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'Somos resistência sapatão', diz integrante do bloco O Rebu

Kamille Viola

15/03/2019 21h47

A mulherada do bloco O Rebu. Foto: divulgação

Atração do evento Tinha Que Ser Mulher!, que acontece este domingo no Santo Cristo, o bloco O Rebu criado em 2017, depois que sua fundadora, a musicista Eliza Leão, foi em um bloco LGBT e sentiu falta de um espaço só para lésbicas. Além dela, hoje a banda reúne também Pam Mariano, Daniela Pinheiro, Luana Vianna, Gabriela Feleno, Beatriz Vitorino, Renata Salles, Cyda Rodrigues, Ingrid Barbosa, Ana Carolina, Sarah Ameijeiras e Bruna Amaral.

Além de se tornar um espaço onde as mulheres se sentem seguras e livres de assédio (muitas héteros o procuram por isso), o bloco vem inspirando outras mulheres por aí a criarem os seus próprios. "Eu senti que o Rebu trouxe muita coragem para vários movimentos. Porque a gente se apresentou no 8M em Juiz de Fora ano passado, é um evento que carrega umas cinco mil mulheres, de todo o Brasil. Muitas manas conheceram a gente e viram que é possível, sim, então foram surgidos muitos por aí", explica Pam.

O nome faz referência à gíria (até cogitei publicar a palavra inteira aqui, mas decidi não fazer isso, busquem conhecimento!) que brinca com uma espécie de corrente que existiria entre lésbicas, fazendo com que a vida sexual/afetiva de todas esteja ligada de alguma forma: Fulana namorou Beltrana, que ficou com Sicrana, que já namorou com Fulana…

O blog conversou com duas integrantes do Rebu. Além do show do bloco, o Tinha Que Ser Mulher!, que acontece no Bco., terá apresentação do grupo Vindas de Vênus, palestras, rodas de conversa, oficinas, workshops e feira, tudo feito por mulheres.

Como surgiu o Rebu?

Daniela Pinheiro: Em 2017, eu fui num bloco gay com a Eliza Leão e ela saiu de lá com essa inquietação que virou bloco. No mesmo dia ela mandou uma convocação num grupo de lésbicas do Facebook.

Pam Mariano: Eu já tocava antes, venho da oficina de percussão Bambas de Saia, e lá eu conheci a Eliza, que também fazia parte da Oficina de Introdução à Percussão Popular Brasileira. Eu comentei com ela uma vez de a gente montar um grupo de pagode só de mulheres lésbicas para tocar no Isoporzinho das Sapatão, que o pessoal da (festa) Velcro faz. Depois dessa conversa, a Eliza veio me fazer a proposta de integrar o bloco O Rebu. Eu não aceitei de antemão, porque eu não tinha condições financeiras para poder fazer parte desse movimento, porque também tem gastos. As meninas já estavam superavançadas. A maioria nunca tinha tocado nenhum instrumento, aprenderam umas coisas as outras, nós fomos, aos poucos, passando o conhecimento que nós tínhamos.

Qual foi a ideia ao criar o bloco?

Daniela: O bloco surgiu basicamente porque entendemos que não existia um espaço para mulheres lésbicas no carnaval. Mesmo os blocos LGBTs muitas vezes não são espaços seguros e confortáveis pras lésbicas. Além do mais, existe há um tempo um movimento mundial de tentar dar mais voz às mulheres dentro do movimento LGBT, antes a sigla era GLBT e colocar o L logo na frente foi o símbolo dessa tentativa de dar mais voz às mulheres dentro desse movimento, cujo protagonismo sempre foi masculino. A luta lésbica é uma luta feminista fora e dentro do movimento LGBT.

Pam: Surgiu dessa inquietação, como a Eliza fala, de não ter uma representatividade lésbica na noite e nos blocos cariocas. Sempre é LGBTQI, e a maioria dos frequentadores desses eventos é homem, porque homens ganham mais. A gente se sentia incomodada por não ter mais mulheres na rua. Do Rebu bloco, surgiram o Trio Amassa Saia (de forró), e o Batuque Delas, que é do evento Sapagode, com cinco integrantes do Rebu. A gente foi tentando criar mais espaços para as mulheres lésbicas.

A adesão ao bloco foi grande?

Pam: A gente foi muito acolhida, o Rebuzinho hoje é muito amado, as manas colam nos nossos eventos, acabam surgindo convites de parcerias com festas LGBTQI, mas focando sempre no público lésbico. A gente leva sempre umas 400 mulheres nos nossos eventos, e acaba multiplicando quando tem parceria. E só tem a gente, né? Não tem como não ser amado, se existe tanto essa dor de ter um espaço majoritariamente lésbico. A gente vem evoluindo também em termos de técnica. Eu acabei me matriculando na Escola de Música Villa-Lobos, a Eliza já fazia parte, a Renata, que é nossa baixista está investindo em equipamentos para gravação — esse é outra dor que a gente tem: não existe técnica de som sapatão, então ela vai ser uma das precursoras. A maioria já está em oficinas para aprimorar as técnicas. Em menos de um ano, o bloco cresceu muito, a gente está fazendo ritmos que não sabia tocar e está fazendo maravilhosamente bem. Eu tenho muito orgulho dessas manas estarem percebendo que nós, como musicistas, precisamos estudar mais para trazer uma boa música para esse público.

E vocês também têm sido chamadas para tocar em muitos eventos, né?

Pam: Sim, como no CCBB (na Madrugada no Centro), também fomos chamadas para participar da festa Manas, esse evento domingo… O Amassa Saia e o Batuque Delas recebendo convites para se apresentar em festas particulares, aniversários, estamos temos um crescimento muito grande, o retorno do trabalho do movimento todo está sendo muito positivo.

Você sente que mulheres hétero também procuram o bloco porque se sentem mais seguras lá?

Pam: Vão, muitas héteros, bissexuais. Elas se sentem muito à vontade, porque não tem assédio e, quando tem algum homem machista, inconveniente, a gente reeduca e convida ele para sair. A manas compram um barulho, até mesmo as frequentadoras, e aquele homem percebe que não é bem-vindo e se retira. Já expulsamos alguns machos do bloco no carnaval, porque eles não se comportam.

Como é o repertório do Rebu?

Pam: A gente busca tocar músicas de sapatonas: Cássia Eller, Zélia Duncan, a baiana Luedji Luna… E também fazemos paródias. Por exemplo, a marchinha "Maria Sapatão": construímos uma letra em cima da original e é muito bem-recebida (em vez de "de dia é Maria de noite é João", elas cantam "não mexe com a Maria, ela não pega macho, não"). Tem axé, rock, forró, baião…

Lésbica na música brasileira não falta…

Pam: Não, não falta (risos). Tem muitas, Bia Ferreira, Doralyce, Taís Feijão, tem uma infinidade agora de opções.

E no passado também, né?

Pam: Também. Mas é que antes elas falavam que gostavam "de pessoas", né? Hoje as mulheres falam mesmo que são sapatão, fancha, cola-velcro… A gente tá muito mais ousada, grande e confiante.

Não param de surgir blocos novos no carnaval carioca, este ano mesmo surgiram alguns novos. O que você acha desse movimento?

Pam: As mulheres não são incentivadas a tocar instrumentos de peso. Eu faço parte do Fina Batucada, que tem essa proposta há 20 anos. Foi fundado pelo Mestre Riko, que é professor e vice-presidente da Villa-Lobos, e foi muito sensível em ver que as mulheres só tinham representatividade ou no tamborim, ou no chocalho, mas na caixa ou surdo, não. Ele veio com essa proposta, e acho bacana que outros blocos venham com ela também. As mulheres têm força, são capazes de tocar uma caixa tão bem quanto um homem. Elas só precisam ter espaço. Eu acho maravilhoso, tem que ter mais, as mulheres têm que ocupar todos os espaços, está na nossa hora. Mulher está sempre gerando, por que a gente tem que ficar em casa cozinhando, passando e lavando? Se a gente gera uma vida, tem capacidade de gerar muitas coisas.

Tá bom, muito obrigada pela conversa.

Pam: Queria acrescentar uma coisa. O Rebu luta também pelo fim da desigualdade. Eu sou a única mulher lésbica negra periférica no bloco. Isso é muita resistência. Porque não somos todas iguais. Somos sapatões, mas existem diferenças de classe, de cor. E o Rebu também busca isso com muita intensidade, trazer mais representatividade, porque os nossos eventos são baratos, são para todas as mulheres entrarem, inclusive as negras periféricas. É isso que eu carrego, essa é a minha representatividade. E resistência. Acho que o Rebu para mim é isso, resistência sapatão.

Vai lá:
Tinha Que Ser Mulher!
Quando: Domingo, 17 de março, das 14h às 22h
Onde: Bco. Rua General Luís Mendes de Morais, 210 – Santo Cristo
Quanto: Grátis

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.

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