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'Eu sinto que é um momento de muito retrocesso mesmo', diz Aíla

Kamille Viola

02/08/2019 12h48

Aíla lança nova turnê. Foto: Júlia Rodrigues

Com dois álbuns na bagagem — 'Trelelê' (2012) e 'Cada verso um contra-ataque' (2016) , a cantora paraense Aíla resolveu lançar sua próxima turnê antes de ter um disco novo. No trabalho, ela vai reunir canções dos dois discos, versões de músicas do brega-pop nacional e vai, pouco a pouco, incorporando os singles que irá lançar até o fim do ano — o primeiro foi "Treme terra", lançado há pouco mais de uma semana. A estreia é nesta sexta (2), no projeto Levada, no Rio.

A nova fase é influenciada pela música periférica de diversos cantos do Brasil. Para buscar essa nova sonoridade, ela reuniu em sua banda Aline Falcão (teclados, sintetizadores e vocais), João Paulo Deogracias (baixo, MPC, sintetizadores e vocais), Pedro Regada (beats e sintetizadores) e Sthe Araújo (percussões, SPD e vocais). Aíla também começou a produzir sua própria música, em um trabalho coletivo nesse primeiro single.

Para ela, esse novo momento tem dois caminhos. "Em termos de som, é esse cruzamento de referências e ritmos periféricos e dançantes e pop, que o Brasil tem muito. E, para mim, é muito interessante cruzar tudo isso. Em termos de poesia, eu acho que é meio que hackear um pouco o pop, é fazer o corpo dançar, vibrar e, ao mesmo tempo, usar muito a ironia no meio disso", adianta a cantora em entrevista ao blog. 

Você resolveu fazer uma turnê antes de ter um disco novo? Pode me falar sobre isso?

Agora em agosto, a gente concluiu três anos de circulação do disco "Cada verso um contra-ataque". Eu já estava compondo novas músicas e imersa nesses novos sons, e tem muita relação com essa questão dos ritmos das periferias do Brasil, não só do Pará, do brega, do tecnobrega, do arrocha, mas também do pagodão baiano, do rap — que, além de Brasil, é mundo — e esse primeiro single, "Treme terra", aponta muito nesse caminho, de ser uma música muito dançante, muito vibrante, mas tem um recado ali no meio, de tremer o ombro, de tremer a língua, tudo o que o Pará faz muito bem, e, para além disso, tremer a mente, tremer as ideias, tremer o sistema, tremer a estrutura. E decidi fazer a turnê nesse sentido de experimentar mesmo. Muita gente pedia as músicas do primeiro disco e eu não cantava nunca na turnê do segundo. Decidi mudar radicalmente a banda, para essa nova fase, tirei bateria, tirei guitarra, que eram dois elementos muito fortes na turnê do "Cada verso um contra-ataque", que é um disco bem roqueiro, com a guitarra muito na frente, muito tocado ao vivo, essa questão orgânica, e aí botei bases eletrônicas com percussão e sintetizadores nesse novo show.

Alguns artistas estão fazendo esse movimento inverso do que se fazia antigamente, que era lançar o disco primeiro e depois a turnê. O Ney, por exemplo.

É, tem também o Jaloo, que está com uma turnê chamada "Mestiço", que não necessariamente vai ser o nome do disco dele, e outros artistas, Ney, como você falou. Acho que é um movimento natural, hoje a música é lançada de forma diferente, você não precisa fazer um disco, saem os singles, já junto com os clipes. Essa turnê nova vai ser uma maneira de poder experimentar também.

Você já está alguns anos em São Paulo, né? Como essa mudança influenciou o seu trabalho?

Estou há quatro anos. Na Terra Firme, que é o bairro onde eu cresci, escutei muito brega, guitarrada, lambada, e decidi começar a compor também, porque meu primeiro disco é muito de intérprete — e eu adoro ser intérprete, mas queria escrever também. São Paulo foi muito inspiradora para mim nesse sentido. A primeira música que eu compus foi rápido. Que fala sobre essa velocidade frenética da vida, das relações, está tudo muito rápido em demasiado, acelerado. São Paulo me trouxe a rua de volta, no sentido político, no sentido de usar a arte como plataforma de transformação. E eu acho que foi bem importante para esse segundo disco. Mas Belém tem um calor, tem um jeito de ser que eu tento carregar sempre em tudo que eu faço. Nas parcerias também: ter composto "Lesbigay" com a Dona Onete foi muito legal, porque é uma música que fala de algo tão atual, a questão LGBT, e é uma lambada. Ao mesmo tempo que eu estava e estou em São Paulo, me sinto também em Belém.

Você também incluiu versões no repertório? O que vai mostrar no show do 'Levada'?

A gente vai incluir versões, sim. No show do "Levada" eu posso adiantar que vai ter uma versão de uma música bem contemporânea, que eu acho que tem tudo a ver com esse momento, que é da Tulipa e a Elza Soares gravou, se chama "Banho", desse último disco. E a gente vai fazer uma versão inclusive bem funkeira, bem carioca (risos).

Como está sendo esse repertório que você está buscando? São coisas mais novas ou uma mistura com o que você ouviu ao longo da vida?

Esse novo momento eu acho que tem dois caminhos. Em termos de som, é esse cruzamento de referências e ritmos periféricos e dançantes e pop, que o Brasil tem muito. E, para mim, é muito interessante cruzar tudo isso. Em termos de poesia, eu acho que é meio que hackear um pouco o pop, é fazer o corpo dançar, vibrar e, ao mesmo tempo, usar muito a ironia no meio disso. E "Treme terra" que fala um pouco sobre isso: "Quando a mente abre, o corpo reverbera/treme língua, treme ombro, treme, treme terra". Falo um pouco desse percurso do treme no Pará e um pouco do que eu acho que pode ser também esse tremer. E todos os singles são meio que feats: mesmo que não tenha alguém cantando comigo nesse single, tem alguém compondo junto. Por exemplo, essa música é minha, do Barro, que é de Pernambuco, e do João Deogracias, que é meu baixista e toca comigo há muito tempo e é baiano, então é um feat muito Norte-Nordeste. E a produção é coletiva, eu quis tirar esse viés de ter um produtor muito conhecido por trás, e queria me experimentar como produtora também, de uma forma mais coletiva. Então eu assino a produção com três nordestinos, que são o Pedro Regada, de João Pessoa, a Aline Falcão e o João Deogracias, da Bahia também. Foi um processo muito de investigação de sons, de pesquisas e se jogar também num local, se arriscar um pouco, e acho que isso acaba amadurecendo em muitas camadas o trabalho. Porque eu pelo menos consegui imergir profundamente na produção, na mixagem, na masterização, entender que tipo de som eu queria, como eu queria o caminho de cada etapa. Então para mim foi muito legal, acho que é um processo de construção mesmo, de amadurecido.

Um time, né?

Sim. E isso só na parte musical. Na parte visual eu sempre chamo a Roberta (Carvalho, artista visual e companheira de Aíla) para fazer o design, e nessa parte de direção criativa de figurino sempre o Vitor Nunes, que faz os meus figurinos, faz os do Jaloo e de outros artistas, ele sempre está comigo pensando nessa imagem também, e a codireção artística é da Julianna Sá, que codirigiu o meu segundo disco junto comigo, e pensa também nesses nossos caminhos, de uma forma colaborativa.

Acho que é esse é um movimento que está acontecendo, das mulheres começarem a produzir. Durante muito tempo a gente praticamente não via produtoras mulheres. Você também enxerga isso? O que acha?

Eu acho fundamental a gente tomar esse lugar, se colocar nesse lugar, porque a nunca foi estimulada, desde criança, a mexer com tecnologia, produção musical, até com instrumentos. Então quando a gente se coloca nesse lugar de busca e pertencimento, é uma nova porta que se abre para todas as mulheres no mercado da música. Existe um empoderamento coletivo nesse sentido. Por exemplo, a Aline Falcão, que é pianista, tecladista e também coproduziu esse single, é uma experiência nova para ela adentrar esse mercado pop. Ela vem de uma escola erudita, e é uma multi-instrumentista, toca harpa, piano, violão, percussão. Então é legal a gente se arriscar nesse sentido e apostar nesses novos nomes.

Você citou a Roberta: como é você trabalharem juntas? Já são muitos anos, né?

Já são aí sete anos trabalhando juntas. É muito bom você poder trabalhar com alguém com quem você mora, com alguém com quem você pensa arte junto, que você ama, busca os mesmos sonhos. Para mim é muito bom. A Roberta me entende muito bem, e essas trocas artísticas são muito importantes para esse trabalho também. Cada vez mais, eu tento aproximar essa nossa relação de música e imagem dessas novas experimentações. Cada vez mais eu quero colocar a tecnologia e as artes visuais junto desses novos singles.

E essas duas coisas estão cada vez mais juntas, como você falou, com os clipes, né?

Eu fui para exposição recente "Björk Digital", no MIS (Museu da Imagem e do Som de São Paulo), e ela é uma inspiração, de ser essa multiartista, que não se coloca num lugar só. Isso é muito interessante, porque a gente pode ser muitas coisas nessa vida. E quando a gente se coloca: "Ah, eu sou cantora", "Eu sou isso", "Eu sou aquilo", acho que começa a fechar um pouco de tudo que a gente é. E eu tento me colocar nesse lugar de experimentação e busca também, de saber o que eu sou no meio de tudo isso (risos).

Falando nisso, essa busca da música periférica tem a ver com a sua própria história, do bairro onde você cresceu, das coisas que formaram você musicalmente? Ou não?

Quem nasce numa periferia de Belém toda semana tem festa de aparelhagem, tem carros em alto volume tocando os ritmos do Pará, tem as rádios da América Central — que antigamente funcionavam nas frequências de Belém, e que traziam ritmos como a cumbia, o zouk. Essas referências de ritmos periféricos do Pará têm muito a ver com os ritmos periféricos do mundo, eu acho, porque está tudo conectado, e por ter nascido numa periferia é orgânico e natural conhecer e entender de lambada, de guitarrada, saber dançar, saber cruzar essas referências. De certa forma, mesmo no meu primeiro disco existe tudo isso. Agora, eu quero cada vez mais poder colocar isso num viés ainda mais pop.

A sua música ficando mais politizada. Como está esse trabalho novo?

O primeiro disco é a cara do Pará nesse sentido colorido, de brega, de bolero, romântico, sacana às vezes, de falar de fuleiragem também. Já o segundo é um disco totalmente político, fala de feminismo, questões de gênero, apesar de ter uma lambada, um surf music com uma guitarrada, um punk, mas a poesia é muito política. Esse novo trabalho eu acho que está no meio de tudo isso, entre e outro. Eu quero passar uma mensagem, não quero deixar de fazer essa transformação na cabeça das pessoas, de certa forma, mas eu quero transformar o corpo também, usar o corpo como uma forma de fazer política, a dança. A dança é um negócio que me atrai muito. Para fazer esse clipe, por exemplo, que foi de uma forma bem rápida, a gente pesquisou bastante essa questão de coreógrafos que fazem clipes pop pelo país, essa relação da dança pop com a música pop, presente nos clipes. É muito legal essa onda do passinho, essa coisa que viraliza. A ideia nesse caminho de usar a ironia nessa nova poesia.

A gente está num momento estranho aqui. Como artista, como você se sente no contexto do Brasil hoje?

Eu sinto que é um momento de muito retrocesso mesmo, real. Acho que não é só no Brasil: no mundo. Isso é um reflexo, a meu ver, de um ciclo: as coisas vão, elas voltas, as coisas boas, as coisas ruins. No meio de tudo isso, eu me vejo como uma cidadã que precisa não omitir o que acha, precisa falar, precisa se posicionar. Não só na música, e muito além da música, até. Acaba que o artista influencia e é de certa forma uma referência de opinião, ainda, para o grande público. Então a gente tem o papel fundamental também de transformação do país. E, quando se fala em Amazônia, os riscos são ainda maiores, porque a gente entende a Amazônia como aquele lugar que as pessoas não conhecem. Politicamente, ainda é mais preocupante a região Norte no meio de tudo isso. Eu me vejo como alguém que precisa não se calar diante de tudo isso. E usar a arte como essa plataforma de transformação do agora, do hoje.

Vai lá:
Aíla
Quando: Sexta, 2 de agosto, às 20h
Onde: Teatro Firjan Sesi Centro. Av. Graça Aranha, 1 – Centro
Quanto: R$ 10 (meia-entrada) e R$ 20

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.