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Djangos celebra em show 20 anos do primeiro disco

Kamille Viola

20/07/2018 10h00

A partir da esquerda: João, Marco e Lyle. Foto: Bruno Bastos/divulgação

Um dos destaques da cena underground carioca nos anos 90, o Djangos era uma grande promessa que infelizmente não chegou a acontecer comercialmente. O trio foi formado em 1994 por Marco Homobono (vocal e guitarra) e João Aquino (bateria), dois remanescentes do Corações e Mentes, com Lyle Diniz (baixo), todos moradores do bairro de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Começaram como Kamundjangos, ao longo de sua história viraram Los Djangos e, finalmente, Djangos. Uma original e dançante mistura de ritmos, (justamente) batizada por eles de ska-ragga-punk-rock, e letras ao mesmo tempo politizadas e existencialistas eram a receita que tornava o grupo uma das melhores bandas daquela safra.

Com uma fita demo produzida por Marcelo Yuka (O Rappa) e Alexandre Kassin, a banda participou dos principais festivais da época e tinha tudo para estourar após finalmente entrar para o cast de uma grande gravadora, a WEA, com quem assinou em 1997. No ano seguinte, saía seu primeiro disco, o excelente “Raiva contra oba oba'', produzido por João Barone (do Paralamas) e Tom Capone (1966-2004). O álbum, no entanto, não foi bem trabalhado, e em 2001 a banda acabou saindo da gravadora.

Em 2007, o Djangos lançou seu segundo disco, o independente “Mundodifusão'', produzido por Marcelo Yuka. Mas o mundo já não era o mesmo, as fitas demo já eram um passado longínquo (quem diria que as velhas k-7 voltariam no fim dos anos 2010 como objeto cult, não é mesmo?) e os espaços para o rock independente já não eram tantos. Diante das dificuldades, o grupo acabou encerrando as atividades — a vida e suas obrigações se impuseram. Apesar disso, jamais saiu dos corações (e mentes) de quem acompanhou a cena na qual surgiu.

O vocalista não chegou a se afastar da música: em 2012, gravou uma música (cover de “Te quero comigo'', do Raça Negra, na coletânea “Jeito Felindie'') sob o nome Minha Pequena Soundsystem, seu trabalho solo. Em 2017, lançou o disco solo “21 de março de 1973'', já assinando como Homobono. João Aquino se juntou à banda Dellacorde. Uma participação do baterista e do baixista em um show solo de Marco Homobono, em 2017, reacendeu a chama do Djangos. A proximidade do aniversário de duas décadas de lançamento de “Raiva contra oba oba'', em 2018, foi a desculpa que faltava para o trio se reunir, com o objetivo de fazer shows comemorativos. Depois do estranhamento inicial (“A gente era 20 anos mais novo, tocando hardcore, um ska mais acelerado, e hoje eu estou no estilo bossa nova…'', conta Homobono), eles se preparam para a primeira apresentação depois de um hiato de cinco anos, neste domingo, na Audio Rebel, e já pensam em fazer material novo — no tempo que for possível em meio ao dia a dia de cada um. Conversei com o vocalista sobre e esse e os próximos capítulos na história dos Djangos.

Antes dessas comemorações de 20 anos disco, você estava tocando seu projeto solo, lançou um disco. Quanto tempo vocês ficaram sem ensaiar juntos direto?

O pessoal falou que foi cinco anos. Eu vou confiar nessa data, porque foi o Lyle que falou, ele é um cara muito preciso, ele é virginiano, ele é pontual, ele é meticuloso. Vou acreditar na palavra dele: cinco anos. Pareceu ser menos, sei lá, fiquei meio sem noção. No final do ano passado, eu e João, a gente tocou com nossos respectivos projetos: eu com o Homobono e ele, com uma banda que ele está acompanhando, Dellacorde. Eles tocaram antes de mim, e eu falei: “João, já deixa a bateria armada, que no fim da música a gente chama o Lyle.'' Foi um evento em Jacarepaguá, aqui no nosso bairro. Aí todo mundo falou que, quando o João e o Lyle subiram, o astral mudou. Realmente, né, porque é um power trio, e a gente tava há um tempo assim, com, como é que eu vou dizer, a energia represada, então foi muito bom, cara. Foi muito bom. E aí aconteceu de virar de 2018 e eu falar: “Poxa, o nosso disco foi lançado em 1998, em 2018 ele faz 20 anos. Eu acho que é melhor comemorar os 20 anos do que os 21 anos, né?''. Aí eu falei com o João, com o Lyle. A gente até colocou a conversa em dia, botou alguns pingos nos Is aí. Muita coisa mudou, a gente amadureceu.

Como foi voltar a reunir o trio?

Quando a gente voltou ensaiar, eu confesso que… Eram músicas que foram registradas há 20 anos, e tinha essa questão física. Pô, a gente era 20 anos mais novo, tocando hardcore, um ska mais acelerado, e hoje eu estou no estilo bossa nova… Foi uma coisa de reencontro gradativo, porque as composições estavam ali, foi uma obra nossa, éramos donos daquilo, então estávamos nos apropriando de novo, e, quando chegaram os metais para tocar, pô, foi um grande encontro, uma alegria danada, todo mundo no estúdio estava feliz. Foi uma energia muito maneira, que contagiou todo mundo. Então essa volta foi… Pode ter sido difícil fisicamente, o traquejo, mas, depois que tudo ficou no lugar, se ajustou, foi uma felicidade só.

Vocês devem fazer mais shows, além desse que acontece domingo na Audio Rebel, agora?

A ideia que a gente tem é levar esse show para o máximo de palcos que a gente conseguir, o máximo de lugares. Eu acho que é um show legal, bonito, empolgante, tem uma vibe legal, as músicas são boas, a gente está confiante.

E deu vontade de continuar com a banda, seguir não só fazendo shows, mas de repente gravar algum material novo? Deu essa nostalgia boa?

Então, quanto à continuidade, eu acho que vai ser uma coisa meio gradativa. A gente vai ver o que vai acontecer. Mas a minha vontade é de investir num material novo. Eu queria até gravar um terceiro disco, ou um EP com quatro ou oito músicas, dando continuidade a essa ideia do ska-ragga-punk-rock, com os metais, fazer essa retomada. Eu estou meio contaminado com essa ideia, sim. Acho que existe uma disposição da banda também, mas, assim, passos de bebê. As coisas hoje estão tão difíceis, né? Nós não somos músicos profissionais. O Lyle, por exemplo, não trabalha com música. Eu sou autônomo, então depende de várias coisas. Mas a disposição e a vontade existem.

Legal, vou torcer para dar certo! A geração dos anos 90, a de vocês, deu muitos frutos. Mesmo que nem todas tenham conseguido estourar, teve muitas bandas importantes. Olhando hoje, como você vê essa cena? 

Eu lembro que nós reclamávamos da cena (risos). E éramos felizes sem perceber. Porque, se você for ver, o público das bandas com trabalho próprio era muito interessado e até sustentava festivais aqui no Rio, a gente tinha vários. Os artistas que tinham um trabalho autoral tinham respaldo tanto do público como de lugares para tocar. Eu acho que foi uma cena legal, muito diversa, as bandas eram muito diferentes, você tinha rap, hardcore, punk, a gente vinha com ska, tinha gente com ideias extravagantes — como, por exemplo, o Gangrena Gasosa, que fazia o saravá metal. Era muito rica, foi um período muito legal, tenho muito orgulho de ter participado disso, de ter militado nessa época.

Vai lá:
Djangos Raiva Contra Oba Oba 20 anos. Abertura: Melvin & Os Inoxidáveis

Quando: 22 de julho, às 20h
Onde: Audio Rebel. Rua Visconde de Silva, 55, Botafogo. Telefone: (21) 3435-2692
Quanto: R$ 30

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.