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'O artista independente no Brasil está muito estrangulado', diz Wado

Kamille Viola

23/08/2019 14h47

Wado abre noite no Circo Voador. Foto: divulgação/Alzir Lima

Celebrado pela imprensa e o próprio meio musical desde sua estreia solo, o disco 'Manifesto da arte periférica' (2001), o catarinense radicado em Alagoas Wado comemora 18 anos de sua trajetória (antes, ele integrou as bandas Ball e Santo Samba). Depois de lançar o álbum "Precariado", no ano passado — o conceito vem do filósofo norte-americano Noam Chomsky, que classifica como "precariado" o que é produzido no terceiro mundo com mão de obra barata para o consumo nos países desenvolvidos — ele planeja passar um período entre Maceió e São Paulo para ampliar seu público, que ele diz ter encolhido, assim como o cenário da música independente brasileira em geral.

"Eu estava vivendo de música há mais de dez anos, tive que começar a rebolar outras coisas pra conseguir pagar minhas continhas", conta Wado. "Mas eu estou com essa força de menino de novo de tentar ir para o Sudeste, ficar indo e voltando, porque tenho filho, mas estou com esse otimismo de seguir adiante. Porque eu acho que a pertinência do trabalho está aí, mas eu precisava que isso expandisse para mais gente", analisa.

Ele também foi buscar diálogo com as novas gerações: "Precariado" tem as participações de Tuyo (em "Janelas"), Baleia ("Bailar dos barcos"), Peartree ("Janelas") e Teago Oliveira, do Maglore ("Onda permanente), além dos contemporâneos Kassin e Momo, e de seus conterrâneos Reuel Albuquerque (da banda Morfina) e Givly Simons, da dupla Figueroas.

Depois de levar ao Audio Rebel uma versão de seu show com três guitarristas (ele, Kassin e Igor Peixoto, de sua banda), ele se apresenta pela primeira vez no Rio com os arranjos originais do disco, no sábado, no Circo Voador, acompanhado por Vitor Peixoto (guitarra, violão de nylon e voz),  Dinho Zampier (teclado e voz), Igor Peixoto (baixo e voz) e Rodrigo Sarmento 'Peixe' (bateria).  Wado abre a noite, que ainda conta com Arnaldo Antunes.

Você fez um show recentemente no Audio Rebel, né?

Isso. Eu fui produzir o disco de uma cantora, Flora Uchôa, tive que ficar uns dias no Rio, aproveitei e fiz esse show.

Foi o primeiro show do disco aqui?

Na verdade, o show da Audio Rebel foi o primeiro, mas lá é bem pequenininho, intimista. Foi uma apresentação com três guitarras, foi um formato meio maluco. Eu, o Kassin e o Igor, que estava comigo também, tocando. Esse show agora é com a banda mesmo, bateria, guitarra, baixo. Vai ser a apresentação com os arranjos fiéis ao disco mesmo, com o grupo que tocou comigo no álbum.

Eu vi você falando nas entrevistas do lançamento do disco que os artistas têm circulado menos, que você também tem. Você se sente que o mercado independente se retraiu, está mais complicado?

Eu acho que tem algumas coisas dentro desse aspecto. Porque, como eu comecei em 2001, eu já estou na segunda ou terceira geração de fãs. Então os fãs da minha idade estão meio que nem eu: em casa, cuidando de filho (risos), acaba indo menos a show é natural. Teve uma renovação, mas eu sentia o bicho pegar junto com a crise que chegou no Brasil desde o golpe. Com aquilo ali, a gente se viu em crise, e o mercado independente desaqueceu muito. Eu estava vivendo de música há mais de dez anos, tive que começar a rebolar outras coisas pra conseguir pagar minhas continhas.

E o que você está fazendo? Trabalhando como jornalista?

Eu fiquei um tempo no jornal do Collor, como diagramador, mas ele está me devendo um dinheiro também, 16 contos. Até botei na Justiça do Trabalho, ganhei, mas ele não pagou ainda.

Qual é o jornal do Collor?

É a Gazeta de Alagoas. Ele é dono da rádio FM de maior audiência, da (afiliada da) TV Globo e do jornal de maior audiência também.

E hoje em dia, além da música?

Acabou que eu fui diversificando: ano passado eu lancei dois livros, comecei a pintar umas coisas, e esse lance da produzindo. Agora mesmo eu estou produzindo o disco dessa cantora que eu falei, estou nos finalmentes, estou mixando, está bem bonito. É uma estreia bem forte. O pai dela é um dos ícones da geração 80 de pintura brasileira. É maior nome daqui de Alagoas, o Delson Uchôa. Ela vem de uma família de artistas, então tem uma visão bem clara, já está chegando madura, eu acho.

Você sempre desenhou também, sempre teve essa ligação com artes visuais, né?

É, eu sempre gostei. E aí fiz umas três exposições, me rebolo para todo lado para conseguir (risos). Deu uma aquecida agora de novo, eu fiz o circuito do BNB (Banco do Nordeste), rolaram uns shows de Sesc, agora tem o Circo. E, como o meu neném está mais durinho, estou preparando passar mais temporadas no Sudeste, principalmente São Paulo, que é onde está mais a grana. Estou com plano de alugar um quartinho na casa de alguém lá e ficar indo e voltando para restabelecer esses espaços. Porque, por conta de ficar aqui, a gente encolhe um pouco.

É complicado, né? O Brasil é muito grande, e acaba que São Paulo atrai mais a visibilidade.

É. Metade do PIB está ali e fica meio que a vitrine mesmo, está todo mundo… Quem não foi para Portugal está em São Paulo.

É mesmo (risos). É um bom resumo. Acho que pode trocar o "ordem e progresso" da bandeira por isso. E foi isso também acabou te inspirando a buscar no Noam Chomsky o conceito do "Precariado"?

Pois é. Eu acho que é quase uma vidência. Porque eu fiz o disco, lancei ano passado, e cada vez mais a gente está precarizando. Pretendo no ano que vem fazer outro disco até para ver se a gente muda de assunto, porque está difícil. Agora, o álbum tem esses assuntos políticos, mas é um disco de samba que eu considerado irmão do "Samba 808" (2011), que é um trabalho muito bem-sucedido meu. É meio que um desdobramento. Eu fiquei bem feliz com ele. É um disco que, para o meu gosto, eu não preciso passar faixa. Eu fiquei feliz com o repertório inteiro. Eu tenho essa paixão pela música brasileira, principalmente pelo samba e pelo ijexá. Eu tinha feito anteriormente o "Ivete" (2016), que era mais para o axé e para o ijexá, e este para mim é massa. Quando eu me proponho a dar esse mergulho no samba, é onde eu fico mais feliz.

Este disco tem um marco: é o décimo da sua carreira. Além disso, em 2019 são 18 anos da sua carreira, desde que você lançou o 'Manifesto da arte periférica' (2001). É a maioridade do seu trabalho. Como você avalia seu percurso até aqui? Você faz esse balanço?

Eu sou muito orgulhoso e muito feliz das coisas que eu construí. Os amigos que eu fiz de profissão, gente que eu admiro e que acabou virando amiga e me admira também, como o Chico César, o Marcelo Camelo, a Mallu, o Zeca Baleiro, o próprio Kassin. Uma turma que trabalhou comigo, de quem eu já era fã e que acabou que me admiram também. Para mim, é muito legal. Foi além do que eu imaginava que fosse ser. Mas, ao mesmo tempo que tem isso, tem essa questão de que está difícil de viver. Isso me coloca numa sinuca: eu tenho que me propor, me colocar de novo no olho do furacão, ou partir para outra coisa. Mas eu estou com essa força de menino de novo de tentar ir para o Sudeste, ficar indo e voltando, porque tenho filho, mas estou com esse otimismo de seguir adiante. Porque eu acho que a pertinência do trabalho está aí, mas eu precisava que isso expandisse para mais gente. Ficou meio secreto, ultimamente. Deu uma encolhida de mercado para mim.

Você é um artista de quem a crítica e o próprio meio gostaram desde o primeiro momento, né? Seu trabalho sempre foi elogiado. Você esperou que em algum momento fosse atingir bem mais gente?

Essas coisas são cíclicas. O que eu digo é: tem que continuar fazendo. Porque, às vezes, aquilo toca um monte de gente, às vezes toca um nicho só. Acho que ali por volta de 2012, quando eu fiz o 'Samba 808 '(2011) e o 'Vazio tropical' (2013), que foram discos que vieram juntos, mercadologicamente foi quando eu estive maior. Mais o disco seguinte, em que a coisa diminuiu ('1977', de 2015), que era para considerar um erro, eu acho um álbum lindíssimo. Então, não tem erro, tem uma coisa cíclica de interesse das pessoas. Acho que a gente tem que continuar trabalhando. E às vezes se propor a se colocar no eixo, porque senão você acaba virando uma coisa que eu digo de brincadeira que a gente vira minhoca. Porque as pessoas começam a te chamar de "artista da terra". Artista da terra é minhoca, que revira o chão. Para mim, é artista e ponto. Eu fiz e faço as coisas para o Brasil, para circular nele, para rodar. Até porque aqui é um estado pequenininho. Se eu for viver de música aqui, não vou conseguir. Então eu sempre fiz as coisas pensando no Brasil mesmo.

Você já foi contemplado por edital?

Já. Ganhei o Projeto Pixinguinha para fazer o disco 'Atlântico Negro' (2009), depois fiz uma turnê pelo Pixinguinha junto com a Rita Ribeiro (hoje, Rita Benneditto), Totonho e Carlos Malta, em que a gente fez Sul, Sudeste e França — fizemos o Ano do Brasil na França… Depois ganhei um edital para a Alemanha, também, naquela PopCom. Prêmios locais aqui pela Secretaria de Cultura. Eu estou sempre tentando colocar os projetos dentro de algum edital. Mas tem essa coisa, que é natural, porque a gente envelhece e, se você for parar para pensar… Eu fui ouvir o disco do Arnaldo Antunes ('RSTUVXZ ', de 2018), que ele vai tocar com a gente (no Circo). É muito lindo, meio samba, meio rock. Principalmente a metade samba, achei sensacional, os timbres ótimos, tudo o que o Curumin (produtor do trabalho) fez. Mas é difícil você imaginar que uma pessoa diga: "Vou parar para ouvir o décimo disco do Arnaldo, o décimo disco do Wado." É natural que não tenha uma demanda tão grande, e que o consumo maior seja da obra da pessoa, e não um álbum específico. Eu acho que as pessoas para mim já funcionam mais no macro. É o Wado, não é necessariamente o disco da vez. Apesar que eu sempre faço o disco da vez sempre achando que vai ser o maior sucesso, que vai estourar (risos). Aquelas coisas. Você acredita, tem tesão de fazer, de timbrar. Nesse mesmo eu chamei a moleca que está estourando, Tuyo, Baleia. Eu tenho ver o que a molecada está fazendo, me colocar próximo, interagir e entender como é que a turma está timbrando, como é que eles pensam música. Acho que é importante.

Eu ia te perguntar agora dessa galera jovem que você chamou para para participar do álbum.

Pois é. Eu fiz uma assessoria de imprensa com o André Felipe, que é um menino lá de São Paulo, e ele tem um trânsito legal com essa molecada. E eu sempre faço um exercício: toda vez que está fechando um ano, eu faço um apanhadão do que está mais nas listas e ouço tudo, pego uns 50 discos do ano para ver o que está rolando, para eu saber. Porque é o nosso trabalho. Eu preciso saber o que os meus pares estão fazendo. E, a partir dali, eu separo as coisas que eu gosto. Nesse caso do disco, eu chamei e tive sorte que alguns toparam interagir comigo.

Você estava falando que tem que fazer um disco novo para mudar de assunto. Você já tem trabalho novo mesmo, Wado? Ou foi só uma piada?

Eu, na verdade, tinha e tentei, mas desisti. Eu geralmente faço de dois em dois anos, já seria para estar fazendo agora, dentro do ritmo que costumo fazer. Mas eu protelei, porque estou com uma ideia muito maluca, que vai dar muito trabalho. E eu sei que é uma coisa boa, sabe? Ainda estou mais amadurecendo.

De repente, se você estiver nesse trânsito por São Paulo, talvez isso também traga novas inspirações para esse trabalho…

Isso. Eu acho que às vezes é bom também. A maturidade é isso, é você esperar um pouquinho para ter certeza de que aquele é o melhor repertório para você fazer, que o caldo está grosso, está interessante o suficiente para botar na rua.

Você estava falando sobre ter  ficado difícil. Como você vê fazer música independente no Brasil hoje? Como você sente que o artista independente do país está?

Eu acho que está muito estrangulado, está muito encolhido. Esse presidente que a gente tem é péssimo, e ele é declaradamente contra a arte, ele considera supérfluo aqui que é mais bonito, que é o DNA do Brasil, que é a nossa cultura. Acho que um presidente estúpido levar a gente para um lugar magro. A cena está toda estrangulada, pessoas que viviam bem estão vivendo mal. Os artistas que são maiores que nós estão tendo ir para o circuito do Sesc, onde a gente trabalhava, porque eles não estão mais conseguindo.

Foi por isso que você quis também falar de temas mais arejados no disco? Porque ele tem músicas que falam de relacionamentos, de amor…

Exatamente. Ele tem essa doçura também. Ele tem uns assuntos mais áridos, mas tem… Porque eu acho que o terceiro-mundista, como nós somos, a gente é político, mas a gente gosta de farra, de doçura, de carinho, bater papo. Mesmo que o presidente seja essa coisa horrorosa, a gente tem que se divertir. E a gente tem que criticar amorosamente e com doçura. Pelo menos é a forma como eu venho trabalhando, sem ignorar o panorama, mas também falando de alegria, de amor, de doçura, de cotidiano, de tudo.

Você é uma pessoa que fica compondo continuamente? Ou vai esperar para fazer seu próximo disco? Como é seu processo?

Umas coisas acontecem. Tem um lado que as pessoas consideram que eu sou um letrista, que eu tenho facilidade para ser letrista. Então eu acabo fazendo muito a música dos outros, e elas viram minhas também (risos). Eu sou convidado a botar letra em muita música legal de pessoas que eu conheço. Mas eu gosto também de pegar o violão e fazer do zero. Também me amarro nesse processo, de começar eu. Eu tenho umas dez, doze canções prontas, mas o que aconteceu comigo ultimamente foi que eu comecei a estudar os sambas que eu gosto, aqueles mais difíceis, uns acordes mais encrenqueiros. Estou me alimentando de aprender a tocar os sambas mais encrenqueiros que eu gosto em casa. E acho que isso vai me dar uns talheres diferentes para eu compor. Por isso que eu estou segurando um pouquinho, para ver o que sai.

Vai lá:
Wado +Arnaldo Antunes
Quando: Sábado, 24 de agosto, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 50 (meia-entrada e pessoas com 1kg de alimento) e R$ 100

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.