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Baby Perigosa: 'O funk precisa de mulheres cantando sobre o próprio prazer'

Kamille Viola

28/02/2020 15h11

Baby Perigosa. Foto: divulgação/Samuel Andrade

Ela saiu do interior do Rio Grande do Sul há dois anos para tentar a vida como cantora no Rio de Janeiro. E não é que as coisas até que foram rápido para a Baby Perigosa? Aos 20 anos, Maria Eduarda Soares Poletto fez sucesso já com a primeira música lançada: o funk "Grelinho de diamante", parceria com o coletivo Heavy Baile. Lançado em junho do ano passado, o vídeo tem quase oito milhões de visualizações.

O conteúdo explícito da letra assustou os moradores de sua cidade, mas ela garante não se incomodar. "Quem é mais próxima de mim é minha mãe, que hoje em dia mora comigo. Para mim, só importava a opinião dela mesmo, nunca liguei muito para o que os outros pensavam. Como ela me apoia, tudo bem", jura.

No fim de 2019, MC Baby Perigosa soltou o segundo single: "Saudade", versão de "Señorita", de Shawn Mendes com Camila Cabello. A letra, mais uma vez, fala de sexo sem meias-palavras. Para ela, seu trabalho é um empoderamento diário. "Porque eu estou cantando sobre o meu prazer, sobre o meu corpo, e são temas muito importantes para mim, por ser mulher. É sempre um pouco assustador ver uma mulher cantando sobre essas coisas. E eu acho que isso é mais que necessário, acho que o funk precisa disso, precisa de mulheres cantando sobre o próprio prazer", defende.

Fã de MC Rebecca, que também surgiu cantando letras do estilo, e da cantora norte-americana Cardi B, ela diz que, apesar de gostar muito do funk, tem vontade de gravar outros gêneros musicais, como rap, variações do brega (como tecnobrega e brega-funk ou trap). E que pretende gravar músicas mais leves para alcançar um público maior. "Claro que sempre tendo alguma sacanagem, porque eu não vou perder a minha essência. Mas de forma mais light, para poder ficar mais livre", adianta.

Em 2020, ela planeja lançar um EP com seis faixas, já em andamento. Moradora da Penha, na Zona Norte do Rio, ela adianta que talvez grave faixas com DJs da região, conhecida por ter abrigado o famoso Baile da Gaiola. MC Baby Perigosa é uma das atrações do Baile do Ademar, que acontece este sábado na sede do Cordão da Bola Preta.

Você é de Passo Fundo (RS). Como foi seu contato com o funk? Já escutava lá ou passou a ouvir aqui no Rio?

Já escutava lá. Sempre ouvi muito, meu sonho de criança era ser funkeira. Mas lá no Sul a gente escuta outro tipo de funk, o 130BPM, que é o que toca mais em São Paulo. Quando eu morava lá eu tinha um contato diferente, com outro estilo de funk. Quando eu cheguei no Rio é que fui apresentada ao 150BPM, que está em ascensão agora, né? Porque eu vi para cá faz dois anos, então era quando o 150 ainda estava entrando na mídia.

Chegando aqui, você decidiu gravar? Como você começou a realizar seu sonho?

Eu sempre quis trabalhar com arte e com música, não sabia exatamente como eu faria isso. Mas eu acabei conhecendo o Heavy Baile. Porque eu comecei a trabalhar fazendo videoclipes. Aí eu fiz uma participação em um clipe deles, o de "Maconha & pente", e nesse dia eles conheceram a minha história e ficaram sabendo que eu era uma menina que tinha vindo para o Rio de Janeiro para tentar a vida e trabalhar com música. E um estilo que eu gosto muito é o funk. E a gente combinou que faria uma música. Foi daí que surgiu "Grelinho de diamante".

E você veio para o Rio com quem?

Eu vim sozinha.

Como é que você se virou para sobreviver aqui? Veio morar onde?

Eu vim morar na casa de uma amiga virtual, a Ex-Miss Febem, Aleta Valente, até eu arrumar um emprego. Fiquei cinco meses na casa dela, até que eu arrumei um trabalho com telemarketing. Eu me mudei, fui morar sozinha. Fiquei quatro meses nesse emprego. Saí quando já tinha feito minha música, aí passei a sobreviver da música mesmo.

Você faz bastante show e participação?

Agora está fluindo mais.

A casa onde você veio morar era onde?

Em Bangu (Zona Oeste), bem longe.

Bem, depois do sucesso da primeira faixa, você gravou uma paródia de uma música do Shawn Mendes…

É uma paródia de "Señorita". É uma música que fala de saudade, tem uma letra diferente. É putaria, mas é romântica.

E por que também você decidiu cantar putaria, letras mais explícitas? O funk tem vários estilos.

Eu acho que o funk putaria era o que eu tinha mais contato, eu mais ouvia. Então era o que eu mais queria fazer porque era o que mais me influenciava, e me influencia até hoje.

As pessoas estão mais acostumadas a ver os homens cantando esse tipo de letra…

Eu acho que, para mim, é um empoderamento diário. Porque eu estou cantando sobre o meu prazer, sobre o meu corpo, e são temas muito importantes para mim, por ser mulher. É sempre um pouco assustador ver uma mulher cantando sobre essas coisas. E eu acho que isso é mais que necessário, acho que o funk precisa disso, precisa de mulheres cantando sobre o próprio prazer. Existem mulheres que ainda não descobriram o próprio corpo, não descobriram que o corpo é uma bomba de prazer, uma bomba sexual. E eu quero passar isso nas minhas músicas, essa mensagem.

Você sente que as pessoas às vezes confundem as coisas, por você cantar sobre sexo explicitamente? Como é a abordagem contigo?

Tem bastante gente que confunde, sim. Por exemplo, no meu Instagram eu recebo muito mensagem de homem bem nojenta. Mandam fotos do piru, mandam mensagem lixo. Tem isso. Por você estar cantando sobre o seu corpo, a pessoa acha que tem a liberdade de vir com qualquer papo para cima de você. Isso também é uma ideia bem errada.

E pessoalmente também?

Pessoalmente ainda não rolou nenhum constrangimento. A pessoa fica mais com medo, pela internet ela acha que pode tudo.

E você está solteira ou comprometida?

Solteira.

E como é em família, com a galera da sua cidade?

Pois é. A minha cidade é muito pequena (cerca de 200 mil habitantes), então teve gente que se chocou muito. Bem provinciana, do interior do Rio Grande do Sul, ou seja, já não tem muito funk putaria lá, é mais o ostentação. Então, quando eu lancei "Grelinho", o pessoal já se assustou um pouco, minha família. Mas quem é mais próxima de mim é minha mãe, que hoje em dia mora comigo. Para mim, só importava a opinião dela mesmo, nunca liguei muito para o que os outros pensavam. Como ela me apoia, tudo bem.

Vocês moram onde hoje?

Na Penha.

É uma região com bastante funk também. Isso influenciou a música que você faz?

Sim, influenciou. Tem outras músicas que eu acho que vou lançar com DJs daqui da região também.

Você saiu de uma cidade pequena para vir morar no subúrbio do Rio, que não é a cidade do cartão-postal. Como foi essa experiência?

Lá no Sul eu já não tinha uma vida muito privilegiada. A minha realidade já não era tão de cartão-postal, como você disse. Mas foi uma coisa bem impactante o que eu vi no Rio, porque aqui tem boca de fumo ao ar livre, coisa que no Sul eu nunca tinha visto. Eu já estava esperando um pouco, mas sempre tem um choque. Porque é uma realidade muito diferente.

Agora você já se acostumou?

Já. É porque eu não imaginava que ia ser como nos filmes, "Cidade de Deus". Mas é. Foi isso que mais me surpreendeu.

Você já tem coisas previstas para saírem este ano?

Tenho, sim. Não está nada pronto ainda, mas tem uns lançamentos que vão vir.

Quantas músicas você pretende lançar?

Eu pretendo lançar um EP, com umas seis músicas.

Você diz que não se prende ao funk, que cantaria outros estilos. Quando você imagina sua carreira, o que pretende cantar?

Eu curto bastante rap e curto muito brega — tecnobrega, brega-funk. Então acho que eu vou mais nesse sentido. Um trap, talvez.

A gente falou do funk ostentação, do 150BPM, eu ia falar mesmo do brega-funk, que cresceu muito. O que você acha dele?

Sim, cresceu muito. Eu acho perfeito. Tem uma versão de "Grelinho de diamante" brega-funk que eu super amei. Quero muito fazer mais.

E tem alguma cantora que influencia você, em quem você se inspira?

Sim, total. Eu me inspiro muito na MC Rebecca, que é uma cantora de 150 aqui do Rio, e na Cardi B, sou muito fã.

O que você sonha para a sua carreira? Como você se imagina daqui a alguns anos?

Ah, eu me imagino fazendo mais dinheiro, mais famosa e com vários hits.

Agora, o estilo que você canta, para você ir em programas de TV e tal, você acaba não podendo cantar isso, você tem que fazer versões…

Eu pretendo lançar algumas coisas já bem light. Claro que sempre tendo alguma sacanagem, porque eu não vou perder a minha essência. Mas de forma mais light, para poder ficar mais livre.

Teve alguém que inspirou você na hora de compor as duas faixas que você já lançou?

Não. Os clipes foram uma junção de influências de moda que eu gosto muito de trazer no meu vizinho. "Grelinho" e "Saudade" têm uma estética anos 2000, uma coisa bem princesinha, bem rosa.

Mas a na hora de compor as músicas?

A "Saudade" sim. Teve um boy de quem eu sentia saudade e tal, e foi isso que inspirou essa música.

Vai lá:
Baile do Ademar
Quando: Sábado, 29 de fevereiro, às 22h
Onde: Cordão da Bola Preta. Rua da Relação, 3 – Lapa
Quanto: R$ 20 (1º lote) a R$ 40

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.

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