ainda estou mais amadurecendo.

De repente, se você estiver nesse trânsito por São Paulo, talvez isso também traga novas inspirações para esse trabalho…

Isso. Eu acho que às vezes é bom também. A maturidade é isso, é você esperar um pouquinho para ter certeza de que aquele é o melhor repertório para você fazer, que o caldo está grosso, está interessante o suficiente para botar na rua.

Você estava falando sobre ter  ficado difícil. Como você vê fazer música independente no Brasil hoje? Como você sente que o artista independente do país está?

Eu acho que está muito estrangulado, está muito encolhido. Esse presidente que a gente tem é péssimo, e ele é declaradamente contra a arte, ele considera supérfluo aqui que é mais bonito, que é o DNA do Brasil, que é a nossa cultura. Acho que um presidente estúpido levar a gente para um lugar magro. A cena está toda estrangulada, pessoas que viviam bem estão vivendo mal. Os artistas que são maiores que nós estão tendo ir para o circuito do Sesc, onde a gente trabalhava, porque eles não estão mais conseguindo.

Foi por isso que você quis também falar de temas mais arejados no disco? Porque ele tem músicas que falam de relacionamentos, de amor…

Exatamente. Ele tem essa doçura também. Ele tem uns assuntos mais áridos, mas tem… Porque eu acho que o terceiro-mundista, como nós somos, a gente é político, mas a gente gosta de farra, de doçura, de carinho, bater papo. Mesmo que o presidente seja essa coisa horrorosa, a gente tem que se divertir. E a gente tem que criticar amorosamente e com doçura. Pelo menos é a forma como eu venho trabalhando, sem ignorar o panorama, mas também falando de alegria, de amor, de doçura, de cotidiano, de tudo.

Você é uma pessoa que fica compondo continuamente? Ou vai esperar para fazer seu próximo disco? Como é seu processo?

Umas coisas acontecem. Tem um lado que as pessoas consideram que eu sou um letrista, que eu tenho facilidade para ser letrista. Então eu acabo fazendo muito a música dos outros, e elas viram minhas também (risos). Eu sou convidado a botar letra em muita música legal de pessoas que eu conheço. Mas eu gosto também de pegar o violão e fazer do zero. Também me amarro nesse processo, de começar eu. Eu tenho umas dez, doze canções prontas, mas o que aconteceu comigo ultimamente foi que eu comecei a estudar os sambas que eu gosto, aqueles mais difíceis, uns acordes mais encrenqueiros. Estou me alimentando de aprender a tocar os sambas mais encrenqueiros que eu gosto em casa. E acho que isso vai me dar uns talheres diferentes para eu compor. Por isso que eu estou segurando um pouquinho, para ver o que sai.

Vai lá:
Wado +Arnaldo Antunes
Quando: Sábado, 24 de agosto, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 50 (meia-entrada e pessoas com 1kg de alimento) e R$ 100

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‘Tem uma desilusão em vários trabalhos musicais no Brasil’, diz Ronei Jorge http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/08/16/tem-uma-desilusao-em-varios-musicais-trabalhos-no-brasil-diz-ronei-jorge/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/08/16/tem-uma-desilusao-em-varios-musicais-trabalhos-no-brasil-diz-ronei-jorge/#respond Fri, 16 Aug 2019 18:35:43 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=1057

Ronei Jorge. Foto: divulgação/João Milet Meirelles

Desde os anos 90 no cenário musical baiano, Ronei Jorge ficou conhecido no circuito independente durante os anos que esteve à frente da banda Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, que se desfez em 2010. De lá para cá, ele fez trilhas de cinema e chegou a integrar um novo projeto, o Tropical Selvagem (ao lado de João Meirelles, do BaianaSystem). Até que deu o passo que há anos relutava em dar: se lançou em carreira solo, com o disco “Entrevista”, de 2018.

Com produção musical de Pedro Sá, o disco conta com uma banda formada por Carla Suzart (voz e baixo), Aline Falcão (voz, teclado, piano e sanfona), Ian Cardoso (voz e guitarra) e Mauricio Pedrão (bateria), e as participações especiais de Moreno Veloso (voz e percussão), Joana Queiroz (clarinete e clarone) e Luana Carvalho (caxixi). A sonoridade tem mais influência da MPB do que os trabalhos do antigo grupo de Ronei, com destaque para os coros femininos, inspirados por nomes como Tom Jobim (na fase com a Banda Nova), Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé.

Nas letras, um certo desencanto permeia o disco, ele admite. “Eu acho que tem essa desilusão, e acho que tem em vários trabalhos que eu vejo no Brasil, um certo desânimo, desilusão, pessimismo, por conta de tudo”, analisa Ronei Jorge em entrevista ao blog. “Mas alguns são mais imediatos, mais diretos, e outros acho que tocam justamente nesse ponto do desânimo do ser humano em geral”, compara. 

Esse é o seu primeiro show solo no Rio. Quando foi a última vez em que você se apresentou por aqui?

Vixe, tem tempo! Eu fiz com a Ladrões de Bicicleta, a banda que eu tinha, no Cinematheque (casa que existiu entre 2007 e 2010). A gente fez numa casa também, mas foi no Cinematheque que a gente fez o disco de fato, o “Frascos comprimidos compressas”. Mas tem muito tempo, mais de dez anos.

Você vem numa fase solo bem recente, porque depois que acabou o Ladrões de Bicicleta você chegou a ter um outro projeto, o Tropical Selvagem, né? Seu disco solo é do ano passado.

Isso. Eu fiz esse projeto, o Tropical Selvagem, com o João Meirelles, que toca no Baiana (System). Era um projeto bem diferentes, com umas composições minhas que eu dava para ele arranjar com bases eletrônicas e tal, e e a gente se juntou com uma artista plástica, Lia Cunha. O grupo era os três: eu, como compositor; o arranjador e músico e a artista. Então sempre tinha uma intervenção visual. Mas a gente não chegou a circular com ele: a gente fez um disco artesanal, com 50 cópias, acho, feito à mão, que a Lia fez. Mas aí eu fiquei um tempo produzindo trilhas, fazendo coisas que não eram de show. Aí, em determinado momento, um amigo meu falou: “Vão ter umas noites aqui com artistas solo. Cadê seu trabalho solo?” Meio que foi um pontapé para eu preparar esse trabalho. Juntei uma banda, chamei pessoas que eu conhecia e outras que não conhecia tanto, mas admirava o trabalho, e fizemos o disco.

Isso tudo foi você hesitando em se lançar como artista solo?

Isso é engraçado, porque eu resisti muito a ser artista solo. Eu gosto muito de banda, gosto muito de ter músicos comigo para trocar ideia, para ver a música que eu faço de outra forma também, não ficar só o meu olhar, o meu jeito de pensar música. Eu gosto muito dessa coletividade. Então, quando terminou a Ladrões, eu procurei João, e foi uma parceria. Eu falei: eu não pretendo fazer um trabalho que seja um rompimento enorme com o que eu fiz esse tempo todo com banda — desde 93 eu tenho banda em Salvador. Eu disse: mesmo sendo trabalho solo, eu vou montar um grupo fixo para lançar o disco. Estava há muito tempo com essa ideia de ter vozes femininas — que no disco da Ladrões tem, fazendo solo comigo, mas não como coro. Eu estava ouvindo bastante essas coisas que têm esses coros femininos bem proeminentes, Tom Jobim com Banda Nova, Itamar, Arrigo, esses diferentes modos de trabalhar eles. E acabou que nesse disco eu acho que tem um pouquinho de cada um desses coros: a coisa suave da Banda Nova, esse jogo mais teatral de Itamar e Arrigo, tem umas coisas mais pops também, que tem no trabalho de Gil, Caetano. Foi uma coisa que permeou o disco todo. E aí eu chamei Aline Falcão, que é tecladista e cantora, e ela tocava numa banda chamada Pirombeira em Salvador. Chamei Carla Suzart, que toca baixo e canta no disco. Ela é amiga de João Meirelles e tinha tocado no Tropical em algumas oportunidades. E (Mauricio) Pedrão é o batera do Ladrões de Bicicleta e Ian (Cardoso Sousa, guitarra) eu fui júri de um prêmio de música, vi Ian tocando, também no Pirombeira, e achei ele um superguitarrista, chamei e montei esse grupo. Pedro Sá tinha produzido o “Frascos”, e eu acho maravilhoso o tipo de abordagem dele, é um cara que deixa a gente à vontade no estúdio, e ele se tornou um amigo, e eu chamei ele de novo para produzir.

Você acha que o fim da banda acabou sendo por esse desejo de mudar o som? Não que ele seja completamente diferente do que você fez antes, mas você mesmo já listou algumas diferenças, como essa coisa do vocal feminino. Acho que também dá para dizer que é menos marcadamente roqueiro. Isso também já vinha sendo sua vontade? Você tinha composições guardadas esse tempo que ficou fazendo trilha?

É, eu tinha algumas músicas. Mas não foi um desejo meu, não. Na verdade, a Ladrões era bem específica, porque só eu trabalhava somente com música. Os outros membros tinham trabalhos diários, de entrar todo dia de manhã e sair 18h e tal. E aí teve um momento em que a gente começou a viajar muito pouco por conta disso. A gente recebia até alguns convites. E era engraçado, que alguns organizadores falavam: “Pô, nós queremos trazer vocês aqui, mas é chato, porque vocês não podem viajar tais dias.” A gente viu que estava ficando uma coisa meio complicada, cansativa para eles, principalmente, porque eles tinham uma rotina puxada. Primeiro, o guitarrista falou que não ia dar. A gente tinha essa ideia de sonoridade muito específica, cada um tinha uma contribuição muito forte. Eu não achei que eu deveria continuar com o nome Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, porque aquilo era muito característico. Aí eu me vi numa situação em que ou eu montaria outro grupo, ou eu tentaria a carreira solo. Como eu disse, esse chamado desse meu amigo meio que acendeu a luz verde para dizer: “É agora, velho, vai. Segue aí, chama uma banda, alguém que você ache que musicalmente vai pode trabalhar essas canções novas bem.” Já era um novo tipo de olhar para essa composição, uma coisa ainda mais ligada à música brasileira — que já tinha na Ladrões, mas, como você disse, menos roqueira. Isso acabou ficando natural. Não foi uma decisão minha, eu meio que fui colocado nessa situação (risos). E achei também que seria uma experiência muito boa, positiva. É outra abordagem.

Você trabalha com música desde os anos 90. O cenário musical, tanto do Brasil como de Salvador, mudou para caramba nessas décadas. Como você vê as coisas hoje? O país está com um olhar para a cena independente baiana, alguns artistas daí hoje moram em São Paulo, mas mesmo os que moram em Salvador ainda estão chamando atenção. Como está a cena?

Isso é interessante. Eu acho que, em qualquer cidade, a gente que está dentro vê as coisas acontecendo. Só que o olhar ainda é muito determinado por São Paulo e Rio. E claro que coincide também com algum tipo de diálogo musical da cidade com o resto do país. Não sei… A gente que está dentro acompanha essa cena já há um tempo. Mas acho que o que acontece também, eu sempre penso nisso, é que Salvador teve um período em que a música pop daqui era o axé. Isso foi muito determinante para que ficasse uma certa monocultura, a gente ficou muito marcado pelo axé. Que produziu coisas interessantes e tal, mas isso tomou conta do discurso da cidade, ela ficou sendo olhada dessa forma. Como se fosse o mangue bit para Recife, só que de maneira exponencialmente maior, em termos de popularidade.

Como a indústria abraçou o axé, né?

É. E pensar que Luiz Caldas foi abertura de novela, a Daniela Mercury… E aqui virou um reduto forte, tinha uma gravadora em Salvador. Virou um produto da própria cidade, tinha uma retroalimentação. Acho que isso foi preponderante no discurso do que seria a música baiana. Mas, ao mesmo tempo —  e é normal, o país é muito grande —, e é meio sazonal, que principalmente São Paulo olha para determinados estados com curiosidade em certos momentos. Foi Pernambuco, Pará e agora é a Bahia. Existe um pouco essa movimentação. Para dos baianos percebeu isso e sentiu que seria bom ir para São Paulo para criar essa comunicação mais de perto, e vivenciar essa experiência, e aí isso acho que se acentua, né? Os pernambucanos acabaram fazendo isso, foram para São Paulo e ficaram muito evidentes. Com trabalhos muito bons, mas ajuda muito na evidência você estar lá, fazendo shows, perto dos meios de comunicação… Acho que nesse sentido mudou bastante o cenário. Salvador está sendo vista de uma maneira diferente. E é ótimo isso, porque tem realmente coisas bem interessantes.

Acha que isso melhora, por exemplo o circuito de shows para quem é independente?

Acho que já teve um momento um pouco melhor de casas, acho que as casas estão sofrendo um pouco hoje por conta da situação do Brasil mesmo. Acho que existem festivais que acontecem, tem o Radioca, que acontece — é meio cabotino, porque eu faço esse festival também (risos). Ele também é um programa de rádio (com Luciano Matos e Beto Barreto), e a função dele, do programa e do evento é essa: trazer os artistas para cá para que tenha esse diálogo com os daqui. O público sempre se interessou. Depois que o axé foi deixando de ser essa coisa tão forte, foi mudando o perfil, tem uma garotada, uma juventude que já vê que tem outro tipo de música aqui. No geral, é uma mudança meio paulatina, não é uma coisa explosiva. A gente não vê um artista local tocar numa casa e ter público para caramba. Não acontece isso. O que acontece é que os artistas de Salvador que estão em São Paulo e vêm para cá já muda um pouco. E os artistas de fora que vêm para cá já têm mais público que antes. Nesse sentido, ficou mais efervescente a cena. Mas ainda vejo a mídia tímida em relação a isso, as casas são poucas.

A internet facilita essa cena independente a se manter. A gente vê os festivais, as pessoas hoje já se programam para viajar para eles. É uma coisa interessante dos últimos anos.

Uma coisa que eu acho, estava até conversando com uma amiga, Livia Nery: teve um ponto aí em que a gente esqueceu um pouco a rádio. Ela tem um alcance maravilhoso. Em algum momento, a cena independente se divorciou da rádio, da TV, de um lugar do qual a gente poderia estar participando. Claro, tem essa coisa do sertanejo, existe esse mainstream mais viciado. Mas acho que nós também abandonamos um pouco. A gente se satisfez com Instagram e festivais. Eu vejo tantos trabalhos aí que poderiam estar tocando na rádio, poderiam estar na televisão, poderiam estar com público até maior, o discurso acabar sendo mais abrangente, atingir mais pessoas. Não sei, acho que rolou um corte que a gente perdeu esse bonde, essa coisa que na verdade as gravadoras faziam, de ir na rádio, levar… Tinha o jabá também, mas (risos)…

Pois é, isso que eu ia falar. Acho que existem ainda alguns espaços independentes nas rádios, mas é uma coisa bem específica.

É específico, mas vou tirar pelo que eu faço, que é um programa na Rádio Educadora, que é do governo. A gente não tem uma mobilização para colocar música. Eu vejo um pessoal da rádio, eu faço isso também, Luciano faz, Beto faz, a eu vejo a coordenadora da rádio indo atrás de artistas e falando: “Bote sua música lá.” Concordo com você, tem rádios que não vão estar nem aí se não tiver uma grana, ou alguma troca, ou achar que não têm a ver o som. Mas existem lugares onde poderia ter, e eu não vejo essa mobilização. Acho que a gente meio que perdeu o hábito de frequentar outros veículos que seriam superpoderosos. Imagina uma música de Giovani Cidreira estar tocando em Salvador na rádio e no Pará e no Rio Grande do Sul. O alcance é fantástico.

É, a gente talvez não se ligue no alcance que a rádio ainda tem no Brasil. É um outro público, né?

É um outro público, mas também tem essa coisa assim: será que não pode ser o público também? Às vezes você está no engarrafamento, aí está tocando Wado. Aí o cara ouve: “Pô, gostei desse cara!”. Né (risos)? Eu vejo que é possível. Não sei se é uma utopia ou sonho que eu tenho (risos). Assim como no programa a gente toca uma leva de artistas independentes, sei lá, 13 artistas em uma hora de programa, quando eu ouço ele, e algumas pessoas que escutam comentam, a gente não está tocando nada tão radical, sabe?

Sei, tem um potencial pop.

Tem. Como eu acho que o rock brasileiro coincidiu com a indústria mas a gente já ouviu músicas que talvez, se não estivessem entrado na rádio, não sei se fariam sentido… E a gente ouviu, e se acostumou com aquilo, e beleza, massa, gosta (risos). Então eu acho que daria, sim.

Agora que você está solo, lançou um disco ano passado, tem viajado mais, está fazendo mais shows?

Então, isso é difícil, viu (risos)? É difícil para caramba. É muito caro. O que me ajuda um pouco são outros trabalhos que eu faço, tipo trilha, o festival. Essas coisas vão conseguindo segurar um pouco a onda, porque, pelo trabalho solo só eu acho difícil. Eu consegui fazer um show em São Paulo, no Centro Cultural São Paulo, bem legal. Agora que estou fazendo Rio e Goiânia. Fiquei muito feliz com o lance de tocar aí no Rio. Muito mesmo. Porque esse disco tem um monte de carioca, Joana, Luana, Pedro, Moreno, que é meio a meio (risos). É um lugar que eu acho supermusical, acho muito massa o que foi e é produzido aí. A gente tinha feito com a Ladrões muito São Paulo, e pouco o Rio. Então vai ser ótimo.

O Rio também tem seus problemas de lugar para show para artista independente.

É, eu senti isso. Aí parecia muito com Salvador: muita música, muita coisa, mas não tinha muito lugar para tocar.

Sinto que seu disco traz uma certa coisa, talvez um desânimo, o que a gente vê em alguns trabalhos hoje, conectados com o momento que o Brasil está passando. Como você avalia o tom que seu trabalho acabou tendo?

Eu acho que o meu trabalho… Como eu posso dizer? Ele toca nesse ponto que você fala, algumas músicas têm essa desilusão, essa coisa meio “olha no que deu, as coisas são um pouco assim, mas porra, como é foda” (risos). Tem isso, mas, ao mesmo tempo, eu acho que nunca foi uma coisa assim tão direta. Eu sinto que alguns artistas que são mais diretos e têm uma resposta do público que é imediata. Tem uma coisa que se retroalimenta: ele manda para o público, o público vai pedindo e ele vai dando. Aí o artista começa a se sentir meio enclausurado dentro daquela relação. Isso é uma coisa que eu nunca fiz muito. Isso nem foi muito pensado por mim. Sempre quando eu faço a música, estou fazendo pensando numa coisa que diga muito como eu penso música, mas que seja de certa forma universal, não seja tão localizado ou colocado em uma prateleira ou uma gaveta tão específica. No texto também, vejo um pouco assim. Eu acho que tem essa desilusão, e acho que tem em vários trabalhos que eu vejo no Brasil, um certo desânimo, desilusão, pessimismo, por conta de tudo. Mas alguns são mais imediatos, mais diretos, e outros acho que tocam justamente nesse ponto do desânimo do ser humano em geral. De você ter isso tanto para uma relação amorosa como para uma questão política como para uma questão de violência. A violência vai estar não só na relação policial somente, pode estar na relação familiar, em conflitos amorosos, não vai ser só física. Mas acho que esse tom acho que se abateu por tudo mundo.

No seu caso seria mais de uma forma existencial, e não política?

Eu acho que termina sendo política, mas é uma observação muito particular. Por isso também eu acho que tenta ser uma coisa um pouco mais ampla. Tem a música que fala um pouco do linchamento, e aí tem a coisa da internet também, ou das manifestações das pessoas que acusam os outros. Também não é uma coisa partidária, mas é uma observação, que é algo que tem se tornado uma prática de hoje, quando é um linchamento de fato acaba sabotando algumas nuances de questões que são mais ricas. Porque é gente, então tem um monte de coisa que acontece ali. No disco eu acho que tem isso um pouco — não sei, eu acho. E também faixas que não tocam diretamente isso, são mais de relações mesmo, que é um tema que sempre volta — não necessariamente românticas, são encontros, desencontros, o modo de perceber as coisas —, tem comentário sobre músicas, várias coisas. Mas esse assunto que você trouxe eu acho que no disco tem em vários pontos, é verdade.

O que te motiva como compositor?

Eu acho tem um monte de coisa. Porque, ao mesmo tempo que tem essa fagulha que acontece quando você vê uma coisa que te chama atenção e aí você vai escrever, às vezes tem um violão que você está tocando, aí surge uma frase e aí aquilo ali meio que te leva pela mão, você vai se embalando, e vai depois mexendo naquilo, fazendo aquilo ter um sentido para você. Acho que tem da observação, tem do impacto das coisas que acontecem na sociedade e na sua vida particular, mas tem também essa chama que eu acho importantíssima. Que acaba também puxando a orelha do artista para que, sempre que ele comente alguma coisa, tenha uma estética forte, tenha algo que não seja só um comentário, tenha algo que possa também abraçar o ouvinte, chamar a atenção dele para alguma coisa musical, algum gesto na canção que você fez, alguma coisa ali, ou no texto mesmo, algum exercício de linguagem que você usou. Acho que tudo isso está no bolo, vai entrando naquele caldeirão para você fazer a coisa. Apesar de eu ter composto mais falando de relações, não me vejo como um autor temático. Eu acho que tem momentos. Tem discos em que meu texto estava um pouco mais solto. Nesse álbum mesmo as letras são mais simples, mais pé no chão.  Mas ao mesmo tempo também é um texto que tem algumas observações que eu talvez não tenha feito antes no meu trabalho, esse reflexo social das pessoas e tal. Isso era uma coisa que eu nunca comentei tanto, pelo menos não de forma tão direta. Mas eu acho que sempre tem que ter essa camada do que a gente convencionou chamar de arte, essa coisa que é esse olhar diferente, para que a pessoa e fale: “Pô, não tinha percebido isso.” Seja na música, ou na letra. É surpreendente, interessante, me remete a outro lugar. Isso é superimportante, a gente não pode perder. Não pode virar só discurso. O discurso é importante, mas a gente tem que atacar outros lugares na cabeça das pessoas. Eu vi uma artista plástica performática falando uma coisa que é supersimples e que acho que está na cabeça de todo mundo, mas ela ter dito foi bem legal. Ela falou: “Eu sou militante política nas redes, mas, quando eu vou fazer arte, se não tiver um troço estético embalando isso, eu jogo fora. Se for parecido com o que eu estou escrevendo ou na rua falando… Se eu estou conversando com as pessoas no bar sobre política, é uma coisa. Mas, quando eu estou ali para fazer o meu trabalho, a minha performance, está ali o bate-papo, mas estou embalando com minhas experiências artísticas.” Eu achei isso bacana.

Vai lá:
Ronei Jorge
Quando: Sexta-feira, 16 de agosto, às 20h
Onde: Centro da Música Carioca. Rua Conde de Bonfim, 824 – Tijuca
Quanto: R$ 10 (meia-entrada) e R$ 20

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