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'Amor é amor, e não interessa o que tem por baixo da roupa', diz Ana Vilela

Kamille Viola

10/01/2020 13h35

Ana Vilela canta de graça no domingo. Foto: divulgação/Som Livre

Ela estourou com apenas 17 anos, quando uma música que postou no YouTube se tornou sucesso estrondoso. "Trem-bala" hoje tem mais de 150 milhões de visualizações e sua autora, a cantora e compositora Ana Vilela, 21, acumulou alguma estrada. Em agosto do ano passado, ela lançou seu álbum mais recente, 'Contato', o segundo de sua carreira, com o qual está em turnê atualmente.

Produzido por Fernando Lobo e Juliano Cortuah, o disco traz uma sonoridade que vai além do pop-folk fofinho que consagrou a cantora, com o uso de batidas eletrônicas. "O 'Contato' é um disco que trouxe as mudanças que eu achei necessárias para a minha carreira, para o meu trabalho, para aquilo com que eu me identifico hoje. E eu tive muito receio mesmo do público, da galera não aceitar muito bem o álbum, até porque ele tem uma outra pegada, um pouco mais pop", admite a cantora.

O repertório do disco poderá ser visto este domingo no Claro Verão Rio, na Casa de Cultura Laura Alvim, onde Ana apresenta um pocket-show gratuito. Assumidamente lésbica, casada desde 2018 com Amanda, ela conta que representar a comunidade LGBTQ+ é algo muito natural. "O que eu tento passar e mostrar sempre, inclusive mais para os meus fãs que não se encaixam na comunidade LGBTQ+, é que é normal", diz. 

Ana conta que o feedback vem não só de seus fãs LGBTQ+, mas também daqueles que contam que tinham preconceito com a homossexualidade e mudaram sua visão. "E isso é muito bonito também. Eu recebo muita mensagem falando: 'Eu pensava N coisas sobre a comunidade LGBTQ+, sobre os homossexuais, depois comecei a seguir você, acompanhar seu relacionamento com a sua esposa, a minha visão mudou.' Essa vivência é importante", avalia. 

O show é de graça, como é para você fazer esse tipo de show?

Cara, eu me amarro. Acho que a proposta do evento tem tudo a ver com o verão. Eu acho gostoso demais, eu me importo muito com o ambiente do show, acho que faz muita diferença na hora de tocar, e é muito gosto quando é assim, quando tem essa vibe boa de todo mundo.

Você morou aqui no Rio. Ainda está em Londrina?

Não, eu estou aqui no Rio de novo, inclusive. Desde agosto.

E como está sendo? Eu entrevistei você no início do ano passado, e você falou que tinha voltado para Londrina porque queria ficar perto dos seus avós e morar num lugar menor. Como foi a mudança de volta para o Rio? Foi a carreira que exigiu?

Foi, foi. Na verdade eu troquei de empresário, e aí acabou que a minha operação ficou toda concentrada aqui no Rio. Eu acabei tendo que voltar. Mas eu gosto muito daqui, sou apaixonada.

De lá para cá, você lançou um disco novo. Como está sendo a turnê do 'Contato'? Porque às vezes os fãs são apegados a músicas antigas…

Nossa, está sendo muito tranquilo. O 'Contato' é um disco que trouxe as mudanças que eu achei necessárias para a minha carreira, para o meu trabalho, para aquilo com que eu me identifico hoje. E eu tive muito receio mesmo do público, da galera não aceitar muito bem o álbum, até porque ele tem uma outra pegada, um pouco mais pop. Mas a recepção está sendo incrível, as pessoas estão gostando muito, estão elogiando bastante o trabalho e acho que entenderam a proposta, não ficou parecendo muito distante do que o primeiro disco foi.

Rolou aquela pressão de segundo disco? Você sentiu?

Eu acho que mais da minha parte para comigo mesma do que das pessoas. Eu me cobro bastante com relação a isso, eu acho que eu queria entregar um trabalho que realmente disse que, poxa, eu não sou só o primeiro disco, eu não sou só "Trem-bala". Dentro de mim, eu tinha muito mais o que provar do que para as pessoas, né? Mas foi incrível, a recepção foi muito, muito boa, muito melhor do que a gente imaginava, graças a Deus.

Outra coisa que você tinha me dito, quando eu entrevistei você, é que você se cobrava fazer outra "Trem-bala", ou seja, um supersucesso como essa música foi e é. Como está isso? Conseguiu relaxar, abrir mão disso?

Eu acho que é um processo natural. Eu acredito que quando a pessoa passa — principalmente na idade que eu passei — por tudo que eu passei com a música, é muito intenso, e a gente tem muitas questões que a gente mesmo não entende. Então, para mim foi um processo muito natural: parar de criar expectativa em cima disso como se fosse uma obrigação, sabe? Claro, eu dou o melhor sempre no meu trabalho, nas composições, mas não necessariamente buscando outra "Trem-bala". Até porque ela é muito única, conforme o tempo foi passando, eu fui entendendo isso. A "Trem-bala" é muito mais do que só uma música para as pessoas. As opiniões que eu escuto, as histórias que eu ouço, ela acabou virando uma coisa muito maior, onde as pessoas buscam conforto e tal. Então acho meio difícil até buscar reproduzir isso, porque foi uma coisa muito natural, espontânea.

E tem alguma história que você possa contar, que tenha impressionado você, de alguém com a música?

Ah, tem várias histórias incríveis. Eu brinco sempre com os meus amigos que a gente podia fazer um filme só com as histórias das pessoas contando como elas conheceram a "Trem-bala", porque são muito bonitas. Tem histórias felizes, tristes, de gente que lembra de alguém que foi embora ou de alguém que gostava muito da minha música e veio a morrer a pessoa guardou isso como uma lembrança boa. Também de gente que entrou no casamento com a música. São muitas histórias. Acho

que eu não tenho como, hoje, escolher uma para contar, seria muito injusto. Mas todas são lindas.

E você teve seu momento youtuber, você passou um tempo fazendo o 'Cafofo da Ana' (série no YouTube). Como foi para você essa experiência?

O projeto do YouTube é uma coisa que está meio na geladeira por enquanto, porque eu estou muito ocupada com todo esse reposicionamento, mas é uma coisa que não saiu do meu campo de visão, das minhas possibilidades. Eu sempre gostei muito de YouTube e tenho muita vontade de voltar a fazer. A gente inclusive tem se movimentado nesse sentido: de montar outro cenário e começar a fazer tudo de novo.

Sua geração tem uma forma de lidar com a sexualidade de uma forma mais livre que as anteriores, me parece. E tem a questão da representatividade, por você ser uma artista que não performa os estereótipos da feminilidade. Você recebe retorno das fãs, dizendo que que você as encorajou de alguma forma? Como você se sente representando um grupo que sofre muito preconceito no nosso país?

Eu acho que é uma posição que, por maior que seja a responsabilidade, o que eu tento passar e mostrar sempre, inclusive mais para os meus fãs que não se encaixam na comunidade LGBTQ+, é que é normal. Que a gente ama, vive, a gente quer ter uma vida normal. Eu inclusive procuro sempre passar isso nos meus clipes. Geralmente me perguntam: "Ah, de onde vem a inspiração para botar um casal lésbico no clipe?". E, na verdade, é uma coisa que não tem de onde ter tirado inspiração, é a minha vida. A minha natureza é: eu sou uma mulher homossexual, casada com uma mulher, então não tem como eu fugir disso ou tentar fazer algum tipo de… Eu não sei bem qual a palavra, mas eu não queria que as pessoas ficassem achando que é para tentar englobar a comunidade LGBTQ+. Não, eu faço parte dela, eu tenho que representar a comunidade. Já que eu tenho lugar de fala, é o meu papel.

E, no seu caso, por causa de "Trem-bala", o público é muito amplo, né? As pessoas que admiram essa música vão de criança até velhinhos…

Com certeza. E eu tenho muito esse feedback também das pessoas que estão do outro lado, que tinham algum tipo de preconceito. E isso é muito bonito também. Eu recebo muita mensagem falando: "Eu pensava N coisas sobre a comunidade LGBTQ+, sobre os homossexuais, depois comecei a seguir você, acompanhar seu relacionamento com a sua esposa, a minha visão mudou." Essa vivência é importante. Passar o nosso cotidiano, as nossas ideias, os nossos amores para que as pessoas entendam que isso é meganormal, que não tem nada de errado, que amor é amor, e não interessa o que tem por baixo da roupa.

Você é supernovinha, fez sucesso com 17 anos, é casada… Sente que tudo isso que aconteceu na sua vida de alguma forma acelerou o seu amadurecimento?

Eu não sei se acelerou. Acho que o processo todo pelo qual eu passei profissionalmente, começar uma carreira com 17 anos de idade, já nos charts, no ponto mais alto onde as pessoas sonham chegar na música, realmente exigiu uma responsabilidade muito grande da minha parte, para entender como lidar com a questão do assédio, da fama, de ter uma empresa, de administrar um negócio que antes não existia, que não era realidade para mim, e que eu nunca fui educada para. Com certeza isso exigiu muito de mim, no sentido de estudar a profissão e de entender como funciona o negócio. E de chegar a algumas conclusões na minha vida pessoal também, entender do que eu estou a fim de abrir mão, do que eu não abrir mão de jeito nenhum, o que vai fazer sentido ou não. Acredito que me ajudou a amadurecer bem, mas não que tenha acelerado alguma coisa. Foi um processo muito natural também.

A fama traz uma exposição grande, que com certeza tem um lado positivo, o que você falou do carinho dos fãs, mas deve ter um lado negativo. Como tem sido lidar com isso, de ter sua vida exposta, de ter as pessoas acompanhado?

Eu sou muito tranquila com isso, na verdade. Eu acho que a gente quando sonha com — e isso foi uma coisa que fez parte da minha vida sempre, esse sonho de ser cantora, de trabalhar com música —, a gente acaba sonhando com as duas coisas: com estar em cima do palco, mas também com as pessoas que vão estar ali assistindo, pedindo foto e tal. Acaba sendo uma coisa gostosa, até. É muito bom, porque eu falo que eu tive a sorte de descobrir e poder fazer o que eu amo fazer com muito pouca idade. E, poxa, se eu estou fazendo o que eu faço hoje é por causa dessas pessoas, que me abordar, que querem saber da minha vida, e é por isso que sai notícia, e é por isso que estão sempre falando. E isso é incrível, acho que não tem do que reclamar, não. É parte da profissão. Óbvio que algumas vezes as pessoas agem de sacanagem mesmo, de má-fé, mas a gente acaba tendo que aprender a lidar com isso também. Não me incomoda, não.

Você tem planos de lançar singles, já tem coisas previstas para este ano?

O planejamento agora é mesmo trabalhar o álbum novo. A gente se dedicou bastante no ano passado a terminar esse disco, que, como eu falei, traz essa roupagem diferente, traz uma Ana que eu acho que as pessoas não conheciam e que tem muito a minha cara, de ser um álbum bem alegre, mais divertido. Então o planejamento para este ano é a gente trabalhar esse disco, de repente desenvolver mais algum outro projeto em cima dessas músicas, mas a proposta inicial mesmo agora, nesse primeiro semestre pelo menos, é continuar trabalhando o álbum. A gente tem alguns clipes para lançar, e é isso.

No disco, você canta com o Vitor Kley e o 3030. Com quem você gostaria de fazer feat? Você já falou que o Ed Sheeran, né (risos)? Tem mais alguém com quem você gostaria de cantar?

Sim, esse é meu sonho impossível (risos). Acho que o Ed é um cara que me inspira muito. Mas acho que hoje, se eu for olhar para o cenário nacional, eu queria fazer um feat que é muito diferente, acho que ninguém imagina também: com o Baco Exu do Blues. Eu acho ele fantástico, é um dos caras que eu mais tenho escutado, acho que seria incrível fazer um feat com ele.

Vai lá:
Claro Verão Rio
Quando: Domingo, 12 de janeiro, às 19h.
Onde: Casa de Cultura Laura Alvim. Av. Vieira Souto, 176/3º andar – Ipanema
Quanto: Grátis

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.

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