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'A música negra quase sempre é usurpada', diz maestro Letieres Leite

Kamille Viola

22/03/2019 13h53

O maestro e soprista Letieres Leite. Foto: divulgação/Raul Lorenzenti

Tendo trabalhado com diversos nomes da chamada axé music, principalmente Ivete Sangalo, o maestro e instrumentista Letieres Leite criou em 2006 a Orkestra Rumpilezz, com a qual tocava paralelamente. O nome explica a sonoridade: rum, rumpi e lé são os três tambores do candomblé, e o zz no fim faz referência ao jazz. Formada por sete percussionistas e quinze instrumentistas de sopro mais o maestro (que alterna instrumentos de sopro), a big band tem dois álbuns lançados: "Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz", de 2009, e "A saga da travessia", de 2016, que é o primeiro volume de uma trilogia.

Entre os muitos projetos do maestro para os próximos meses, estão o show com Caetano Veloso, que ele apresenta pela primeira vez fora de Salvador nesta sexta, no Circo Voador; o registro em estúdio da versão da Rumpilezz para o mítico álbum "Coisas", de Moacir Santos, a ser feito em breve;  o show com repertório do disco "Maria Fumaça", da Banda Black Rio, que acaba de passar por São Paulo; o projeto social Rumpilezzinho e o segundo volume da "Saga da travessia".

Em conversa com o blog, Letieres Leite contou um pouco de sua história (ele foi artista plástico antes de ser músico e começou a tocar por causa da militância política), falou sobre a importância da influência africana para a construção de toda a música popular das Américas e sobre o embranquecimento dos gêneros musicais criados por negros, entre outros assuntos.

É a primeira vez que o show com o Caetano vai ser feito fora da Bahia?

É a primeira vez fora da Bahia. Nós já apresentamos esse show duas vezes em Salvador.

Como vai ser o repertório?

Nós vamos tocar músicas dos discos da Orkestra Rumpilezz, um pouco de cada, e, com o Caetano, composições de diferentes momentos da carreira dele. Decidimos juntos, conversando com o ele, o que ele achava melhor para a Orkestra, e rearranjadas do nosso estilo. De forma inédita, vocês vão escutar canções conhecidas de Caetano, mas num formato completamente diferente, como "Oração ao tempo", "Coração vagabundo", "Milagres do povo".

Eu li uma nota dizendo que existe a ideia de vocês fazerem uma turnê internacional juntos desse show.

Existe a ideia, porque a gente viu que tem um entrosamento, e (para) esse tipo de trabalho — a gente vem baseado na música afro-brasileira com a concepção de jazz, de arranjos, de improvisação, e a gente já tocou no exterior, na Europa, fizemos turnê nos Estados Unidos — a aceitação é muito grande. E nesses lugares Caetano Veloso também é bastante divulgado. Também nesse ambiente da música instrumental. É um desejo. Podemos cumprir esse roteiro que ele já faz sempre, agora mesmo ele está vindo de uma turnê na Europa, e alguns desses lugares são conectados com a música instrumental. É só uma projeção, mas é nosso desejo cumprir, de visitar os lugares onde a Rumpilezz toca fazendo o trabalho conjunto.

Quais são os seus próximos projetos? Vi que você pretende registrar em disco a versão que vocês fizeram do 'Coisas', do Moacir Santos.  

Esse show do Moacir Santos a gente estreou ano passado em São Paulo. E aí houve um convite da Rocinante, uma gravadora nova muito interessante, que tem um estúdio em Araras, Petrópolis (RJ), de registrarmos o "Coisas". Já gravamos, inclusive, estamos em finalização este fim de semana. Vamos para lá terminar depois do show com o Caetano. A ideia é lançar primeiro no formato de vinil, e estamos buscando parcerias para lançar também em outros países. É um disco que a gente tem uma grande responsabilidade em fazer, a gente sabe o quanto é importante revisitar essa obra, que é uma das mais representativas da música instrumental brasileira. Eu sempre falo que esse disco está para a música instrumental brasileira como está o "Kind of Blue", do Miles Davis, para a música norte-americana, no jazz. É um desejo antigo visitar, trazer a música do Moacir para os terreiros da Bahia, essa é a ideia, o resumo central. Trazer essa música através da visão desses lugares lá de Salvador.

Esse lançamento deve vir acompanhado de shows pelo Brasil?

De vários shows, de uma pequena turnê, no segundo semestre. Simultaneamente, no final deste semestre, nós estamos lançando também o disco do quinteto que nós temos, que é a ideia da Rumpilezz em cinco músicos. Nós estivemos recentemente aqui tocando no Blue Note (Rio), fizemos também em São Paulo, já tocamos também na Europa com esse grupo em alguns lugares, em Londres, Portugal. É uma vertente desse mesmo projeto: a música de matriz africana numa conversa próxima com o jazz. Já está gravado, também pela Rocinante.

Você planeja também um disco de inéditas da Orkestra?

O último que a gente fez de inéditas foi o "Saga da travessia". É uma suíte em três movimentos, e eu na verdade continuei a composição, e acabou que eu não gravei na saga, gravei outras composições completando esse disco, a homenagem para Gilberto Gil, "Professor Luminoso"… Mas agora eu tenho a intenção, sim, de continuar com temas que representem esse período tão obscuro da história brasileira e mundial, esse grande holocausto que foi o período da escravidão. A ideia da saga é essa, (as faixas) "Banzo" 1, 2 e 3: fazer as pessoas lembrarem esse momento histórico de tanta dor, de tanta tragédia. Mas lembrar disso com júbilo, não com tristeza. Essa é a proposta. Construiu-se uma cultura extremamente rica a partir de pessoas escravizadas que chegaram em condições precárias, mas conseguiram interferir na cultura das Américas, a maioria dos países. Você pode lembrar do tango da Argentina ao jazz norte-americano, passando pelo samba brasileiro, a música cubana: todas essas músicas têm influência direta da diáspora negra na sua estrutura. Isso é muito importante ressaltar, lembrar com júbilo, porque é uma transformação profunda na forma de estruturar a cultura desses lugares.

Então a ideia do próximo trabalho da Orkestra…

O próximo trabalho autoral é a continuidade desse projeto que se iniciou com "A saga da travessia", dessa observação desse momento histórico. A primeira parte a gente já lançou, a gente vai continuar com esse pensamento, em outros momentos da história, da afirmação da cultura negra, agora dentro do território brasileiro. A gente ensaia no final do ano e lança no começo de 2020.

Você também tem um projeto social. Como você concilia tanta coisa?

Eu não sei… Eu durmo pouco, cinco horas só por noite (risos). Estabeleci isso na minha vida. Está dando certo. O projeto chama-se Rumpilezzinho. Na realidade, no final dos 90, eu tinha uma escola particular, Academia de Música da Bahia, e uma parcela dos alunos era de bolsistas. Só que esse número cresceu tanto que acabou virando um projeto independente: eu aluguei uma casa em Salvador e ela passou a ser um projeto social. E agora eu só ele. Eu fundei o Instituto Rumpilezz e dentro dele a gente agrega os diversos trabalhos, porque eu faço muita palestra, dou aula, faço masterclass. Mas o mais importante agora é o Rumpilezzinho, projeto de formação de jovens a partir de 15 anos. Mas nem sempre isso é respeitado: agora mesmo um aluno foi aprovado com nove anos de idade. Um exímio percussionista, não tinha como deixar de fora. A gente tem umas quebras assim. E vai até 25 anos. O Rumpilezzinho já teve alguns trabalhos de notoriedade. Por exemplo, foram no palco principal do PerPan — Panorama Percussivo Mundial e participaram do disco da Maria Rita, gravaram uma faixa ("Bola pra frente", do CD e DVD "Coração a batucar", de 2014), só os jovens e ela cantando. O interessante também é que a formação não é semelhante à da Orkestra: são todos os instrumentos geralmente usados em música popular. Lá você vai ter teclado, baixo elétrico, guitarra, outros instrumentos de sopro, tecnologia, música eletrônica, ela abre todo o espectro de oportunidade para jovens que queiram tocar instrumentos. E outro fato interessante é que a gente tem cota para mulheres: a maioria das vagas tem que ser ocupada por meninas. É uma maneira de incentivar as mulheres a serem instrumentistas. Já tem meninas bateristas, contrabaixistas, tocando trombone, trompete. Essa foi uma maneira que a gente achou de aproximar elas do projeto da educação de jovens. Porque é muito difícil oportunizar mulheres nessa questão de instrumentista, existe um ambiente ainda machista, é difícil a ascensão para mulheres em determinados instrumentos. A gente está propondo incentivar esses que normalmente não são direcionados para as meninas para que elas possam tocar. E está transformando. Acho que nesses últimos dois anos já tivemos várias meninas tocando instrumentos que geralmente não são direcionados para elas.

E os jovens que participam do Rumpilezzinho acabam seguindo carreira profissional?

A maioria. Como é um projeto de transformação, de formação profissional mesmo, vários deles estão inseridos no mercado, e alguns fizeram audição e estão tocando na Rumpilezz. A gente tem três músicos na Orkestra agora, no show que a gente faz em homenagem à Black Rio, com repertório do disco "Maria Fumaça": o baterista, o guitarrista e o baixista são do Rumpilezzinho.

Agora queria voltar um pouco no tempo. Porque você estudou em Porto Alegre e fora do Brasil (na Áustria, no Franz Schubert Konservatorium). Sempre teve essa conexão forte com a música da Bahia ou em algum momento você se reconectou com ela? Você teve contato ainda na infância, eu sei…

Morei no exterior mais de dez anos. Não tinha como não me afastar um pouco, por estar em outro ambiente, onde muitas vezes os músicos nem tinham habilidade para tocar como a gente queria, em termos de percussão. A minha aproximação fui muito jovem, ainda, com 11, 12 anos: eu estudava numa escola pública de Salvador chamada Severino Vieira, e surgiu a oportunidade de tocar na orquestra afro-brasileira desse colégio, inclusive coincidentemente nosso primeiro professor foi o Mestre Moa do Katendê (1954-2018). E, a partir daí, eu acho que eu fiquei com essa ideia da percussão fazendo parte fundamental na minha vida como músico. Nesse período em que eu fiquei na Europa, não tive tanto acesso. Vivi num ambiente onde havia músicos de todo o mundo, então tocava várias tendências, vários gêneros, me aproximei muito da música africana também, porque havia diversos estudantes da África. Foi muito importante esse intercâmbio com a música do mundo todo. Então de alguma maneira me afastei. Mas me reconectei quando eu voltei, porque a Bahia já estava com um movimento industrial, que as pessoas chamam comumente de axé music — eu tento não usar esse termo, não acho tão adequado. Trabalhei um tempo na indústria, como arranjador e músico. Onde fiquei mais tempo foi com a Ivete Sangalo, foram 14 anos na banda dela como músico e como arranjador de algumas composições.

Você viveu muito essa cena do samba-reggae, da época em que voltou para o Brasil: trabalhou com a Ivete, Daniela Mercury, Timbalada, Olodum. Agora a gente está passando por outro momento, com os artistas independentes se sobressaindo. Tem o Baiana System, que é o mais conhecido no país deles, mas tem Luedji Luna, Xenia França, Àttøøxxá, Baco Exu do Blues… Como você vê essa cena jovem baiana que está aparecendo para o Brasil hoje?

Ela se conecta muito, todos se conhecem muito. Do Baiana eu participo com eles de alguns processos criativos, participei do disco de estreia. Primeiro, mesmo no período em que tinha a hegemonia da música industrial na Bahia, sempre existiram artistas acontecendo, nos guetos, artistas periféricos. Eu não parei de fazer música instrumental nesse momento: tocava com Ivete e chegava em Salvador e me apresentava nos lugares onde eu podia, com grupos menores e até com a Orkestra Rumpilezz. O que acontece agora é que esse cena também, de alguma maneira, se destaca muito porque teve um esfriamento, diminuiu a exposição industrial. Ela não conseguiu se manter… Quer dizer, se manteve por muito tempo, e não vai se apagar nunca. Eu sempre falo que a música dançante industrial na Bahia, chamada axé music, nunca vai sair de cena, porque tem um forte convite para a festa, para a dança, e onde tiver festa vai ter alguém tocando esse gênero. Esse estilo que eu falo é a indústria, porque não existe o gênero axé music, são diversos estilos musicais que foram colocados dentro de um, esse rótulo foi criado para um negócio. Quando dá um esfriamento desse movimento, outro consegue ocupar os espaços. Esse é um fato. Outro fato muito forte é a presença das redes sociais, divulgando os trabalhos. Não tinha isso. Isso muda tudo, não só aqui, no mundo todo. Eu sempre gosto de brincar que eu tem um mundo antes e depois de Cristo, e antes e depois da internet. Muda tudo: os negócios, divulgação, produção, gravação. Você pode fazer tudo dentro da plataforma que existe aí. Pode produzir um disco com pessoas do mundo todo tocando, gente divulgando, vendendo. Isso fez diferença. Aí você cria condições muito parecidas. Com a hegemonia das grandes gravadoras não tinha isso: ou você ficava atrás de um selo forte ou você não era artista conhecido. Agora você pode. O que ajudou muito a divulgar a Rumpilezz foi uma plataforma na época, o MySpace. Então esses artistas também são consequência das ferramentas tecnológicas. E tem um outro fato interessante, que é uma terceira via: de uma conscientização da cultura de matriz africana na produção artística, isso tem que ser falado. Todos esses grupos se aproximaram de maneira direta e transparente, reconhecendo que as suas músicas foram forjadas a partir dos ritmos de matriz africana. Em outras feitas também aconteceu, mas não tinha o reconhecimento. Como a bossa nova, por exemplo: não colocava isso muito claro. Parece que a bossa nova caiu do céu… O baião também, parece que não é tão ligado… Eu digo em termos de deixar claro que são ritmos de origem também de matriz africana. E esses novos artistas que você citou, eles deixam isso muito claro, e com uma fonte ainda mais próxima, que é relacionando com a música do candomblé, com a música dos terreiros, dos tambores. Isso é interessante. O Àttøøxxá, por exemplo, o trabalho de programação. Eu conheço o Rafa (Dias, produtor e DJ do grupo), já fiz trabalhos com ele, e você vê que ele observa os ritmos, ele é preocupado com os toques primários para criar as plataformas dele de beats na música eletrônica. O Baiana a mesma coisa, quando você vai olhar. O que junta a gente, o grande fio condutor desses trabalhos é o olhar direto para a cultura de matriz africana na música. A Rumpilezz deixa isso totalmente claro também, no nome da orquestra, que vem dos nomes dos tambores, e toda essa produção, o trabalho de Xenia, da Larissa Luz — que é uma cantora incrível e tem que ser colocada nesse grupo —, o Baiana System, a Afrosinfônica do maestro Bira (Ubiratan Marques), a Nara Couto — todos esses artistas têm ligação direta com essa produção. E grupos de rock também, o próprio Cascadura, quando fez seu último trabalho, estava lá a presença dos tambores, a Rumpilezz participou. Grupo de hip hop, como Opanijé, e o rapper Baco Exu do Blues também têm essa conexão. Se tem uma unidade, é a questão da aproximação direita dos recursos da música rítmica de matriz africana de forma consciente, não mais como era antes. Os músicos estudam os toques, fazem a composição, fazem os arranjos, tentam relacionar com os toques matriciais.

E são artistas negros, por acaso ou não.

São artistas negros. O fato de você colocar essa música dentro de um plano de música elaborado, de pensamento científico, como eu venho defendendo sempre, é uma forma de afirmação da música negra. Que quase sempre é usurpada, né? Os negros criam os grandes movimentos em música e geralmente os ícones passam a ser brancos. Na chamada axé music não foi diferente. Houve um embranquecimento, que não foi nada ocasional, foi intencional da indústria. E essa cena (atual), não: ela já tem a consciência de que isso é um patrimônio da cultura negra. Que os protagonistas deverão e devem ser os negros. É uma música que representa a nossa cultura.

A sua pesquisa se baseia muito no toque da percussão do candomblé, você segue a religião?

Eu tenho uma ligação forte com uma candomblé de Salvador, mas não tenho tempo de ficar indo constantemente. Mas tenho uma ligação forte, me considero adepto, sim. Mas não tem uma pesquisa no candomblé. Não é bem isso. O que eu faço é uma desconstrução. Na realidade, eu observo a música brasileira. A música de Tom Jobim, do João Gilberto, o baião do Luiz Gonzaga. Eu não tenho regras, ferramentas de conhecimento para fazer. Faço de forma intuitiva. O que eu percebo é o seguinte: quando você desconstrói a música popular brasileira, sempre acaba chegando em algum toque matricial. Tive uma conversa longa com o Caetano outro dia sobre esse tema, e a gente acabou entendendo. Conversei uma vez na casa de Paulinho da Viola com ele também, e ele está nesse acordo: essas músicas todas das quais a gente está falando, os tipos de samba, os subgêneros de samba, partido alto, o samba de caboclo, o samba afro, essas músicas têm uma forma de organização metodológica que vai chegar sempre na raiz dessa grande árvore rítmica que são as diversas nações de candomblé. Eu não parto do estudo dos toques, é o contrário: eu faço uma decomposição do que eu acho. As minhas ferramentas foram usadas para o meu trabalho como arranjador. Eu não achava que eu podia mais arranjar sem conhecer esses princípios. Não tinha mais como eu fazer o arranjo de música que foi baseada em nenhum ritmo, nenhum toque — um baião, um samba, um frevo, não importa — que esteja no ambiente da música popular brasileira e não saber a origem desses toques, desses ritmos, de onde vem. Então você vai dando um passo para trás e acaba chegando no terreiro. Qualquer passo que você der na sua observação. Eu não acho que geralmente eu observo primeiro o terreiro para depois fazer… Por exemplo, para um instrumental, eu faço isso: emerjo um ritmo, mas ele não é necessariamente ancestral. Tenho várias composições que são em compassos ímpares que não existem na música tocada dentro da cerimônia sacra. O compasso, por exemplo, de 5/8, 5/4, não tem na brasileira. Tem em outras culturas, na brasileira não tem. Não assim tão claro. Quer dizer, pode até ter, pelo que eu sei não tem esse toque (risos). Mas a gente tem esses toques híbridos dentro da Rumpilezz. É como eu falo: eu readapto para que possa fazer uma composição dentro desse ambiente. A ideia da Rumpilezz é observar esses ritmos, aprender, conhecer os toques, a elaboração deles através da contemporaneidade. O que eu quero mesmo, o que eu desejo é fazer música contemporânea, baseada em improvisação jazzística também, na medida do possível.

Voltando ao passado, mais uma vez: o que te fez migrar das artes plásticas para a música? Você já tinha tido um contato na infância…

É uma parte da minha vida que ainda não está muito clara. Não consigo entender por que isso aconteceu, nem como. Não era meu desejo, sinceramente. Eu me preparei para ser artista plástico. Vinha pintando desde 11, 12 anos seriamente, fiz exposição com 14, 15 anos de idade, coletivas e individuais. Já estava entrando na área do cartunismo, algumas tiras minhas saíam num jornal de grande circulação de Salvador na época, fazia desenho animado um pouco, e entrei na universidade: em vez de música, fiz vestibular de Artes Plásticas. Fui aprovado e estudei três anos. Do nada a música veio como um tsunami e tomou conta de tudo, mudou tudo. Quando eu vi, em um ano eu já era profissional. Meio conto de Cinderela, mas aconteceu dessa forma, vários amigos dessa época lembram que na década de 70 eu era artista plástico e, quando virou para a de 80, eu já era músico.

Você começou de hobby?

Não era tanto hobby. Eu comecei a tocar na militância. Eu fazia parte do Movimento Estudantil. Antes, com os criadores da União Livre dos Estudantes Secundaristas da Bahia, que era um grupo contrário à organização secundarista oficial, e depois, na universidade, a gente esteve no Movimento Estudantil direto. Eu ia tocar nas mostras de som igual a militante, a gente ia conclamar os nomes contra a ditadura, se reunia para fazer as apresentações musicais. Então não era tanto uma diversão, não. Por isso que eu me sinto um militante até hoje (risos). Tem a ver com isso.

Seu trabalho é também uma forma de militância, né?

Claro. É um trabalho que, claramente, visa à afirmação e à colocação da música negra como música estruturada e que tem seus rigores, o que, infelizmente, ainda não é conhecido pelas academias. Mas o meu discurso é nessa direção da afirmação.

Vai lá:
Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz com participação de Caetano Veloso
Quando: Sexta-feira, 22 de março, às 22h (abertura dos portões)
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 70 (com 1kg de alimento) a R$ 140

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.

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