Rio Adentro http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua. Sun, 19 May 2019 02:34:15 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Slam das Minas: ‘Ninguém precisa levar arte para a favela, ela já vive lá’ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/18/slam-das-minas-ninguem-precisa-levar-arte-a-favela-a-arte-ja-vive-la/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/18/slam-das-minas-ninguem-precisa-levar-arte-a-favela-a-arte-ja-vive-la/#respond Sat, 18 May 2019 11:00:13 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=879

As organizadoras do Slam das Minas RJ. Foto: divulgação/Laura Jeunon

O primeiro campeonato internet de poesia falada da América Latina, o Rio Poetry Slam, aconteceu em 2014 na FLUPP – Festa Literária das Periferias. De lá para cá, esse formato só fez se espalhar pelo país. Criados na década de 1980 nos Estados Unidos, os slams chegaram ao Brasil apenas nos anos 2000. Nas competições, cada participante tem até três minutos para ler seu poema, que pode ter sido escrito previamente ou ser improvisado na hora. Um júri dá notas, e quem tiver a maior pontuação vence.

O primeiro Slam das Minas RJ aconteceu há quase dois anos, em 23 de maio de 2017. Hoje, a batalha é organizada por Andrea Bak, Carol Dall Farra, Débora Ambrósia, Genesis, Letícia Brito,  Lian Tai, Rejane Barcellos e DJ Bieta. Formado por mulheres periféricas, o Slam tem como missão “proporcionar experiências poéticas e empoderadoras para pessoas LGBTIQ+ e mulheres cisgêneras”. Letícia falou com o blog sobre o coletivo, que se apresenta nesse sábado no Santo Cristo, em evento onde convida a Chora  — Mulheres na Roda, que reúne musicistas em torno do gênero musical de Pixinguinha. 

O que é o Slam das Minas RJ, na definição de vocês?

Slam das Minas é uma batalha lúdico poética organizado por Andrea Bak, Carol Dall Farra, Débora Ambrósia, Genesis, Letícia Brito,  Lian Tai, Rejane Barcellos e DJ Bieta. Após as manifestações de 2013, o slam começou a se propagar em outros estados para além de São Paulo. O Slam Resistência de São Paulo foi um dos primeiros a postar seus vídeos na rede social mais conhecida da época. Entendemos que as viralizações dos vídeos de poesia, em oposição ao crescimento do conservadorismo no país, ajudaram a promover os slams como uma forma artística de resistência.

Qual o objetivo do coletivo?

O Slam das Minas RJ surgiu em reação às opressões estruturais mais frequentes: racismo, machismo e LGBTIQfobia e na perspectiva de se tornar um espaço seguro para o desenvolvimento da potência poética e artística de mulheres e LBTIQs. O primeiro evento do Rio de Janeiro foi realizado no Largo do Machado, em 23 de maio de 2017.

Qual o objetivo do coletivo?

Agir para manter a dignidade e visibilidade das mulheres de modo contínuo de exercitar o poder contra as desigualdades sociais e violências de gênero. Essa ação sustenta o Slam das Minas RJ. O rompimento de toda forma de opressão é bancado através do fortalecimento da oralidade, pela expressão artística performática, pelo revigoramento da imaginação poética, pela valorização das raízes culturais locais, bem como a ressignificação do luto como forma de criar autonomia e engajamento social. Pela  linguagem artística, nossa missão é proporcionar experiências poéticas e empoderadoras para pessoas LGBTIQ+ e mulheres cisgêneras. Exceto homem cis. Viver de nossa arte e ajudar outras mulheres e LGBTs a também se fortalecerem de suas dores por meio da poesia, da oralidade, da leitura e da escrita.

Como costuma ser o efeito das apresentações nas plateias?

A poesia atravessa as dores e as potências das pessoas. São muitos os efeitos. Desde a menina que deseja ler seu primeiro poema no microfone aberto e se sente acolhida pra isso, até a mulher que pede apoio no inbox pra sair de um relacionamento abusivo no qual sofre de violência doméstica. A poesia cura, transforma, empodera e revoluciona.

Vocês iam participar de um evento no Vidigal domingo (adiado por conta das chuvas). Qual a importância de ir até a favela com o Slam?

A maioria de nós vive em favelas. Ir até a favela é apenas dialogar com pessoas que vivem realidades semelhantes às nossas, e ajudar a identificarem e estimularem as potências locais. Ninguém precisa levar arte para a favela. A arte já vive lá. Só é preciso que as artistas se reconheçam e se aceitem para alcançarem suas máximas potências.

Vai lá:
Slam das Minas convida Chora — Mulheres na Roda
Quando: Sábado, 18 de maio, às 16h
Onde: Bar Molejão. Rua Carlos Gomes, 74 – Santo Cristo
Quanto: contribuição voluntária

]]>
0
Letícia Sabatella: ‘A arte é necessária para que a sociedade seja saudável’ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/leticia-sabatella-a-arte-e-necessaria-para-que-a-sociedade-seja-saudavel/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/leticia-sabatella-a-arte-e-necessaria-para-que-a-sociedade-seja-saudavel/#respond Fri, 10 May 2019 18:16:39 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=864

Letícia Sabatella no show ‘Caravana Tonteria’. Foto: divulgação

Famosa por seu trabalho como atriz, Letícia Sabatella tem um lado menos conhecido do grande público. O de cantora. Mas não que ela tenha simplesmente decidido ‘se arriscar’ na música: ela estudou canto, fez parte de um coro e teve uma banda, a Tuba Intimista. Nascida em Minas, ela cresceu em Curitiba, onde seus avós moravam ao lado do Teatro Guaíra — que o avô de Letícia ajudou a construir. Ela achava que enveredaria pelo canto lírico, mas o teatro em sua vida e o lado atriz foi tomando cada vez mais espaço. Há alguns anos, no entanto, retomou a proximidade com a música, e o resultado é o espetáculo “Caravana Tonteria”, que apresenta nesta sexta e sábado no Teatro Rival.

Ela conta que o afastamento com esse seu lado aconteceu por uma série de fatores. “Fiquei muito tempo casada numa relação que era até bastante opressora, onde a minha voz ficou bem guardada. E também pela falta de tempo mesmo, pela coisa de atriz, os trabalhos em televisão, em cinema. E depois eu tinha uma filha e envolvimento com a parte social necessária, como uma pessoa de visibilidade, e fiquei meio sem tempo. De vez em quando eu participava de algum show de amigos. Mas uma hora fazer um trabalho mais autoral foi ficando muito necessário”, lembra Letícia.

Ela se viu com hipotiroidismo e sentiu que precisava exercitar o uso de sua voz. Começou a registrar algumas coisas em um gravador. Letícia já tinha composto a trilha da peça ‘Trágica.3’ — na qual interpretava Antígona — ao lado de seu marido, o ator e músico Fernando Alves Pinto, e Marcelo H. O trabalho foi indicado ao Prêmio Shell de Teatro em 2015. O convite para cantar na Virada Cultural foi o estímulo que faltava para montar o espetáculo “Caravana Tonteria”, ao lado do multi-instrumentista Fernando Alves Pinto (serrote, trompete, voz e violão), Paulo Braga (piano) e Zéli Silva (contrabaixo), em que Letícia canta oito músicas compostas por ela e clássicos de nomes como Cole Porter, Duke Ellington e Carlos Gardel. O show conta com a direção artística de Arrigo Barnabé, que também participa das apresentações no Rival.

Você vai apresentar o “Caravana Tonteria” no fim de semana. O que veio antes na sua vida, a música ou a atuação?

A música. A vida toda. Da minha família, da minha mãe, minha avó, das cantorias das mulheres de Minas, da cantoria de trabalho, de fazer tudo sempre cantando, sempre foi muito forte. Fui criada do lado do Teatro Guaíra (em Curitiba), que meu avô ajudou a construir. Ele e a minha avó, mãe do meu pai, moravam do lado do teatro, então eu convivi com todos os concertos, e tinha concerto de orquestra todo domingo. Cresci dentro do teatro, então em Curitiba eu cantava no Coral Sinfônico do Paraná, tinha uma banda, que era a Tuba Intimista, participava de um coro cênico, O Abominável Sebastião das Neves, sempre tinha muita presença da música e do teatro também. Eu comecei cantando muito, mas o teatro e a coisa de atriz foram tomando uma proporção grande. Mas a música sempre foi uma base para mim, para a dança, para o teatro, para tudo.

Você em algum momento imaginou que seria cantora de profissão?

Eu cheguei a estudar canto pensando no canto lírico, fui cantora de ópera por um tempo. Mas acho que eu pensava mais porque era uma formação que exigiria muito de mim. Então, em termos de formação, você tem um trabalho de corpo — já dançava, desde os 8 anos balé, aos 16 era bailarina contemporânea já profissional —, mas era uma coisa meio conjunta, as coisas sempre foram meio juntas, o teatro depois disso. Mas eu cheguei a pensar, sim, no canto. O canto lírico, principalmente.

Quando a música acabou voltando? Foi mesmo fazendo trilha? Como você acabou voltando para esse universo, quando isso acabou voltando a ser trabalho?

Ficou muito necessário. Eu fiquei muito tempo casada numa relação que era até bastante opressora, onde a minha voz ficou bem guardada. E também pela falta de tempo mesmo, pela coisa de atriz, os trabalhos em televisão, em cinema. Eram tão fortes, né? E depois eu tinha uma filha (Clara, hoje com 26 anos) e envolvimento com a parte social necessária, como uma pessoa de visibilidade, e fiquei meio sem tempo. Estava uma coisa que de vez em quando eu participava de algum show de amigos. Mas uma hora fazer um trabalho mais autoral foi ficando muito necessário. Tive até um hipotiroidismo que a cura veio através do exercício dessa força, dessa criatividade, disso que eu precisava. E na época eu estava fazendo uma novela — vinha de uma novela atrás da outra, uma série de trabalhos na televisão — comecei a ter muita ideia musical, era um espaço de transcendência no meio do estresse do trabalho. Vinham muitas ideias que eu comecei a registrar num gravadorzinho pequenininho e comecei a desenvolver algumas músicas, e começou… Tem um movimento cultural em Curitiba que é muito forte também, com amigos, saraus na casa de um casal de amigos que são professores e mestre de música, saraus na minha casa… Foi uma retomada. O próprio “Hoje é dia de Maria” (minissérie da Globo de 2005), que foi um trabalho que eu tinha feito, já tinha essa retomada. Então essa pessoa que eu era no início da minha formação voltou totalmente necessária.

E a composição, quando entrou na sua vida? Eu vi que o show tem oito músicas suas. Você já compõe há muito tempo? Como começou?

Veio nesse processo de cura mesmo. De trabalho, de estresse em que eu estava, e vinham as ideias, eu ia gravando. Isso já foi uma necessidade. Já vinham com algumas ideias que fui desenvolvendo. Nunca consegui parar pra fazer só isso, eu ainda não tenho tanto tempo, mas foi uma coisa bem espontânea e aos pouquinhos conseguindo fazer alguns trabalhos.

Isso foi em que ano?

Acho que foi em 2009, 2008. E aí teve “Trágica.3”, uma peça em que eu faço Antígona. Eu, o Fernando Alves Pinto e Marcelo H, a gente compôs a trilha sonora também, com muitas canções inspiradas em lamentos, e nos chamaram para a Virada Cultural, que foi onde eu consegui dar o start da Caravana, que já era uma coisa que eu estava desenvolvendo aos poucos com o Paulo, com o Nando e com o Zéli.

E como é você e o Fernando terem uma banda juntos?

O Nando é superparceiro. Ele também é ator, a gente já tinha feito peças junto, eu tinha trabalhado com ele, já era um colega legal, amigo. E é um ótimo parceiro. Acho que o Nando foi fundamental, foi um estímulo para a gente vir com força e coragem de pôr pra fora. Ele me ajudou muito na estruturação da banda. Foi muito urgente e boa a presença dele para isso acontecer. Fundamental.
E o que te inspira na hora de compor, em geral?

Ah, coisas da vida. A ideia musical vem muito espontaneamente. Quando eu vejo, já saiu. As letras são coisas que eu escrevo, que eu consigo dar uma lapidada e formatar numa música. Aí vem tudo mesmo. Situações engraçadas, cenas engraçadas também, varia um pouquinho.

E o Arrigo, vocês já conheciam de Curitiba? Como surgiu do Arrigo trabalhar com você? Aqui no Rio ele vai até participar dos shows.

O Arrigo é uma referência pra gente, uma performance de altíssima qualidade, um compositor extraordinário, um ator, é uma preciosidade um artista como ele. Sempre achei muito impressionante. E a presença dele é incrível, é um selo. A personalidade artística dele é muito interessante. E as músicas são incrivelmente lindas. Joia em música

Vocês se conhecem há muito tempo? Como foi essa aproximação?

Eu já era fã, frequentava o trabalho dele, e ele é amigo de amigos, de Curitiba inclusive, e pude ter acesso a ele principalmente pelo Paulo Braga, que é o nosso pianista, que toca com o Arrigo e grava muitas coisas dele.

E, a partir disso, vocês se conheceram e surgiu a parceria.

Sim. A gente precisava de uma direção musical, e ele acabou entrando nessa direção artística também. A presença dele já era muito legal para nós.

Além disso você acabou de estar no ar em “Órfãos da Terra”. Como foi a experiência? Você já tinha feito novela passada em outra cultura, né? Como foi essa experiência agora, de fazer a Soraia?

Foi uma graça esse encontro, novela da Thelma (Guedes) e da Duca (Rachid) com a direção do Gustavo (Fernández). É muito primorosa, é uma novela muito sensível, o tema é muito tocante. Era uma personagem humana, com uma sororidade, um cuidado com as mulheres, uma pessoa muito bonita. Foi um trabalho mais tranquilo.

E você fez o filme ‘Happy hour” (também em cartaz). E é curioso porque são personagens bem diferentes, mas têm alguns pontos em comum: a Soraia vive numa sociedade onde a poligamia é aceita, um homem com várias esposas, e o tema do ‘Happy hour’ é relacionamento aberto. Como é para você viver essas personagens de realidades tão diferentes, cada uma com suas questões, em sua cultura? Como é para você ir de uma para outra e se ver na pele de outras mulheres, vivendo situações diferentes das da sua vida?

Isso é o exercício de ser atriz, né? Entrar nas máscaras e falar de coisas que são universais. De existência plena e amor, de liberdade, são temas universais, tanto de mulher contemporânea como de mulher que vive contemporaneamente valores que são tão arcaicos. Em comum ainda tem a sociedade patriarcal, que perdura pelos séculos, ainda mostrando que o papel da mulher sai da vontade e o desejo masculino o desejo da mulher. Acho que também acaba entrando nessa questão.

No que que você se identifica nessas duas personagens? Tem algo assim delas que você te tocou de alguma forma, que você se sentiu tendo mesmo algo em comum?

Sempre tem alguma coisa ou outra. Essas coisas de partilha das mesmas sedes de poder ser ouvido, de poder ser respeitado no seu limite, de não ser somente um objeto na mão de um desejo de fora. Mas eu sinto muita coisa diferentes também.

Você se considera feminista, imagino.

Sim. Tendo que trabalhar constantemente contra a cultura machista que também projeto em mim. Tenho que estar o tempo inteiro reavaliando minha postura. Nasci e fui criada numa cultura patriarcal, tenho que estar sempre tentando e reavaliando também. Mas me considero feminista, sim.

Porque você é uma pessoa que sempre se posiciona politicamente, em relações a causas, direitos humanos, e você também é muito atacada por isso, a gente vê nas redes sociais. Como você lida com isso? Isso te atinge, você tenta se proteger de alguma forma disso?

Sim. As redes sociais têm um espaço que às vezes vira um ringue. Já tentaram entrar com atitudes autoritárias, já teve ataque de bolsominions. Mas também já diminuiu muito e, ao mesmo tempo eu vi que se posicionar, se colocar, faz também você encontrar seus pares. Eu acho que uma vez que existe e que lá está o exercício de você se colocar é um exercício democrático, acho que ninguém tem que ficar fazendo algum tipo de patrulha violenta e agressiva, a mim não corresponde.

Mas esses ataques costumam extrapolar as redes? Por que a gente vê pessoas, principalmente conhecidas, sendo agredidas em lugares públicos. Você costuma sofrer esse tipo de coisa?

Um episódio que ficou bem famoso, você sabe, que e fui xingada em praça pública, você viu isso (A artista foi xingada em uma passeata pró-impeachment em Curitiba, em 2016).

Se for um episódio que aconteceu há alguns anos, sim.

Então, eu passei por isso.

Mas queria entender se você ainda passa por isso: foi um caso isolado ou é frequente?

Não, não tem acontecido mais, não. Depois eu vi pessoas se aproximarem para me defender, para me ajudar. Foi apenas aquele momento.

A cultura e a arte também têm sofrido muitos ataques aqui no Brasil. Você enquanto artista como tem sentido o impacto disso?

É natural que, na entrada de um governo que propõe ser tão excludente e autoritário, algo que faça o cidadão pensar, transcender, refletir e ter um olhar crítico sobre o que está acontecendo, e que traga uma consciência mais ampla e que não seja simplesmente uma arma e agir pela truculência… A sensibilidade realmente parece que é uma afronta a esse governo. A educação, a inteligência, o raciocínio crítico parece que afrontam o governo que aí está. Então a gente deveria pensar: que governo é esse que foi eleito?

Como é ser artista nesse momento?

É resistir.

É o momento mais difícil que você já viveu para ser artista no Brasil?

Sim, é. É um momento difícil.

E como você acha que esse cenário pode mudar, essa à arte e cultura? O que acredita que pode mudar isso? O que pode ser feito para mudar isso? O que os artistas, por exemplo, podem fazer?

Eu acho que estamos fazendo, estamos investindo, indo às ruas. Eu vejo uma grande mobilização de artistas, de lutar, de dar aos mãos, de estar reivindicando um outro olhar. Mas acho que é uma questão que precisa ter uma visão de toda a sociedade. Por que (a gente) precisa ser uma sociedade que trate bem a sua arte, que dê espaço para que as pessoas se desenvolvam com a arte? Acho depende de todos a gente ser uma sociedade mais artística, mais sensível do que truculenta, armada, violenta. Acho que cabe a todos nós perceber a função da arte, conhecer a medicina que é a arte na sociedade, o quanto que ela traz equilíbrio, de saúde emocional para uma sociedade existente no espaço da arte em exercício, em plena atividade, as pessoas se desenvolvendo e fazendo. Ela se aplica em todo cotidiano de uma pessoa, ela traz leveza, profundidade, consciência, bem-estar, sabedoria, reflexão. A arte é uma expressão da alma de uma sociedade. Ela é absolutamente necessária para que a sociedade seja saudável.

Vai lá:
Caravana Tonteria
Quando: Sexta e sábado (10 e 11 de maio), às 19h30. Abertura da casa: 18h.
Onde: Teatro Rival Petrobras – Rua Álvaro Alvim, 33/37 – Cinelândia
Quanto: R$ 35 a R$ 80

]]>
0
‘Estamos conseguindo nos manter vivos, fortes, felizes’, diz Almério http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/03/estamos-conseguindo-nos-manter-vivos-fortes-felizes-diz-almerio/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/03/estamos-conseguindo-nos-manter-vivos-fortes-felizes-diz-almerio/#respond Fri, 03 May 2019 17:34:34 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=844

Almério canta sábado no Rio. Foto: divulgação/Breno César.

Foi em 2003 que Almério cantou pela primeira vez em um teatro, o que considera o sua estreia profissional na música. Mais dez anos se passaram até que o artista nascido em Altinho, Pernambuco, lançasse seu primeiro álbum, que leva seu nome. Mas foi em 2017, com “Desempena”, que ele viu sua carreira ganhar fôlego. Um dos nomes que se destacam na efervescente cena independente pernambucana hoje, ele segue com a turnê — que o levou a se apresentar em eventos país afora e na Europa —, se prepara para lançar dois DVDs este ano, tem um novo disco pronto para ser gravado e ainda encontra tempo para outros projetos, como o show que apresenta esta sexta no Manouche, ao lado do conterrâneo Juliano Holanda, produtor de “Desempena”.

Com voz e presença de palco marcantes, Almério é constantemente comparado a Ney Matogrosso, como outros intérpretes da cena atual. “Um cantor não pode nascer gay que comparam a Ney, instantaneamente. Eu acho isso maravilhoso, Ney é referência, não só para cantores, mas para cantoras também. E influenciou gerações, de cantores, cantoras, mudou tudo, mexeu tudo. É uma grande referência”, elogia ele. “Musicalmente, Ney acabou sendo uma referência inconsciente. Porque eu fui escutar mesmo ele dos 25 anos para lá. Foi aí que eu me debrucei mesmo sobre Ney e fiquei passado”, derrete-se.

Ele conta que sua identificação com os artistas LGBT de hoje é mais com a posição deles do que propriamente pela música que fazem. “Acho eles incríveis. Enquanto artistas, são muito corajosos. Essa geração da música brasileira, são muito corajosos, todos os artistas. É uma vontade de transformar tão grande, uma vontade de gritar as coisas que foram silenciadas, caladas dentro da gente. Acho que todo mundo está nesse momento de gritar, sobre sexualidade, sobre política, sobre racismo, sobre todos os preconceitos. Acho que a gente vive essa fase, e isso é muito importante para a música”, defende. 

Você e Juliano e vocês já têm uma parceria, ele produziu seu disco, você gravou algumas faixas dele no álbum também. Como é que vai ser o show e o que é que a gente pode esperar?

A minha parceria com o Juliano vem desde a gravação do disco “Desempena”, me identifico muito com o que ele compõe. Realmente acho ele um dos maiores compositores do Brasil hoje. Ficamos muito amigos, muito próximos e a partir disso veio essa vontade de levar nossa música pra cidades do interior de Pernambuco que não têm acesso a ela. E a gente se nutriu de canções e foi para umas dez cidades, levando um projeto que chama-se “Corre-Campo”, que é uma cobra específica do Agreste, e saiu correndo campo adentro, Agreste e Sertão adentro. Ficamos muito próximos. A partir disso, tendo esse show já pronto, dois anos atrás, surgiu a ideia sair dessa atmosfera dos nossos shows próprios, os solos de cada um. Resolvemos fazer esse som pra mesclar nossas canções e fazer umas releituras. E também celebrar nossa amizade, nosso encontro no mundo e na música.

Juliano Holanda e Almério se apresentam sábado no Manouche. Foto: divulgação

Vocês também são parte de um momento que tem muitos artistas pernambucanos se destacando na cena independente. Vi vocês naquele show “Nova cena pernambucana”, e existem outros que estão se destacando em carreira sol. Como você vê esse momento da música independente feita em Pernambuco?

A gente está em um momento bem importante na música, porque começou a parar pra observar e dialogar sobre esses encontros e sobre esses compositores e intérpretes, e também compositoras e cantoras, e a falar sobre essas coisas. Estamos nos fortalecendo cada vez mais em parar para observar um ao outro. São muitos artistas que estão em erupção, eclodindo, nesse momento. E a gente fica fertilizando, dialogando uns com os outros, para que a gente tenha consciência do tamanho, da importância que é essa movimentação, essa união.

Você acha que o show do Rock in Rio, que você fez com o Johnny Hooker e Liniker (em setembro de 2017, no Palco Sunset), foi um momento de virada na sua carreira?

Rock in Rio foi uma explosão. Surgiu do momento que Zé Ricardo veio para assistir um festival que acontece dentro do carnaval do Recife, chamado RecBeat. Eu fiz um show, e na mesma noite depois entrou Liniker e depois entrou Johnny Hooker. Zé Ricardo olhou e disse: “Eu quero o encontro dos três no Rock In Rio.” Fizemos shows separados. No Rock in Rio, era show do Johnny Hooker convidando a mim e a Liniker. Foi uma noite muito importante pra mim, até hoje é lembrada, mandam fotos, as pessoas mandam mensagens dizendo que curtiram muito aquele show, e eu só tenho muito a agradecer por estar do lado de grandes artistas emblemáticos da nossa música, raríssimos, que defendem e estão na mesma causa que eu, que são politizados, inteligentes, e eu me identifico que a coragem que esses artistas têm.

A partir daí, na sua carreira, muita coisa começou a acontecer, né? De 2017 para cá, as coisas foram avançando. Ouvi falar de você por causa desse show e acredito que muita gente leu seu nome na imprensa nacional quando teve essa apresentação. Você acha que depois disso as coisas foram acontecendo?

Logo depois do Rock in Rio, sim sim. Foi um portal superimportante, realmente me abriu caminhos.  Mas precisei estar atento também. E eu sou uma pessoa que adora trabalho, que adoro estar fazendo meu ofício e aproveitando as oportunidades certas. A partir disso, surgiu turnê na Europa, Festival Mimo, Rio2C, eventos maravilhosos e a gente foi abraçando. Digo a gente porque eu não estou sozinho. Tenho pessoas trabalhando comigo e vou abraçando as oportunidades, mas realmente foi um passo gigante na minha carreira o Rock in Rio, foi um adquirir de asas.

Você começou a carreira em 2003, certo?

Em 2003, foi o primeiro show em teatro. Eu canto desde a adolescência. A primeira vez que fiz show em teatro foi em 2003, então a partir de 2003 eu me acho um profissional.

Você demorou dez anos pra lançar seu primeiro disco e depois mais quatro pra se tornar conhecido nacionalmente, o “Desempena” foi o seu disco que as pessoas escutaram no Brasil…

Os grandes críticos aclamaram o “Desempena”, que funcionou no Brasil inteiro, realmente foi um show, impulso na minha vida, que nasceu na Natura Musical.

As coisas foram demorando para acontecer na sua carreira e, uma vez que aconteceram, elas vêm crescendo. Como que você encara esse tempo todo que demorou pra conseguir gravar o primeiro disco e ainda esperar o segundo acontecer mesmo? Como você se sentiu? Chegou a pensar em desistir de trabalhar profissionalmente com música? Como foi essa caminhada?

Eu sou um artista muito atento. Eu saí de uma cidade do interior chamada Altinho (PE) e fui morar em Caruaru. Em Caruaru, as coisas estavam fervendo, tinha muito compositor de uma cena que estava fervendo e ainda tem. Isso me chamou muito a atenção, comecei a dialogar com os compositores de lá, conhecendo as pessoas, e a fazer a noite por lá. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha uma certa calma nesses limites. Eu queria que as coisas gradativamente fossem acontecendo, mas sempre respeitei minhas etapas. Eu disse: “Vou aproveitar todas as etapas pra que as coisas aconteçam naturalmente, eu não quero pular etapas, quero respeitá-las. Prestando atenção em tudo, me mantendo, absorvendo as coisas, para chegar lá seguro de mim.” E acho que tudo foi válido, todas as coisas vieram no tempo certo. Nunca me afligi por isso. Teve um certo momento que sim, bateu um desespero, porque estava cantando de quarta a domingo em Caruaru, em bares da noite — e cantando naqueles bares foi que eu fui ter dinheiro para poder gravar meu primeiro disco, foi juntando dinheiro cantando na noite. Cantando em bares, em feira, em todos os lugares que você puder imaginar. Nesse momento, bateu um desespero, porque estava trabalhando tanto e ganhando tão pouco. Para juntar para manter esse meu som, eu trabalhei muito e passei por momentos de solidão que realmente me baquearam, deram um medo, um desespero. Mas tudo caiu por terra quando o primeiro disco foi lançado. Porque chegou na mão das pessoas certas, como André Brasileiro, que hoje é meu empresário, na mão de João Falcão, que me chamou para participar do musical “Gabriela”, em São Paulo. E meu disco foi me abrindo portas. Ele não teve uma explosão nacional, mas ele abriu portas demais, chegou nas mãos certas e, a partir dessas pessoas, da minha produção junto de André Brasileiro, nós fomos contemplados pelo projeto Natura Musical e daí nasce o “Desempena”. E eu fiquei entre o musical do João Falcão e gravando o “Desempena” ao mesmo tempo. Foi um ano superprodutivo, eu fiquei muito em voga o ano inteiro. E foi incrível. Eu mantive a calma para não atropelar a música porque eu estou aqui para ela, sou um funcionário dela. Então não adianta eu querer atropelar as coisas e dar um passo maior do que ela me pede. Acho justo com as coisas que vêm para mim. Manter a calma sempre pra aproveitar o caminho, a jornada.

Você contou que morava em Caruaru quando fez o primeiro disco, quando você foi para Recife?

Foi uma batalha, porque eu sou bem matuto — era, hoje já nem sou mais, agora como pessoa que o trabalho consumiu. Era uma batalha com a produção, porque eu queria estar sempre em Caruaru, fui criado em fazenda, em sítio. Tenho uma ligação muito forte com a natureza e não me adaptava à cidade. Mesmo em Caruaru, que é uma cidade de comércio, é a capital do Agreste, ela é madrinha de todas as cidades circunvizinhas ao redor do Nordeste, porque tem um movimento grande. Mas eu sempre ficava perto do sítio. Então foi difícil para mim. Só que o trabalho foi me chamando, me chamando, me chamando e eu me acostumei ao ritmo. Acho que acontece isso com todo artista. Quando eu voltava a Caruaru, eu sentia falta do ritmo de cidade, de Recife, de São Paulo, do Rio. E hoje eu estou: São Paulo, Rio, Recife. Já não sinto mais falta de Caruaru. Então estou meio que familiarizado com as coisas aqui.

Há quanto tempo você acabou ficando em Recife? Quando acabou se estabelecendo na cidade, mais ou menos?

Tem uns três anos. Fui chegando aos poucos, Faz um ano e alguns meses que aluguei um apartamento que estou morando só. Antes ficava na casa dos meus produtores, porque a grana ainda não dava. Estava me organizando para trabalhar. Então foi tudo pensado e verificado calmamente, milimetricamente para não sair dos trilhos. Porque para viver de arte, fazer a música que a gente faz hoje, tem que ter amor, porque não é fácil. Assim como não era em Caruaru, em Recife em qualquer lugar desse país. E está cada vez mais difícil. É preciso estar atento e forte, como na música de Caetano.

Você falou que se identificava com o trabalho do Johnny Hooker e da Liniker. A gente tem alguns artistas LGBT se destacando na música brasileira, hoje e sempre. Como você vê os nomes do cenário de hoje? No que você se sente próximo deles, além do fato de serem LGBT?

Eu me identifico muito mais com a posição deles do que propriamente com a música. Acho eles incríveis. Enquanto artistas, são muito corajosos. Essa geração da música brasileira, são muito corajosos, todos os artistas. É uma vontade de transformar tão grande, uma vontade de gritar as coisas que foram silenciadas, caladas dentro da gente. Acho que todo mundo está nesse momento de gritar, sobre sexualidade, sobre política, sobre racismo, sobre todos os preconceitos. Acho que a gente vive essa fase, e isso é muito importante para a música. Todos os artistas de antes, todas as fases, todos os movimentos foram muito importantes para que isso acontecesse agora? Sim, claro. Mas, já que está acontecendo, é necessário também se ver no outro, saber da relevância de tudo isso, para ter consciência de que novos artistas também virão e que a gente precisa fomentar isso dentro, de uma maneira que vai estar sempre se me renovando. E é por isso que eu me identifico muito.

Você, como compositor, sente também necessidade de gritar essas coisas todas que você citou?

Sim, sempre. Desde eu que comecei a compor, com 13, 14 anos. Tudo me doía e incomodava. Hoje, muito mais. O “Desempena” é isso. Ele tem uma música chamada “Por que você” (de Juliano Holanda), que a gente fez e lançou três anos atrás, no disco, que diz: “Por que você não se desarma? Por que você compra essa guerra?”. A música só tem perguntas do começo ao fim: “O que você está fazendo da vida?”, “Por que você come essa carne?”, “Por que essa tragicomédia?”, “Por que você não dorme na praia?”, “Por que você veste essa roupa?”, “Por que você não planta uma ideia?”, “Por que você não senta e relaxa?”. A música só são perguntas, é uma inquietude. E, depois de três esse anos, a gente está vivendo esse caos no Brasil. Tudo que a música estava dizendo se concretizou. Então eu acho que a gente tem esse dever, sim, a nossa geração, de denunciar as coisas que a gente está vivendo e vendo à nossa volta. Acho que é um dever. A arte tem que denunciar, tem que transformar. Só vaidade não me diz nada.

Você está sempre compondo? Ou agora, com a correria, não está conseguindo? Como é o seu processo?

Eu estou sempre compondo. Agora, não com tanta frequência, não com tanta facilidade. Admiro compositores que sentam e fazem. Eu tenho períodos de inspiração, de fertilidades. E às vezes, não. Passo um mês sem fazer nada. E às vezes acordo, em uma semana faço três músicas. Mas eu espero esses momentos de inspiração, porque tem horas que não vem. Eu não forço. Realmente vem. Mas sempre atento, sempre preocupado. Fico me munindo o tempo inteiro, para quando vier essa inspiração eu estar pronto para ela.

Você já tem músicas novas prontas, já penso em um novo álbum?

Tenho muitas músicas novas, muitas parcerias, estou louco para lançar um disco novo, mas estou freando essas vontades todas, porque estou lançando dois trabalhos: o DVD e o disco “Desempena vivo”, que gravado no Teatro Santa Isabel em Recife (em agosto de 2018), que sai em julho ou agosto, e também um disco pela Biscoito Fino chamado “Acaso casa”. Sou eu e Mariene de Castro, uma cantora extraordinária da nossa música. Somos nós juntos, um show acústico, com violão, bandolim e acordeom, dirigido por José Mauricio Machline. Um show belíssimo, gravado na Casa do Choro, no Rio de Janeiro (em setembro de 2018), que se transformou em um disco ao vivo. Sai ou este mês, ou em junho. Eles vão sair bem próximos. Nós vamos pegar esse outro semestre para trabalhá-los e deixar que eles alcancem o coração das pessoas. Mas eu estou louco para que eles saiam. Porque o ano foi bem complicado, está sendo bem complicado da gente se movimentar, por causa dessa política doida. Mas estamos conseguindo nos manter vivos, fortes, felizes. Então tenho que esperar esses dois lançamentos este ano para, em 2020, vir meu novo álbum. Está com todas as músicas, está tudo na agulha. Algumas eu já estou até experimentando nos shows. Vou fazer esse show com Juliano e já vou botar duas ou três. A reação das pessoas serve como termômetro, algumas já estão funcionando superbem. Uma chama-se “Uma inédita”, que é de Juliano, e a outra chama-se “Não deixe que eu termine essa canção”, que é minha em parceria com Ceumar. Eu fiz a letra inteira, mandei para ela, que me enviou a canção pronta. É linda, um bolero maravilhoso, bem romântico. E depois desse show com o Juliano, eu tenho apresentação no Sesc Bom Retiro, em São Paulo, com Karina Buhr, que é maravilhosa. Vou fazer também participação este mês no show de Felipe Cordeiro na Virada Cultural.

A ideia é fazer uma turnê do lançamento do DVD com a Mariene também?

É. O “Acaso casa” é como se fosse um projeto paralelo. E é tão lindo, porque o nome veio do nosso encontro, que foi um acaso, nos conhecemos uma noite e nos apaixonamos um pelo outro e um pelo trabalho do outro, e a casa, que é esse lugar do brejo da gente, do lugar do interior. O repertório é todo calcado no interior, de onde a gente veio: ela da Bahia e eu, de Pernambuco. Quer dizer, ela nem nasceu no interior da Bahia, mas sempre viveu lá. Ela é uma grande cantora, no palco é uma superintéreprete, se movimenta, e eu sou desse mesmo jeito. Realmente a gente teve um encontro muito especial.

Almério, a gente vê com muita frequência, não só no seu trabalho, mas quando se fala de alguns cantores brasileiros a referência ao Ney Matogrosso…

Sempre (risos). Um cantor não pode nascer gay que comparam a Ney, instantaneamente. Eu acho isso maravilhoso, Ney é referência, não só para cantores, mas para cantoras também. E influenciou gerações, de cantores, cantoras, mudou tudo, mexeu tudo. É uma grande referência. Mas complete, para eu ver onde você ia chegar.

Eu ia perguntar se ele é de fato uma influência. Foi alguém que você ouviu bastante? E que outros artistas são referência para o seu trabalho?

Eu adoro essa pergunta. Porque, musicalmente Ney acabou sendo uma referência inconsciente. Porque eu fui escutar mesmo ele dos 25 anos para lá. Foi assim, de me debruçar mesmo sobre a obra. Claro que eu escutei ele a vida inteira, que eu escuto muito MPB. Mas me debruçar, degustar, pegar os discos, ouvir Secos & Molhados, ver as nuances, a influência do samba, do rock, fez um discos mais lindos para mim, “Vagabundo”, com Pedro Luís e a Parede. Acho fenomenal. Foi aí que eu me debrucei mesmo sobre Ney e fiquei passado. Mas o que eu cresci mesmo escutando foi Alceu Valença, Elba Ramalho, Bethânia, Caetano, Tom Jobim, Zélia Duncan, Cássia Eller. Muito Cássia Eller, muito Maria Bethânia, muito Zélia Duncan (risos). Os anos 90, aquelas cantoras. Adriana Calcanhotto, demais. Também Caymmi, Nana Caymmi. Mas as primeiras músicas que me dilaceraram o coração foram Alceu Valença cantando, quando eu era criança. Minha vizinha colocava, meu pai botava Elba Ramalho, eu dizia: “Meu Deus, que vozes! O que é isso que eles estão dizendo?” Ficava enlouquecido. Só fui saber da importância daqueles artistas quando fui crescendo. Depois eu tive a oportunidade de abrir o show do Grande Encontro, até na Europa, em Lisboa e no Porto. Foi uma coisa assim surreal, surreal. Não consigo encontrar um sentimento para explicar o que eu senti quando eu fiz essa ponte da minha infância até os dias de hoje, de poder conviver, sentar com eles, conversar com eles, vê-los, ouvi-los dizendo as histórias. Essa é realmente a minha base sonora. Mas depois a música de Caruaru, eu conheci os artistas de lá que compunham, foi conviver com eles. Quando vi a Banda de Pífanos de Caruaru pela primeira vez, quando fui morar lá, enlouqueci. Disse: “É essa sonoridade que eu quero para os meus discos.” Minha base sonora dos trabalhos vem dessa sonoridade das bandas do pífano, tem a ver com a batida dos pés no chão de quando a gente dança em Pernambuco, todos os ritmos pernambucanos, que têm a ver com zabumba, que têm a ver com  som que a gente bate descalço, no cavalho marinho, forro pé-de-serra, baião. Eu trabalhei cinco anos com as bandas de pífanos em Caruaru. Eu sou essa antena parabólica ligada em todas as coisas que acontecem. Estou atento a tudo.

Vai lá:
Almério e Juliano Holanda
Quando:
Sexta, 3 de maio, às 21h
Onde:
Clube Manouche. Casa Camolese. Rua Jardim Botânico, 983 – Jardim Botânico
Quanto: R$ 30 (meia-entrada) a R$ 60

]]>
0
‘Meus fãs brancos são meio masoquistas’, brinca comediante Yuri Marçal http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/04/27/meus-fas-brancos-sao-meio-masoquistas-brinca-comediante-yuri-marcal/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/04/27/meus-fas-brancos-sao-meio-masoquistas-brinca-comediante-yuri-marcal/#respond Sat, 27 Apr 2019 11:00:17 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=819

Yuri Marçal se apresenta domingo no Vivo Rio. Foto: divulgação

Ele jura que seu principal objetivo é fazer rir. Em seu trabalho como comediante, no entanto, vem conquistando muito mais que isso. Aos 25 anos (faz 26 em duas semanas), o carioca Yuri Marçal caiu nas graças do público ao investir em uma vertente ainda pouco explorada no Brasil: o humor afrocentrado. Com mais de 200 mil seguidores no Facebook e quase 170 mil no Instagram, ele vê seu sucesso extrapolar as redes: depois de abrir shows de Whindersson Nunes, ele agora é atração da turnê do rapper Djonga e vem lotando espaços Brasil afora com seu seu show solo, “Acendam as luzes”.

Pela ausência de referências do estilo no país, ele teve como inspiração artistas de stand up comedy americanos. Exaltando a beleza da mulher negra ou fazendo referência a elementos do candomblé, Marçal alcançou um público que finalmente se viu representado pela comédia. Ele também faz uma zoação aqui, outra ali com estereótipos sobre brancos, que em geral levam tudo na esportiva. “A galera branca que me segue sabe que são piadas, que não tem nenhum tipo de ódio contra ninguém, eles se divertem muito. A única coisa que realmente é verdade, que é o que eu penso, é que eu não me relaciono com mulheres brancas”, comenta. A declaração pode soar um tanto polêmica para quem nunca ouviu algo do gênero, mas faz parte da discussão em torno do que se chama de a solidão da mulher negra: os efeitos do racismo na vida afetiva delas.

Criado pela mãe junto de um irmão adotivo, o ex-estudante de Direito (parou no último período) morou em diferentes lugares do subúrbio do Rio, passou a maior parte da vida em Campo Grande, na Zona Oeste da cidade, e conta que hoje consegue viver bem de seu trabalho na comédia: se mudou há pouco mais de um ano para Laranjeiras, na Zona Sul da cidade, e pode proporcionar um bom colégio a seu filho, de 4 anos. Em entrevista ao blog, ele fala ainda sobre os limites do humor, haters e as abordagens emocionadas dos fãs, entre outras coisas.

O tipo de humor que você faz não é muito comum no Brasil. Então eu tenho curiosidade em saber: quais as suas referências? Quem te inspirou?

A base primeira vem da minha própria família, das nossas vivências, da minha família, que é muito engraçada, meus primos principalmente, que eu morei a vida inteira, quase, com meu primo e a gente teve interação de irmão. Ele, por ser uma pessoa muito engraçada, me transmitiu esse humor também. Mas em relação ao stand up comedy, a esse tipo de humor que eu faço no palco, as referências vêm mais lá de fora. Porque lá o que eu faço hoje em dia é mais comum. David Chappelle, Chris Rock, Michael Che, Kevin Hart, a negada de lá trata muito dessa parte que eu trato, dentre outras coisas também, como família, política. Mas vem principalmente de vivências e desse olhar crítico mesmo de querer transmitir mesmo, de ser transparente, eu, Yuri, para o próprio humor que eu levo.

Você sempre foi aquele cara engraçado da escola, dos lugares?

Não, não. Não verdade eu não sou esse cara hoje. Sempre gostei muito de humor e sempre tentei usar isso como uma ferramenta de atrair atenção. Na época de escola e na rua, assim, entre amigos. Mas era mais uma coisa de reproduzir, não era muito algo criativo meu. Foi se tornando com a prática. O talento vem muito disso: de você praticar bastante. Depois no ensino médio eu passei a ser um dos caras engraçadões, mas mais por causa da galera com quem eu andava. Eu sou muito mais tímido do que um cara de chamar atenção.

Você já respondeu um pouco a pergunta que eu ia fazer, sobre se o seu humor sempre foi desse tipo… Com o tempo você foi intensificando as questões da negritude no seu trabalho?

Na verdade, é bem novo para mim. Foi crescendo junto do academicismo, da faculdade, com o crescimento dessas pautas. Na adolescência eu não tinha tanto. Já tinha um olhar crítico sobre a questão racial, mas não tinha tanto essa coisa de levar para o debate, por exemplo. Mas levar isso para o humor é recente. É um assunto que é recente no Brasil. Meu humor sempre de foi de ceninha, de brincadeira, de reproduzir coisas que eu tinha visto. Não de imitar pessoas, mas fazer um escárnio das pessoas que a gente conhecia. Trazer essa visão mais política, mais crítica, é bem recente.

Você fez faculdade de quê?

Eu me formei numa escola de atores, onde fiz teatro e cinema, na Barra, e fiz faculdade de Direito. Tranquei no último período.

Pensa em um dia se formar em Direito?

Nem pensar, nem pensar. A morte é mais suave.

Agora você está abrindo a turnê a turnê do Djonga? Como está sendo essa experiência? Deve ter público em comum, mas também deve ter um público novo…

Então eu descobri — é claro que eu vou precisar de mais alguns shows para falar melhor disso — mas estou vendo que a gente se divulga muito. Claro que o público dele é maior que o meu, porque a música tem esse alcance, mas muita gente conheceu o trabalho dele a partir de mim e muito mais gente conheceu o meu trabalho a partir dele. Só que eu eu descobri que é o mesmo público, é a mesma galera. Não tem nenhuma atração antes de mim. Quando eu entrei no palco e perguntei “Quem aqui me conhece?”, todo mundo levantou a mão e gritou “Eu!”. Meio que a gente combinou as duas artes mesmo. A galera dá comédia está migrando muito para acompanhar e estar junto, está ficando amiga da galera do rap, e a galera do rap está colando total no meu show, me divulgando e ficando amiga também. Isso também é outra coisa que é muito comum nos Estados Unidos. Então essas duas artes estão meio que se fundindo por causa até dessas questões, dessa união. Uma história muito parecida de vida. E está sendo incrível. Esse fim de semana tem mais, em São Paulo no Rio. Está sendo uma experiência maravilhosa, o público está lá, esperando um show de rap, mas aí chega um cara contando piada a galera ama também, fica um show a mais. As pessoas que amam mais os dois artistas ganham isso de presente.

A gente em vê a galera que adora seu trabalho comentando nas redes. Mas você recebe muita mensagem de hater?

Eu não sei se estou numa bolha tão específica na internet, mas chega muito dificilmente. Ou eu não vejo, ou não me importo mesmo. Porque, normalmente, quando chega, eu acho muito engraçado. A mim, me diverte, na verdade, porque é sempre uma coisa muito sem noção, muito fora do que realmente está acontecendo. Mas é pouquíssimo. Quando tem é “racismo ao contrário”, “essa cara é mais racista que o normal”, “ah, não tem graça”, esse tipo de coisa.

Se minha matéria fizer surgirem, peço desculpas antecipadamente…

(Risos) Eu gosto, eu realmente gosto, acho engraçado. Porque dá muito material para a gente também.

Eu li que uma vez você recebeu até uma ameaça de processo. Foi a única vez? E foi por quê?

Ah, vira e mexe tem. Mas foi alguma piada bem boba. Geralmente é um motivo ridículo, nunca é uma coisa: “Nossa, o Yuri pegou pesado agora.” É sempre: “Sério que foi isso?”. Não lembro agora qual a piada ou algum vídeo que eu fiz sobre gente branca, aí uma advogada me mandou uma mensagem meio malcriada dizendo que eu ia receber uma intimação por causa daquilo. Eu fui e mandei meu CPF, para facilitar a vida dela. Mas não chegou nada, não. Pelo menos não até agora (risos).

Cada vez que eu vejo seus perfis nas redes, você tem mais seguidores. Você é abordado na rua pelos fãs? E como costuma ser essa abordagem?

Bastante. Nos últimos seis, oito meses não teve um dia na minha vida em que eu saísse de casa e não fosse parado na rua. Às vezes em lugares onde eu tenho certeza que ninguém vai me reconhecer, o pessoal para e conversa, tira foto. Acho que com todo humorista, mas talvez comigo seja mais, por causa da identificação, de vivência: é uma abordagem muito calorosa, nunca é uma coisa: “Oi, tudo bom, Yuri? Parabéns pelo seu trabalho.” Essa é a exceção. É bem uma coisa de abraçar, beijar, querer que ligue para a mãe, “Nossa, eu te adoro, eu te amo, obrigado por tudo que você faz”. Tem gente que se emociona, eu fico bem assustado, no bom sentido.

Você falou que é mais tímido. Alguns humoristas são, ou sérios, e vários contam que as pessoas esperam que eles sejam engraçados o tempo todo…

(Risos) Exatamente .

Tem isso da galera ficar falando “Ah, Yuri, fala uma coisa engraçada, conta aí”?

Sempre, sempre, em qualquer lugar. Quando eu pego Uber que descobre que eu sou comediante: “Ah, conta uma piada aí”, “Aquela que você contou…”. Sempre alguma coisa. E não, gente. Primeiro que isso é meu trabalho, e eu não vou ficar dando de graça para você, e também que fica meio sem clima, vou fazer só porque estão pedindo, talvez não tenha a graça que a pessoa espera que tenha…

Sempre se fala de quando você apareceu no quadro do Faustão (“Quem Chega Lá”, do qual foi finalista). Foi isso que fez você ficar conhecido? Ou teve algum outro fato que causou um impacto nos seus seguidores?

Teve isso de 2017, no “Domingão do Faustão”, que foi uma virada muito bacana na minha carreira, mas talvez dentro do circuito de comédia. As coisas começaram a acontecer, de receber bem e tal para fazer comédia. Eu já estava num crescente, mas no meio do ano passado para cá que aconteceu uma virada muito assustadora, de eu viajar com Whindersson (Nunes), que eu abro os shows dele também, vários vídeos meus viralizarem em sequência, o reconhecimento ficou muito maior, as pessoas passaram a seguir o meu trabalho, a acompanhar, indicar para todo mundo — a pessoa nunca vê um vídeo meu só, acaba vendo todos —, fazer N shows, meu show solo começar a lotar… E agora, este ano, mais ainda.

Você hoje vive do seu trabalho como humorista?

Sim, sim. Já tem um tempo. Talvez um ano e meio. Hoje em dia eu consigo viver bem: moro na Zona Sul do Rio, meu filho estuda nas melhores escolas e tal, consigo viver bem de comédia. Mas de um ano e meio para cá eu estava conseguindo sobreviver, vamos dizer.

E você chegou trabalhar em outras áreas antes de se dedicar só à comédia?

Sim, sim. Trabalhei no Procon… tudo em que eu trabalhei, na verdade, foi referente ao Direito. Trabalhei um tempo no Tribunal de Justiça, no Centro do Rio, trabalhei um tempo no Procon, também lá, trabalhei num escritório gigantesco de advocacia, também no Centro do Rio… tudo referente ao Direito.

E antes de morar na Zona Sul, onde você vivia? Onde cresceu? Pode me contar um pouco da sua história?

Eu sempre morei em favela. Eu nasci em Vaz Lobo, próximo à Serrinha (que fica na divisa do bairro com Madureira), minha família toda é de lá. Depois eu fui morar em Coelho Neto, perto da favela Jorge Turco, numa vila. E depois eu fui viver e passei a maior parte da minha vida na Carobinha, que é uma favela em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, perto da Vila Kennedy e Santíssimo. Nesse ambiente que eu vivi, minha família mora toda lá, a faculdade que eu fiz foi lá. Depois que eu vim para a Zona Sul, por uma questão de praticidade, com as viagens, shows e tudo mais.

Você saiu do bairro onde cresceu para um lugar elitizado. Como foi essa mudança? Outro dia entrevistei o Baco Exu do Blues e ele disse que hoje frequenta lugares onde é o único negro, e que isso foi uma grande mudança na vida dele. Você vive isso? Hoje é muitas vezes um dos poucos negros do ambiente?

Feliz ou infelizmente, eu já estava acostumado com esse tipo de coisa. Porque, por mais que eu sempre tenha morado em favela, eu sempre frequentei lugares elitistas. O pouco de dinheiro que a minha família, a mãe e as minhas avós tinham, elas gastavam na minha educação e na minha saúde. Então eu sempre tive plano de saúde, estudei em escola particular, a minha faculdade foi particular, a escola de atores também, bastante cara. Sempre fui acostumado, até falo sobre isso no show, a ser o único preto dos lugares. E na Zona Sul não mudou. A diferença é que agora eu percebo o que está acontecendo. Antes eu nem me ligava muito, mas agora eu percebo e sei por que está acontecendo. O choque só foi grande em relação a mim mesmo, porque em favela o preço das coisas é outro, no subúrbio o preço é completamente diferente do da Zona Sul, o tratamento entre as pessoas é totalmente diferente, todo mundo se conhece. As leis são diferentes, sabe (risos)? A convivência é diferente. E esses hábitos que eu tive que entender e estou tentando ainda, mas também não faço muita questão de me adaptar a eles, não. Não interfere muito em quem eu sou.

Os seus amigos brancos ficam incomodados com as piadas que você faz zoando brancos? Recebe mensagem de fã branco chateado?

Nem um pouco. Na verdade, nada, nada, nada. Eles até gostam, são meio masoquistas. Pelo fato de eu ter crescido e ter sempre convivido nesse meio, muitos dos meus amigos são brancos. Sempre foram bem ambientados com esse tipo de humor, essa brincadeira que eu faço. Pelo menos eu não lembro de ter tido problema, do tipo: “Ah, pegou pesado!”.

Já se arrependeu de alguma piada?

Provavelmente já. Não contada em palco ou em vídeo, acho que não. No palco, embora eu improvise bastante e o improviso seja livre, a gente não sabe o que nossa cabeça vai mandar a gente falar, eu acho que não. Já deve ter acontecido de fazer alguma piada interna entre amigos, conhecidos, alguma pessoa com quem eu achei que tinha intimidade e não tinha, contar uma piada e depois falar: “Ai, caraca, dei mole.”  Também nem sei se isso aconteceu, estou chutando aqui porque ninguém é perfeito.

Ou então aquela lembrança de Facebook… Você acha que a sua consciência evoluiu?

Ah, isso, sim. Isso com certeza. Tem piada que eu fazia em 2010, 2011 que hoje eu digo: “Não é possível que não tinha uma pessoa para dar uma porrada no Yuri de 2010!”. E aí agradeço: “Claramente eu não penso mais assim, claramente esse é o tipo de piada que eu não faria, nem acho graça.” Para mim, o principal problema de uma piada é ela ser sem graça. Vira e mexe tem lembrança de Facebook que eu fico: “Nossa, que vergonha!”.

Falando nisso, eu li uma entrevista em que você dizia que não ligava para piadas sobre negros. Queria entender: o que você quis dizer quando falou isso? Você acha que o humor tem que ser 100% livre mesmo?

Eu estou falando isso, mas não tenho uma opinião formada sobre isso ainda não, tá? Eu estou em plena construção/desconstrução. Mas para mim a questão é quando entra no Código Penal mesmo: se você falar uma coisa e alguém não gostar e achar que você ofendeu, essa pessoa tem todo direito de fazer o que ela quiser dentro da lei. Se ela não gostou e falar: “Não gostei do que você disse e quero te processar”, e você estiver respaldado pela lei… A liberdade de expressão é também para a outra pessoa, é para todo mundo. Nessa entrevista, quem abre o vídeo percebe que eu não falei nada disso. A questão das piadas de cunho racista, das piadas com negros, é porque não tem graça. E eu não digo isso porque me fere diretamente, até porque não me fere, eu sou comediante, eu rio de tudo. Estamos em 2019, aí a pessoa vai falar: “Aí chegou um negro, hahaha”, e, segundo a piada, ele é ladrão. A gente já tem 450 anos ouvindo essas piadas. A gente já sabe onde a pessoa vai chegar. A gente já riu disso a vida inteira, então a pessoa vai estar repetindo a mesma coisa. Se ela fizer uma piada em relação a um cara preto ou uma mina preta e for engraçada, eu vou rir. Se alguém não gostar, tem o total direito de reagir como bem entender, respaldada na lei sobre aquilo que ouviu e não gostou. Se for engraçada, eu vou rir. Se não for, vou achar uma merda e vou falar: “Cara, isso é uma merda.” Só que, como falei na mesma entrevista, não lembro se foi ao ar: quando alguém, por exemplo, faz uma piada racista, essa pessoa me dá o total direto de fazer a piada que eu quiser com ela. Se você fez uma piada racista comigo, a gente não tem mais limites a partir daqui. Então eu vou falar o que eu quiser. Sei lá, a pessoa que fez essa piada perdeu a mãe num acidente: eu vou fazer piada com isso e não vou ter o menor pudor. Essa pessoa tem que entender que, a partir do momento em que ela fez esse tipo de piada, ela abriu tudo, ela tornou 100% livre e ela também tem que entender que pode receber um tipo de piada do qual ela pode não gostar. Mas aí a gente não vai se importar com isso.

Acha que o humor depreciativo é válido?

Sim, é um elemento. Tudo humor é válido. Dependendo da forma como você faça e com quem você faça. É um elemento. Eu uso muito pouco. Uso mais em relação a timidez, esse tipo de coisa, não uso mais em relação a “Ah, sou feio, hahaha”. Não levo mais para esse lugar. É válido. É aquilo, volto no lugar da graça, e como você está fazendo, por que você está fazendo. Tudo vai depender de como vai ser falado, do humor que vai ser trazido nisso.

A abordagem das pessoas é muito emocionada e os comentários nas suas redes também. Acho que as pessoas se identificam muito. Além de fazer rir, o que te inspira é empoderar as pessoas negras?

Sim e não. Na verdade, isso é uma consequência: meu objetivo é fazer as pessoas rirem. Se as pessoas estão rindo, está maravilhoso. Quando a consequência disso é esse empoderamento, essa autoestima, essa identificação, essa relevância do povo preto, do povo de religião de matriz africana, que é uma coisa da qual eu falo bastante também, essa consequência eu acho maravilhosa, é um plus incrível, para mim é emocionante, até. Mas o principal objetivo é fazer as pessoas rirem. Isso aí é a maioria das coisas nas quais eu acredito. Tem coisa que eu faço que não necessariamente é minha opinião, mas, quando é, eu acho maravilhoso.

Você acha que o humor também pode ser uma forma de ativismo ou resistência? Ele pode ser uma arma importante?

Completamente. Porque o humor atinge as pessoas de forma mais rápida. Por exemplo, isso a música também tem. Quando o Djonga fala, como ele faz nesse álbum novo, sobre a ancestralidade, isso atinge as pessoas de uma maneira que, inconscientemente talvez, elas pensam: “Cara, preciso valorizar minhas raízes, preciso valorizar minha mãe, minha avó, porque elas batalharam para caraca numa época em que tudo era horroroso.” O humor é mesma coisa: se você riu da piada, significa que você entendeu. E aquilo pode reverberar na sua cabeça de uma forma muito bacana. Mesmo que o comediante não queira, pode ser usado como uma arma, sim. Você pode colocar uma mensagem ali, fazer com que as pessoas pensem. Riam, principalmente, mas pensem: “Interessante isso aqui que o cara postou”, e levem para mais pessoas que possam mudar sua postura.

Você está se apresentando pelo Brasil e já conheceu várias personalidades que elogiam seu trabalho. Tem algum sonho ou objetivo no momento que queria muito realizar?

Eu não planejo muito. Sempre tem algum sonho implícito, mas, como sou meio competitivo comigo mesmo, não planejo muito. Eu tinha um sonho no Teatro Bradesco, que tem mil lugares. Ainda mais que lá é muito elitista, lotar um teatro com quase mil pretos para mim ia ser emblemático. Mas imaginava que isso ia acontecer lá para 2020. Só que agora eu vou fazer para dois mil, no Vivo Rio, meu sonho dobrou. Então não fico planejando muito, senão vou acabar ficando obcecado em realizar. Prefiro não planejar.

Sempre vejo suas redes e fico pensando: seus fãs brancos ficam muito carentes, querendo que você responda, interaja?

A galera que é branca e me segue entende perfeitamente o que eu falo. Sabem que são piadas, que não tem nenhum tipo de ódio contra ninguém, elas se divertem muito. A única coisa que realmente é verdade, que é o que eu penso, é que eu não me relaciono com mulheres brancas. É uma piada que eu faço nas minhas redes sociais, mas é uma coisa que realmente acontece. A galera branca que vai nos shows, a galera branca que está nas minhas redes sociais, eles já entenderam e eles acham muito importante e muito engraçado. Estão numa onda muito comigo, de se divertir, de vir para cima, de mostrar para outras pessoas. Quando faço uma piada com branco, eles ficam rindo.

Com certeza, agora que você está famoso, muito mais mulheres, em geral, devem estar dando em cima de você, negras e brancas. Isso é uma condição sua mesmo, podem perder as esperanças?

Sim, sim. E não é nenhum esforço isso. Principalmente nesse lugar que eu estou ocupando nesse momento. Não tem esse esforço, nunca tive na vida. Só não acontece. Simplesmente não rola. Eu não fico em casa: “Meu Deus, já estou há não sei quantos dias sem me relacionar com brancas!”. Não, só não acontece.  Até porque hoje em dia é muito mais difícil, eu tenho um público majoritário de mulher preta. Muito mais difícil de acontecer. Não é nenhuma ideologia: “Não vou fazer.” Simplesmente não acontece.

Vai lá:
Yuri Marçal em “Acendam as Luzes”
Quando: Domingo, 28 de abril, às 19h
Onde: Vivo Rio. Av. Infante Dom Henrique, 85 – Aterro do Flamengo
Quanto: R$ 30 (promocional) a R$ 180

]]>
0
‘Depreciação da periferia é projeto político’, diz Suburbano da Depressão http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/04/19/depreciacao-da-periferia-e-projeto-politico-diz-suburbano-da-depressao/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/04/19/depreciacao-da-periferia-e-projeto-politico-diz-suburbano-da-depressao/#respond Fri, 19 Apr 2019 13:00:45 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=801

O historiador Vitor G. Almeida faz a página Suburbano da Depressão. Foto: acervo pessoal

Com quase 400 mil seguidores, a página de Facebook Suburbano da Depressão faz sucesso ao exaltar o modo de vida de quem vive longe da maioria dos cartões-postais do Rio de Janeiro. Criada em 2012 pelo historiador Vitor G. Almeida, ela deu origem a um livro (“Suburbano da Depressão: casos, contos e crônicas”, de 2016), ajudou a popularizar personagens (como os irmãos Mariacrara e Pedrenrique), resgatar gírias e incentivou ações solidárias.

Nesta sexta (19), o Teatro Odisseia, na Lapa, recebe uma festa que tem a página como tema. Com coxinha liberada até 1h, open bar de catuaba Corote e desconto para os 50 primeiros com comprovante de residência do subúrbio ou carta do SPC/Serasa, a festa promete reviver o clima dos bailes de grandes casas suburbanas dos anos 90, como Olimpo e West Show. A trilha, com funk e pagode dos anos 90, será por conta dos DJs Julio Himself, Dindo (Vitor G. Almeida, chamado de “Padrin” pelos seguidores do Suburbano da Depressão) e Vitor Medina.

Em conversa com o blog, Vitor falou sobre o que vê como projeto político de depreciação das zona Norte e Oeste e da Baixada e sua busca por fortalecer a identidade suburbana, entre outros assuntos.

O que te levou a criar a página?

A gente estava vivendo um momento de transformação da cidade, para receber Copa e Olimpíada. Antes disso, a gente teve as ocupações das UPPs. Eu gosto do marco de 2010 porque foi quando a cidade descobriu o subúrbio, ainda que só a Zona Norte. Chega em 2012, aquilo continua martelando na minha cabeça e, como eu estudava História, me questionei: ‘Por que o suburbano sempre se depreciou?’. Através da História, eu vi que foi um projeto político de depreciação dos subúrbios e da imagem do suburbano. Enquanto suburbano, eu resolvi fazer uma autocrítica da nossa autodepreciação. Então a página tem na essência essa pegada de ironia com a própria situação do suburbano, que negligencia a sua história. E foi por isso que eu botei o nome de Suburbano da Depressão.

Por que você considera que a cidade “descobriu” o subúrbio em 2010?

Porque eu acho que ali, naquele momento, estava sendo desenhada uma grife de cidade, e o subúrbio passou a ser uma grife também. O maior ponto de hype foi Madureira, foi o carro-chefe dessa grife, que foi desenhada para se vender a cidade naquele momento em que ela estava passando por um boom mundial, global.

A página teve cresceu logo? A adesão foi grande de cara ou foi gradativa?

No começo, foi totalmente despretensioso. Vou fazer sete anos encabeçando a página e estou profissionalizando o espaço, tentando monetizar, ainda batendo nessa questão da identidade do subúrbio. Foi uma coisa gradativa: as pessoas foram se identificando com aquelas postagens. Acho que elas ficaram de saco cheio do Manoel Carlos (autor de novela famoso pelas tramas passadas na Zona Sul da cidade, sobretudo o Leblon) contando a história da cidade. E aí foram surgindo outras pessoas, paralelamente (fazendo trabalhos com temática parecida). Coincidentemente, a gente apareceu junto do “Vai que cola” (seriado do Multishow criado em 2013), “Os Suburbanos” (série de 2015 do Multishow, inspirada na peça homônima de 2005), e acabou sendo uma crítica a esses roteiros que são feitos por pessoas que não são suburbanas. Então fizemos o contraponto: olha o que os roteiristas ainda enxergam no subúrbio e o que a gente faz no subúrbio, o que a gente fala sobre ele. Porque as redes sociais decidiram uma eleição ano passado, elas se tornaram uma força que começou a desconstruir a própria mídia tradicional. As mídias sociais foram o nosso verdadeiro megafone, nossa plataforma para impulsionar essa identidade suburbana, para trabalhar esse orgulho.

Você sente que ao longo do tempo as pessoas foram ganhando ou recuperando um orgulho de ser suburbanas?

Sim. Muitas pessoas começaram a identificar que a depreciação histórica do subúrbio teve um porquê. E hoje muita gente não sente mais vergonha de dizer: ‘Eu sou suburbano’, ‘Eu sou da Zona Oeste’, ‘Eu sou da Baixada’, Eu sou da Zona Norte.’ Isso acabou se tornando um orgulho. A gente acabou descortinando um Rio de Janeiro que estava escondido, que é o que faz a cidade existir, ser o que é.

A gente viu com as redes sociais não só você, mas outras figuras do subúrbio ganhando destaque, autores do subúrbio que lançaram livros. E existe uma coisa em comum de zoar a galera da Zona Sul. Como é isso?

O grande mote disso tudo é você questionar o que a história dizia para a gente que era inquestionável: que o Rio de Janeiro vai ser orla, o Rio de Janeiro vai ser Zona Sul e não existe mais nada. Acho que as pessoas acabam se sentindo desconfortáveis com isso: tudo que é novo incomoda. Você tentar sacudir as pessoas do seu lugar de conforto desagrada. Acho que ninguém esperava que pessoas da Zona Norte, da Zona Oeste e da Baixada fossem questionar as suas posições. Por isso que a gente brinca com a Zona Sul, com a Barra, com o (condomínio) Rio 2 — que é em Jacarepaguá, na verdade. Não condeno as pessoas saírem dos seus bairros e irem para esses lugares, mas o que eu particularmente critico são as que têm o famoso espírito de porco, ficam sendo preconceituosas. Tem gente que está no subúrbio porque não tem oportunidade de sair, tem gente que é porque gosta, isso vai de cada um. A essência dessa nossa brincadeira é o questionamento dessa cidade historicamente partida. Por que uns lugares têm mais privilégios do que outros, dentro da cidade e da Região Metropolitana? É a grande bandeira que eu hoje levanto, que eu entendi que virou um ponto político — não no sentido partidário nem nada, mas uma voz.

Você andou postando sobre como o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) dos bairros impacta na expectativa de vida das pessoas. Pode falar um pouco sobre isso?

Os dados que eu vi são do último censo, com certeza estão defasados, porque foi em 2010. Mas de 2010, que foi o ponto que eu mencionei no começo da entrevista, você já tira daí: você tem uma parte de concentração de renda, que é o bairro que está no topo da lista, a Gávea, o primeiro, e no último você tem o Complexo do Alemão (126º). Chegando ali nos últimos, tem o bairro onde eu moro, que é Santa Cruz (119º), que essa pesquisa mostra que não chega a ter 10% da renda per capta da Gávea. Se você soma a renda per capta de Santa Cruz com a do bairro mais populoso da cidade, que é Campo Grande, que tem um IDH mais alto (82º), não dá 30% da renda per capta da Gávea, de um único Gávea. E saiu ano passado uma pesquisa da UFRJ que diz que um morador de Santa Cruz tem dez vezes mais chances de ter um acidente vascular cerebral (AVC) que um da Gávea. O distanciamento desses centros de poder propicia isso. É um terreno fértil para esses problemas. O trabalhador que mora na Zona Oeste, se você for botar na ponta do lápis — e eu tive a curiosidade de fazer isso —, ele gasta um mês e dez dias no ano dentro de um transporte público. É uma questão de concentração de poder na cidade que hoje a página faz a questão de apontar. E eu, como figura por trás da página.

Pulando para a festa: por que você resolveu fazer, e por que na Lapa?

Quem entrou em contato comigo foi o Julio Trindade, do Teatro Odisseia. Eles convidaram a página para ser o tema da festa. Segundo ele, acabou surpreendo em números (de ingressos vendidos), mais do que outras festas que já acontecem lá. Acho muito importante a gente ocupar esse espaço, que é a Lapa, que é um local hoje privilegiado, virou uma parte de concentração de pessoas que têm dinheiro buscando essa essência da malandragem carioca etc. A gente está tomando um lugar, participando disso. A cidade é de todos nós, não é só de um grupo seleto. Suburbanos irem para a Lapa é muito interessante. Achei muito legal a iniciativa do teatro.

O que vai ter de típico do subúrbio na festa?

Vai ter muito funk dos anos 90, funk de baile de corredor, pagode dos anos 90 e dos anos 2000. A gente está tentando fazer um clima típico de casa de show da Zona Norte e da Oeste, como Olimpo, Via Show — que era na Baixada —, West Show, esses lugares.

Hoje se fala muito do aumento da violência na cidade, especialmente no subúrbio e nas favelas. A gente viu  a proibição dos bailes funk nesses lugares, e isso teve um impacto grande na cidade, tanto que é daí que o surge o funk em São Paulo, ele explode quando os bailes são proibidos aqui no Rio. Como estão a cultura e o entretenimento no subúrbio hoje?

Hoje, se por um lado a gente levantou o orgulho do subúrbio, eu e muitos outros amigos e amigas que surgiram, por outro a gente teve um número expressivo de páginas de bairro que vieram para continuar espalhando notícias de violência, causando medo. Eu vejo mais como um projeto de desprestígio da cidade em detrimento a São Paulo. Acho que foi um preço alto que a gente pagou por ter sido um ponto de encontro do mundo, sediando dois eventos importantes. E este ano vamos sediar a final da Copa América, no nível continental. Claro que isso também soma-se à questão da corrupção toda dos nossos políticos do executivo e tudo. O Rio de Janeiro vem pagando um preço altíssimo por ter sido esse centro de encontro do mundo com a Olimpíada e com a Copa. E, como o (filósofo) Umberto Eco falou, as redes sociais sociais deram voz a um bando de idiotas. Elas tanto proporcionaram coisas boas como ruins. Tem gente que sofre de síndrome do pânico e ansiedade por causa de página de bairro. Eu acho que isso reflete muito também o desconhecimento histórico das pessoas a respeito esse projeto político sobre os subúrbios.

Mas você acha que existem opções de cultura e lazer para a população, ou o subúrbio está esquecido mesmo?

Nós tínhamos, até determinado tempo atrás, como eu falei, as grandes casas de show, praticamente todas as clássicas de subúrbio fecharam. A gente não tinha muitas opções, e apelou para o que sabe fazer de melhor, que é o improviso. Daí que surgiram os bailes funk, desde o final dos anos 80. E, antes dos anos 80 mesmo, as rodas de samba, o Cacique de Ramos é um grande exemplo, o Pagode da CCIP em Pilares, que são lugares históricos da cultura suburbana do samba. Nos anos 80 e 90, cresceu o funk nas favelas e nas periferias. E foi iniciativa nossa. Acabou que a classe média e a classe média alta acabaram se apropriando. E é isso. A gente continua sem opção de lazer. E, quando cria alguma coisa, acaba sendo criminalizado. E aí tem aquela ideia de coisa de pobre. A pobreza no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, ela é criminalizada. Você não tem uma política para esse problema: você só tira, mas não dá nada. Você não tem uma alternativa para esse pessoal, para a gente.

Já que você tocou nessa questão das redes, de vez em quando acontecem coisas legais por meio da página. Recentemente, teve a história da menina que distribuiu quentinhas no aniversário e, por causa dos seguidores da página, acabou ganhando de presente uma festa. Aconteceram outras histórias do gênero? 

Teve o caso da Adrielly, lá de Realengo, que a gente conseguiu mobilizar para dar uma festinha para ela. E ela ganhou muito mais coisas do que imaginava, a mãe dela me falou que ela ganhou presente até da região Norte. Também teve recentemente o Petro, que fez uma festinha com o tema metrô. Com a mobilização, conseguimos entrar em contato com o metrô e arrumamos para ele fazer uma visita ao Centro de Controle. A página acabou virando esse ponto de fazermos nós por nós mesmos.

Vai lá:
Baile do Odisseia e Suburbano da Depressão
Quando: Sexta, 19 de abril, às 23h
Onde: Teatro Odisseia.
Quanto: R$ 45 a R$ 80 (open bar)

]]>
0
Comida di Buteco: 66 petiscos na 12ª edição carioca http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/04/12/comida-di-buteco-66-petiscos-na-12a-edicao-carioca/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/04/12/comida-di-buteco-66-petiscos-na-12a-edicao-carioca/#respond Fri, 12 Apr 2019 20:33:14 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=784

O bolinho do imaculada

Celebrando 20 anos de existência e 12 de sua edição carioca, o Comida di Buteco começa hoje com a participação de 66 botecos espalhados pela cidade e região metropolitana. Até o dia 12 de maio, cada bar oferecerá o petisco criado para o evento, ao preço de R$ 20. A melhor criação é escolhida por meio de votação do público e de um corpo de jurados, levando em conta quatro categorias: petisco, atendimento, temperatura da bebida e higiene. O concurso hoje acontece simultaneamente em 16 cidades, e desde 2016 há uma etapa nacional que elege o melhor petisco do Brasil.

A previsão é que o festival atraia uma legião de clientes aos bares participantes, como foi nos anos anteriores. “O Comida di Buteco hoje está no calendário do Rio, as pessoas vêm conhecer o que é um botequim. A cada ano o preconceito está diminuindo muito. Hoje, existem famílias frequentam o bar, você pode vir e trazer o filho, sua mãe, avó, vem todo mundo”, analisa comenta Luiza Souza, chef e proprietária do Bar da Gema.

Participante desde 2010, o boteco, na Tijuca, concorre este ano com o Pra Festejar, composto de três bolinhos de massa de aipim e carne de porco, recheados com queijo minas padrão derretido. O bar, que já ficou em primeiro, segundo e quarto lugar em edições anteriores, ficou famoso após participar do Comida di Buteco. “O concurso trouxe visibilidade para a gente. Isso é uma das coisas mais importantes nele. Ele te traz uma clientela nova. E cabe ao bar trabalhar para conquistar essa nova clientela”, diz Luiza.

Também foi o caso do Bar do Momo, no mesmo bairro, outra estrela revelada pelo festival. Este ano, eles entraram com o 20 Fazer Feliz, um bolinho feito de macarrão com cheddar, cebola-roxa e bacon, acompanhado por molho de pimenta caseiro. “O concurso é muito importante para o Momo, nos ajudou a ter projeção, nos apresenta para várias pessoas, nos cria oportunidades. Boa parte da clientela que conhece o bar no Comida di Buteco acaba voltando, garantindo movimento para o ano todo”, comemora Toninho Laffargue, chef e dono do bar ao lado do pai, Antônio Lopes dos Santos.

Bares participantes:

O petisco do Bar da Gema. Foto: divulgação

Adega Pérola

Petisco: “Podrão” de Bacalhau – petisco de bacalhau elaborado com ingredientes da culinária popular brasileira

Rua Siqueira Campos, 138 A – Copacabana
Segunda a sábado, das 11h às 1h
Telefone: (21) 2255-9425

Baixo Araguaia

Petisco: Fondue de costela – Costela desfiada e servida em duas “cestinhas” de pão italiano. Acompanha uma terceira “cestinha” de pão com uma fusão de queijos, onde predominam gorgonzola e provolone

Rua Araguaia, 1709 – Freguesia
Segunda a sexta, das 18h à 0h
Sábado de 12h à 0h.
D
omingo 12h às 22h30
Telefone: (21) 3392-3760

Baixo Gago

Petisco: Comadi Sebastiana – bolinho de massa de feijão, recheado com baião de dois, carne seca, linguiça, bacon e queijo coalho

Rua Gago Coutinho, 51 – Laranjeiras
Segundas e terça, das 11h às 22h
Quarta a sábado, das 11h à 0h
Domingo, das 11h às 18h
Telefone:  (21) 2556-0638
 

Bar Caiçara

Petisco: De repente 20 Da Vinci – 20 cubos de filé de frango crocantes, acompanhados de três surpreendentes molhos

Rua Dr. Sebastião de Aquino, 170 – Ilha da Gigóia
Quarta a sexta, das 16h às 23h
Sábado, das 13h às 23h
Domingo e feriados, das 13h às 20h
Telefone: (21) 2484-7983

Bar da Gema

Petisco: Pra Festejar – Três bolinhos feitos com massa de aipim e carne de porco, recheados com queijo minas padrão derretido

Rua Barão de Mesquita, 615 – lojas C e D – Tijuca. Tel.: 3549-1480
Terça a sexta, das 17h às 23h
Sábado, das 12h às 23h
Domingo, das 12h às 17h
Feriado sob consulta

Bar da Portuguesa

Petisco: Pixinguinha, 20 ver; Dondon 20 aplaudir – Caldinho de grão de bico com bacalhau

Rua Custódio Nunes, 155, loja D – Ramos
Terça a quinta, das 17h30h às 23h
Sexta, das 17h30h à 0h
Sábado, das 12h às 21h
Domingo, das 12h às 17h
Feriado sob consulta
Telefone: (21) 3486-2472

Bar Dafoca

Petisco: Sabor da Fazenda – Polenta frita recheada com linguiça acompanhada de molho de ervas

Rua Farani, 23, lojas A/B – Botafogo. Tel.: 2553-7045
Terça a sexta, das 18h à 0h
Sábado, das 14h à 0h
Domingo, das 14h às 22h
Feriados sob consulta

Bar do Gallo

Petisco: Punheta do Gallo – Punheta de bacalhau, pimentões coloridos, cebola-roxa, tomate-cereja, azeitonas portuguesas, acompanha minipão francês

Rua Cidade do Rio, 185 – Taquara
Terça a quinta, das 16h às 21h
Sexta, das 16h às 23h
Sábado, das 13h às 23h,
Domingo e feriados, das 12h às 22h
Telefone: 2426-5059

Bar do Mariano

Petisco: Como Moela e Rabanada – Moela temperada ao vinho com rabanada salgada

Rua Professor Valadares, 78 – Grajaú
Segunda a sábado, das 15h30 às 22h
Domingo e feriados, das 15h30 às 22h
Telefone (21): 2578-1232

Bar do Momo

Petisco: 20 Fazer Feliz – Bolinho de macarrão com cheddar, cebola roxa e bacon. Acompanha molho de pimenta caseiro

Rua General Espírito Santo Cardoso, 50\A – Tijuca.
Segunda a sexta, das 15h às 22h
Sábado, das 11h às 22h
Domingo e feriado sob consulta
Telefone: (21) 2570-9389

Bar do Omar

Petisco: Escondidinho de Escondidinho – Aipim cozido acompanhado de carne-seca acebolada coberto com queijo gratinado

Rua Sara, 114 – Santo Cristo
Quarta e quinta, das 17h às 22h
Sexta e sábado, das 12h às 23h
Domingo e feriado, das 12h às 21h
Telefone: 95905-0680

Bar dos Amigos

Petisco: Vintão – Peito de boi assado e desfiado com temperos da casa e angu

Rua Pacheco Leão, 1.124-A – Jardim Botânico
Terça a sábado, das 12h às 22h
Domingo, das 12h às 18h
Feriado sob consulta
Telefone:  (21) 3114-7924

Bar Madrid

Petisco: Bocata de Almôndegas – Sanduíche com almôndegas no pão de leite, bastante molho da casa com bacon, queijo mussarela e parmesão gratinados e rúcula para terminar a combinação

Rua Almirante Gavião, 11-G – Tijuca
Segunda a sexta, das 11h às 17h30
Sábado e domingo, das 12h às 18h30
Telefone: (21) 3786-8480

Bar O Original do Brás

Petisco: Trio Mineiro Uai – Polenta em cubos empanadas com parmesão, linguiça mineira e carne suína

Rua da Justiça, 230 A – Vila da Penha
Segunda a quinta, das 16h às 22h
Sexta e sábado, das 14h às 22h
Telefone: (21) 3689-3699

Bar Palhinha

Petisco: Kimukeka – Croquete de moqueca de peixe. Acompanha molho de coentro com azeite e castanhas de caju

Rua Humaitá, 12 – loja C – Humaitá
Segunda, das 17h às 23h
Terça a sábado, das 12h à 0h
Domingo, das 12h às 20h
Telefone: (21) 2539-5709

Bar Santo Remédio

Petisco: Jóias do Brasil – Caldinho de feijão invertido e bolinho de arroz dos pampas 

Rua Barão de Mesquita, 922 – Grajaú
Terça a sexta, das 17h às 23h
Sábado, das 12h às 23h
Domingo, das 12h às 20h
Feriado sob consulta
Telefone: (21) 2238-9915

Barbahtchê

Petisco: Vaquinha atolada – aperitivo de costela com purê de aipim

Rua São Francisco Xavier, 313, loja A – Tijuca
Diariamente, de 11h às 23h
Telefone: (21) 3596-0253

Birosca do Camarão

Petisco: Encontro das Barcas – Três frutos do mar servidos em barquetas comestíveis: barquetas de bacon recheadas com siri, de parmesão recheadas com mexilhão e de orégano com recheio de camarão. Acompanha molho tártaro. 

Rua Antônio Sales, 4, Colonia z10 – Ilha do Governador
Terça a sábado, das 12h às 22h30
Domingo, das 12h às 18h
Feriado sob consulta
Telefone: (21) 98900-8547

Bistrô Aconchego

Petisco: Dupla Explosiva – Quatro suculentas kaftas recheadas com mussarela e acompanhadas por um delicioso pão de alho recheado com linguiça, couve e geleia de pimenta

Rua das Rosas, 1500 – Vila Valqueire
Quarta a sexta, das 18h à 0h
Sábado, das 12h à 1h
Domingo e feriado, das 12h às 22h
Telefone: (21) 2454-9149

Bobô Bar

Petisco: O Porco Prensô e Fritô – Trio de bolinhos de costela de porco e panceta ao molho barbecue. Desfiada e prensada com recheio de queijo provolone defumado empanado em farinha panko

Rua Manuela Barbosa, 45 – Méier
Segunda a quinta, das 17h às 23h
Sexta, das 17h à 1h
Sábado, das 12h à 1h
Domingo, das 12h às 23h
Feriado, das 12h às 23h
Véspera de feriado, das 17h à 1h
Telefone: 3495-8223

Bode Cheiroso

Petisco: Pimenta no ragu dos outros é refresco – Ragú de porco acompanhado de farofa crocante apimentada

Rua General Canabarro, 218 – Maracanã
Segunda, das 15h às 22h
Terça a sexta, das 15h à 0h
Sábado, das 15h às 21h
Feriado sob consulta
Telefone: (21) 2568-9511

Bodega do Sal

Petisco: Achadinho – Escondidinho de abóbora, carne seca, catupiry e queijo coalho e crispy de alho-poró

Rua Argemiro Bulção, 33/35 – Saúde
Segunda e sexta, das 11h à 1h
Terça a quinta, das 11h às 20h
Sábado e domingo, das 11h às 20h
Telefone: (21) 2516-4548

Boêmia Social Clube

Petisco: Sirigueijo – bolinho de siri recheado com gorgonzola e empanado em farinha de torresmo, acompanhado de garra de caranguejo empanada e geleia de bacon

Avenida Oliveira Belo, 1.180, loja E – Vila da Penha
Segunda, das 18h às 23h30
Terça a domingo, das 12h às 23h30
Telefone (21): 3190-5979

Bom Gourmet

Petisco: Ragu do Maracá – ragu de costela bovina servido com creme de banana da terra e batata acompanhado de farofa panko ao alho decorado com pimenta biquinho e salsinha

Rua Morais e Silva, 107 – Tijuca
Segunda a sexta, das 17h à 0h
Sábado, das 14h à 0h
Feriados sob consulta
Telefone: (21) 3689-0795

Booze Bar

Petisco: Coxinha sem massa do Booze – coxinhas nos sabores salmão, costela, frango e pernil recheadas com cream cheese e acompanhadas dos molhos de maionese de wasabi, geleia de pimenta biquinho e maionese caseira

Avenida Mem de Sá, 63 – Lapa
Terça a quinta, das 12h às 23h
Sexta e sábado, das 12h à 2h
Domingo, das 12h às 18h
Telefone: (21) 2252-1588

Boteco Carioquinha

Petisco: Mente Aberta – Bolas de pernil mergulhadas no molho de tomate artesanal sobre cama de creme roxo e crispy de couve

Av. Gomes Freire, 822 – Lapa
Diariamente, das 11h à 1h
Telefone: (21) 2252-3025

Boteco do Lobo

Petisco: Lobo em pele de cordeiro – Costeleta de porco gratinada acompanhada de geleia de hortelã e chips de aipim

Rua Professora Carmem de Freitas Salgado, 237 – Califórnia, Nova Iguaçu
Terça a sexta, das 16h à 0h
Sábado de 12h à  0h
Domingo, das 12h às 21h
Telefone: (21) 3851-1438

Boteco do Teixeira

Petisco: 20Pegar – Bolinhos de feijão branco recheado com carne-seca, calabresa e bacon, servidos com couve, geleia de pimenta e shot de caipirinha

Rua General Venâncio Flores, 594 – Vinte e Cinco de Agosto, Duque de Caxias
Segunda a sexta, das 18h às 23h
Sábado e domingo, das 16h às 23h
Telefone:  (21) 2772-4258

Boteco Vou de Mais

Petisco: Kafta Vou de Mais – Duas kaftas recheadas com queijo coalho e tomate-seco acompanhadas de geleia de pimenta e vinagrete

Rua Paula Brito, 240 – Andaraí
Segunda a sexta, das 11h30 à 0h
Sábado e domingo, das 11h30 à 1h
Telefone: (21) 2278-9629

Botequim Rio Antigo

Petisco: Bafo de Porco! – Costelinhas suínas preparadas no bafo, acompanhadas de farofa panko de bacon e molho especial da casa

Rua Uranos, 1489 – Olaria
Terça a quinta, das 17h à 0h
Sexta, das 17h à 1h
Sábado, das 12h à 1h
Domingo, das 12h às 21h
Feriados sob consulta
Telefone: (21) 3867-6124

Brows

Petisco: Casal 20 do Sertão – bolinhos de aipim e carne-seca com pimenta dedo de moça. Não leva massa e é servido com geleia de pimenta

Rua José Maria Ortigão Sampaio, 55, loja A – Barra da Tijuca
Terça, quarta e domingo, das 12h às 23h
Quinta, sexta e sábado, das 12h à 0h
Telefone: (21) 2433-1411

Buteco do Portuga

Petisco: De Campeão para Campeão. 20tão do comida. Porque em festa de buteco caviar é fichinha – Miniporções dos petiscos campeões de preferências nos butecos. É moela que se fala (moela feita com vinho do porto); De trouxa nós só tem a cara (pastel em formato de trouxa com recheio de costela); Kepp Caldo (caldinho de carne com aipim) e #sóquenãoébatata (rosty de aipim com recheio de carne seca).

Rua Coronel Francisco Soares, 1351 – Centro – Nova Iguaçu
Terça a sábado, das 16h às 22h
Domingo, das 16h às 21h
Telefone:  (21) 2767-4356

Buteko Em Nome do Pai e do Filho

Petisco: Camarão que dorme a onda leva – Bolinhos de camarão com cebola roxa, ervas e temperos, levemente apimentados acompanhados de molho especial

Rua Barão de Mesquita, 893 – Andaraí
Segunda a sexta, das 16h à 0h
Sábado, domingo e feriado, das 12h à 0h
Telefone: (21) 3437-6166

Cachaça Social Club

Petisco: Jiló à moda da Lapa – fatias de jiló empanadas em massa de panqueca e legítimo queijo parmesão acompanhadas de geleia agridoce de abacaxi, pimenta dedo de moça e cachaça artesanal

Rua do Rezende nº 53, loja A – Lapa
Terça a sábado, das 18h às 2h
Domingo, das 13h às 20h
Telefone: (21) 2582-8463

Cachambeer

Petisco: Olha a marra do Porquinho Embriagado e da Costela no bafo nos 20 anos de Comida di Buteco – Minis costelas de boi, de porco e pancetas, tudo no bafo, acompanhados por um molho especial de mel, mostarda, limão, barbecue e shoyu

Rua Cachambi, 475 – lojas A e B – Cachambi
Terça a sexta, das 17h à 0h
Sábado, das 12h à 0h
Domingo e feriado, das 12h às 18h
Telefone: (21) 3042-1640

Cais Bar

Petisco: Peixe na Maré – Cubinhos de peixe ao leite de coco com batatas e pimentões acompanhados farofa de banana

Alameda dos Ingás, 190 – Ilha da Gigóia
Diariamente, das 13h às 19h
Telefone: (21) 2495-6532

Caldo de Pinto

Petisco: Um brinde aos nossos 20 anos – escondidinho de frango

Rua Ministro João Alberto, lote 40, quadra 88 – São João de Meriti
Terça a sexta, das 17h às 1h
Sábado e domingo, das 12h às 1h
Telefone: (21) 2751-0145

Casa Porto

Petisco: Bololô – petisco bem mineiro que parece um bolo doce de aniversário, mas feito com massa de torta de empada na banha de porco, brownie de tutu com bacon, creme de confeiteiro de mandioquinha, granulado de linguicinha de pernil, couve crispy e farelo de pururuca

Largo de São Francisco da Prainha, sobrado – Centro
Diariamente, das 12h à 1h
Feriado sob consulta
Telefone: (21) 2516-2513

Cevina

Petisco: P’Dégua – Ragu de carne assada recheada com bacon e calabresa sobre base de creme de batata com toque de gorgonzola (Aligot) finalizado com camadas de farinha de bragança, crispy de cebola e pimenta biquinho. Acompanha um drinque de 51 e mel

Rua General Venâncio Flores, 955 – Vinte e Cinco de Agosto, Duque de Caxias
Segunda a sexta, das 18h à 0h
Sábado e domingo, das 16h à 0h
Telefone: (21) 3842-2525

Confraria da Carne

Petisco: Linguiça Alheira – peças de charcutaria: embutido de carne suína, pão e frango. Acompanha molho de caipirinha (limão e cachaça)

Rua Capitão Feliz, 110, pavilhão 2, loja 2, rua 11, bloco P – Benfica
Terça a sexta, das 11h às 21h
Sábado, das 11h às 19h
Domingo das 11h às 15h
Telefone: (21) 2580-6797

Desacato Bar & Restaurante

Petisco: Rabada na Lata – Rabada na lata com polenta Frita e aioli de agrião com bacon defumado

Rua Conde de Bernadote nº 26, loja A – Leblon
Segunda, das 12h às 16h
Terça a quinta e domingo, das 12h à 1h
Sexta e sábado, das 12h às 2h
Telefone: (21) 2512-7373

Dida Bar

Petisco: Maria Bonita – Baião de Dois com creme cremoso de aipim e crispy de carne-seca

Rua Barão de Iguatemi, 408, lojas A e B – Praça da Bandeira
Terça e quarta, das 16h às 22h
Quinta a sábado, das 12h às 22h
Domingo e feriado sob consulta
Telefone:  (21) 2504-0841

Edinho do Caranguejo

Petisco: Peixinho Manhoso – Picadinho de peixe ao molho de moqueca baiana acompanhado de crocantes de aipim

Rua Humberto de Campos, 143 – Centro – Duque de Caxias. Tel.: 2772-1319
Segunda a sexta, das 17h à 0h
Sábado, das 12h à 0h
Domingo, das 12h às 17h30
Feriado sob consulta

Empório Santa Oliva

Petisco: Maria Fumaça – Três bolinhos de angu recheados de joelho de porco defumado, acompanhados de trilho de queijo da serra da Mantiqueira, atolado em geleia de goiaba com pimenta dedo de moça e flocos de torresmo. Acompanha dose de cachaça mineira

Avenida Tenente Coronel Muniz de Aragão, 26, BC Anil – Jacarepaguá
Terça a quinta, das 16h às 23h
Sexta e sábado, das 14h à 0h
Domingo e feriado, das 12h às 22h
Telefone: (21) 3988-8489

Empório Quintana Boteco

Petisco: Uai Pois! – Bacalhau desfiado com cartupiry, cebola roxa, pimentões coloridos e alho em uma cama de polenta frita

Cadeg. Rua Capitão Felix, 110, loja 14 – Benfica
Terça a sábado, das 12h às 21h
Domingo e feriado, das 12h às 18h
Telefone: (21) 96017-3849

Enchendo Linguiça

Petisco: Panela Velha – Porpetas bovinas recheadas com linguiça suína sobre polenta, coberta com ragu de tomate

Av. Engenheiro Richard, 2 – Grajaú
Terça a quinta, das 12h à 0h
Sexta e sábado, das 12h à 1h
Domingo e feriado, das 12h à 0h
Telefone: (21) 2576-5727

Esconderijo Bar

Petisco: Que peito, hein! – Peito bovino desfiado na cerveja preta, alho, cebola, tomate, tomilho, cominho, loro e pimenta do reino, acompanhado de geleia de pimentões (verde, amarelo e vermelho) e tiras de polenta frita

Rua Itabaiana, 8, lojas B e D – Grajaú
Segunda a sexta, das 17h45 às 23h
Sábado e domingo, das 13h à 23h
Telefone: (21) 3178-2525

Fábrica Nômade

Petisco: O Porquinho que pulou o muro – duas tortilhas recheadas com sobrepaleta suína defumada na casa, picles de beterraba, pimenta dedo de moça, sour cream, alface e molho agridoce. Acompanha batatas fritas e molho sour cream

Avenida Tenente Coronel Muniz de Aragão, 104, Anil – Jacarepaguá
Quarta e quinta, das 18h às 23h30
Sexta e sábado, das 18h à 0h30
Domingo, das 18h às 22h30
Telefone: (21) 3983-4489

Folia do Boi

Petisco: Petisco do Mano – Palitos de lombo suíno empanados na mistura de farinha panko e ervas de provence servidos com molho de queijo. Para complementar um delicioso creme de aipim com calabresa, bacon, lombo salgado

Rua Cachambi, 253, loja B – Cachambi
Terça a quinta, das 11h às 23h
Sexta e sábado, das 11h à 0h
Domingo, das 10h às 18h
Telefone: (21) 2261-0058

Ge Bar e Bistrô

Petisco: Bruschetta de Boteco – três bruschettas de carne assada com bacon e crispy de cebola

Rua Carvalho Alvim, nº 333, lojas H e I – Tijuca
Diariamente, das 12h à 0h
Telefone: (21) 3556-1313

Hora Extra

Petisco: Mugido de Boi na Polenta – ragu de costela na polenta. Acompanha torradas de pão francês

Rua Arcozelo, 60, loja B – Vila Valqueire
Terça a sexta, das 18h à 0h
Sábado, das 12h à 0h
Domingo e feriado, das 12h às 22h
Telefone: (21) 3269-3020

Imaculada

Petisco: Sacro Santo Bolinho de Arroz – Bolinho de arroz recheado com linguiça, parmesão, mussarela e outros segredos sagrados

Ladeira João Homem, 7 – Morro da Conceição
Domingo a terça, das 11h às 17h
Quarta a sábado, das 11h às 22h
Telefone: (21) 2283-2747

Irmandade

Petisco: “Si vira nus 20” – Mió de bão canoas de massa de pastel artesanal, com recheio de carne seca desfiada com abóbora moranga ralada, bastões de mandioca branca (cacau) cozidos e fritos. Acompanha molho à parte

Rua Barão do Bom Retiro, 2.781 – Grajaú
Segunda a quinta, das 11h às 23h
Sexta a domingo, das 11h às 23h
Telefone: (21) 3577-5563

Neném de Ramos

Petisco: Um Chorinho de Costela – Costela suína com dadinhos de polenta, acompanhados de geleia de sabor alho caramelizado

Rua Lígia, 202, lojas A e B – Olaria
Terça a domingo, das 11h às 22h
Telefone: (21) 2560-3629

Noo Cachaçaria

Petisco: Brindando CDB – Canjiquinha cremosa com paio, calabresa e costelinha defumada, pipoquinha de queijo coalho e jiló agridoce

Rua Barão de Iguatemi, 358 – Praça da Bandeira
Terça a quinta, das 17h às 23h
Sexta, as 14h às 23h30
Sábado, das 12h às 23h30
Domingos e feriado sob consulta
Telefone (21): 99924-4044

Os Imortais

Petisco: As Marias – Quatro bolinhos de massa de milho empanados com cabelinho de anjo, recheados de ragu de calabresa, queijo e um pouquinho de pimenta. Acompanha molhos pesto e de tomate picante

Rua Ronald de Carvalho, 147-A – Copacabana
Segunda a quinta, das 17h à 1h
Sexta, das 17h às 2h
Sábado, das 12h às 2h
Domingo, das 12h à 0h
Telefone: (21) 3563-8959

Pasta da Nona

Petisco: Sertão Gostoso – Linguiça artesanal de carne de sol recheada com queijo coalho preparada com as tradicionais técnicas da Toscana. Acompanha dadinhos de aipim, massa crocante, creme de aipim, molho especial e molho de pimenta

Avenida Brasil, 367 – Vila São Luiz, Duque de Caxias
Segunda a sexta, das 17h à 0h
Sábado e domingo, das 13h à 0h
Telefone: (21) 3902-4780

Raízes Bar

Petisco: Coração Cervejeiro – porção de coração de frango embriagado ao molho de cerveja puro malte levemente picante servido na panela de barro. Acompanha farofa de flocos de milho amarela refogada na banha de porco

Rua Afonso Pena, 66 – Tijuca
Segunda a quinta, das 17h às 23h
Sexta e sábado, das 13h à 0h
Domingo, das 13h às 18h
Feriados sob consulta
Telefone (21): 2567-8692

Ruanita

Petisco: 20 VER – Trouxinha a base de massa harumaki recheada com moqueca de peixe e camarão com requeijão cremoso. Acompanha molho à campanha apimentado

Rua Anita Garibaldi, 60, loja F – Copacabana
Terça a quinta, das 17h às 23h30
Sexta, das 17h à 0h30
Sábado, das 12h à 0h30
Domingo, das 12h às 17h
Feriados sob consulta
Telefone: (21) 2547-0874

Salete

Petisco: Boi, Eva e Adão – três empadas com recheios de carne moída, costela de boi com agrião e maçã

Rua Afonso Pena, 189 – Tijuca
Segunda a quarta, das 10h às 22h
Quinta a domingo, das 10h às 23h
Telefone: (21) 2264-5163

Serpentina Bar Artesanal

Petisco: Os Três Porquinhos e Lobo Mau – Três petiscos de carne de porco reunidos num só prato: mini hambúrguer de copa lombo, um super torresmo (Torresmão) com molho barbecue e fatias de bacon, acompanhados de fatias de limão, dadinhos de aipim e geleia de pimenta

Rua Araguaia, 1.480 – Freguesia
Terça a quinta, das 18h à 0h
Sexta, das 18h às 2h
Sábado, das 12h às 2h
Domingo, das 12h às 22h
Telefone: (21) 3486-4782

Sociedade da Carne

Petisco: Frankito do Sócio – frango no palito empanado

Rua Lopo Saraiva, 179, bloco 2, loja K – Tanque
Segunda a quinta, das 17h à 0h
Sexta e sábado, das 16h às 2h
Domingo e feriado, das 12h à 0h
Telefone: (21) 3264-1233

Taberna 564

Petisco: Junto e Misturado – combinação de frutos do mar com frutos da terra

Rua Cosme Velho, 564 – Cosme Velho
Segunda e terça, das 12h à 22h
Quarta, domingo e feriado, das 12h às 23h
Telefone: (21) 3497-1165

Tasca do Carvalho

Petisco: Atum à Moda Quer Alho – atum fresco grelhado acompanhado de cabeças de alho, tomatinhos e molho verde

Rua Ronald de Carvalho, 266, loja D – Copacabana
Segunda a sexta de 18h à 1h
Telefone: (21) 2147-4874

Zeca’s

Petisco: Regime Fechado porque o Petisco é privilegiado – Carne assada desfiada junto com purê de abóbora cremoso e queijo gorgonzola, acompanhado de autêntica farofa de banana

Praça Bom Jesus, 12 – Ilha de Paquetá
Segunda a quinta, das 11h às 17h
Sexta e sábado, das 11h às 23h
Domingo, das 11h às 21h30
Telefone: (21) 3397-0322

Zezimbar

Petisco: Costelada do Zé “Não interessa se ela é com baroa, panela velha é que faz costela boa” – Costela bovina feita no bafo e na pressão, marinada no vinho d’alho, com ervas, sal e pimenta

Rua Barata Ribeiro, 354, loja D – Copacabana
Diariamente, das 11h30 à 0h
Telefone: (21) 2236-6363

]]>
0
‘O racismo virou mais rotina na minha vida’, diz Baco Exu do Blues http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/04/05/o-racismo-virou-mais-rotina-na-minha-vida-diz-baco-exu-do-blues/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/04/05/o-racismo-virou-mais-rotina-na-minha-vida-diz-baco-exu-do-blues/#respond Fri, 05 Apr 2019 13:00:48 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=764

Baco Exu do Blues no show ‘Bluesman’. Foto: Ronca/divulgação

Pode-se dizer que a ascensão de Baco Exu do Blues foi meteórica. Aos 23 anos e com dois álbuns no currículo, ele é hoje um dos principais nomes do rap nacional. Seus trabalhos ganharam elogios da crítica e caíram nas graças do público. Os shows de sua turnê vêm esgotando, um após o outro — ele brinca que é “a princesinha do sold out”.

O rapper baiano chamou a atenção do país em 2016, quando lançou a polêmica faixa “Sulicídio” ao lado do pernambucano Diomedes Chinaski. Dois anos depois, saía seu primeiro álbum, “Exu”, que, impulsionado pela faixa “Te amo disgraça” (hoje com 20 milhões de visualizações no YouTube), levou o artista a se apresentar pelo país e rendeu a ele diversos troféus (inclusive o de Canção do Ano, no Prêmio Multishow).

Em 2018, veio o segundo disco, “Bluesman”. Passeando por referências tão distintas quanto o escritor argentino Jorge Luiz Borges, Van Gogh, Kanye West e Jay Z, traz músicas que falam sobre as dores e a força do homem negro. O trabalho conta com as participações de Tim Bernardes, Tuyo, 1LUM3 e Bibi Caetano, além de beats produzidos por Portugal, JLZ e DKVPZ. O lançamento foi acompanhado de um curta de oito minutos que o artista chama de interpretação audiovisual do álbum.

Depois de lotar o Circo Voador em pouco tempo duas vezes este ano e a Cidade das Artes, no Rep Festival, Baco Exu do Blues está de volta à cidade, no evento Fabrika Apresenta. Ele sobe acompanhado pelo DJ BBzão e pela segunda voz potente de Shan Luango, Baco traz o guitarrista Ricardo Caian e as backing vocals Bibi Caetano e Aisha Valdoni. O rapper conversou com o blog sobre o disco novo, seu momento atual e racismo, entre outros temas.

Esse é o terceiro show aqui no Rio. E dos outros dois a gente nem sentiu cheiro do ingresso, esgotaram muito rápido. Como você está se sentindo com isso? Li que você é a “princesinha do sold out”…

Eu mesmo, princesinha do sold out, eternamente. Eu fico muito feliz, né, velho? Pela possibilidade de esgotar grandes casas em um curto período de tempo, como a gente fez no Circo aí. É muito doido. Até agora todos os shows que a gente fez da turnê foram sold out. Não sei explicar a sensação, é só realização. Parece que o trabalho foi feito da maneira mais correta possível, saca?

E está rolando muita coisa na sua carreira, depois do “Esù” parece que foi só ladeira acima. O que, para você, até agora, foi o mais incrível, que te fez pensar: “Caramba, isso está acontecendo mesmo comigo?”?

Acho que foi a segunda data do Circo Voador, que a gente esgotou em menos de 24 horas, foi um bagulho muito surreal. A gente soltou a data, a venda abriu de manhã, no começo da noite já não tinha mais ingresso nenhum. Eu falei: “Caralho, a gente está em outro nível de fato, a gente conseguiu passar de onde a gente está. Acho que foi nesse momento que caiu a ficha.”

Tipo: “Acho que estou famoso…”

É (risos). Foi um alívio muito grande e me fez ver que eu estava em outro momento da carreira agora.

Cada hora é uma coisa diferente, né? Você foi entrevistado pelo Caetano…

Ah, teve isso também, eu estava pensando em show… Mas de carreira teve a entrevista com o Caetano, a entrevista no Lázaro (Ramos, para o programa “Espelho”), eu poder ter subido no palco para fazer uma participação com o Caetano e a Orquestra Rumpilezz, no mesmo palco que o Kamasi Washington subiu também (no Circo Voador, dia 22 de março)… Sei lá, é tudo muito novo, mas muito gostoso também de sentir.

E essa é a parte boa da coisa. E qual a parte difícil da fama?

Pô, ter tempo para viver. Você trabalha tanto às vezes que não tem tempo para aproveitar as conquistas. Conquistou uma coisa, viu ali, mas tem que voltar a trabalhar logo em seguida. Não tem tempo para comemorar de verdade. É foda.

E você continua morando em Salvador ou se mudou?

Eu tô por São Paulo, por enquanto, com uma equipe que é toda de Salvador, que veio comigo. A gente aqui há seis meses, mais ou menos, e está vendo como vão ser os próximos passos.

Você é parte de uma geração na Bahia que está crescendo, se destacando, conquistando mais público. Artistas negros de vários estilos diferentes: você, Luedji Luna, Baiana, Àttooxxá, enfim, cada um na sua vibe, mas é uma galera que está acontecendo mais ou menos ao mesmo tempo. O que você acha dessa cena?

Cara, acho que não existe uma geração baiana na parada. Existe a Bahia, que nunca parou de produzir artistas fodas e sempre tem esse diferencial dos artistas baianos, quando eles chegam na ascensão, quando o grande público percebe eles. Eu acho que tratar como um divisor de gerações é meio doido porque a Bahia nunca parou de produzir esses artistas. Sempre existiu essa parada da Bahia ser um dos nomes mais fortes do Brasil na música. E acho que é mais legado do que geração. Somos o legado que aprendeu com a galera e continua essa reprodução. Dividir por geração é complicado, porque, se a gente for ver, eu sou de uma bem mais nova do que o Baiana, do que o Àttooxxá, tenho bem menos tempo de carreira que eles. Então, a gente não é da mesma geração, mas somos da mesma Bahia, eu acho.

Mas você não acha que tem em comum agora o fato de os artistas que estão aparecendo serem todos negros e com discursos que trazem as questões do negro na música.

É… tem isso. Mas é meio doido, porque eu sempre achei que o som que sai da Bahia é um som de luta. Independentemente da forma como as pessoas olhem para ele. Até mesmo o axé. Eu acho que sempre foi um som de luta, sempre foi um som de guerrilha. Talvez as pessoas não tivessem percebido isso antes, mas a Bahia tem a sonoridade marcante e contundente. Se não é na fala que afronta, é na percussão que ela afronta, é na forma como os instrumentos são tocados. É uma parada muito peculiar, e essa peculiaridade é a luta.

Também, em paralelo a isso, o rap nacional também está num momento. O rap mundialmente está num momento importante, é a música mais escutada no planeta, e o rap nacional dentro disso tem artista se destacando. Como você vê esse momento brasileiro?

Eu acho que é um momento de calma e pouca afobação. Eu acho que a gente está conquistando muita coisa, mas os próximos passos têm que ser muito pensados, para tirar a impressão de que o rap é um subgênero das pessoas que não são ouvintes do estilo. O grande público tem que, cada vez mais, entender o rap como música, e não um uma subdivisão da música. Então esse é um momento de se organizar — a gente já chegou num ponto muito foda —, trabalhar de forma que a gente consiga não estou falando nem aceitação de ninguém, mas deixar claro que não é fácil fazer o que a gente faz.

Você acha que às vezes pensam que é fácil fazer rap?

É, e o mercado de negócios é muito diferentes dos outros mercados. Eu acho que falta muito respeito de contratantes quando se fala de rap. Eu acho que, cada vez mais, a gente tem que prezar por isso: ser o mais profissional possível e seu autovalorizar o máximo possível.

Você estava falando dessa questão do tempo. Você é um artista que sempre compõe? Como é o seu processo? Ou precisa parar?

Não, eu estou sempre criando, eu não paro. Se eu parar, eu não sei o que eu faço se eu paro. Minha vida é compor: ou eu estou compondo para mim, ou eu estou compondo para os outros. Fé em Deus (risos).

Você acabou de lançar um single (“Paris”). A ideia é ir lançando coisas com frequência?

É lançar coisas, é lançar projetos, é lançar novos artistas, é lançar tudo. Este ano tem muita novidade. E o próximo ano mais ainda.

Falando nisso, no seu disco a gente tem participação de artistas muito diferentes entre si, como Tuyo, Tim Bernardes… O que você tem curtido escutar?

Eu escuto muito seresta, ouço também bastante funk, 150 BPM daí do Rio, ouço bastante MPB, rap, jazz, blues, eu vario muito. Eu tento não ficar focado só em uma coisa para não atrofiar a mente nem o ouvido. Estou sempre variando, para aprender um pouco com cada ritmo.

No disco, você cita não só influência na música, das artes, de literatura… O que você tem curtido de outras áreas de arte?

Eu gosto muito de fotografia. Inclusive acabei de voltar da exposição do Rodrigo Sombra (“Noite insular: jardins invisíveis”), que está rolando aqui em São Paulo, umas fotos de Cuba, muito brutais, muito fodas. Fotografia me ajuda muito a compor. Quadro também me ajuda muito a compor. Livro me ajuda muito a compor. Todo tipo de arte é um gatilho para a criação.

Tem a ver com a tua relação com a fotografia o fato de que você lançou aquele filme junto do disco “Bluesman”?

Todos os meus discos têm um fotógrafo que comanda a parte conceitual da parada. O “Bluesman” teve a Helen Salomão, o “Esù” teve o Mario Cravo Neto (1947-2009). O próximo com certeza vai ter outra pessoa e o seguinte vai ter mais uma. E eu sempre vou continuar trabalhando dessa forma, porque as fotografias me ajudam a fazer minha arte, a entender minha arte também.

A ideia é lançar um álbum por ano? Ou não está pensando nisso?

Cara, eu não sei. Eu tenho dois projetos (dois álbuns) que estão em andamento, há muito tempo — quando eu estava fazendo “Bluesman” eu já estava com esses projetos. Mas não sei dizer quando vão sair, vão sair quando eu tiver vontade soltar eles no mundo. Eu estou trabalhando com calma em todos os eles, e uma hora sai. Não vou prometer para este ano, porque aí não sai e fodeu. Mas pode ser que saia este ano, pode ser que saia no próximo…

Você traz Exu no nome artístico, além desse ter sido o nome do seu primeiro disco. Você acha que o orixá ajudou a abrir seus caminhos? Segue uma religião de matriz africana?

É isso, acho que ajudou, sim. Sigo.

É teu santo?

Aí você já está entrando numa seara que é difícil de falar. Não posso dizer tanto (risos).

Mas então você acha que ajudou, deu um axé para a tua carreira…

Com certeza, é meu guardião.

Está rolando um momento superbonito na sua carreira, muita coisa boa acontecendo. Mas isso também não livra os artistas negros aqui no Brasil de sofrerem racismo, né? Como tem sido? O racismo tem te atingido de outras formas?

Vira mais rotina. Porque, a partir do momento em que você vive em ambientes mais brancos e mais ricos, de certa forma, de pessoas que têm mais dinheiro, obviamente te olham mais ainda como se você não pertencesse àquele lugar. Se as pessoas já te olham estranho quando você está na rua, acham que você não merece andar na mesma rua que elas, imagina quando te veem jantando no mesmo lugar que elas, comprando roupa no mesmo lugar que elas.

Como tem sido sua maneira de lidar com isso?

Depende muito. Tem vez que bato de frente, tem vez que eu só gasto dinheiro para provar que eu tenho mais que eles (risos). Depende do momento.

Então a sua vida está boa agora, financeiramente?

Boa é muito forte, mas está legal.

Consegue viver da música que você faz.

Com certeza, tem três anos que a gente vive.

Já comprou ou pensa em comprar uma casa para a sua mãe?

Ah, isso está nos meus planos, com certeza.

Um dos seus próximos planos é ajudar a família? Ou já consegue?

Eu já ajudo minha família bastante, mas ainda não dei casa para ninguém. Vai chegar o dia.

E as mulheres? Deve ter aumentado bastante o assédio. Como tem sido isso?

Não, não (risos). Tranquilo. Eu acho que… É… É isso. Eu trabalho muito, amor. Não tenho nem tempo para essas coisas (muitos risos).

Vai lá:
Fabrika Apresenta: Baco Exu do Blues
Quando: sábado, 6 de abril, das 22h às 5h
Onde: Fabrika. Estrada das Furnas, 1.805 – Itanhangá
Quanto: R$ 70 (3º lote)

]]>
0
Carnaval na prorrogação http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/03/29/carnaval/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/03/29/carnaval/#respond Fri, 29 Mar 2019 13:00:18 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=756

A Fanfarra Black Clube, atração de sábado. Foto: divulgação

Achou que o carnaval tinha acabado? Achou errado! Ainda nem conseguimos tirar todo o glitter do corpo e da casa, e os blocos já estão de volta. Seja na rua ou em eventos pagos, eles marcam presença neste fim de semana para aqueles que estão órfãos da folia. Deus me livre, mas quem me dera…

Bloco To Be Wild

O repertório passeia por diversas vertentes do rock, com versões carnavalescas de Iron Maiden, Nirvana, AC/DC, Motörhead, Red Hot Chili Peppers, Metallica, Rage Against the Machine, Offspring e Black Sabbath, entre outros grupos.

Vai lá:
Quando: Sexta, 29 de março, às 22h
Onde: Escadaria do IFCS. Largo de São Francisco de Paula, Centro
Quanto: Grátis

Fanfarra Black Clube

O bloco traz em seu repertório soul, funk e disco, e se apresenta no evento Saudades do Carnaval, que marca o lançamento de duas novas cervejas da Jeffrey, Rio e Tropicale. Antes e depois, o DJ Dudu Jardim, da Mangolab, comanda o som. Tudo no meio da rua.

Vai lá:
Quando: Sábado, 30 de março, a partir das 14h

Onde: Jeffrey Store. Rua Tubira, 8 – Leblon
Quanto: Grátis

Bloco Terremoto Clandestino

O Terremoto reúne refugiados e imigrantes, combinando diferentes ritmos, danças e culturas (haitiana, congolesa, senegalense, venezuelana, gambiana, argentina, brasileira…), e se apresenta na edição da feira gastronômica Junta Local que traz predominantemente comidas preparadas por refugiados.

Vai lá:
Quando: Sábado, 30 de março, a partir das 15h

Onde: Jardins da Christ Church. Rua Real Grandeza, 99 – Botafogo
Quanto: Grátis

Cardosão de Laranjeiras

Com repertório de marchinhas, sambas-enredo e sambas clássicos, o bloco Cardosão de Laranjeiras se apresenta na ressaca de carnaval do Samba Hits do Casarão Floresta. As outras atrações da noite são o grupo Moça Prosa, que comanda uma famosa  roda de samba, e DJ André Bolão.

Vai lá:
Quando: Sábado, 30 de março, às 21h
Onde: Casarão Floresta. Ladeira dos Guararapes, 115 – Cosme Velho
Quanto: De R$ 20 (com nome na lista, até 23h) a R$ 30

Bunytos de Corpo, Que Pena, Amor e Bloconcé

O Bunytos de Corpo. Foto: reprodução do Facebook

Com seu figurino caprichado (roupas de ginástica ao estilo dos anos 80), o Bunytos de Corpo é um dos blocos mais divertidos do carnaval. Já o Que Pena, Amor buscou inspiração na década de 90, mais especificamente nos grupos de pagode, que  têm seus sucessos tocados em ritmo de marchinha, ijexá, funk, maracatu, baião e xote. Formado só por mulheres, o Bloconcé foi uma das novidades mais aguardadas do carnaval deste ano e recria sucessos da diva Beyoncé em versões carnavalescas.

Vai lá:
Quando: Sábado, 30 de março, às 23h
Onde: Espaço Rampa. Av. Repórter Nestor Moreira, 42 – Botafogo
Quanto: De grátis (até 0h30) a R$ 40

]]>
0
‘A música negra quase sempre é usurpada’, diz maestro Letieres Leite http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/03/22/a-musica-negra-quase-sempre-e-usurpada-diz-maestro-letieres-leite/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/03/22/a-musica-negra-quase-sempre-e-usurpada-diz-maestro-letieres-leite/#respond Fri, 22 Mar 2019 16:53:43 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=733

O maestro e soprista Letieres Leite. Foto: divulgação/Raul Lorenzenti

Tendo trabalhado com diversos nomes da chamada axé music, principalmente Ivete Sangalo, o maestro e instrumentista Letieres Leite criou em 2006 a Orkestra Rumpilezz, com a qual tocava paralelamente. O nome explica a sonoridade: rum, rumpi e lé são os três tambores do candomblé, e o zz no fim faz referência ao jazz. Formada por sete percussionistas e quinze instrumentistas de sopro mais o maestro (que alterna instrumentos de sopro), a big band tem dois álbuns lançados: “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz”, de 2009, e “A saga da travessia”, de 2016, que é o primeiro volume de uma trilogia.

Entre os muitos projetos do maestro para os próximos meses, estão o show com Caetano Veloso, que ele apresenta pela primeira vez fora de Salvador nesta sexta, no Circo Voador; o registro em estúdio da versão da Rumpilezz para o mítico álbum “Coisas”, de Moacir Santos, a ser feito em breve;  o show com repertório do disco “Maria Fumaça”, da Banda Black Rio, que acaba de passar por São Paulo; o projeto social Rumpilezzinho e o segundo volume da “Saga da travessia”.

Em conversa com o blog, Letieres Leite contou um pouco de sua história (ele foi artista plástico antes de ser músico e começou a tocar por causa da militância política), falou sobre a importância da influência africana para a construção de toda a música popular das Américas e sobre o embranquecimento dos gêneros musicais criados por negros, entre outros assuntos.

É a primeira vez que o show com o Caetano vai ser feito fora da Bahia?

É a primeira vez fora da Bahia. Nós já apresentamos esse show duas vezes em Salvador.

Como vai ser o repertório?

Nós vamos tocar músicas dos discos da Orkestra Rumpilezz, um pouco de cada, e, com o Caetano, composições de diferentes momentos da carreira dele. Decidimos juntos, conversando com o ele, o que ele achava melhor para a Orkestra, e rearranjadas do nosso estilo. De forma inédita, vocês vão escutar canções conhecidas de Caetano, mas num formato completamente diferente, como “Oração ao tempo”, “Coração vagabundo”, “Milagres do povo”.

Eu li uma nota dizendo que existe a ideia de vocês fazerem uma turnê internacional juntos desse show.

Existe a ideia, porque a gente viu que tem um entrosamento, e (para) esse tipo de trabalho — a gente vem baseado na música afro-brasileira com a concepção de jazz, de arranjos, de improvisação, e a gente já tocou no exterior, na Europa, fizemos turnê nos Estados Unidos — a aceitação é muito grande. E nesses lugares Caetano Veloso também é bastante divulgado. Também nesse ambiente da música instrumental. É um desejo. Podemos cumprir esse roteiro que ele já faz sempre, agora mesmo ele está vindo de uma turnê na Europa, e alguns desses lugares são conectados com a música instrumental. É só uma projeção, mas é nosso desejo cumprir, de visitar os lugares onde a Rumpilezz toca fazendo o trabalho conjunto.

Quais são os seus próximos projetos? Vi que você pretende registrar em disco a versão que vocês fizeram do ‘Coisas’, do Moacir Santos.  

Esse show do Moacir Santos a gente estreou ano passado em São Paulo. E aí houve um convite da Rocinante, uma gravadora nova muito interessante, que tem um estúdio em Araras, Petrópolis (RJ), de registrarmos o “Coisas”. Já gravamos, inclusive, estamos em finalização este fim de semana. Vamos para lá terminar depois do show com o Caetano. A ideia é lançar primeiro no formato de vinil, e estamos buscando parcerias para lançar também em outros países. É um disco que a gente tem uma grande responsabilidade em fazer, a gente sabe o quanto é importante revisitar essa obra, que é uma das mais representativas da música instrumental brasileira. Eu sempre falo que esse disco está para a música instrumental brasileira como está o “Kind of Blue”, do Miles Davis, para a música norte-americana, no jazz. É um desejo antigo visitar, trazer a música do Moacir para os terreiros da Bahia, essa é a ideia, o resumo central. Trazer essa música através da visão desses lugares lá de Salvador.

Esse lançamento deve vir acompanhado de shows pelo Brasil?

De vários shows, de uma pequena turnê, no segundo semestre. Simultaneamente, no final deste semestre, nós estamos lançando também o disco do quinteto que nós temos, que é a ideia da Rumpilezz em cinco músicos. Nós estivemos recentemente aqui tocando no Blue Note (Rio), fizemos também em São Paulo, já tocamos também na Europa com esse grupo em alguns lugares, em Londres, Portugal. É uma vertente desse mesmo projeto: a música de matriz africana numa conversa próxima com o jazz. Já está gravado, também pela Rocinante.

Você planeja também um disco de inéditas da Orkestra?

O último que a gente fez de inéditas foi o “Saga da travessia”. É uma suíte em três movimentos, e eu na verdade continuei a composição, e acabou que eu não gravei na saga, gravei outras composições completando esse disco, a homenagem para Gilberto Gil, “Professor Luminoso”… Mas agora eu tenho a intenção, sim, de continuar com temas que representem esse período tão obscuro da história brasileira e mundial, esse grande holocausto que foi o período da escravidão. A ideia da saga é essa, (as faixas) “Banzo” 1, 2 e 3: fazer as pessoas lembrarem esse momento histórico de tanta dor, de tanta tragédia. Mas lembrar disso com júbilo, não com tristeza. Essa é a proposta. Construiu-se uma cultura extremamente rica a partir de pessoas escravizadas que chegaram em condições precárias, mas conseguiram interferir na cultura das Américas, a maioria dos países. Você pode lembrar do tango da Argentina ao jazz norte-americano, passando pelo samba brasileiro, a música cubana: todas essas músicas têm influência direta da diáspora negra na sua estrutura. Isso é muito importante ressaltar, lembrar com júbilo, porque é uma transformação profunda na forma de estruturar a cultura desses lugares.

Então a ideia do próximo trabalho da Orkestra…

O próximo trabalho autoral é a continuidade desse projeto que se iniciou com “A saga da travessia”, dessa observação desse momento histórico. A primeira parte a gente já lançou, a gente vai continuar com esse pensamento, em outros momentos da história, da afirmação da cultura negra, agora dentro do território brasileiro. A gente ensaia no final do ano e lança no começo de 2020.

Você também tem um projeto social. Como você concilia tanta coisa?

Eu não sei… Eu durmo pouco, cinco horas só por noite (risos). Estabeleci isso na minha vida. Está dando certo. O projeto chama-se Rumpilezzinho. Na realidade, no final dos 90, eu tinha uma escola particular, Academia de Música da Bahia, e uma parcela dos alunos era de bolsistas. Só que esse número cresceu tanto que acabou virando um projeto independente: eu aluguei uma casa em Salvador e ela passou a ser um projeto social. E agora eu só ele. Eu fundei o Instituto Rumpilezz e dentro dele a gente agrega os diversos trabalhos, porque eu faço muita palestra, dou aula, faço masterclass. Mas o mais importante agora é o Rumpilezzinho, projeto de formação de jovens a partir de 15 anos. Mas nem sempre isso é respeitado: agora mesmo um aluno foi aprovado com nove anos de idade. Um exímio percussionista, não tinha como deixar de fora. A gente tem umas quebras assim. E vai até 25 anos. O Rumpilezzinho já teve alguns trabalhos de notoriedade. Por exemplo, foram no palco principal do PerPan — Panorama Percussivo Mundial e participaram do disco da Maria Rita, gravaram uma faixa (“Bola pra frente”, do CD e DVD “Coração a batucar”, de 2014), só os jovens e ela cantando. O interessante também é que a formação não é semelhante à da Orkestra: são todos os instrumentos geralmente usados em música popular. Lá você vai ter teclado, baixo elétrico, guitarra, outros instrumentos de sopro, tecnologia, música eletrônica, ela abre todo o espectro de oportunidade para jovens que queiram tocar instrumentos. E outro fato interessante é que a gente tem cota para mulheres: a maioria das vagas tem que ser ocupada por meninas. É uma maneira de incentivar as mulheres a serem instrumentistas. Já tem meninas bateristas, contrabaixistas, tocando trombone, trompete. Essa foi uma maneira que a gente achou de aproximar elas do projeto da educação de jovens. Porque é muito difícil oportunizar mulheres nessa questão de instrumentista, existe um ambiente ainda machista, é difícil a ascensão para mulheres em determinados instrumentos. A gente está propondo incentivar esses que normalmente não são direcionados para as meninas para que elas possam tocar. E está transformando. Acho que nesses últimos dois anos já tivemos várias meninas tocando instrumentos que geralmente não são direcionados para elas.

E os jovens que participam do Rumpilezzinho acabam seguindo carreira profissional?

A maioria. Como é um projeto de transformação, de formação profissional mesmo, vários deles estão inseridos no mercado, e alguns fizeram audição e estão tocando na Rumpilezz. A gente tem três músicos na Orkestra agora, no show que a gente faz em homenagem à Black Rio, com repertório do disco “Maria Fumaça”: o baterista, o guitarrista e o baixista são do Rumpilezzinho.

Agora queria voltar um pouco no tempo. Porque você estudou em Porto Alegre e fora do Brasil (na Áustria, no Franz Schubert Konservatorium). Sempre teve essa conexão forte com a música da Bahia ou em algum momento você se reconectou com ela? Você teve contato ainda na infância, eu sei…

Morei no exterior mais de dez anos. Não tinha como não me afastar um pouco, por estar em outro ambiente, onde muitas vezes os músicos nem tinham habilidade para tocar como a gente queria, em termos de percussão. A minha aproximação fui muito jovem, ainda, com 11, 12 anos: eu estudava numa escola pública de Salvador chamada Severino Vieira, e surgiu a oportunidade de tocar na orquestra afro-brasileira desse colégio, inclusive coincidentemente nosso primeiro professor foi o Mestre Moa do Katendê (1954-2018). E, a partir daí, eu acho que eu fiquei com essa ideia da percussão fazendo parte fundamental na minha vida como músico. Nesse período em que eu fiquei na Europa, não tive tanto acesso. Vivi num ambiente onde havia músicos de todo o mundo, então tocava várias tendências, vários gêneros, me aproximei muito da música africana também, porque havia diversos estudantes da África. Foi muito importante esse intercâmbio com a música do mundo todo. Então de alguma maneira me afastei. Mas me reconectei quando eu voltei, porque a Bahia já estava com um movimento industrial, que as pessoas chamam comumente de axé music — eu tento não usar esse termo, não acho tão adequado. Trabalhei um tempo na indústria, como arranjador e músico. Onde fiquei mais tempo foi com a Ivete Sangalo, foram 14 anos na banda dela como músico e como arranjador de algumas composições.

Você viveu muito essa cena do samba-reggae, da época em que voltou para o Brasil: trabalhou com a Ivete, Daniela Mercury, Timbalada, Olodum. Agora a gente está passando por outro momento, com os artistas independentes se sobressaindo. Tem o Baiana System, que é o mais conhecido no país deles, mas tem Luedji Luna, Xenia França, Àttøøxxá, Baco Exu do Blues… Como você vê essa cena jovem baiana que está aparecendo para o Brasil hoje?

Ela se conecta muito, todos se conhecem muito. Do Baiana eu participo com eles de alguns processos criativos, participei do disco de estreia. Primeiro, mesmo no período em que tinha a hegemonia da música industrial na Bahia, sempre existiram artistas acontecendo, nos guetos, artistas periféricos. Eu não parei de fazer música instrumental nesse momento: tocava com Ivete e chegava em Salvador e me apresentava nos lugares onde eu podia, com grupos menores e até com a Orkestra Rumpilezz. O que acontece agora é que esse cena também, de alguma maneira, se destaca muito porque teve um esfriamento, diminuiu a exposição industrial. Ela não conseguiu se manter… Quer dizer, se manteve por muito tempo, e não vai se apagar nunca. Eu sempre falo que a música dançante industrial na Bahia, chamada axé music, nunca vai sair de cena, porque tem um forte convite para a festa, para a dança, e onde tiver festa vai ter alguém tocando esse gênero. Esse estilo que eu falo é a indústria, porque não existe o gênero axé music, são diversos estilos musicais que foram colocados dentro de um, esse rótulo foi criado para um negócio. Quando dá um esfriamento desse movimento, outro consegue ocupar os espaços. Esse é um fato. Outro fato muito forte é a presença das redes sociais, divulgando os trabalhos. Não tinha isso. Isso muda tudo, não só aqui, no mundo todo. Eu sempre gosto de brincar que eu tem um mundo antes e depois de Cristo, e antes e depois da internet. Muda tudo: os negócios, divulgação, produção, gravação. Você pode fazer tudo dentro da plataforma que existe aí. Pode produzir um disco com pessoas do mundo todo tocando, gente divulgando, vendendo. Isso fez diferença. Aí você cria condições muito parecidas. Com a hegemonia das grandes gravadoras não tinha isso: ou você ficava atrás de um selo forte ou você não era artista conhecido. Agora você pode. O que ajudou muito a divulgar a Rumpilezz foi uma plataforma na época, o MySpace. Então esses artistas também são consequência das ferramentas tecnológicas. E tem um outro fato interessante, que é uma terceira via: de uma conscientização da cultura de matriz africana na produção artística, isso tem que ser falado. Todos esses grupos se aproximaram de maneira direta e transparente, reconhecendo que as suas músicas foram forjadas a partir dos ritmos de matriz africana. Em outras feitas também aconteceu, mas não tinha o reconhecimento. Como a bossa nova, por exemplo: não colocava isso muito claro. Parece que a bossa nova caiu do céu… O baião também, parece que não é tão ligado… Eu digo em termos de deixar claro que são ritmos de origem também de matriz africana. E esses novos artistas que você citou, eles deixam isso muito claro, e com uma fonte ainda mais próxima, que é relacionando com a música do candomblé, com a música dos terreiros, dos tambores. Isso é interessante. O Àttøøxxá, por exemplo, o trabalho de programação. Eu conheço o Rafa (Dias, produtor e DJ do grupo), já fiz trabalhos com ele, e você vê que ele observa os ritmos, ele é preocupado com os toques primários para criar as plataformas dele de beats na música eletrônica. O Baiana a mesma coisa, quando você vai olhar. O que junta a gente, o grande fio condutor desses trabalhos é o olhar direto para a cultura de matriz africana na música. A Rumpilezz deixa isso totalmente claro também, no nome da orquestra, que vem dos nomes dos tambores, e toda essa produção, o trabalho de Xenia, da Larissa Luz — que é uma cantora incrível e tem que ser colocada nesse grupo —, o Baiana System, a Afrosinfônica do maestro Bira (Ubiratan Marques), a Nara Couto — todos esses artistas têm ligação direta com essa produção. E grupos de rock também, o próprio Cascadura, quando fez seu último trabalho, estava lá a presença dos tambores, a Rumpilezz participou. Grupo de hip hop, como Opanijé, e o rapper Baco Exu do Blues também têm essa conexão. Se tem uma unidade, é a questão da aproximação direita dos recursos da música rítmica de matriz africana de forma consciente, não mais como era antes. Os músicos estudam os toques, fazem a composição, fazem os arranjos, tentam relacionar com os toques matriciais.

E são artistas negros, por acaso ou não.

São artistas negros. O fato de você colocar essa música dentro de um plano de música elaborado, de pensamento científico, como eu venho defendendo sempre, é uma forma de afirmação da música negra. Que quase sempre é usurpada, né? Os negros criam os grandes movimentos em música e geralmente os ícones passam a ser brancos. Na chamada axé music não foi diferente. Houve um embranquecimento, que não foi nada ocasional, foi intencional da indústria. E essa cena (atual), não: ela já tem a consciência de que isso é um patrimônio da cultura negra. Que os protagonistas deverão e devem ser os negros. É uma música que representa a nossa cultura.

A sua pesquisa se baseia muito no toque da percussão do candomblé, você segue a religião?

Eu tenho uma ligação forte com uma candomblé de Salvador, mas não tenho tempo de ficar indo constantemente. Mas tenho uma ligação forte, me considero adepto, sim. Mas não tem uma pesquisa no candomblé. Não é bem isso. O que eu faço é uma desconstrução. Na realidade, eu observo a música brasileira. A música de Tom Jobim, do João Gilberto, o baião do Luiz Gonzaga. Eu não tenho regras, ferramentas de conhecimento para fazer. Faço de forma intuitiva. O que eu percebo é o seguinte: quando você desconstrói a música popular brasileira, sempre acaba chegando em algum toque matricial. Tive uma conversa longa com o Caetano outro dia sobre esse tema, e a gente acabou entendendo. Conversei uma vez na casa de Paulinho da Viola com ele também, e ele está nesse acordo: essas músicas todas das quais a gente está falando, os tipos de samba, os subgêneros de samba, partido alto, o samba de caboclo, o samba afro, essas músicas têm uma forma de organização metodológica que vai chegar sempre na raiz dessa grande árvore rítmica que são as diversas nações de candomblé. Eu não parto do estudo dos toques, é o contrário: eu faço uma decomposição do que eu acho. As minhas ferramentas foram usadas para o meu trabalho como arranjador. Eu não achava que eu podia mais arranjar sem conhecer esses princípios. Não tinha mais como eu fazer o arranjo de música que foi baseada em nenhum ritmo, nenhum toque — um baião, um samba, um frevo, não importa — que esteja no ambiente da música popular brasileira e não saber a origem desses toques, desses ritmos, de onde vem. Então você vai dando um passo para trás e acaba chegando no terreiro. Qualquer passo que você der na sua observação. Eu não acho que geralmente eu observo primeiro o terreiro para depois fazer… Por exemplo, para um instrumental, eu faço isso: emerjo um ritmo, mas ele não é necessariamente ancestral. Tenho várias composições que são em compassos ímpares que não existem na música tocada dentro da cerimônia sacra. O compasso, por exemplo, de 5/8, 5/4, não tem na brasileira. Tem em outras culturas, na brasileira não tem. Não assim tão claro. Quer dizer, pode até ter, pelo que eu sei não tem esse toque (risos). Mas a gente tem esses toques híbridos dentro da Rumpilezz. É como eu falo: eu readapto para que possa fazer uma composição dentro desse ambiente. A ideia da Rumpilezz é observar esses ritmos, aprender, conhecer os toques, a elaboração deles através da contemporaneidade. O que eu quero mesmo, o que eu desejo é fazer música contemporânea, baseada em improvisação jazzística também, na medida do possível.

Voltando ao passado, mais uma vez: o que te fez migrar das artes plásticas para a música? Você já tinha tido um contato na infância…

É uma parte da minha vida que ainda não está muito clara. Não consigo entender por que isso aconteceu, nem como. Não era meu desejo, sinceramente. Eu me preparei para ser artista plástico. Vinha pintando desde 11, 12 anos seriamente, fiz exposição com 14, 15 anos de idade, coletivas e individuais. Já estava entrando na área do cartunismo, algumas tiras minhas saíam num jornal de grande circulação de Salvador na época, fazia desenho animado um pouco, e entrei na universidade: em vez de música, fiz vestibular de Artes Plásticas. Fui aprovado e estudei três anos. Do nada a música veio como um tsunami e tomou conta de tudo, mudou tudo. Quando eu vi, em um ano eu já era profissional. Meio conto de Cinderela, mas aconteceu dessa forma, vários amigos dessa época lembram que na década de 70 eu era artista plástico e, quando virou para a de 80, eu já era músico.

Você começou de hobby?

Não era tanto hobby. Eu comecei a tocar na militância. Eu fazia parte do Movimento Estudantil. Antes, com os criadores da União Livre dos Estudantes Secundaristas da Bahia, que era um grupo contrário à organização secundarista oficial, e depois, na universidade, a gente esteve no Movimento Estudantil direto. Eu ia tocar nas mostras de som igual a militante, a gente ia conclamar os nomes contra a ditadura, se reunia para fazer as apresentações musicais. Então não era tanto uma diversão, não. Por isso que eu me sinto um militante até hoje (risos). Tem a ver com isso.

Seu trabalho é também uma forma de militância, né?

Claro. É um trabalho que, claramente, visa à afirmação e à colocação da música negra como música estruturada e que tem seus rigores, o que, infelizmente, ainda não é conhecido pelas academias. Mas o meu discurso é nessa direção da afirmação.

Vai lá:
Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz com participação de Caetano Veloso
Quando: Sexta-feira, 22 de março, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 70 (com 1kg de alimento) a R$ 140

]]>
0
‘Somos resistência sapatão’, diz integrante do bloco O Rebu http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/03/15/somos-resistencia-sapatao-diz-integrante-do-bloco-o-rebu/ http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/2019/03/15/somos-resistencia-sapatao-diz-integrante-do-bloco-o-rebu/#respond Sat, 16 Mar 2019 00:47:05 +0000 http://rioadentro.blogosfera.uol.com.br/?p=724

A mulherada do bloco O Rebu. Foto: divulgação

Atração do evento Tinha Que Ser Mulher!, que acontece este domingo no Santo Cristo, o bloco O Rebu criado em 2017, depois que sua fundadora, a musicista Eliza Leão, foi em um bloco LGBT e sentiu falta de um espaço só para lésbicas. Além dela, hoje a banda reúne também Pam Mariano, Daniela Pinheiro, Luana Vianna, Gabriela Feleno, Beatriz Vitorino, Renata Salles, Cyda Rodrigues, Ingrid Barbosa, Ana Carolina, Sarah Ameijeiras e Bruna Amaral.

Além de se tornar um espaço onde as mulheres se sentem seguras e livres de assédio (muitas héteros o procuram por isso), o bloco vem inspirando outras mulheres por aí a criarem os seus próprios. “Eu senti que o Rebu trouxe muita coragem para vários movimentos. Porque a gente se apresentou no 8M em Juiz de Fora ano passado, é um evento que carrega umas cinco mil mulheres, de todo o Brasil. Muitas manas conheceram a gente e viram que é possível, sim, então foram surgidos muitos por aí”, explica Pam.

O nome faz referência à gíria (até cogitei publicar a palavra inteira aqui, mas decidi não fazer isso, busquem conhecimento!) que brinca com uma espécie de corrente que existiria entre lésbicas, fazendo com que a vida sexual/afetiva de todas esteja ligada de alguma forma: Fulana namorou Beltrana, que ficou com Sicrana, que já namorou com Fulana…

O blog conversou com duas integrantes do Rebu. Além do show do bloco, o Tinha Que Ser Mulher!, que acontece no Bco., terá apresentação do grupo Vindas de Vênus, palestras, rodas de conversa, oficinas, workshops e feira, tudo feito por mulheres.

Como surgiu o Rebu?

Daniela Pinheiro: Em 2017, eu fui num bloco gay com a Eliza Leão e ela saiu de lá com essa inquietação que virou bloco. No mesmo dia ela mandou uma convocação num grupo de lésbicas do Facebook.

Pam Mariano: Eu já tocava antes, venho da oficina de percussão Bambas de Saia, e lá eu conheci a Eliza, que também fazia parte da Oficina de Introdução à Percussão Popular Brasileira. Eu comentei com ela uma vez de a gente montar um grupo de pagode só de mulheres lésbicas para tocar no Isoporzinho das Sapatão, que o pessoal da (festa) Velcro faz. Depois dessa conversa, a Eliza veio me fazer a proposta de integrar o bloco O Rebu. Eu não aceitei de antemão, porque eu não tinha condições financeiras para poder fazer parte desse movimento, porque também tem gastos. As meninas já estavam superavançadas. A maioria nunca tinha tocado nenhum instrumento, aprenderam umas coisas as outras, nós fomos, aos poucos, passando o conhecimento que nós tínhamos.

Qual foi a ideia ao criar o bloco?

Daniela: O bloco surgiu basicamente porque entendemos que não existia um espaço para mulheres lésbicas no carnaval. Mesmo os blocos LGBTs muitas vezes não são espaços seguros e confortáveis pras lésbicas. Além do mais, existe há um tempo um movimento mundial de tentar dar mais voz às mulheres dentro do movimento LGBT, antes a sigla era GLBT e colocar o L logo na frente foi o símbolo dessa tentativa de dar mais voz às mulheres dentro desse movimento, cujo protagonismo sempre foi masculino. A luta lésbica é uma luta feminista fora e dentro do movimento LGBT.

Pam: Surgiu dessa inquietação, como a Eliza fala, de não ter uma representatividade lésbica na noite e nos blocos cariocas. Sempre é LGBTQI, e a maioria dos frequentadores desses eventos é homem, porque homens ganham mais. A gente se sentia incomodada por não ter mais mulheres na rua. Do Rebu bloco, surgiram o Trio Amassa Saia (de forró), e o Batuque Delas, que é do evento Sapagode, com cinco integrantes do Rebu. A gente foi tentando criar mais espaços para as mulheres lésbicas.

A adesão ao bloco foi grande?

Pam: A gente foi muito acolhida, o Rebuzinho hoje é muito amado, as manas colam nos nossos eventos, acabam surgindo convites de parcerias com festas LGBTQI, mas focando sempre no público lésbico. A gente leva sempre umas 400 mulheres nos nossos eventos, e acaba multiplicando quando tem parceria. E só tem a gente, né? Não tem como não ser amado, se existe tanto essa dor de ter um espaço majoritariamente lésbico. A gente vem evoluindo também em termos de técnica. Eu acabei me matriculando na Escola de Música Villa-Lobos, a Eliza já fazia parte, a Renata, que é nossa baixista está investindo em equipamentos para gravação — esse é outra dor que a gente tem: não existe técnica de som sapatão, então ela vai ser uma das precursoras. A maioria já está em oficinas para aprimorar as técnicas. Em menos de um ano, o bloco cresceu muito, a gente está fazendo ritmos que não sabia tocar e está fazendo maravilhosamente bem. Eu tenho muito orgulho dessas manas estarem percebendo que nós, como musicistas, precisamos estudar mais para trazer uma boa música para esse público.

E vocês também têm sido chamadas para tocar em muitos eventos, né?

Pam: Sim, como no CCBB (na Madrugada no Centro), também fomos chamadas para participar da festa Manas, esse evento domingo… O Amassa Saia e o Batuque Delas recebendo convites para se apresentar em festas particulares, aniversários, estamos temos um crescimento muito grande, o retorno do trabalho do movimento todo está sendo muito positivo.

Você sente que mulheres hétero também procuram o bloco porque se sentem mais seguras lá?

Pam: Vão, muitas héteros, bissexuais. Elas se sentem muito à vontade, porque não tem assédio e, quando tem algum homem machista, inconveniente, a gente reeduca e convida ele para sair. A manas compram um barulho, até mesmo as frequentadoras, e aquele homem percebe que não é bem-vindo e se retira. Já expulsamos alguns machos do bloco no carnaval, porque eles não se comportam.

Como é o repertório do Rebu?

Pam: A gente busca tocar músicas de sapatonas: Cássia Eller, Zélia Duncan, a baiana Luedji Luna… E também fazemos paródias. Por exemplo, a marchinha “Maria Sapatão”: construímos uma letra em cima da original e é muito bem-recebida (em vez de “de dia é Maria de noite é João”, elas cantam “não mexe com a Maria, ela não pega macho, não”). Tem axé, rock, forró, baião…

Lésbica na música brasileira não falta…

Pam: Não, não falta (risos). Tem muitas, Bia Ferreira, Doralyce, Taís Feijão, tem uma infinidade agora de opções.

E no passado também, né?

Pam: Também. Mas é que antes elas falavam que gostavam “de pessoas”, né? Hoje as mulheres falam mesmo que são sapatão, fancha, cola-velcro… A gente tá muito mais ousada, grande e confiante.

Não param de surgir blocos novos no carnaval carioca, este ano mesmo surgiram alguns novos. O que você acha desse movimento?

Pam: As mulheres não são incentivadas a tocar instrumentos de peso. Eu faço parte do Fina Batucada, que tem essa proposta há 20 anos. Foi fundado pelo Mestre Riko, que é professor e vice-presidente da Villa-Lobos, e foi muito sensível em ver que as mulheres só tinham representatividade ou no tamborim, ou no chocalho, mas na caixa ou surdo, não. Ele veio com essa proposta u acho bacana que outros blocos venham com ela também. As mulheres têm força, são capazes de tocar uma caixa tão bem quanto um homem. Elas só precisam ter espaço. Eu acho maravilhoso, tem que ter mais, as mulheres têm que ocupar todos os espaços, está na nossa hora. Mulher está sempre gerando, por que a gente tem que ficar em casa cozinhando, passando e lavando? Se a gente gera uma vida, tem capacidade de gerar muitas coisas.

Tá bom, muito obrigada pela conversa.

Pam: Queria acrescentar uma coisa. O Rebu luta também pelo fim da desigualdade. Eu sou a única mulher lésbica negra periférica no bloco. Isso é muita resistência. Porque não somos todas iguais. Somos sapatões, mas existem diferenças de classe, de cor. E o Rebu também busca isso com muita intensidade, trazer mais representatividade, porque os nossos eventos são baratos, são para todas as mulheres entrarem, inclusive as negras periféricas. É isso que eu carrego, essa é a minha representatividade. E resistência. Acho que o Rebu para mim é isso, resistência sapatão.

Vai lá:
Tinha Que Ser Mulher!
Quando: Domingo, 17 de março, das 14h às 22h
Onde: Bco. Rua General Luís Mendes de Morais, 210 – Santo Cristo
Quanto: Grátis

]]>
0