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'Não me assumia compositora por causa do patriarcado', diz Julia Branco

Kamille Viola

04/10/2019 16h55

Julia Branco faz show hoje na Casa Julieta de Serpa. Foto: divulgação/Florence Zyad

Conhecida como vocalista da banda Todos os Caetanos do Mundo, a mineira Julia Branco decidiu se lançar como cantora solo. Mas ainda não sabia muito bem como. Chamou o produtor Chico Neves, que tinha trabalhado no primeiro disco do grupo, "Pega a melodia e engole" (2016), e a cantora e musicista Luiza Brina, da banda Graveola e o Lixo Polifônico, e foi para o estúdio de Neves. Foi dele que veio o empurrão para que ela gravasse as próprias canções. "Eu acho que é essa coisa mesmo desse patriarcado horroroso, que é difícil a gente se assumir, falar: componho, escrevo, canto. Tudo a gente fica meio pedindo desculpa, sempre", analisa ela.

O produtor e diretor musical do álbum propôs que ela criasse um roteiro com início, meio e fim a partir de seus textos. Ela levou o material para o estúdio e, a partir daí, o disco foi nascendo. "Fui com medo mesmo", lembra a artista. 'Soltar os cavalos' foi lançado em julho de 2018 e recebido pela crítica com um dos melhores do ano. De lá para cá, ela foi amadurecendo o show — que apresenta hoje, na Casa Julieta de Serpa, no Flamengo, primeira vez com a participação de Juliana Linhares, da Pietá — e tomando consciência da construção de sua carreira.

O disco é perpassado por temas que têm a ver com a questão da mulher. Julia conta que não foi uma opção consciente, mas entende que foi influenciada pelo crescente debate em torno do feminismo. "Acho que os últimos anos têm sido tempos em que a gente tem discutido e conversado, e colocado a nossa voz de uma forma diferente, tem tomado consciência dos abusos que rolam o tempo todo. Nenhuma dessas composições é muito antiga, o máximo é de três anos para cá, então eu acho que também fui escrevendo coisas que de fato eu estava vivendo", resume.

Ela também acabou se cercando de mulheres em todo o processo do trabalho (atualmente, apenas dois homens estão em sua equipe: Chico Neves, que passou a integrar sua banda, e o técnico de som de seus shows) e conta que a decisão por investir em uma carreira solo veio muito inspirado pelo atual contexto, em que cada vez mais mulheres vêm conquistando seus espaços como cantoras e compositoras.

Já tem mais ou menos um que você está apresentando esse show…

Tem. Tem um pouco mais de um ano. A gente lançou no finalzinho de julho o disco nas plataformas, e em agosto foi o primeiro show de lançamento, lá em BH, pela turnê da Natura. Depois a gente fez algumas cidades, ainda pela Natura Musical: Rio, São Paulo e Curitiba. E depois voltamos nesses lugares, no Rio eu voltei um pouquinho depois, em outubro, para um show menor, na Etnohaus, e teve outro em julho no Circo Voador, abrindo para o Zeca Baleiro. E agora esse retorno.

E como tem sido esse período levando para o palco levando para o palco essa experiência? Porque pelo que você falou o disco foi surgindo muito no estúdio, de uma forma orgânica…

Sim, sim. Eu falo que ele nasceu muito no estúdio. O processo de criação mesmo foi acontecendo lá dentro. Que eu acho que isso também tem a ver um pouco com a forma do Chico Neves, que é o produtor e diretor musical do álbum, trabalhar. Ele é um produtor que aprofunda, mergulha mesmo no processo. A gente começou totalmente do nada, conversando dentro do estúdio, com ideias do que poderia ser. Falávamos da vontade de fazer um disco que também passasse por outras experiências artísticas, que além da música pudesse transitar pelo teatro, porque eu também sou atriz, pela palavra, porque eu também escrevo. Tinha uma vontade de passar por outros lugares. Mas a gente não tinha muita clareza do que seria. E aí o Chico me pediu para fazer um roteiro, como se fosse uma peça de teatro, com começo, meio e fim, com os meus textos. Foi uma provocação dele como diretor. Tinha uma coisa que eu não me assumia muito naturalmente como compositora, porque, embora eu já tivesse composições na banda da qual eu fazia parte, Todos os Caetanos do Mundo, a gente gravou música minha, eu já tinha música com a Luiza Brina. Mas eu acho que tem um pouco o fato de ser mulher, que a gente demora um pouco para assumir as coisas, por conta de tudo (risos), e também porque eu não toco muito bem nenhum instrumento. Agora que eu estou aprendendo violão. Então eu ficava com esse lugar da compositora meio tímido: "Ah, eu escrevo, mas não sou compositora." Uma coisa até que a gente tentou reforçar no disco, o Chico bateu muito na tecla, ele falou: "Eu acho que você tem que gravar os seus textos, o que você escreve, e a gente vai descobrir a música aqui." Então foi muito assim: eu levei um roteiro mesmo, que já tinha esse título, "Soltar os cavalos", com imagens, coisas que de algum jeito me inspiravam. E aí tinha música que existia, que tinha uma ideia de melodia; tinha música que não existia, que era só o texto; tinha coisa que estava mais avançada. Tinha umas variações. Mas, durante o processo, ninguém ouviu nada do que já existia. Foi tudo eu cantando, e aí a Luiza Brina pegava o violão — ela fez os arranjos junto do Chico e fez as harmonias do disco. Então ela tocava, aí o Chico já pegava outro instrumento e gravava, e aí eu já ia cantando. E assim a gente foi encontrando essa sonoridade, esse universo, num período de imersão: a gente ficou junto uns dez dias. O processo todo durou um ano, mas o que eu acho que foi o grosso para a gente entender, esse levantamento foi mais ou menos um processo de mais ou menos dez dias. E muito sem tempo contando no estúdio, muito fluido, de mergulho mesmo, que eu acho que é uma riqueza de trabalhar com o Chico. Ele mora num lugar no meio do mato, que é perto de BH, mas já é natureza, então tem todo um clima que contribui com esse processo de imersão.

E o vídeo-álbum, como surgiu a ideia?

Eu estava no meio do processo do disco quando fui aprovada no edital da Natura Musical, que inicialmente tinha até a intenção de ser para um segundo trabalho: eu queria fazer um álbum visual, na vida. Não sabia se seria desse disco ou de outro. Mas eu estava muito imersa dentro desse processo, então não fazia muito sentido começar um outro. E, como eu já estava querendo que esse disco pudesse transitar por outras experiências artísticas, resolvi escolher algumas faixas para fazer um vídeo-álbum: seis músicas, sendo que duas se interligam, "Sou forte" e "Estrela", para fazer cinco vídeos.  E como, depois desse levantamento todo, eu percebi: "Nossa, é um disco muito feminino!", "Nossa, é um assunto que está muito nesse lugar!". Eu pensei: "Quero fazer um vídeo-álbum todo dirigido por mulheres." E aí veio esse segundo processo. O disco já estava mais encaminhado, mas aí veio um encontro com essas mulheres. Foi muito incrível, porque cada uma delas dirigiu um dos vídeos e assumiu uma outra função dentro do vídeo-álbum: uma dirigiu e fez direção de arte de todos, outra dirigiu e fez a direção de fotografia… Não tinha uma hierarquia da "diretorona", estava todo mundo junto. E também foi um grande exercício de escuta de todos os lados. Meu, de ver a visão delas de uma coisa em que eu já estava mergulhada, e de cada uma também. Então foi muito interessante, muito especial. E depois veio o processo de pensar num show. Já é uma terceira etapa, que eu fiz muito… Em diálogo sempre com a Luiza e com o Chico, mas eu bolei muito esse roteiro. Claro que a gente está sempre mexendo na apresentação, acho que ela está muito mais madura agora do que quando estreou, é natural. Mas desde o início eu tive uma vontade de ter os textos no show, assim como tem no disco, então tem momentos falados. De ter uma troca com o público muito próxima, muito íntima, porque eu acho que o disco também tem esse lugar muito forte da intimidade, da vulnerabilidade. Recentemente, tem sido uma surpresa para mim maravilhosa — porque foi um show que inicialmente eu pensei muito para teatro, até pensando nessa coisa do texto, da luz, tinha uma ideia de criar um clima e tal. Mas a gente fez o Circo Voador e foi incrível, e fez agora no Distrital (em Belo Horizontal) abrindo para o Arnaldo Antunes, um lugar enorme, e foi demais, e fez alguns festivais e foi incrível. Isso tem sido maravilhoso de perceber: que nesses lugares tão dispersos há força da palavra. Eu falava: "Não vai ter condições de, no Circo Voador, alguém prestar atenção em texto (risos)." Mas tem sido uma surpresa positiva para mim: são momentos em que a plateia se conecta muito com esse diálogo direto. Então eu acho que o show também foi amadurecendo passando por esses diversos lugares. Sempre vai ser diferente vai ser no teatro, na Julieta acho que vai ser outro clima, mas tem funcionado em vários lugares distintos, mesmo não sendo uma apresentação ultradançante, que a gente poderia pensar que seria um show para um lugar como o Circo. Ele tem muito silêncio. Mesmo tendo músicas em que dá para dançar, é uma dança diferente, acho que mais fluida (risos). É um disco que tem muito esse lugar da escuta, muito forte.

Você estava dizendo que só depois se deu conta de que falava muito das questões femininas e feministas, mas você foi se cercando de mulheres, consciente ou inconscientemente, para fazer esse trabalho, né?

Sem dúvida. Quando eu falo isso, eu quero dizer que não foi uma coisa assim: "Olha, eu vou fazer um disco superfeminista." Não foi uma coisa que partiu desse lugar de consciência. Mas eu vinha também muito povoada por tudo isso que está acontecendo no mundo (risos). Acho que os últimos anos têm sido tempos em que a gente tem discutido e conversado, e colocado a nossa voz de uma forma diferente, tem tomado consciência dos abusos que rolam o tempo todo. Nenhuma dessas composições é muito antiga, o máximo é de três anos para cá, então eu acho que também fui escrevendo coisas que de fato eu estava vivendo. No início, eu não sabia muito como seria o assunto do disco. Mas eu já estava querendo que a minha equipe fosse mais feminina. Muito por isso tudo que está ocorrendo (risos). De perceber mesmo: eu vivia o tempo todo cercada de homens, eu era de uma banda de homens, e é aquela coisa que vai parecendo meio natural. E até o convite da Luiza Brina foi uma coisa assim: "Poxa, eu quero chamar uma mulher para fazer parte desse processo." E aí é muito legal, porque eu acho que de fato é o Chico de homem e talvez o nosso técnico, eu acho. O resto todo da equipe, hoje, de 'Soltar os cavalos' — a minha produtora, a própria Ju (Julianna Sá, assessora de imprensa), as meninas que dirigiram o vídeo-álbum, as meninas do cenário e da luz, a Sônia Pinto, que me veste — são todas mulheres. Foi muito feliz, porque de fato eu tive que abrir meu olhar para isso, mas foi possível chegar nisso.

E fico pensando que as discussões sobre feminismo cresceram tanto aqui nos últimos tempos que acho que é impossível para quem é mulher escrever da mesma forma. Os temas mudam, o foco muda, o centro muda…

Exatamente. Mudou tudo, é impressionante como mudou tudo. Eu acho que escrever da forma e ouvir da mesma forma. Tem música que a gente escuta hoje e já fala: "Poxa, não dá." É difícil. A gente entende que faz parte do contexto de uma época, mas você ouvir aquilo sem pensar sobre aquilo. A própria bossa nova, a gente escuta coisas que fala: "Não dá." Tem coisa que não dá. Mas eu acho que tem a ver com isso: foi uma transformação muito radical. Enfim, ainda estamos num grande processo de mudança, a gente infelizmente ainda está muito longe de falar: "Ah, está tudo superigual agora." Não estamos mesmo, existem muitas questões, mas eu percebo que tem um farol que se acendeu, um alerta. Estamos falando sobre isso, e isso é muito legal. E transformando, com certeza, as nossas relações, a nossa forma de compor, a nossa forma de montar uma equipe, de nos relacionar uns com os outros. E eu me sinto aprendendo o tempo todo. Até esse processo do vídeo-álbum, com as cineastas mulheres, foi de um aprendizado muito grande. Até isso de não ter uma exatamente hierarquia é uma coisa com a qual não estamos tão acostumadas assim. Foi maravilhoso, a gente cresceu muito, mas não foi tão simples a gente chegar num acordo, um roteiro de como seria esse vídeo-álbum. Porque a gente estava tentando justamente transformar, fazer uma relação diferente ali, mas é novo para todo mundo, de certa maneira, trabalhar dessa forma. Eu acho que a gente está em busca ainda, mas é muito bom poder ter consciência de que se está em busca.

Você falou da sua insegurança de se assumir compositora. Como foi também se assumir uma artista solo, depois de ter uma banda?

Eu acho acho que meu processo do disco solo, e da carreira também, agora eu sou uma artista solo, e é nesse lugar que eu quero estar — eu falo sempre que é um solo com muitas aspas, porque sempre tem muita gente envolvida. Mas é completamente diferente mesmo de estar numa banda. É você puxando as coisas, a sua carreira, o seu nome. Eu comecei a querer fazer um disco com o nome de Julia Branco muito, eu acredito, por esse processo também feminista. Sentindo que eu precisava ter o meu espaço, sentindo também essas opressões todas de algum jeito, por mais que minha história com a banda tenha sido superfeliz, não é nem nada relacionado exatamente a isso. Mas sentindo que eu precisava colocar a minha voz. Mas é muito louco, porque a gente fala isso, mas, na hora que eu entrei para gravar o disco, eu não tinha clareza de que eu ia gravar as minhas composições, sabe? Não era uma coisa tão forte assim. É muito doido, que eu acho que tem a ver com como a gente vai se apropriando. Porque eu já compunha, mas eu cogitava de repente não gravar as minhas músicas, porque eu não sabia se era isso mesmo, se era tão bom. Conversando com o Chico, ele falou: "Poxa, eu acho que você tem que gravar as suas coisas, é seu disco." E ai depois eu falei: "Claro, gente, eu componho, sim." Mas isso não veio imediatamente. Eu acho que é essa coisa mesmo desse patriarcado horroroso, que é difícil a gente se assumir, falar: componho, escrevo, canto. Tudo a gente fica meio pedindo desculpa, sempre. Acho que o processo do meu disco veio muito desse lugar: "Poxa, eu quero ter essa coragem." E, ao mesmo tempo, eu digo sempre que — não foi consciente, mas é curioso que o disco seja 'Soltar os cavalos', e não 'Soltei os cavalos'. Parece que tem sempre um movimento de ação para ser feito. E não é que eu fiquei supercorajosa, forte e: "Uh, vou gravar meu disco!". Acho que eu fui com medo mesmo. Isso está até no meu CD, eu escrevi: "Coragem é ir com medo mesmo." Acho que em algum lugar passa por isso. Eu vou acolher essa vulnerabilidade, e isso vai ser a minha potência. Então eu acho que o disco fala da força, mas fala do medo, fala dessa potência quando a gente conhece a nossa "falha". Também teve um processo natural da banda, cada um foi seguindo seu caminho. Então foi tudo um pouco acontecendo junto. Mas eu acredito também que eu tenha decidido por essa direção por todo o contexto social em que a gente está, também ver outras mulheres fazendo seus trabalhos… Isso é muito poderoso. Hoje eu recebo muitas mensagens de outras mulheres me falando de como o disco tem inspirado elas a fazerem os seus próprios projetos. Isso é tão maravilhoso, da gente pensar que uma vai meio puxando a outra mesmo, que a gente se motiva quando vê a outra fazendo e sente que também pode, e está tudo certo. Eu acho que fui muito inspirada por isso, por outras mulheres que estavam soltando a voz.

Claro, isso é algo que a gente nota: hoje a gente fala muito mais das compositoras do que há alguns anos, né?

Sem dúvida. E não é que elas não existiam: elas sempre estiveram aí. Talvez com mais dificuldade de colocar o trabalho no mundo e até de ter esse espaço. É curioso que teve um homem muito importante também no meu processo, que foi o André Midani (morto em junho de 2019). Ele foi um grande conselheiro para mim. E ele foi uma pessoa que falava muito disso. A gente se conheceu na época da banda Todos os Caetanos do Mundo, ele era muito amigo do Chico, tem muito a ver com a história dele. Quando eu estava no processo de querer fazer meu disco, eu me encontrei com ele várias vezes aqui no Rio, nós tivemos conversas que eu queria lembrar de todas. Porque parecem aquelas que você aprendeu em algum lugar, entendeu em algum lugar alguma coisa, mas depois você esquece, não fica guardado exatamente na cabeça. Ele foi uma figura que, mesmo sendo um homem, sendo quem ele é, é muito legal, porque ele ficava dizendo isso da força da música feita por mulheres. Que ele achava que realmente a música só ia se reinventar se agora mudasse o discurso, as mulheres tinham que cantar a sua própria voz, a sua própria história. Nós tivemos muitas conversas sobre isso. Ele foi uma pessoa que escutou o meu disco logo que ficou pronto, a gente trocou muito nessas discussões sobre a música brasileira, e ele falava: "Nossa, não vai vir nada de novo de homem (risos)." Foi legal ouvir uma pessoa que é de outro tempo. Mas, sobretudo, eu acredito que me inspirou mesmo foram as mulheres, ver outras mulheres, trocar com elas. E tem sido muito legal, em vários shows eu tive convidadas mulheres: teve a Letrux, que participou do lançamento aqui no Rio; teve a Mariana Volker, que participou de outro show; lá em São Paulo, a Aíla; em Curitiba e em BH, a Uyara Torrente, que também está no disco; a Lio e a Lay da banda Tuyo; e agora vai ter a Juliana Linhares. A única vez que eu dividi o palco com um homem que não era do processo foi com o Arnaldo, na semana passada, porque era o show dele. Mas sempre tenho chamado mulheres para participar do show, e mulheres com quem eu me identifico, tenho uma troca. Isso tem sido maravilhoso, porque a cada encontro eu sinto que a gente se alimenta de alguma coisa.

 Você falou um pouco, não sei se tem mais a dizer sobre: por que você escolheu esse nome, 'Soltar os cavalos'?

É tão louco, porque eu acho que esse nome veio quase de um processo meio de intuição. Não teve uma coisa lógico. Quando fui fazer esse roteiro com começo, meio e fim para levar para o estúdio, esse nome surgiu na minha cabeça: 'Soltar os cavalos'. E aí eu achei um pouco estranho: "Que nome é esse? O que isso quer dizer?". Mas eu gostei, me provocou uma coisa quase meio que física: "Nossa, isso é interessante?". Levei o roteiro já com esse título. Conversando com o Chico, ainda tinha a curiosidade de que eu nunca tinha subido num cavalo na vida, até ano passado. Ele, que é supersensível, achou isso interessante: "Acho que isso tem alguma coisa aí, que eu não sei o que é." E aí teve um dia que a gente foi gravar, e ele falou: "Vamos andar a cavalo?". Lá perto da casa dele tem um haras, e aí a gravação foi andar a cavalo. E foi superlegal. E depois, pensando sobre o nome, eu acho que ele remete a muitas coisas. Tem essa coisa que o cavalo primeiro é um animal que eu acho que muitas vezes é associado à figura masculina. É doido porque agora o cavalo está super no universo das mulheres, tem o disco "Cavala", da Maria Beraldo (de maio de 2018), que eu até lembro que, quando saiu, eu falei: "Nossa, que loucura! Nossa, está rolando um negócio meio cavalo aí…"

Tem uma música da Letrux, "Além de cavalos"…

Exatamente! Depois eu comecei a ver cavalos everywhere (risos). Mas de fato eu achei curioso, porque inicialmente é um animal visceral, viril, não sei se estaria associado de cara à figura feminina. Mas eu acho que justamente por isso é interessante, porque está, sim. Tem esse lugar do selvagem, que é um pouco o que a palavra "cavalo" me provoca, de liberdade, aventureiro, que eu acho que é bom a gente pensar, porque isso faz parte das mulheres, mas a sociedade finge que não. Então me veio um pouco isso, 'Soltar os cavalos' com esse lugar muito forte da liberdade, de desbravar os lugares, de soltar aquilo que te prende, as amarras e tal. Mas, olhando mais profundamente para o disco e pensando que ele tem essa questão muito presente da vulnerabilidade também, assim como da força, eu acho que também tem a ver com soltar tudo aquilo que faz parte de você. Soltar o medo, soltar aquilo de que você tem vergonha, aquilo que você talvez não gostaria de mostrar. De algum jeito esse disco fala disso também, de se acolher por inteiro. Foi um nome que partiu muito de um lugar misterioso, mas que hoje faz muito sentido para mim, para o que eu estou cantando. Tem uma única música que fala de "cavala", que é "Estrela" — que fala: "Nunca pensei que seria cavala/num galope certeiro/saltando essa vala" — que surgiu depois que eu já tinha pensado sobre o título. É uma parceria com a minha mãe (Lúcia Castello Branco), eu pedi a ela uma letra: "Mãe, estou aqui pensando sobre cavalo, manda uma letra aí meio cavalo, cavala." E ela mandou essa letra que teve tudo a ver com tudo, e eu já fiz essa melodia e depois a gente trabalhou ela no estúdio, junto do Chico. Agora, é muito interessante. Eu tenho observado. Primeiro, que acontece muito no show das mulheres se emocionarem, chorarem, virem falar comigo, contarem coisas muito íntimas. E tem uma dimensão do disco — isso também não esperava, foi meio surpresa — de cura. Eu recebo muita mensagem de gente que está às vezes num lugar mais holístico, uma coisa meio de espiritualidade e cura que não era intencional e toca um pouco nisso. Até de gente que está passando por processos muito pessoais e está precisando se fortalecer, de terapia e tal. É muito engraçado, é algo que eu tenho percebido. Até quando eu vejo lá nas playlists do Spotify, os lugares onde a música toca, as preferências, muitas vezes tem essa coisa do sagrado feminino, do autoconhecimento. E eu também acho muito legal, porque isso de fato foi algo que eu busquei muito: às vezes eu recebo retornos de homens me falando que é um disco que eles não se sentem agredidos. Eu achei muito legal, porque tem algo muito forte de escuta mesmo. Às vezes rola um constrangimento, eu percebo que no show às vezes acontece. Agora que eu fiz show lá no Distrital, via que de vez em quando rolava um incômodo. Mas depois eu recebo um retorno muito grande, de: "Poxa, eu saí pensando no seu show, entendi o que você estava dizendo, não me senti excluído da conversa." Eu acho isso muito especial, porque é importante que eles também pensem sobre isso, né? Importantíssimo, até.

Eles têm que pensar sobre isso. Foram eles que inventaram o machismo… Mas engraçado, cavalo me remete um pouco ao inconsciente. Talvez por isso mexa com as pessoas. Além dos temas todos…

Tem vários significados, depois eu pensei. Eu sei que na umbanda quem recebe (entidade) é o cavalo. Existem diversas coisas em volta do universo do cavalo. Eu acredito que as palavras têm muita força. Eu acho que é uma palavra que tem muita força.

Você contou das mulheres se sentirem tocadas no seu show. Mas o seu disco também teve um reconhecimento formal, dos críticos. Depois disso, como está seu processo? Pensa num próximo trabalho, já compôs outras coisas? Ou ainda quer um tempo para digerir esse trabalho?

É louco, né? Eu ainda me sinto muito dentro desse trabalho. Embora já tenha um ano. E o tempo hoje em dia é muito acelerado, a gente vive esse velocidade muito grande de lançamento. Claro que eu já começo a pensar num segundo disco, mas eu ainda estou muito nesse. Eu acredito que vou entrar num processo de segundo álbum mais no segundo semestre do ano que vem. Eu quero rodar um pouco mais com esse, tenho uma vontade de desdobrar em outras coisas — quero muito fazer um segundo vídeo-álbum, também dirigido por mulheres, das músicas que não ganharam vídeo, porque para mim esse disco todo é muito audiovisual. Tenho um desejo de fazer algumas faixas acústicas e algumas em versão remix. Eu não estou também totalmente sem pensar nisso. Já começo a imaginar coisas que vão dando vontade de experimentar, já estou começando a compor de novo. Porque quando você lança, fica até meio seca. Pelo menos eu. Parece que você lançou tudo aquilo e fica um tempo sem ter ideia, muito doido (risos). E agora estou me sentindo voltando a ter ideia, começando a brotar. Mas acho que ainda demora um pouquinho para nascer um segundo disco.

Mas também cada coisa tem seu tempo, né?

Mas é doido, porque a gente vive esse tempo acelerado. E, como é muita novidade o tempo todo, parece que a gente tem que estar o tempo todo trazer algo novo. E tem gente que é mais rápida, mesmo, que já lança um disco e já tem outro na cabeça. Vai muito de cada pessoa. Para mim tem sido um processo tão intenso, e até porque eu acho que esse álbum tem um tempo mais dilatado. Embora eu fique feliz, meu primeiro disco, quase que minha carreira solo nasceu com ele mesmo, porque eu não tinha uma história como Júlia Branco antes dele, é tudo muito recente, é lindo estar nessas listas de jornal, isso é muito importante, também nos dá força para continuar fazendo, acreditar e ter energia para continuar fazendo. Mas, por mais que tenha todo esse reconhecimento, prêmio e tal, eu acho que tem gente que está descobrindo agora ainda. Como se até a velocidade dele foi mais dilatada, acho que ele não é um disco assim: ouvi, arrebatei. Como se ele tivesse um tempo mais alargado.

A internet possibilita isso, né? Antes um disco estava nas lojas, passou o tempo, acabou, recolheu. Agora as coisas estão lá, você pode descobrir depois…

E, como é muita coisa o tempo todo, de fato a gente não consegue acompanhar tudo. Então tem um tempo mesmo que vai correndo, da música. Que é menos veloz, que é da descoberta.

Quem nunca descobriu um disco tempo depois de ser lançado?

Exatamente. E é tão bom, porque às vezes chega na hora certa. Você fala: "Gente, o trabalho saiu há um tempão e estou descobrindo agora e está batendo em mim agora, que incrível." É muito bom.

Você sente que a música hoje tem que estar atrelada a outras formas de expressão artística, ou ao audiovisual especificamente?

Eu acredito que a questão audiovisual hoje é muito forte. A gente está muito visual o tempo todo. Eu sempre falo que a gente não tem ideia de como o Instagram mudou as nossas vidas. Desde os nossos comportamentos, porque a gente está vivendo uma experiência maravilhosa aqui e já está querendo postar, e já está fazendo stories. Isso já mudou o nosso relacionamento, e eu mesma sou super Instagram, conectadíssima, estou totalmente nessa (risos). Mudou mesmo. Quando a gente pensa: "O que eu vou postar?", de algum jeito está interferindo na nossa criação, isso está reverberando de algum jeito na forma como você cria, percebe, entende. Além de tudo, estamos o tempo todo recebendo estímulos visuais. Eu acho que o poder hoje de se lançar um single e vir já com clipe é muito forte. Parece que essa é a estratégia do momento. Ao mesmo tempo, eu também tenho percebido que a gente por outro lado está bem cansado de imagem. Eu, por exemplo, tenho adorado ouvir podcast, porque às vezes não aguento ver vídeo. Adoro ouvir. Tenho visto que até a coisa dos posts na internet, de algum jeito o texto está voltando, porque só imagem a gente está meio argh, é imagem demais. Eu decidi fazer a coisa do vídeo-álbum porque, para além do processo da imagem, eu queria muito atuar. Como é um disco que também traz esse lugar do teatro forte, eu queria muito ter essa outra dimensão, trazer a Julia atriz para dentro do trabalho. É como se fosse um filme mesmo, só que com a ideia de videoclipe. Mas acredito que tem essa potência. Tem sido difícil a gente pensar em lançar alguma coisa sem vídeo. Mas eu também acho que daqui a pouco isso vai mudar. Se todo mundo começa a lançar sempre com vídeo, daqui a pouco isso se esgota.

A Julia atriz continua também firme e forte? Porque a Julia cantora e compositora deslanchou…

É (Risos). Mas eu vou te falar que agora eu estou muito feliz podendo ser atriz nos shows. Porque, quando eu estava nos Caetanos, ficava uma angústia muito grande: "Nossa, nunca mais atuei, não estou mais trabalhando com teatro, que saudade de estar uma peça…". Eu sentia que era uma coisa meio separada: "Ah, agora estou na música, deixei o teatro de lado." Que foi meio isso: a partir do momento que os Caetanos foram ficando maiores, eu fui fazendo menos teatro. Mas eu entendia como uma coisa muito separada. E agora eu estou entendo que no meu show eu posso trazer a atriz. Então, de algum jeito, eu estou muito realizada. Claro que, se surgir alguma oportunidade, algum espetáculo de teatro, de trabalhar em algum film, alguma coisa assim, eu vou adorar, eu adoro atuar. Mas parece que eu entendi que eu já sou tudo isso e que dá para ser atriz no meu show. E aí encontrei um lugar de paz com isso. Não fico mais: "Ah, meu Deus, não estou mais atuando" ou "Não estou mais no teatro". Não, estou em tudo. E dá para explorar esses lugares todos. Dá para se realizar em todas essas experiências ao mesmo tempo.

Vai lá:
Julia Branco
Quando: Sexta-feira, 4 de outubro, às 21h
Onde: JClub. Casa Julieta de Serpa. Praia do Flamengo, 340 – Flamengo
Quanto: R$ 30 (meia-entrada) e R$ 60

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.