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'Sofro ameaças constantemente, agressões, xingamentos', diz Ana Cañas

Kamille Viola

07/02/2020 13h04

Ana Cañas canta no Circo sábado. Foto: divulgação/José de Holanda

Há três anos, Ana Cañas resolveu se engajar na militância pelas causas em que acredita — o combate ao racismo, ao machismo e à LGBTfobia, entre outras coisas —, defendendo abertamente suas ideias nas redes sociais e se apresentando em espaços como a Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST, e assentamentos do movimento. Essas experiências resultaram no disco 'Todxs', lançado em 2018, com músicas que falam sobre o empoderamento e a sexualidade das mulheres.

Assumir essa postura não foi fácil: além de perder shows por conta de seu posicionamento político, ela passou a sofrer ataques nas redes sociais e até em seus shows. "Já me tacaram ovo no palco, já me tacaram latinha de cerveja enquanto eu cantava músicas que defendem abertamente a sexualidade feminina, que ainda é um assunto muito tabu na sociedade", conta.

Mas a cantora não se arrepende do caminho que escolheu. E entende que é preciso se reconhecer como parte de uma estrutura opressora para combatê-la. "Acho que existe uma responsabilidade de pessoas brancas, por exemplo — que é o meu caso —, na questão do racismo estrutural. Esse sistema foi construído dessa forma por pessoas brancas e elas costumam compactuar com ele porque elas se beneficiam desses privilégios. Cabe a nós, pessoas que recebem esses privilégios, desconstruir e nos tornar aliados nas causas, seja a antirracista, a antigordofobia, a antiLGBTfobia", reflete.

Mesmo tendo passado por momentos difíceis em sua vida — ela saiu de casa cedo, morou em um pensionato e muitas vezes mal tinha o que comer, tinha que lidar com o alcoolismo do pai e, depois da morte dele, ela própria passou a abusar da bebida —, ela consigo enxergar os privilégios que sempre teve. "Talvez eu tenha cantando nos bares e tenha conseguido assinar um contrato com uma gravadora por ser uma mulher branca. Provavelmente", diz. 

Enquanto trabalha no próximo álbum, previsto para este ano ainda, ela segue com as apresentações da turnê 'Todxs'. Neste sábado, ela se apresenta no Circo Voador, abrindo a noite, que ainda conta com Adriana Calcanhotto. Também se prepara para estrear um programa sobre sexualidade no Canal Brasil. "Fiquei bastante contente com esse convite, acho que vai ser um programa muito importante na televisão brasileira, a gente vai receber mulheres cis, mulheres trans, todo tipo de história, vai ser muito interessante, eu vou aprender bastante também", comemora a artista.

As discussões identitárias avançaram muito no país nos últimos anos. Você fez um disco totalmente político, 'Todxs', com capa e nome bem simbólicos. Dá para continuar compondo sobre os mesmos temas depois de tanta mudança? De que forma esses debates influenciaram você como artista?

Sim, eu acho que as questões identitárias ganharam bastante espaço por conta da internet também. Possibilitou que as minorias políticas e constitucionais tivessem voz, espaço e mais expressividade, não dependendo da grande mídia para poder discutir suas pautas, as opressões e tudo mais. O disco 'Todxs' é fruto dos rolês que eu fiz nos últimos três anos, que envolvem uma militância pelos direitos e também uma militância efetiva de conhecer espaços, de fazer shows em muitos lugares aonde muitas vezes a música, a cultura e a arte não chegam tanto, como o MST, eu fiz shows no interior do Nordeste, na (Escola Nacional) Florestan Fernandes, em vários lugares e assentamentos, na Coperifa, saraus nas quebradas, nas ocupações em São Paulo, e o disco 'Todxs' é resultado dessas vivências, dessas trocas, aprendizados. De entender como o sistema funciona, que existe um mecanismo de opressão que é estruturalmente racista, machista, homofóbico, enfim, e outras coisas. Então eu escrevi esse disco por esses aprendizados. Com certeza é difícil continuar falando, por exemplo, sobre um amor entre casal, que é o tema de umas das minhas musicas mais conhecidas, como "Pra você guardei o amor", que é do Nando Reis (gravada em dueto por Ana e ele), e algumas outras canções. Eu acho que o disco, a arte, ela reflete muito a vida. Pelo menos para mim sempre foi dessa forma. Os discos refletem um momento de vida. E o 'Todxs' é bastante esse reflexo dessa vivência toda. No instante em que o país ficou bipolarizado, eu achei muito importante tomar uma posição a favor da democracia, do estado de direito, usar a minha voz, a visibilidade que eu tenho com a música para defender outras coisas que não envolvem só a música em si, ou só a arte, mas também acesso a direitos e muitas coisas que são negadas, que estão na constituição e que a gente ainda está longe de alcançar, infelizmente. A gente está vivendo um momento de desmonte do aparelho cultural do país, um retrocesso imenso em relação ao feminismo, aos direitos das pessoas pretas e periféricas, à acessão econômica e social da população periférica brasileira. Está havendo um recuo em relação a todas as esferas, incluindo educação saúde, sexualidade, ao estado laico, infelizmente. Então o disco é muito o reflexo disso tudo.

Por falar nisso, você já passou por ameaças pessoalmente e nas redes por conta do seu ativismo. Continua acontecendo? Como lida com isso?

Sim, eu passo por essas situações, infelizmente. Sofro ameaças constantemente, agressões, xingamentos. Na época das eleições, cheguei a receber algumas ameaças. Já me tacaram ovo no palco, já me tacaram latinha de cerveja enquanto eu cantava músicas que defendem abertamente a sexualidade feminina, que ainda é um assunto muito tabu na sociedade. E eu acho que uma das ferramentas mais opressoras do patriarcado é a questão ligada à sexualidade feminina. Entre outras, mas essas com certeza é um dos pilares desse sistema que oprime as mulheres. Aconteceu muita coisa nesses últimos três anos. Ao mesmo tempo que eu fazia essa militância na internet, nas redes, também tem a dos shows e das entrevistas, os espaços onde eu estou — que nem sempre estão dialogando com o que eu acredito, com o que eu defendo. E acontece constantemente. Acho que existe um preço por se posicionar, e é por isso que muitos artistas, pessoas com visibilidade muitas vezes optam por não se posicionar. Porque existe um preço nesse sentido, de você ser alvo de ataques, agressões, violência. Também tem a ver com a questão monetária. Por exemplo: eu já perdi alguns shows, que não foram poucos, quando as pessoas descobriam o meu ativismo, a minha militância. Quando você se posiciona, está defendendo ideias, e nem sempre contratantes, patrocinadores, marcas estão alinhadas com elas, porque elas dependem do público que consome os produtos dessas marcas. Mas é como eu sempre digo: eu prefiro deitar minha cabeça no travesseiro à noite sabendo que eu estou fazendo a minha parte. E, mais do que isso, acho que existe uma responsabilidade de pessoas brancas, por exemplo — que é o meu caso —, na questão do racismo estrutural. Esse sistema foi construído dessa forma por pessoas brancas e elas costumam compactuar com ele porque elas se beneficiam desses privilégios. Cabe a nós, pessoas que recebem esses privilégios, desconstruir e nos tornar aliados nas causas, seja a antirracista, a antigordofobia, a antiLGBTfobia. Tudo isso para mim chegou num momento em que achei fundamental defender essas bandeiras todas, me tornando uma aliada nas lutas.

E como é a relação do público com esse álbum? Recebe mensagens com confissões e pedidos de ajuda, coisas do gênero?

A relação do público com esse disco foi muito positiva. Porque, apesar de tudo que motivou a escrever essas letras e essas canções, eu sinto que não é um disco… Por exemplo, as pessoas falam que escutam muito ele para transar, o que eu acho maravilhoso (risos). Elas acham que é um álbum sensual, e tudo mais. Eu tive uma preocupação de não transformar o disco numa obra panfletária, no sentido mais literal. Porque esse trabalho mais direto e ativo eu já vinha fazendo nas redes. Então eu gostaria que a música, no caso do álbum, eu abstraísse um pouco mais, mas sempre levantando a questão da justiça social, do empoderamento feminino, do feminismo,da  legalização da maconha e outras coisas. Eu sinto que um público novo chegou, na verdade. Pessoas que não ouviam meus outros trabalhos e, por conta do ativismo e do posicionamento, chegaram. Agora, diariamente eu recebo pedidos de ajuda. Hoje mesmo uma menina me escreveu no inbox do Instagram para dizer que ela estava sendo assediada no trabalho, que várias outras mulheres no mesmo espaço também estavam sofrendo assédio desse homem e que elas estavam se reunindo para denunciar ele. Diariamente recebo pedidos de socorro, de ajuda, sejam palavras de apoio, dinheiro, visibilidade, publicação. E, na medida do possível eu sempre estou divulgando e dando uma força para todo mundo que precisa. E isso é muito legal, no meu ponto de vista. Eu gosto de poder ajudar de alguma forma as pessoas que estão sofrendo, porque eu já passei por muita situação difícil e sei que, às vezes, a gente não tem uma voz, não tem um abraço, um amigo, alguém que possa nos ouvir. Então eu estou sempre dialogando e faço questão de ler as mensagens e fazer tudo o que estiver ao meu alcance para ajudar.

Você diz que hoje se dá conta de que quase todos os seus relacionamentos com homens foram abusivos. Como se sente em relação a isso? Como buscou ou busca curar essas feridas?

Na verdade, eu não diria que tive relacionamentos abusivos, mas eu passei por muitas situações, nas relações héteros que eu vivi, em que os homens delimitavam o espaço dentro do relacionamento e protagonizavam quase que as escolhas todas que uma relação envolve. Isso foi uma coisa que me chamou atenção quando eu fiz uma retrospectiva feminista na minha própria história. De que existe esse lugar construído socialmente de que o homem é o protagonista. Isso é uma coisa criada por essa sociedade patriarcal mesmo, porque as mulheres são tão ou mais importantes dentro do conjunto das relações, no meu entendimento. Hoje é muito difícil eu entrar num relacionamento mais sólido. Claro que eu sou um ser humano, claro que me apaixono. Também tenho namorado mulheres, saído com mulheres. Mas evito, sabe (um relacionamento sólido)? Outro dia eu vi uma frase que me chamou atenção que falava sobre a Lilith (a mulher que teria sido criada junto de Adão, mas teria se recusado a deitar sob ele na hora do sexo, por não se sentir inferior e que, por isso, teria deixado o Paraíso), ela dizia: "Eu escolho o exílio à submissão." Eu me identifiquei muito com essas frase, no sentido de que eu prefiro ter uma vida independente, batalhar, lutar, como eu sempre  tive, trabalho desde os 14 anos de idade. Porque chega num ponto da relação que me parece que o homem faz exigências: se não for do jeito dele, começa a complicar e fica ruim para ele. Dificilmente essa voz feminina é respeitada e ouvida da forma que ela deveria. Então seguimos aí, passando o rodinho (risos), maravilhosas.

Recentemente, você fez um post com um balanço da sua história, falando dos tempos de pouco dinheiro, da morte do seu pai e dos problemas com a bebida. Como se sente hoje, olhando para sua caminhada?

Pois é, quando eu olho para trás, entendo que tive uma jornada realmente de muita batalha, muita luta. Eu saí de casa muito cedo, morei num pensionato com muitas garotas de programas, e foi um período onde eu aprendi demais sobre a realidade dessas mulheres, que muitas vezes tinham muito pouco para comer e mandavam dinheiro para os filhos, que moravam muitas vezes em outro estado. Foi uma fase em que eu praticamente passei fome, tinha dias em que eu tinha só duas batatas para comer ou um miojo, sabe? E eu morava num pensionato… Enfim, contei lá nos posts, está tudo lá escrito. Depois eu comecei a cantar na noite e tudo mais, também não foi fácil. Meu pai era dependente alcoólico e eu internei ele nove vezes. Hoje, com a maturidade dos meus 39 aqui que me cabe — se é possível dizer maturidade —, do alto dos meus 39 eu vejo que as coisas que não me destruíram me fortalecerem e também me transformaram na mulher que eu sou hoje. E, para as coisas que eu posso contribuir, no sentido de alguma discussão positiva, são reflexões que eu obtive ao longo do caminho. E também entendi que era muito importante não me amargurar com as coisas difíceis, apesar delas serem difíceis. Era muito importante que eu preservasse a esperança de alguma forma, o amor, o afeto, porque era isso que acabava me salvando. Os amigos, as amigas, a música, a arte, muitas vezes. A reflexão que eu tenho hoje é que sou grata, porque, apesar de tudo que eu passei, ainda consigo enxergar os meus privilégios dentro da sociedade em que a gente vive. Talvez eu tenha cantando nos bares e tenha conseguido assinar um contrato com uma gravadora por ser uma mulher branca. Provavelmente. Então eu penso assim: o que eu vou fazer com as ferramentas que eu tenho nas mãos? Com a visibilidade que eu tenho, onde é que eu posso contribuir? Mas eu acho que é isso: o amor e a luta são o caminho da vida mesmo. Sou muito grata e feliz por todas as coisas que eu conquistei com muito trabalho.

Já pensa no sucessor do álbum? Quais são seus próximos planos na carreira?

Sim, já tem o próximo disco, ele já existe. Estou bastante animada, já escrevi as canções e agora estou começando a gravar as demos. É um disco que deve sair este ano ainda, com certeza. Não sei se no final do primeiro semestre ou no segundo. Mas eu devo lançar um single em breve, nos próximos dois meses devo já ter uma prévia desse disco. Recebi um convite também para apresentar um programa no Canal Brasil sobre sexualidade. Fiquei bastante contente com esse convite, acho que vai ser um programa muito importante na televisão brasileira, a gente vai receber mulheres cis, mulheres trans, todo tipo de história, vai ser muito interessante, eu vou aprender bastante também. E a gente dá continuidade aos trabalhos aí, seguimos tocando, agenda fazendo shows, equilibrando as contas e investindo no que dá. Enfim, é isso… Queria convidar todo mundo para o show do Circo Voador, que vai ser lindo. Eu sou uma grande fã da Adriana Calcanhotto, uma querida, grande compositora, vai ser uma noite mágica. Dividir o Circo Voador com ela vai ser incrível.

Vai lá:
Ana Cañas + Adriana Calcanhotto
Quando: Sábado, 8 de fevereiro, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 70 (meia-entrada ou com um 1kg de alimento) a R$ 140 (inteira)

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.

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