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'Há um movimento de tentar romantizar ciclos de pobreza', diz Lio, da Tuyo

Kamille Viola

26/07/2019 21h17

Lio, Jean e Lay formam o Tuyo. Foto: divulgação/Buio Assis

Eles estão juntos em projetos musicais há 11 anos, mas foi no ano passado que as coisas finalmente começaram a acontecer profissionalmente para o Tuyo. O trio é formado pelas irmãs Lio e Lay Soares e por Jean Machado, de Londrina (PR). Depois de fazer parte do grupo Simonami, com outros integrantes, as irmãs participaram do "The Voice", da Globo, em 2016. Ao deixar o reality, passaram a se dedicar ao trio.

Em 2017, lançaram o EP independente "Pra doer", que teve boa resposta da crítica e começou a atrair público para o disco. Em novembro de 2018, foi a vez do álbum "Pra curar", que impulsionou de vez o trabalho do grupo. O Tuyo passar a ser escalado para shows e festivais pelo país inteiro, e acaba de se se apresentar pela primeira vez na Europa, em Portugal e na República Tcheca.

O trio faz neste sábado (27) seu segundo show no Circo Voador, abrindo para o grupo 5 a Seco, e Lio conversou um blog sobre o momento da banda. "Nos meus sonhos mais ousados, eu não me via desempenhando o papel que eu desempenho hoje, conhecendo as pessoas que eu conheço hoje. A gente brinca que parece que em algum momento alguém vai falar: 'Olha, querido, deu errado aqui, vocês vão ter que voltar lá, volta todo mundo para o telemarketing…", contou.

Vocês estão desde o ano passado com a turnê do álbum, e está na maior pegada de shows. Como está sendo viajar pelo Brasil, fazer show para caramba?

A gente está empolgado para caramba. É bastante cansativo, mas eu acho que a energia vem do que rola no palco. O processo até a gente chegar no show é bem longo, cheio de aventuras, para botar de uma forma romântica, mas é muito… Ah, sei lá, a Tuyo é uma banda pequena, eu penso que a gente é muito sortudo, porque, quando a gente vê, já foi, a gente vai escorregando para dentro. E eu sinto muito que esse movimento só acontece porque as pessoas têm vontade de ver a gente, e nós, de ver as pessoas. Acho que é a parte mais bonita do processo. Nós gostamos muito de gravar disco, gostamos do processo de estúdio, mas não tem jeito: o tesão mesmo da banda está nesse rolê de viajar e de encontrar as pessoas ao vivo.

As músicas de vocês são muito pessoais e falam de sentimentos que muita gente já teve, não é muito difícil de se identificar com as letras do grupo. Como acaba sendo o contato com os fãs, tanto pessoalmente como pela internet, onde vocês também são superativos? Como é essa troca?

Eu acho que tudo é sempre muito íntimo. É muito maluco, porque a gente sai de casa para encontrar um monte de gente que nós nunca vimos na vida. Eu acho que é natural. Só é um fenômeno bonito de ver, que a gente sempre espera, mas nunca espera, porque chega lá, numa cidade diferente, muito distante da nossa cultura — a gente é de Curitiba, né, estamos aqui no Nordeste —, e, de alguma forma, acho que por conta dos temas, serem muito… Não sei, a gente se expõe para caralho, então acho que as pessoas se sentem corajosas. Parece que se estabelece uma atmosfera em que muitas coisas que demorariam muito tempo para a gente conseguir alcançar são autorizadas. Todo mundo se sentir muito à vontade para dividir com a gente a própria vida, coisas muito íntimas, e nós tentamos fazer o máximo possível para acolher isso de uma maneira quente, saudável, responsável. Eu sinto que a gente nas músicas provoca muitas coisas, aperta muitos botões, cutuca muitas coisas, e é muito bonito quando elas vêm à tona, tanto na internet, nas redes, quanto nos shows. Eu sinto que estamos prontos, porque é muito próximo de coisas que nós já vivemos. São temas universais. Não tem ninguém que nunca tenha perdido alguém, sofrido num relacionamento. E é engraçado que essa é uma parada que a gente às vezes tem vontade de falar, mas não sabe como. Você não vai entrar na fila do banco e começar a contar da sua separação, sei lá. Eu sinto que a gente de alguma forma estabelecer uma atmosfera segura para falar dessas coisas sem entrar num buraco, acho que sai todo meio de mundo de alma lavada. Acho que é um lugar seguro para falar sobre vulnerabilidades, talvez.

Eu vi uma vez numa entrevista a Lay falando que ela era muito afetada, por exemplo, quando via muitas mulheres negras cantando "Solamento" nos shows, e acho que algumas letras de vocês podem ter mesmo essa identificação. A gente vive um momento nos últimos anos de ampliar as discussões sobre racismo, e todos os desdobramentos de como ele atinge as pessoas, coisas que a gente não imaginava há alguns anos e hoje percebe, como a vida afetiva das pessoas, a autoestima… Vai muita gente preta nos shows? Vocês sentem essa identificação e essa resposta específica ao trabalho de vocês?

Ah, sempre que qualquer pessoa preta, trans, pessoa historicamente marginalizada alcança uma posição de destaque, autoriza outras pessoas a romper uma barreira muito difícil, que é a da ambição, do sonho, do acesso, e eu sinto muito que a Tuyo tem esse papel. Não importa o que a gente faça, diga: a gente está numa posição de destaque, e eu acredito que essa responsabilidade é… Não sei, eu sinto que nós desempenhamos um papel de "desachatar", de trazer complexidade para a figura da pessoa negra, porque todos esses temas que nós cantamos, sobre as nossas muitas nuances, sobre nos depararmos com a nossas efemeridade, com entendermos a nossa finitude, com entendermos nossas frustrações. Eu acredito que isso desdobra a percepção da pessoa negra socialmente. Não fazemos isso de propósito nem nada, a gente só é a gente. Mas eu sinto que historicamente nós sofremos achatamento dentro de todas as narrativas — cinema, música, artes plásticas, qualquer forma de comunicação de massa, social, enfim. A gente sempre foi retratado com pouquíssimas características, pouquíssimas nuances, para falar o melhor. E eu sinto que, cantando coisas mais complexas — não que a gente escreva sofisticadamente, são temas sofisticados. Parece que só quem é mais autorizado a sentir as coisas é aquela figura que está muito próxima a quem é permitido ter acesso a tudo, que é o homem, branco, hétero, cis. Quanto mais próximo a gente está dessa imagem, mais autorizado é a ser complexo e a sentir as coisas. Quanto mais distante, menos tem autorização para acessar nuances mais complexas da existência. E eu percebo que de, alguma forma, a gente subindo no palco e falando sobre isso, de maneira simples, de algum jeito a gente aperta uns botões não só na cabeça das pessoas negras, para que elas sejam estimuladas a sentir, a acessar em si outras possibilidades, mas também incentivar pessoas não negras a passar a compreender a sociedade de um jeito menos "inequivalente", não sei.

Vocês têm um disco previsto, foram contemplados no edital da Natura, e têm que lançar um trabalho? Qual a previsão? Porque estando na estrada direto as coisas ficam mais corridas, né? Como está sendo isso?

Ah, mas você sabe que está sendo gostoso escrever esse disco na estrada? Está sendo um processo bastante transformador para nós. É a primeira vez que a gente vai gravar alguma coisa com recursos, está concebendo uma obra completa, não são músicas que a gente juntou e pôs num disco. O pessoal está empolgado. Agora estamos no processo de continuar escrevendo os poemas. A gente está lá, captando os temas, lendo, escrevendo, e eu acredito muito que, até o primeiro semestre do próximo ano, a gente já tenha aí mais um episódio, mais um capítulo das histórias que a gente conta. Estamos empolgadíssimos.

Então o processo de vocês é primeiro fazer as letras e depois as melodias?

Está tudo acontecendo ao mesmo tempo. Eu sou a pessoa das letras, gosto muito de escrever, e é a minha praia. O Jean Machado está bastante empenhado na criação das sequências harmônicas para eu poder trabalhar depois em cima. Mas a gente é bem um "fordismo", cada um faz  pedacinho e depois a gente junta tudo. Ainda mais porque na estrada, como estamos sempre muito juntos, quando não somos obrigados a estar juntos cada um precisa muito respeitar a individualidade do outro para a gente não se matar. Então fica cada um num cantinho lá, e, nesses momentos nos cantinhos, as coisas acabam fluindo, e aí os grupos de WhatsApp começam a pular: tem trecho de letra, trecho de harmonia, trecho de melodia… É divertido o processo.

Esse seu comentário tem a ver com duas coisas que eu queria perguntar. A primeira é que, do EP para o disco, teve uma mudança na sonoridade de vocês: o primeiro é muito folk, e o segundo tem uma pegada eletrônica, com mais elementos, acho que até por isso começaram a chamar vocês de afrofuturistas. No próximo disco vocês pensam fazer mudanças ou seguir nessa sonoridade que encontraram?

Eu acho que, quanto mais recursos a gente tiver, mais elementos a gente é capaz de colocar. Eu sei porque no EP eram quatro canções, a gente tinha duas mais acústicas e duas mais eletrônicas, porque foi o que a gente deu conta de produzir com as condições e o tempo que a gente tinha. Mas o caminho sempre foi alcançar esse lugar do choque entre o extremamente orgânico com o extremamente sintético. E essa segue sendo a nossa pilha, o nosso desafio estético. E eu acredito muito que a gente vá seguir imprimindo isso, talvez de maneira mais robusta, ainda mais evidente agora, com mais recursos, nesse próximo disco.

E outra coisa que eu queria comentar é aquilo que você falou: é muito tempo junto, e vocês são família. Como fica isso com essa convivência de estrada?

Ah, isso tem se ajeitado. Acho que, devagar, a gente vai sabendo onde pisa. Você sabe quando Fulano está cansado, que hora você deve dar uma volta… Mas é estressante para caramba. E eu acho que talvez o estresse venha porque a gente não está junto de férias, a gente está trabalhando, então está todo mundo sempre tenso com a próxima gig, como é que vai ser, como é que vai ser para chegar, todo mundo tentando entregar o melhor que pode. Mas às vezes a gente só quer dormir (risos). Mas, entre trancos e barrancos, está sendo bonito o processo de entender o limite do outro. Porque a gente tocava só no fim de semana olhe lá, né? Aí era tudo sussa. Se bem que a gente já morou junto um tempo, então não tem nenhuma novidade. Mas aí falamos: "Nossa, a gente vai se matar. Vamos nos separar, cada um para um cantinho." Aí a banda começou a ir melhor, a gente conseguiu mudar de casa, os três. A  gente mora tudo no mesmo bairro, mas consegue escolher quando vai se ver, não é obrigatório (risos). Depois que nos acostumamos com essa vida de cada um no seu cantinho, veio esse baita giro, a gente não para de viajar, fica em casa sei lá, uns cinco dias, volta a girar… Não é nenhuma novidade, mas… Eu acho que faz parte também dos nossos temas, acaba provocando por os assuntos para fora.

Aliás, vocês têm banda há um tempo juntos…

Sim, a gente tocava em outra banda, Simonami, aí todo mundo cansou. A gente falou: "Vamos voltar a estudar, ninguém consegue terminar a faculdade, pelo amor de Deus (risos)!". Passou dois meses, a gente tinha formado a Tuyo (risos). Estava todo mundo pensando: "Não, gente, chega um pouco, vamos dar um tempo. Eu preciso seguir com a minha vida, está travando outras coisas que eu quero." E foi doido, porque a Simonami era uma banda massa, a gente curtia tocar, mas eu tinha plena consciência de que era um hobby, e que era uma parada que eu ia fazer no fim de semana, e que eu precisava dar um jeito na minha vida. Veio a Tuyo e me engoliu, me engoliu inteira. Acho que isso aconteceu com todo mundo. Isso às vezes dá uma bagunça na nossa cabeça, porque as coisas têm acontecido numa velocidade que a gente não previa. Parece que a banda escolheu, mas não foi a gente que decidiu que a Tuyo ia pôr comida na nossa mesa, foi ela que já foi, engoliu e foi levando, um trator, e as coisas vão acontecendo e a gente vai obedecendo os movimentos.

As coisas estão sendo como vocês sonhavam? Como está sendo vivendo essa história da banda botar comida na mesa de vocês? Porque, ao mesmo tempo que vocês não imaginavam é algo que vocês nunca conseguiram abandonar…

(Risos) Sim. Eu acho que todos nós sempre sonhamos em ter acesso a coisas. Ter a chance de viajar, conhecer lugares, viver uma vida confortável, abandonar um ciclo de falta de abundância da nossa família, quebrar um ciclo. E eu sinto que todo mundo ia buscar isso de alguma forma muito próxima do mais tradicional, dentro do mercado de trabalho formal. Para a gente dentro do mercado de trabalho formal isso era anos-luz distante, ter acesso a coisas a que a gente tem acesso hoje. Então eu acho que está sendo muito além, muito melhor do que a gente sonhou, do que a gente podia imaginar, do que a gente um dia podia contar para alguém. Nos meus sonhos mais ousados, eu não me via desempenhando o papel que eu desempenho hoje, conhecendo as pessoas que eu conheço hoje. A gente brinca que parece que em algum momento alguém vai falar: "Olha, querido, deu errado aqui, vocês vão ter que voltar lá, volta todo mundo para o telemarketing…" Quando dá tudo muito certo, você fica meio desconfiado, né? E com a Tuyo isso rola demais. E acho que é uma parada que rola na figura de toda pessoa muito distante de formatos mais padrão.  A arte é um rombo, uma contradição. É claro que existem muitos processos dentro dessas engrenagens artísticas, de consumo e produção de arte, que são muito próximas do mercado formal, onde a gente já vê muitos vícios. Mas é um jeito bonito da gente romper uma cadeia. No Tuyo tudo aconteceu muito rápido, diferente do que foi com a gente na academia. Para me formar na Federal, nossa, eu já estava no sexto e não conseguia avançar. Até eu conseguir algum destaque dentro da academia para poder fazer alguma viagem, para poder ter algum dinheiro, para pode fazer alguma coisa na minha vida, nossa, ia ser um caminho longo. E eu sinto que a Tuyo é esse Baú da Felicidade para a gente, é essa Tele Sena. A gente continua devendo para caralho ao banco, sem ter onde cair morto, sem ter casa, sem ter nada, mas o tanto de lugar por onde a gente já rodou. Acabamos de voltar de uma viagem, a gente estava na Europa. E, toda vez que eu imaginei fora do país, foi para fritar hambúrguer, sei lá. Eu tinha imaginado que eu ia acessar essas coisas de outra forma. Mas foi da forma mais confortável possível, tendo a obra que eu concebi junto dos meus melhores amigos reconhecida. Isso é raro, raro, raro, raro demais.

Foi a primeira tour de vocês fora do Brasil?

Foi a primeira vez que a gente saiu do país, todos nós.

Você fazia faculdade de quê?

Eu fazia Letras.

Você falou em algum momento de romper a falta de abundância da família. Acho que eu nunca li sobre a história pregressa de vocês. Vocês têm uma origem pobre?

Olha, eu geralmente evito provocar esses temas porque hoje, ainda mais do último ano para cá, desde o período das eleições, a gente sente um movimento muito forte de tentar romantizar ciclos de pobreza, e colocar histórias como a nossa como meritocratas e tal. Eu e a Lay somos irmãs, o Jean é nosso amigo, a mãe do Jean é costureira, estudou, não chegou a se formar, mas conseguiu proporcionar para o Jean uma vida distante de onde eles moravam: ela é de Vitória, Espírito Santo, e veio para o Sul fazer a vida, foi para Londrina tentar da ruma vida melhor para o Jean. E rolou. E meus pais fizeram comigo e com a Lay: meu pai era piauiense, minha mãe, carioca, eles foram para o Sul muito novos, e meu pai foi a primeira pessoa da nossa família que se formou em alguma coisa. Tadinho, foi bem frustrante para ele quando ele sacou que a gente ia quebrar o ciclo de volta (risos), mas a gente não tem nenhuma história assim… A geração dos nossos pais foi a primeira que conseguiu alcançar alguma coisa. E eu sinto que a gente só está acessando lugares de abstração, em termos de canção, de entender essa indústria porque nós não vivemos em lares de pobreza. Ah, a gente teve mil dificuldades, teve hora em que não tinha o que comer, mas nada… não sei, eu não gosto muito de destaque para isso, por causa daquelas coisas que eu te falei. Não que você não deva escrever sobre isso nem nada. É, ninguém nunca teve apoio, não é banda que teve "paitrocínio", meu pai ia no show e ia embora na metade, ele ficou superchateado, queria que eu prestasse concurso. A gente nunca teve dinheiro para nada, nenhum equipamento da Tuyo é nosso, é tudo emprestado. Ninguém tem grana. Se a gente ficar sem fechar show, ninguém come, a gente vai ter que voltar. Várias vezes durante a história da Simonami ou da Tuyo eu ficava oscilando entre voltar lá, pedir meu emprego de volta. Minha chefe sempre foi muito legal comigo, então ela foi me soltando aos poucos. A minha sorte é que ela acredita muito na banda, e aí ela foi me deixando sair, devagar, e eu sinto que, se der errado, ela está lá de portas abertas e eu posso voltar. A Tuyo nunca foi uma banda que teve nenhum estímulo financeiro de forma alguma, e segue não tendo. A gente não tem acesso a nada que não seja o público. Eu sinto que a nossa força-motriz, a gente só faz as coisas que gente faz, e a gente só está tendo essa conversa por causa da internet, que é um recurso gratuito. Tudo o que acontece conosco, os contratantes que acreditam em nós, que foram tocados pela música, os caras dos festivais, eles sentiram a conexão que existe e o público. E eu sinto que esse é o nosso capital (risos).

Onde você trabalhava?

Meu último emprego foi na Aliança Francesa de Curitiba, eu era secretária, atendia os alunos. Eu tinha acabado de ser promovido a bibliotecária, aí a banda começou a dar bom e eu pedi as contas (risos).

Quando a gente não tem uma família com grana, não tem essa segurança, existe aquilo que você falou, o medo de uma hora dizerem: "Olha, vocês estão no lugar errado e tal." Talvez isso tenha uma pressão da coisa ter que dar certo como forma de sustento. Isso traz um frio na barriga para o próximo álbum?

Eu sinto que é incontrolável, você até consegue ter alguma previsão, mas ela vai ser sempre só uma previsão, e uma previsão sempre pode mudar. É impossível saber quanto tempo esse tipo de coisa dura na vida de uma pessoa. Então a gente está aproveitando o máximo que dá enquanto dura, porque, do mesmo jeito que começou, uma hora vai acabar, e a gente tem que estar esperto. Nenhum demais tem essa pilha de tentar fazer durar mais do que é durar. Ficar: "Nossa, tem que fazer coisas que as pessoas querem muito ouvir, porque senão, se o público não quiser mais ouvir a gente, se eu tiver que voltar a trampar em telemarketing, a ser secretária, sei lá"… Eu acho que talvez as pessoas encontrem em nós seja justamente a legitimidade, o fato da gente falar as coisas que dão na cabeça mesmo. Acho que talvez o negócio desse disco novo seja mais a ansiedade de fazer um trabalho com recurso pela primeira vez do que esticar a vida da Tuyo, sei lá. Acho que tem um limite aí também, tem um lugar entre você ficar com muito preocupado com o que as pessoas vão pensar do seu disco e você ficar zero preocupado com o que as pessoas vão pensar do seu disco. A gente acredita que ele é um objeto de comunicação. A gente quer comunicar, conversar com as pessoas, provocar elas de alguma forma. Eu espero que seja um disco democrático e acessível. Ainda mais acessível que o "Pra curar", menos complexo, que cada vez mais represente as nossas nuances e a nossa complexidade de um jeito palatável. Que pessoas como nós se sintam contempladas por ele. Que acho que foi assim que a gente veio parar aqui: a gente olhou para alguém, e essa pessoa, esse ícone, essa imagem encorajou a gente a acessar esse lugar, e deu certo, sei lá.

Nesse momento das coisas acontecendo meio rápido, teve alguma situação que tenha sido muito simbólica, que tenha feito você pensar: "Caramba, está acontecendo"?

Toda semana acontece alguma coisa muito bombástica. A primeira vez que a gente viu o Criolo de perto, lá na coxia do show. Não sei. A gente vai percebendo que a gente furou umas bolhas quando outros artistas que a gente admira sabem quem a gente é, escutam a gente. Os cliques vão acontecendo. Talvez os mais poderosos sejam quando a gente vai a alguma cidade muito no interior e eu fico pensando: "Bem, aqui vai ser mais difícil, vai ter menos gente, temos que prestar atenção em como vai ser esse show para conseguir conquistar esse público. Eu fico fico pensando em como vai ser o set, como vai ser, porque eu imagino que as pessoas não nos conheçam bem naquela cidade. E aí de repente está lotado, as pessoas cantam o disco inteiro. Quando isso rola, aí eu me assusto, eu falo: "Meu Deus, meu Deus, está acontecendo mesmo, isso é real." As pessoas saíram das casas delas, elas já conheciam o disco, elas sabem o que elas estão fazendo aqui, elas vieram prontas para esse show, eu não vou precisar esquentar nada, fazer nenhuma fala, elas vieram prontas. Nesses episódios aí eu fico balançada para caramba.

Falando nisso, como foi na Europa?

Ah, foi assustador. Se a gente fosse pensar numa estratégia de crescimento para a banda, sei lá, acho que a gente nunca iria para a Europa agora, não fazia parte do plano. A gente estava tocando numa feira de música em Belo Horizonte (Música Mundo) e aí um cara que era curador de um festival na República Tcheca assistiu ao show, achou massa, mandou e-mail, pediu orçamento, a gente enviou, ele fechou, mandou contrato, assinou. Nós ficávamos olhando um para a cara do outro: "Não é possível, não tem como ser real." Aí fomos lá, tiramos passaporte — precisava ver a gente tirando passaporte! Foi muito engraçado. Depois a gente aproveitou que já ia para lá mesmo, era mais barato chegar por Lisboa, conseguiu fechar um show. E pensei: "Bom, vamos cantar para gringo e é isso aí, vamos cumprir um dos itens de sucesso das bandas, vamos dar um "check", mas assim: não vai dar gente para ver o show. Eu sei lá como é a cultura da República Tcheca, o que ela acessa, como ela é estimulada, o que funciona aqui, não sei se o curador estava maluco, se ele só achou massa. Porque, no fim das contas, era só a opinião dele que existia. Não tinha um público lá que a gente tenha conhecido. E eu lembro que a gente chegou e ligou a TV no hotel, e tinha tipo uma MTV tcheca. E era música meio folclórica. Eu falei: "Os caras vão debulhar a gente!". Nós chegamos no festival, na hora de montar as coisas, tinha dois palcos, um do lado do outro. Estávamos ouvindo, enquanto estávamos montando as nossas coisas, o que estava rolando no outro palco. E estava rolando música folclórica, e os caras pirando. Eu falei: "Nossa, eles vão debulhar a gente!". E no fim estava todo mundo chorando, com a mão no coração, repetindo o refrão. Eu acho que não tem jeito: existem algumas coisas que são universais. A gente experimentou o clichê de que a música é uma linguagem universal. Nós tivemos a prova vive de que isso é real.

E Portugal?

Também foi bastante surpreendente. Eu achei que a gente ia encontrar um monte de brasileiro, aquela coisa, né? Mas tinha português para caramba, cantando as músicas. Tinha uma blogueira de Lisboa que foi lá. Ela conhecia banda, já tinha feito cover. Eu não sei como essas coisas… A internet é um buraco sem fundo, você não tem consciência do que acontece. A gente não tinha plano de tocar em Portugal nem nada, e agora penso que a gente tem que voltar e logo, porque parece que as pessoas estão gostando, estão curtindo. Não foi tão complicado quanto eu imaginava. Teve uma série de coisas que a gente teve que fazer, esse lance de tirar passaporte, fechar as passagens, lugar… Mas eu achei que deu uma sacudida na gente também para ambicionar outras coisas, deu uma provocada na gente para aumentar a ousadia, eu acho.

Foi a primeira vez que vocês, os integrantes, viajaram para o exterior?

Com certeza. Nossa, a gente nunca viajaria se não fosse assim.

Vocês ganharam o edital da Natura e o da Petrobras também. Os trabalhos anteriores eram uma coisa bem independente, né? E agora vocês vão ter mais grana, mais possibilidades. Como está sendo?

Acho que, no fim das contas, mais do que recurso — porque, no fim das contas, com esse dinheiro a gente só vai pagar melhor as pessoas que já pessoa que já trabalham com a gente há muito tempo. Mas eu sinto que é um reconhecimento do nosso trampo, né? É uma espécie de validação. Eu sinto que a validação que a gente realmente precisa a gente já tem, que é a do público. Mas ter a de grandes órgãos deixa a gente confiante para avançar estrategicamente. Porque, no fim das contas, o objetivo é aumentar o diâmetro de alcance da banda, que a gente consiga visitar mais lugares, acessar mais pessoas. Eu acho que o ego do artista está nisso mesmo: chegar em mais gente. E isso tipo de maquinário acelera isso. Eu fico feliz, sinto uma espécie de confirmação de que a gente está fazendo certo.

Você falou essa coisa do objetivo ser atingir cada vez mais gente. Vocês sonham ou desejam ser um grupo realmente pop, de atingir realmente muita gente, estar nas paradas de sucesso? O que vocês almejam?

Eu penso em sair do aluguel, quero comprar uma casa para mim, viajar, ver minhas amigas quando eu quiser, escolher um lugar bom para morar, pagar absurdamente bem todo mundo que trampa com a gente. Eu tenho essas ambições de playboy, né? De com o meu trampo viver uma vida confortável, ter um monte de privilégios que ninguém, provocar um monte de privilégios para minha família. Se vai dar certo, eu não sei, mas a ambição está aí (risos).

Como foi a experiência de tocar no Circo a primeira vez, quando vocês abriram para o The Internet? Foi o primeiro show de vocês lá, né?

Foi. Nossa, eu achei que ia morrer. A gente, na verdade, tinha participado do show do Baco. A gente cantou uma música com ele antes, então deu pra sacar a energia do público (eles cantam em "Flamingos", do álbum "Bluesman", do rapper). Ali a gente ficou com fogo na bacurinha pra tocar naquele palco. Ficamos deslumbrados, deu um gostinho. Choramos, foi incrível. Depois disso a gente abriu pro The Internet (em abril), que é uma banda para quem a gente paga pau. Ai, eu não sei, o Circo tem um negócio, uma energia, uma coisa muito mística. Mas tem um borogodó lá, um "je ne sais quoi"…

Vai lá:
Tuyo e 5 a Seco
Quando: Sábado, 27 de julho, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº, Lapa
Quanto: R$ 50 (meia-entrada, ou com 1kg de alimento, 1º lote) a R$ 120 (inteira, 2º lote)

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.

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