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'Não precisam dar voz para a periferia, mas os ouvidos', diz Edgar

Kamille Viola

29/11/2019 13h20

Edgar já tinha uma carreira de oito anos e três álbuns quando chamou a atenção de Pupillo, então baterista da Nação Zumbi e produtor musical, ao participar do programa 'Manos e minas'. Eles começaram a trabalhar no quarto disco do rapper paulista, que sairia em 2018 — alguns meses antes, no entanto, ele chamaria atenção na faixa "Exu nas escolas", canção dele e de Kiko Dinucci gravada por Elza Soares, em que canta com a diva.

De lá para cá, sua música passou a chamar cada vez mais atenção. Depois de lançar o disco, vem rodando o Brasil em alguns dos eventos mais importantes do país. "Está sendo uma parada que está em expansão, cada vez mais. Eu estou gostando muito, estou aproveitando", comemora Edgar, frisando que procura manter o ego sempre sob controle. "Tento ser o menino que eu sempre fui", resume.

Ele se apresenta este sábado na Fundição Progresso, de graça, como atração do Mimo Festival. Depois de ter sua edição carioca cancelada no ano passado, o evento está de volta à cidade.

Você já tinha uma história quando lançou o 'Ultrassom', o seu quarto disco. Mas foi um que teve mais visibilidade, que você ficou mais conhecido do público e você está se apresentando em vários eventos importantes pelo país. Como é que está sendo essa fase pós lançamento do ultrassom?

Eu tenho gostado muito, porque eu estou conseguindo não só trabalhar a música, mas também nas artes plásticas, figurino, direção de show. Tenho colocado outras ideias também no palco, em vez de só reproduzir o disco. Tem sido bem interessante, uma faculdade.

Como é para você, que foi por anos um artista independente, ter sua visibilidade crescendo dessa forma?

Para mim está sendo acho que satisfatório. Eu tento não me iludir muito, que nem eu sempre fiz. Desde 2009 eu já venho fazendo. Antes de conseguir ser convidado para festivais com passagem aérea e hospedagem pagas, eu sempre fui para os lugares. Fiz show em Minas, Recife, Rio Grande do Norte desse jeito, de custear da mesma forma, pedir carona chegar nos lugares para me apresentar. Hoje é uma outra maneira, uma outra realidade. Tem sido muito legal. Ontem eu recebi o Prêmio Zumbi dos Palmares (da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), para personalidades negras que lutam contra o racismo. Estou fazendo meu terceiro desfile também, com as roupas que eu uso no show — o segundo na Casa dos Criadores, mas é o terceiro desfile. Estou como curador do palco da TNT que está tendo num evento de moda também, indiquei cinco artistas. Está sendo uma parada que está em expansão, cada vez mais. Eu estou gostando muito, estou aproveitando.

Você falou que segue tentando não se iludir. A vida artística é muito diferente das outras profissões. Acha que é difícil a questão do ego quando se é artista, quando se tem seu trabalho reconhecido?

Acho que sim, é o que eu tento trabalhar todo dia. Que é essa ideia de não se iludir na questão do ego. Tento ser o menino que eu sempre fui. Acabei de tirar uma foto com uma menina agora que me reconheceu na rua. E sempre na mesma verdade, na mesma batida, mesmo BPM de realidade que eu vivo. Já passei várias situações para as quais pretendo não voltar. O ego às vezes é o buraco que pode me arrastar para esse lugar aonde eu não quero ir, que eu posso ficar arrogante, posso ficar todo cheio de mim, que é uma parada que pode me confundir… Tem artistas que eu vejo que são donos da razão. Não escutam as outras pessoas, não conseguem olhar para o lado. É uma coisa que eu evito. Quanto mais eu ficar famoso, mais eu for subindo os degraus da música brasileira, mais eu quero descer esses degraus para encontrar as pessoas que são como eu era no começo da minha carreira. Essas pessoas têm muito o que dizer, as que estão lá no fundo, que estão fazendo o trabalho delas. A necessidade de se expressar, pelas coisas que estão acontecendo à volta. Quanto mais eu vou sendo retirado da minha realidade, que é a periferia, as músicas vão se alterando também. Porque alguns músicos que eram de periferia a letra deles nem fala mais de lá, já fala de uma outra coisa, de um outro lugar. Que eu ainda não acessei, e eu acessando quero também voltar para encontrar essas pessoas que são iguais a mim, que ainda têm muito o que falar.

Você não mora mais na periferia?

Eu não moro mais em Guarulhos (SP). Eu divido uma casa agora na Praça da Árvore, agora eu estou me mudando para o Alto do Ipiranga. Mas a minha mãe ainda mora lá na periferia de Guarulhos, na Favela do Coqueiro. Tento visitar ela o máximo possível para não perder as raízes também. Mas, como a vida tem rodado em São Paulo — tem que fazer reunião, eu estou participando da direção de arte do espetáculo sobre o Itamar Assumpção, que vai estrear agora no Sesc Pompeia ('Pretoperitamar — o caminho que vai dar aqui', idealizado por Anelis Assumpção), fiz esse desfile na Casa dos Criadores, fiz a curadoria do Palco TNT, são muitas coisas ao mesmo tempo. Tem uma demanda em que eu preciso estar em São Paulo diariamente. Aí eu fiz uma conta de quanto eu estava gastando de transporte, de ônibus, saindo de São Paulo para Guarulhos, era quase o preço do aluguel de uma casa em São Paulo. Eu pensei: "Pô, por que não?".

Você falou sobre essa questão do ego, mas, ao mesmo tempo, sendo uma pessoa negra no Brasil, é muito importante cultivar a autoestima, né?

Sim, eu cultivo a minha autoestima, mas não o meu ego. Ele é uma coisa que eu tento observar bem para saber o que não fazer com ele. Saber quando utilizar. O ego tem o seu lado bom, sim, que é a autoestima. Mas ele também é traiçoeiro, né? E total: hoje em dia eu sei muito do meu potencial, do meu valor, e cada vez tendo mais consciência do que eu sou, do que eu posso fazer e da qualidade do meu trabalho.

Você é um artista com um trabalho que vai além da música: você tem relação com as artes plásticas, performance. Qual a importância das outras artes para o seu trabalho na música?

Ela não fica unilateral. Imagina você botar aqueles óculos de realidade aumentada e assistir um filme onde você é o personagem principal. A minha arte vai bem para esse lugar: dimensões. Eu tenho a trilha sonora do espetáculo, mas o meu show também também pode ser uma peça de teatro com a trilha que eu reproduzo do disco. Cada vez mais híbrido e entendendo isso. Então eu faço uma roteirização do show, penso em performances que podem elevar o nível do entendimento das canções. A corporalidade é uma coisa que estou tentando entender mais agora também, do gestual, conseguir trazer mais essa potência de entendimento também. Num show na França que eu fui fazer, as pessoas não entendiam o que eu falava. Então eu tinha que ter uma expressão corporal que fizesse elas compreenderem. Eu fui e engoli quase 13 sacolas plásticas e comecei a vomitar elas no meio do palco antes de cantar a música "Plástico". É como se eu colocasse a realidade em excesso, como se ela fizesse um contraste mais forte. É o que eu tenho trabalho. As outras artes conseguem fazer isso comigo.

Para você, qual a força e a importância da arte e da cultura surgidas na periferia? No Brasil essa expressão é muito grande, né?

Total. Sabe qual a importância? Não precisar de uma gravadora grande para fazer a melhor música, ou de uma câmera de cinema para fazer o melhor filme.

Por que você acha que a nossa periferia produz tanto?

Porque ela sofre. Porque ela é criativa. Porque ela necessita de expressão. Tem gente que precisa dar voz para a periferia. Mas, na verdade, essas pessoas que acham que precisar dar voz para periferia precisam é dar os ouvidos delas para a periferia. Ela está gritando a todo momento.

Estamos em um momento em que está tendo visibilidade para os artistas negros na música, de diversos estilos musicais. Como você vê esse momento?

Eu acho que não tanto o Brasil. Quando fala "o Brasil", eu acho meio engraçado. Na realidade, é o sul do país. O Brasil sempre teve músicos negros muito fortes. Subiu para Pernambuco, você vai ter a Lia de Itamaracá, que é um ícone. Você vem para o Maranhão, tem o Edson Gomes, que é outro. Você vai para a Bahia, tem o Gilberto Gil, outro ícone. Todos eles sempre foram pretos. Ou o Brasil começou a olhar para eles como negros agora? No sul, talvez a indústria do sertanejo, com a indução do Gugu, os showmícios de políticos, trazendo essa questão do branqueamento da música brasileiro, fica mais claro. Mas ela sempre foi uma coisa muito escura. Sempre teve Elza Soares, Emílio Santiago. Sempre teve artistas negros fazendo o que fazem. A visibilidade é no olho de quem vê, sabe? Acho que as pessoas tampavam os olhos a esses artistas. Não deixava eles atuarem como atuam hoje em dia, como uma Xenia França, uma Luedji Luna na capa da (revista do) Boticário, da Avon, a Tássia Reis. Esses artistas agora têm mais voz, sim, no sul. Karol Conka, que vem dominando uma cena muito forte. Rincon Sapiência, que vem colocando sempre essa questão de "pretas e pretos estão se amando". É a mesma coisa que dizer: "Ah, a questão indígena no Brasil agora está muito em alta." Como assim? Sempre esteve, desde 1500 estava em alta. Agora que vocês estão dando bola e querendo falar sobre. Entre eles, a galera já está preocupada em demarcação de terra faz tempo.

E o rap cresceu muito, no país e no mundo — onde é o estilo musical mais ouvido. Como você vê a cena atualmente?

Eu acho a cena do hip hop muito forte. Dinheiro na cena do hip hop agora que está entrando, mas ela se fez nas ruas. Desde 2009 eu faço rap em praça, em batalha de MC, roda de freestyle, evento da comunidade. E nunca tinha dinheiro envolvido. O único rap que está nas casas de shows era o Racionais MC's. E se limitava muito a eles — acho que o Marcelo D2 deve ter sido um dos que mais ganharam dinheiro também, fazendo rap, talvez. Ele teve essa sacada de misturar com samba, que fez uma galera perceber: "Nossa, o rap é música!". Se você for prestar atenção, o rap traz muita potência para quem é músico, de perceber que às vezes duas notinhas que você ali no piano, se você 'loopar' elas, você tem uma base perfeita. Também a noção de que tudo já está pronto, todas as músicas já estão feitas, é só reorganizar a ordem delas. O sample. Pegar o começo da bateria da música do Jorge Ben, o violão Antonio Carlos e Jocafi, uma linha de baixo do Charles Mingus de um solo dele ao vivo, misturar tudo e você tem uma música nova, numa fusão muito foda, com alguém querendo fazer um desabafo do que está acontecendo na sua realidade. O rap é muito potente. E ainda bem que agora ele consegue ganhar visibilidade dentro de casas de show, programas televisivos, sites, revistas e tudo mais. O que eu entendo por fazer rap, há dez, é que ele nunca precisou disso para se validar.

E como é para você se apresentar no Rio? Você tem alguma relação com a cidade?

A relação maior que eu tenho com a cidade é a Elza Soares, é uma relação muito forte, estou indo praí também para poder encontrar com ela. Eu não ia muito ao Rio, não tinha muito o que fazer na cidade, sempre fui mais para o Nordeste, mesmo o Rio estando muito perto de São Paulo. Mas acho que é um lugar que tem muito artista foda, escondidos no Baile da Colômbia (no Complexo do Lins), no Baile da Gaiola (no Complexo da Penha). E eu não estou falando só de funkeiros, não. Estou falando de vários outros artistas que fazem corres muito incríveis. Tipo a produtora Akasha, que faz desde artes plásticas a editoriais de moda. Na periferia deles, no morro, pegando a galera preta, vestido de rede que eles acham dos pescadores e transformam em looks. Cada ida ao Rio de Janeiro é uma descoberta fantástica. Madara Luiza, que faz cinema negro, faz uma galera. A própria Doralyce e Bia Ferreira. Esses dias eu fui ao Rio só para encontrar com elas, era aniversário de Doralyce, onde eu conheci Janamô, que participa do musical 'Elza'. Conheci Luellen (de Castro), nossa, que cantora fantástica! Mandou uma letra lá falando que o povo está se matando para saber quem é mais preto. Nossa, achei lindo! Tem muito artista aí incrível, e ainda bem que a maioria (dos trabalhos) é feita por mulheres pretas, que são a minha base na vida: vim de uma, quero ter outra. É essa minha relação com o Rio: muitos artistas fantásticos, fantásticas e fantástiques.

Vai lá:
Mimo Festival
Quando: De 29 de novembro a 1º de dezembro
Onde: Fundição Progresso e Museu da República (shows) e Cine Odeon (filmes)
Quanto: Grátis

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.

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