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'Conseguir viver de arte hoje já é um ato de resistência', diz Nina Becker

Kamille Viola

28/09/2019 16h57

Nina Becker se apresenta com o projeto Fira Banaba. Foto: divulgação/André Passos

Com uma filha de seis anos, a cantora Nina Becker volta e meia se sente agoniada quando quer ir a um show aonde não dá para levar Cora, seja pelo horário, seja por falta de infraestrutura para receber crianças. Esse foi o ponto de partida pela que ela criasse o projeto Fira Banaba, voltado para "crianças de zero a cem anos", com o qual se apresenta este domingo no Audio Rebel, em Botafogo. Ao lado de Alberto Continentino e Eduardo Manso, ela apresenta um repertório autoral, com músicas como "Batata Frita", "Ela ela ela ela" e "Lamina animal".

De volta às apresentações do show "Minha Dolores", do disco homônimo de 2014, em que homenageia a cantora Dolores Duran, ela falou sobre o novo trabalho, contou que tem se dedicado mais a outras áreas do que à música (Nina é diretora de arte e cenógrafa), lembrou o período difícil da descoberta do alcoolismo do pai de sua filha, o também cantor e compositor Marcelo Callado, e comentou a dificuldade em fazer arte e cultura no Brasil hoje, entre outros assuntos. "E a gente está vivendo uma abertura imensa e, ao mesmo tempo, um movimento ultrarretrógrado, né? É muito louco. Como dizem por aí, quem disser que está entendendo é porque não está entendendo nada (risos)", resume. 

Como surgiu o Fira Banaba?

O Alberto tocou comigo na banda do 'Acrílico', é meu amigo há muitos anos, tem filhos pequenos, eu tenho a Cora, que é pequena também, e a gente sempre ficava um pouco agoniado de muitas vezes não dar para levar os filhos nos shows, porque é tarde. Às vezes o lugar não é agradável, não tem uma infraestrutura… Por exemplo, a Cora é superfã da Gal Costa, eu levei ela no show do Vivo Rio, começava umas dez, ela dormiu no meio. E a gente é de uma geração que sempre ouviu tudo quanto é tipo de música, nossos filhos também ouvem, não tem essa coisa do filão da música para criança. Eu fico lembrando das coisas que eu gostava quando era pequena e pré-adolescente, e não era nada para um filão de criança, as coisas que eu mais gostava não eram. Então a gente ficou com muita vontade de fazer uma banda que os adultos gostassem mas que as crianças pudessem ir também. E acho que hoje também mudou muito, na classe média ninguém mais tem babá, ninguém mais pode sair e deixar o filho em casa com a babá. Todo mundo está na ralação de cuidar dos próprios filhos, a gente está passando por uma mudança grande na nossa sociedade, as pessoas estão muito mais envolvidas, pelo menos eu vejo isso, muito mais pais envolvidos em levar e buscar criança na escola, cuidar da casa e ter uma vida mais orgânica no que envolve criação de filho. E eu acho que fazer programa junto é muito saudável para a família. Esse negócio de "programa de criança", "programa de adulto"… A gente teve muita dificuldade de entender como ia comunicar isso, porque, se você não falar que é uma banda infantil, ninguém vai entender que pode levar o filho, sabe? No início, pensamos: "Ah, vamos fazer uma banda e é só marcar o horário às cinco da tarde, que aí todo mundo que tem filho vai acabar levando, porque não vai saber o que fazer com a criança." Mas a gente achou que ia ser confuso para comunicar isso, então a gente abriu para falar: "Ah, é uma banda para criança de zero a cem anos (risos)." Aí fizemos uma experiência. Há uns meses, a Laura Erber fez o lançamento do site dela, de conteúdo para criança, com coisas de literatura infantil. A gente fez um show dentro da casa dela e foi incrível, porque os pais começaram a dançar primeiro, depois as crianças passaram a dançar também, todo mundo fez um trenzinho, foi maravilhoso, ficou todo mundo muito empolgado. E agora a gente vai trazer para a vida lá fora, para o mundão. Estamos compondo, o Alberto é um puta músico, arranjador, aí a gente convidou o Manso, que é produtor e também está fazendo uma parte de eletrônicos, e a gente é esse trio, no momento. Tem alguns parceiros, mas em geral o Alberto manda as bases, eu faço as melodias e as letras, a gente leva um som, faz uns temas, eu toco teclado um pouco também, e aí está evoluindo assim. Eu fiz uma parceria com a Laura, ela me mandou uma letra, fiz uma parceria com o Marcelo Callado, a Cora participou, ajudou a fazer a letra também… As crianças (foram) ajudando a fazer o flyer, sempre rola toda uma coisa inclusiva para elas, "kids friendly" que chama, colocando elas no nosso esquema, que é a nossa realidade (risos).

E a sonoridade é inspirada no synth pop, nos anos 80?

Eu nunca fiz um trabalho que fosse uma coisa deliberadamente feita para dançar. E eu já estava com vontade de fazer isso. Acho que criança adora dançar, gosta de coisa animada. Eu fico botando música calma para a Cora, e ela fala: "Não, eu quero coisa animada!". Ela se amarra em dançar. E eu me lembro de quando eu era criança, pré-adolescente: as primeiras coisas que eu ouvi de música punk, tipo Ramones, The Clash, (isso) parece música de criança, são umas melodias muito simples, poucos acordes. E eu acho que a música punk tem uma criancice nessa coisa de não se enquadrar muito nas regras da (escola de etiqueta) Socila (risos). Então sempre achei que música punk tem a ver com criança, sabe? Então eu queria fazer uma banda meio punk, meio envenenada e que tivesse essa… Como eu posso dizer? Uma coisa um pouco ingênua mesmo, na abordagem. Músicas simples, que sejam simples de compor, de escrever, de letrar, de ficar pronta. Uma coisa que não dê trabalho. A gente é muito ocupado (risos), tem outros trabalhos, tem que cuidar dos filhos. Um troço que seja para a gente se divertir, fazer coisas simples, sem pensar muito. E aí o Alberto estava querendo aprender a mexer no Live (software de música), nessas coisas, fazer umas batidas e tal, e a gente estava gostando de compor junto, e é um jeito legal que a gente encontrou de experimentar. Eu fiquei me lembrando das coisas que eu ouvia também quando era criança. Eu gostava muito de Blitz, que era uma banda que não era para criança, mas que elas adoravam, que era toda colorida e era animada. É uma referência importante para mim. Sei lá, Cindy Lauper, várias coisas dos anos 80 que vinham com essa estética um pouco. Então acho que acabou vindo naturalmente como nossa referência de coisas animadas, coloridas e interessantes para se fazer eletronicamente.

E de onde você tiraram o nome do projeto?

Eu queria fazer um nome que tivesse cara de que era uma coisa em português, mas que não fosse, e que a pessoa olhasse e falasse: "Cara, o que é que é isso?". Aí eu comecei a pesquisar nomes de ilhas no planeta. Achei uma ilha grega que se chamava Fira (é a capital de Santorini, ilha na Grécia) e Banaba é uma ilha da Polinésia. E aí eu juntei esses dois nomes, porque eu achei que o nome composto dava um caráter quase como se fosse um personagem, o Fira Banaba. Sei lá por que ele virou O. Não entendi direito ainda o gênero dele, eu tenho falado que é "ele", mas sei lá. E aí ele virou uma entidade, tem nome e sobrenome, e não é a gente, é essa coisa. E aí legal, porque tem uma sonoridade que parece português, só que não é nada.

O repertório é todo autoral?

É. A gente tem vontade de fazer versões, mas não fez ainda, por falta de tempo. Temos canções e tocamos umas coisas mais abertas de fragmentadas de levação de som, de ficar experimentando os sons na hora. Tem uma coisa forte de canção também, mas com esse pensamento de ser tudo mais simples.

Eduardo Manso (esq.), Nina Becker e Alberto Continentino. Foto: divulgação/Pedro Henrique. Arte: Lelê

Paralelamente a isso, você tem várias outras coisas. Não tem muito tempo você fez o show da Dolores Duran…

Pois é, dei uma ressuscitada nesse show.

Tem o 'Acrílico', que também não tem tanto tempo assim que você lançou…

Não, pois é, eu lancei no final do ano retrasado…

E aí como é que está? Você está pensando num disco novo?

Estou pensando num disco novo, mas é muita coisa. Fora que eu tenho cinco trabalhos: eu trabalho na Fábula (marca de roupas infantis, na qual é diretora de arte), faço cenário para outros artistas e empresas… Eu lancei o 'Acrílico' num momento um pouco complicado, eu não consegui trabalhar direito esse disco. Era um álbum de banda, aí tinha muito convite para fazer o show sem poder levar ela toda, isso me desanimou um pouco. Eu preferi não fazer o show do que fazer só com guitarra e bateria, porque o piano era superimportante. E acho que eu lancei também num momento em que estava mundo meio deprê, sei lá. Eu meio que fui desencanando. Volta e meia alguém me escreve falando: "Nossa, eu ouvi o 'Acrílico' outro dia, é muito incrível." Eu acho que é um álbum que tem uma vida mais longa, mais espalhada, não é que  todo mundo vai ouvir no lançamento e sair curtindo. É uma outra história. E tudo bem. E eu também não gosto de ficar muito tempo no mesmo assunto, eu vou enjoando e querendo pensar em outras coisas. Esse lance da Dolores, eu recebi um convite para tocar num evento, no lançamento do DVD do programa "Cantoras do Brasil" — que inclusive foi por causa desse programa que eu gravei o disco, e programa existe porque eu gostava da Dolores e sempre tocava uma música da Dolores no meu show. Elas viram e tiveram vontade de fazer o programa por causa disso (risos). Aí elas me convidaram para tocar no show de lançamento do DVD (dia 26 de julho, no Centro da Música Carioca Artur da Távola), eu tive que reensaiar o show, aí eu falei: "Já que eu reensaiei, eu vou fazer de novo." E aí estão pintando algumas apresentações por causa disso e estou superanimada, eu amo esse show, quero fazer ele para o resto da minha vida, porque é muito legal, as pessoas curtem. Eu estou pensando em outro disco, mas meio sem pressa, uma coisa para produzir no ano que vem. Estou num processo de construção do que vai ser, como eu vou fazer.

Você pensa em fazer shows do 'Acrílico', uma turnê meio tardia? Alguns artistas fazem.

É, eu pensei em fazer depois um vinil, talvez. Só que, realmente, eu trabalho muito, e não tenho tempo de fazer tudo que eu queria, entendeu? Então eu vou meio que seguindo o fluxo. Em geral, as coisas que dão certo na minha vida são as que eu não planejei e que vão rolando sem pensar muito. Pode ser que eu role, eu gostaria de fazer alguma coisa do 'Acrílico'. Mas a gente está num momento muito complicado para a cultura. E foi um disco feito com uma megainfra, porque teve patrocínio da Natura Musical, e eu não tive como seguir com isso, manter a formação da banda. Um monte de festival que existia não acontece mais, não tem mais verba, toda essa cena bizarra que está acontecendo na música e na cultura em geral teve um impacto muito complicado para alguém que está começando a trabalhar um disco. Eu fiquei muito mal também, no ano passado. Primeiro, com as eleições. No início do ano passado, eu perdi meu tio, que era como se fosse um pai, e logo depois o Miranda (Carlos Eduardo Miranda) morreu e eu fiquei muito mal com a perda dele. Fiquei digerindo isso também, não estava com muita energia para sair correndo atrás de um monte de coisa. Então sei lá, pode ser que role. A gente vive também um momento que não tem muita gente conseguindo e querendo trabalhar como empresário vendendo show, porque é difícil. Eu não tenho tempo de ficar vendendo show. Então a gente faz as coisas que rolam, que estão fluido. E o que não está fluindo a gente vê, de repente acontece depois, assim como a Dolores está rolando agora, de novo, incrível. Nunca imaginei que isso fosse acontecer, mas estou superfeliz.

E ainda teve aquela história do Callado, li uma entrevista em que ele contava que passou por uma coisa punk, isso com certeza foi mais uma coisa que afetou você, né (o também cantor e compositor, ex-marido de Nina e pai de sua filha, contou ao jornal O Globo que teve que enfrentar o alcoolismo)?

Na verdade, isso rolou há um tempão, quando a Cora era bem pequena. Isso certamente me afetou. Foi na época da Dolores, o disco ('Minha Dolores', de 2014) fala muito sobre isso, porque a gente estava se separando na época, e aí o álbum com as músicas de dor de cotovelo todas… Foi difícil, mas foi uma construção bonita também. Achei superimportante ele expor isso e se posicionar em relação a isso, se abrir e poder falar sobre isso com sinceridade e honestidade, porque muita gente passa por isso e ninguém gosta de falar. Eu acho que ele deu um exemplo superlegal de tratar isso como uma coisa que é supercomum. E foi uma batalha para a gente, mas, hoje pensando, foi muito legal, a gente foi muito corajoso, e aprendeu e cresceu muito nesse processo. Porque, quando a gente se separou, eu fiquei pensando: "Bom, está um problema, eu não posso confiar cem por cento nele, porque ele está com essa questão de saúde séria, mas ele é o pai dela, né? Não vou banir ele da vida dela." Então eu tive que trabalhar muito em mim também uma coisa de confiança e de valorizar a presença dele na vida dela. Então, com todos os perrengues, nós continuamos fazendo programas juntos, nós três, às vezes nós quatro — eu, ele, ela e o Duda (Mello, produtor, engenheiro de som e marido de Nina). Um trabalho de inclusão, a gente não brigar na frente dela… E eu acho que deu certo, porque ele conseguiu superar o lance, ele está há muito tempo já sem beber, está muito saudável, produtivo, presente. É ultrapresente, eu confio nele cem por cento. Acho que, de todos os pais que eu já conheci na minha vida, no meu círculo de amizades, e de pais de amigos da Cora e da minha família, é o pai mais presente que eu já vi. Não temos babá, e só eu e ele que buscamos na escola, damos comida, damos banho. Cara, é muito maneiro. E a gente é muito amigo, a gente estava agora conversando, se fala todo dia. É tão bonito. Achei maneiro ele compartilhar. Quando saiu a matéria, ele ficou preocupadão: "Será que você vai ficar chateada de eu ter falado?". Mas eu sou muito a favor das pessoas serem sinceras, porque isso melhora tudo para todo mundo.

Ele deve ter tirado um peso de esconder uma coisa…

É, acho que ele não escondia, mas acho que ele também…

Não escondia, mas talvez só os amigos soubessem. Expor assim…

É, para as pessoas entenderem, também. Porque, a partir do momento que elas entendem que ele tem essa questão, elas podem ajudar.

Sim, e as pessoas são complicadas com a coisa do álcool, é difícil elas entenderem quando alguém não bebe, seja porque não quer ou porque não pode. 

No começo, eu achava que era falta de amor, falta de consideração. Eu não entendia que era uma coisa que ele não conseguia dar conta.

Porque deve ser difícil de entender o limite, a diferença de quando a pessoa está sendo irresponsável ou quando é uma doença.

Exatamente, esse limite da responsabilidade. O que me ajudou muito foram pessoas que sacaram e vieram comentar comigo: "Ah, meu pai tem isso", "Eu tenho um irmão que tem isso"… Um monte de gente que tem casos na família e que veio compartilhar comigo, dar apoio. E, cara, é uma quantidade absurda de pessoas que vive isso e isso não se fala, fica meio oculto. Existe uma galera vivendo isso, então acho maneiro compartilhar.

Até para deixar de ser um estigma, né? Acho que tira um peso de todo mundo que tem quando alguém conhecido se expõe.

E acho que o Marcelo é um puta exemplo. Porque, embora ele tenha tido esse problema, ele nunca chegou atrasado no trabalho, ele nunca chegou num show e errou tudo, nunca deixou ninguém na mão. É o exemplo de uma pessoa que consegue ser produtiva, sem deixar a peteca cair totalmente. Mesmo quando ele estava no pior momento, estava produtivo, fazendo as coisas dele e correndo atrás e dando atenção para a Cora. E aí você começa a entender que várias pessoas que são produtivas e capazes e tal também podem estar tendo esse problema e você nem sabe, nem sonha. Porque não é aquele estereótipo da pessoa que está largada, na rua.

Muito madura a forma de vocês lidarem com tudo isso.

Acho que é muito amor. Eu amo ele, virou outra coisa. A gente é muito amigo, continua sendo uma família. Tenho um amor profundo por ele, quando tem alguma crise, qualquer coisa, eu converso com ele, é meu melhor amigo. E é tão bom ter isso, faz um bem enorme para a Cora, ela sente que está junto, próximo, apoiando ela, está presente. E achei legal ele expor também por conta disso também, para ele mostrar a importância da gente estar junto nessa. Não é: "Ah, o problema é seu, vai se tratar." Não, eu estou aqui junto, para ajudar.

Mudando de assunto, e a Orquestra Imperial? Está meio sumida…

Aconteceu uma série de coisas. Primeiro que todo mundo está mais velho, cheio de filho, cheio de trabalho, e não tem mais tanta disponibilidade. Segundo que, quando o Nelson (Jacobina) morreu (em 2012), já deu um certo desânimo. A gente tinha acabado de fazer um disco, e ficou todo mundo triste, foi duro o processo. Aí depois, quando morreu o Seu Wilson (das Neves, em 2017), já rolou um outro desânimo. Aí a Talma (de Freitas) e o Rodrigo (Amarante) foram pra Los Angeles, o Moreno ficou um tempo em Salvador. Ficou tudo mais difícil. E aí está todo mundo trabalhando muito, é outro momento da vida, sei lá, então eu acho que é natural. As pessoas falam: "Ah, a Orquestra acabou?". Não, a Orquestra não vai acabar nunca, eu acho. De vez em em quando vai rolar, quando, mas não tem dado, sabe? E também já passou muito tempo, não tem mais tantos shows pra fazer, a gente já fez tudo. Nunca foi o foco principal da vida de ninguém que a Orquestra bombasse, virasse um trabalho… Não houve esse esforço. Então, tudo bem. A gente até estava falando de fazer uma temporada em janeiro, mas precisa estar todo mundo aí, vamos ver. Mas a gente vai continuar todo velhinho fazendo show da Orquestra. 

Eu lembro de vocês falarem que era tipo a pelada…

É, é isso também pra não dar muito trabalho, pra se divertir. Se começar a dar trabalho demais, perde a graça.

Você estava falando disso de estar difícil ser artista neste momento, e a gente toda hora tem um exemplo disso. É uma coisa que influencia você na hora de compor? Isso acaba passando para o seu trabalho ou não?

Diretamente, não. Eu não estou mudando meu modo de compor porque eu preciso fazer um esforço maior para as pessoas gostarem ou porque eu ache que precise falar sobre tudo que está acontecendo, necessariamente. Para o artista hoje em dia só o ato de sobreviver neste cenário já é um ato de resistência. Conseguir viver de arte hoje já é um ato de resistência sinistro, então não me sinto moralmente compelida a ter que falar sobre isso na minha música, embora eventualmente eu até fale. Porque isso é natural, eu falo inspirada pelas coisas que acontecem no dia a dia, e isso acaba aparecendo, como outros assuntos. Diretamente, não, mas acaba influenciando, no sentido de que acabo trabalhando mais com outras coisas, então eu tenho feito menos música, de alguma forma eu não tenho feito tantas músicas como antes. Mas acho que, como tenho outros trabalhos —  graças a Deus eu sempre tive essa outra opção, sempre tive, agora estou mais ativa na outra do que música, no sentido do dia a dia: embora eu seja produtiva, as horas do meu dia são muito mais ocupadas com as outras coisas —, tem uma coisa também de: já que eu não estou fazendo isso pra sobreviver, então eu quero é ser feliz, não preciso agradar ninguém, não tenho cliente, patrocínio, ninguém para dizer o que eu tenho que fazer e o que não fazer. Isso dá uma liberdade também, é uma coisa reconfortante. Eu vou ser feliz, então isso é bom também. No Fira Banaba a gente tem uma música que fala de batata-frita, e estou achando isso maravilhoso.

Você é uma artista que está sempre compondo ou compõe quando chega e para: "Ah, vou fazer um disco"?

Eu não costumo compor solto, não. Normalmente, componho quando tenho um prazo para entregar alguma coisa. De vez em quando, até rola, tem uns momentos de mais inspiração. O lance é que eu só consigo compor quando estou sozinha, o que é raríssimo. Tendo filho pequena e sendo casada, realmente, são momento raros. as agora estou desenvolvendo esse método de compor via Zap que está sendo bem bom. Eu componho muito no Uber, que estou sozinha. O Alberto manda a base, eu mando a melodia, e depois ele manda a base com a melodia, e eu mando um pedaço da letra, por Zap. Mas eu não muito assim de muita profusão de composições, eu vou fazendo o que precisa, não tenho assim uma caixa cheia de músicas guardadas.

Até porque, com você trabalhando em outras coisas…

Pois é, não sobra muito tempo e energia para isso. Essa coisa da maternidade, também é muito… Eu fiz essa opção, de ser uma mãe presente que leva e busca a filha na escola. Então, enquanto eu tiver que fazer isso, vou ter sempre menos tempo (risos). Mas tudo bem também. Eu faço o que precisa. O lance do prazo me ajuda muito. Aprendi a trabalhar assim, comecei fazendo assim no cinema, e aprendi a trabalhar com essa dinâmica. Quando precisa, vou lá e faço. É ótimo, dá supercerto. 

De uns tempos para cá, a gente está com um foco nas cantoras que são compositoras. Não que elas não existissem, sempre existiram, há muito tempo — pelo menos desde a Chiquinha Gonzaga —, mas sinto que a gente passou a dar mais espaço para elas. Como você vê isso, sendo uma também?

Acho importante. O Brasil é um país de cantautores, e isso não acaba nunca. A gente tem esse veio muito forte. Toda hora aparece mais uma cantora compositora incrível. Eu estou impressionada. Agora tem a Josyara, é um negócio incrível, tem a Juliana Perdigão, Aninha Frango Elétrico. São um reflexo dessa nossa tradição. E que sempre teve. Ainda acho que o mercado, talvez até inconscientemente, ainda priorize muito bandas de meninos e tal, mas acho que isso vem mudando radicalmente e numa velocidade estonteante. Amanhã já não vai mais estar igual a hoje. Acho maravilhoso esse reconhecimento, porque nunca se falou sobre isso. Mesmo na época da Marina, quando ela apareceu, ninguém ficava falando: "Ah, ela compõe também." Era uma nova cantora, ninguém ficava pensando se ela compunha as músicas que cantava ou não. É muito legal as pessoas falarem sobre isso.

Muda até um pouco as letras em si, as composições. Há uns anos, a Letícia Novaes, antes de ter o Letrux, falava: "A maioria das músicas da MPB era escrita pra mulheres, as pessoas estão menos acostumadas quando é um muso homem." E, se a gente for parar para pensar, realmente, tem a Rita Lee, aquela série de músicas que ela fez para o Robertotal, mas a gente se acostumou com cantoras e compositoras fazendo aquelas músicas sem gênero, que você fala de amor sem dizer para quem é.

Tinha sempre essa questão do gênero, se a música estava composta no masculino, será que eu mudo pro feminino, né?

Sim, e as músicas que falam de amor e que você não percebe se estão falando para um homem ou para uma mulher. E acho que agora agente tem de tudo…

Tem de tudo. E a gente está vivendo uma abertura imensa e, ao mesmo tempo, um movimento ultrarretrógrado, né? É muito louco. Como dizem por aí, quem disser que está entendendo é porque não está entendendo nada (risos). Quanto mais se abre, mais a gente vê o movimento contrário, em certos setores e instâncias, então, sei lá, tomara que no final dê tudo certo (risos).

Vai lá:
Fira Banaba
Quando: Domingo, 29 de setembro, às 17h
Onde: Audio Rebel. Rua Visconde de Silva, 55 – Botafogo
Quanto: R$ 20

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.