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'Depreciação da periferia é projeto político', diz Suburbano da Depressão

Kamille Viola

19/04/2019 10h00

O historiador Vitor G. Almeida faz a página Suburbano da Depressão. Foto: acervo pessoal

Com quase 400 mil seguidores, a página de Facebook Suburbano da Depressão faz sucesso ao exaltar o modo de vida de quem vive longe da maioria dos cartões-postais do Rio de Janeiro. Criada em 2012 pelo historiador Vitor G. Almeida, ela deu origem a um livro ("Suburbano da Depressão: casos, contos e crônicas", de 2016), ajudou a popularizar personagens (como os irmãos Mariacrara e Pedrenrique), resgatar gírias e incentivou ações solidárias.

Nesta sexta (19), o Teatro Odisseia, na Lapa, recebe uma festa que tem a página como tema. Com coxinha liberada até 1h, open bar de catuaba Corote e desconto para os 50 primeiros com comprovante de residência do subúrbio ou carta do SPC/Serasa, a festa promete reviver o clima dos bailes de grandes casas suburbanas dos anos 90, como Olimpo e West Show. A trilha, com funk e pagode dos anos 90, será por conta dos DJs Julio Himself, Dindo (Vitor G. Almeida, chamado de "Padrin" pelos seguidores do Suburbano da Depressão) e Vitor Medina.

Em conversa com o blog, Vitor falou sobre o que vê como projeto político de depreciação das zona Norte e Oeste e da Baixada e sua busca por fortalecer a identidade suburbana, entre outros assuntos.

O que te levou a criar a página?

A gente estava vivendo um momento de transformação da cidade, para receber Copa e Olimpíada. Antes disso, a gente teve as ocupações das UPPs. Eu gosto do marco de 2010 porque foi quando a cidade descobriu o subúrbio, ainda que só a Zona Norte. Chega em 2012, aquilo continua martelando na minha cabeça e, como eu estudava História, me questionei: 'Por que o suburbano sempre se depreciou?'. Através da História, eu vi que foi um projeto político de depreciação dos subúrbios e da imagem do suburbano. Enquanto suburbano, eu resolvi fazer uma autocrítica da nossa autodepreciação. Então a página tem na essência essa pegada de ironia com a própria situação do suburbano, que negligencia a sua história. E foi por isso que eu botei o nome de Suburbano da Depressão.

Por que você considera que a cidade "descobriu" o subúrbio em 2010?

Porque eu acho que ali, naquele momento, estava sendo desenhada uma grife de cidade, e o subúrbio passou a ser uma grife também. O maior ponto de hype foi Madureira, foi o carro-chefe dessa grife, que foi desenhada para se vender a cidade naquele momento em que ela estava passando por um boom mundial, global.

A página teve cresceu logo? A adesão foi grande de cara ou foi gradativa?

No começo, foi totalmente despretensioso. Vou fazer sete anos encabeçando a página e estou profissionalizando o espaço, tentando monetizar, ainda batendo nessa questão da identidade do subúrbio. Foi uma coisa gradativa: as pessoas foram se identificando com aquelas postagens. Acho que elas ficaram de saco cheio do Manoel Carlos (autor de novela famoso pelas tramas passadas na Zona Sul da cidade, sobretudo o Leblon) contando a história da cidade. E aí foram surgindo outras pessoas, paralelamente (fazendo trabalhos com temática parecida). Coincidentemente, a gente apareceu junto do "Vai que cola" (seriado do Multishow criado em 2013), "Os Suburbanos" (série de 2015 do Multishow, inspirada na peça homônima de 2005), e acabou sendo uma crítica a esses roteiros que são feitos por pessoas que não são suburbanas. Então fizemos o contraponto: olha o que os roteiristas ainda enxergam no subúrbio e o que a gente faz no subúrbio, o que a gente fala sobre ele. Porque as redes sociais decidiram uma eleição ano passado, elas se tornaram uma força que começou a desconstruir a própria mídia tradicional. As mídias sociais foram o nosso verdadeiro megafone, nossa plataforma para impulsionar essa identidade suburbana, para trabalhar esse orgulho.

Você sente que ao longo do tempo as pessoas foram ganhando ou recuperando um orgulho de ser suburbanas?

Sim. Muitas pessoas começaram a identificar que a depreciação histórica do subúrbio teve um porquê. E hoje muita gente não sente mais vergonha de dizer: 'Eu sou suburbano', 'Eu sou da Zona Oeste', 'Eu sou da Baixada', Eu sou da Zona Norte.' Isso acabou se tornando um orgulho. A gente acabou descortinando um Rio de Janeiro que estava escondido, que é o que faz a cidade existir, ser o que é.

A gente viu com as redes sociais não só você, mas outras figuras do subúrbio ganhando destaque, autores do subúrbio que lançaram livros. E existe uma coisa em comum de zoar a galera da Zona Sul. Como é isso?

O grande mote disso tudo é você questionar o que a história dizia para a gente que era inquestionável: que o Rio de Janeiro vai ser orla, o Rio de Janeiro vai ser Zona Sul e não existe mais nada. Acho que as pessoas acabam se sentindo desconfortáveis com isso: tudo que é novo incomoda. Você tentar sacudir as pessoas do seu lugar de conforto desagrada. Acho que ninguém esperava que pessoas da Zona Norte, da Zona Oeste e da Baixada fossem questionar as suas posições. Por isso que a gente brinca com a Zona Sul, com a Barra, com o (condomínio) Rio 2 — que é em Jacarepaguá, na verdade. Não condeno as pessoas saírem dos seus bairros e irem para esses lugares, mas o que eu particularmente critico são as que têm o famoso espírito de porco, ficam sendo preconceituosas. Tem gente que está no subúrbio porque não tem oportunidade de sair, tem gente que é porque gosta, isso vai de cada um. A essência dessa nossa brincadeira é o questionamento dessa cidade historicamente partida. Por que uns lugares têm mais privilégios do que outros, dentro da cidade e da Região Metropolitana? É a grande bandeira que eu hoje levanto, que eu entendi que virou um ponto político — não no sentido partidário nem nada, mas uma voz.

Você andou postando sobre como o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) dos bairros impacta na expectativa de vida das pessoas. Pode falar um pouco sobre isso?

Os dados que eu vi são do último censo, com certeza estão defasados, porque foi em 2010. Mas de 2010, que foi o ponto que eu mencionei no começo da entrevista, você já tira daí: você tem uma parte de concentração de renda, que é o bairro que está no topo da lista, a Gávea, o primeiro, e no último você tem o Complexo do Alemão (126º). Chegando ali nos últimos, tem o bairro onde eu moro, que é Santa Cruz (119º), que essa pesquisa mostra que não chega a ter 10% da renda per capta da Gávea. Se você soma a renda per capta de Santa Cruz com a do bairro mais populoso da cidade, que é Campo Grande, que tem um IDH mais alto (82º), não dá 30% da renda per capta da Gávea, de um único Gávea. E saiu ano passado uma pesquisa da UFRJ que diz que um morador de Santa Cruz tem dez vezes mais chances de ter um acidente vascular cerebral (AVC) que um da Gávea. O distanciamento desses centros de poder propicia isso. É um terreno fértil para esses problemas. O trabalhador que mora na Zona Oeste, se você for botar na ponta do lápis — e eu tive a curiosidade de fazer isso —, ele gasta um mês e dez dias no ano dentro de um transporte público. É uma questão de concentração de poder na cidade que hoje a página faz a questão de apontar. E eu, como figura por trás da página.

Pulando para a festa: por que você resolveu fazer, e por que na Lapa?

Quem entrou em contato comigo foi o Julio Trindade, do Teatro Odisseia. Eles convidaram a página para ser o tema da festa. Segundo ele, acabou surpreendo em números (de ingressos vendidos), mais do que outras festas que já acontecem lá. Acho muito importante a gente ocupar esse espaço, que é a Lapa, que é um local hoje privilegiado, virou uma parte de concentração de pessoas que têm dinheiro buscando essa essência da malandragem carioca etc. A gente está tomando um lugar, participando disso. A cidade é de todos nós, não é só de um grupo seleto. Suburbanos irem para a Lapa é muito interessante. Achei muito legal a iniciativa do teatro.

O que vai ter de típico do subúrbio na festa?

Vai ter muito funk dos anos 90, funk de baile de corredor, pagode dos anos 90 e dos anos 2000. A gente está tentando fazer um clima típico de casa de show da Zona Norte e da Oeste, como Olimpo, Via Show — que era na Baixada —, West Show, esses lugares.

Hoje se fala muito do aumento da violência na cidade, especialmente no subúrbio e nas favelas. A gente viu  a proibição dos bailes funk nesses lugares, e isso teve um impacto grande na cidade, tanto que é daí que o surge o funk em São Paulo, ele explode quando os bailes são proibidos aqui no Rio. Como estão a cultura e o entretenimento no subúrbio hoje?

Hoje, se por um lado a gente levantou o orgulho do subúrbio, eu e muitos outros amigos e amigas que surgiram, por outro a gente teve um número expressivo de páginas de bairro que vieram para continuar espalhando notícias de violência, causando medo. Eu vejo mais como um projeto de desprestígio da cidade em detrimento a São Paulo. Acho que foi um preço alto que a gente pagou por ter sido um ponto de encontro do mundo, sediando dois eventos importantes. E este ano vamos sediar a final da Copa América, no nível continental. Claro que isso também soma-se à questão da corrupção toda dos nossos políticos do executivo e tudo. O Rio de Janeiro vem pagando um preço altíssimo por ter sido esse centro de encontro do mundo com a Olimpíada e com a Copa. E, como o (filósofo) Umberto Eco falou, as redes sociais sociais deram voz a um bando de idiotas. Elas tanto proporcionaram coisas boas como ruins. Tem gente que sofre de síndrome do pânico e ansiedade por causa de página de bairro. Eu acho que isso reflete muito também o desconhecimento histórico das pessoas a respeito esse projeto político sobre os subúrbios.

Mas você acha que existem opções de cultura e lazer para a população, ou o subúrbio está esquecido mesmo?

Nós tínhamos, até determinado tempo atrás, como eu falei, as grandes casas de show, praticamente todas as clássicas de subúrbio fecharam. A gente não tinha muitas opções, e apelou para o que sabe fazer de melhor, que é o improviso. Daí que surgiram os bailes funk, desde o final dos anos 80. E, antes dos anos 80 mesmo, as rodas de samba, o Cacique de Ramos é um grande exemplo, o Pagode da CCIP em Pilares, que são lugares históricos da cultura suburbana do samba. Nos anos 80 e 90, cresceu o funk nas favelas e nas periferias. E foi iniciativa nossa. Acabou que a classe média e a classe média alta acabaram se apropriando. E é isso. A gente continua sem opção de lazer. E, quando cria alguma coisa, acaba sendo criminalizado. E aí tem aquela ideia de coisa de pobre. A pobreza no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, ela é criminalizada. Você não tem uma política para esse problema: você só tira, mas não dá nada. Você não tem uma alternativa para esse pessoal, para a gente.

Já que você tocou nessa questão das redes, de vez em quando acontecem coisas legais por meio da página. Recentemente, teve a história da menina que distribuiu quentinhas no aniversário e, por causa dos seguidores da página, acabou ganhando de presente uma festa. Aconteceram outras histórias do gênero? 

Teve o caso da Adrielly, lá de Realengo, que a gente conseguiu mobilizar para dar uma festinha para ela. E ela ganhou muito mais coisas do que imaginava, a mãe dela me falou que ela ganhou presente até da região Norte. Também teve recentemente o Petro, que fez uma festinha com o tema metrô. Com a mobilização, conseguimos entrar em contato com o metrô e arrumamos para ele fazer uma visita ao Centro de Controle. A página acabou virando esse ponto de fazermos nós por nós mesmos.

Vai lá:
Baile do Odisseia e Suburbano da Depressão
Quando: Sexta, 19 de abril, às 23h
Onde: Teatro Odisseia.
Quanto: R$ 45 a R$ 80 (open bar)

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.