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Chico César e Vitor Ramil juntos no palco: 'Tem uma magia entre nós'

Kamille Viola

2001-02-20T19:10:00

01/02/2019 10h00

O paraibano Chico César e o gaúcho Vitor Ramil se apresentam juntos. Foto: divulgação

Um é de Catolé do Rocha, na Paraíba, e o outro, de Pelotas, no Rio Grande do Sul, interiores bem distantes um do outro — mas que, eles garantem, têm mais em comum do que pode se imaginar à primeira vista. Amigos há muitos anos, Chico César e Vitor Ramil celebram esse encontro juntos no palco, em um show que chega esta sexta do Rio de Janeiro, no Teatro Rival.

Compositores, cantores, instrumentistas e escritores, os dois há muito cultivavam uma admiração mútua. Porém foi depois de se encontrarem em um evento literário no ano passado, em que um entrevistava o outro, que surgiu a ideia de dividirem a cena. É a quarta cidade por onde passa a apresentação, que, se depender da vontade dos dois, deverá ganhar registro em disco.

O repertório traz novas interpretações de canções como "Estado de poesia", "Moer cana", "Pensar em você", de Chico, e "Deixando o pago", "Labirinto" e "Estrela, estrela", de Vitor, além de duas composições da dupla: "Olho d'água, água d'olho", que está no álbum "Campos neutrais" (2017), de Ramil, e a inédita "Os trens".

Os dois falaram ao blog sobre o show, sua amizade e as afinidades entre seus trabalhos, entre outras coisas.

Rio Adentro: Vocês já vêm fazendo esse show há um tempo, fizeram algumas apresentações…

Vitor Ramil: Na verdade a gente começou, se encontrou para um projeto do Itaú Cultural, foi convite do Marcelino Freire, o poeta, e nos uniu duas noites. Uma noite eu entrevistava o Chico, noutra noite o Chico me entrevistava, e a gente tocava junto e tal. Um encontro de literatura, mais do que de música. Quando a gente terminou esse encontro, se reuniu no camarim e: "Pô, isso aí, vamos fazer um show, para o negócio ficar legal." Rolou uma química muito boa. Depois que eu cheguei no Sul, eu recebi o convite do Teatro São Pedro, lá em Porto Alegre, para uma datas que eles tinham e queriam ocupar. Daí liguei pro Chico e a gente começou. Foi mais rápido do que a gente previa. E aí nós já fizemos quatro concertos. Depois fizemos em Pelotas, que é minha cidade natal, fizemos em São Paulo (quarta e quinta desta semana), e agora no Rio.

Rio Adentro: Já vi vocês falarem que divergem um pouco sobre a história de como vocês se conheceram. Mas foi mais ou menos em que ano? O Chico falou que conheceu a sua família inteira numa feira de música. Quando foi que vocês começaram a conviver mais, trocar mais ideia?

Vitor Ramil: A gente começou a se ver mais a partir do ano 2000. No final da década de 90, a gente já se encontrou, se conheceu, de vez em quando se via. Em 2000, eu gravei um disco na Argentina ("Tambong", produzido pelo argentino Pedro Aznar) e eu vim lançar ele em São Paulo. Eram shows em todos os fins de semana, aí eu fiquei um mês em São Paulo, fiquei na casa do Chico. Ele me convidou para ficar lá e a gente começou a se aproximar, andar junto, tocar, conversar, e nos tornamos grandes amigos. Temos uma admiração mútua e uma afinidade muito grande, apesar de a gente ser de pontos bem distantes do Brasil. Compartilhamos muitos interesses.

Rio Adentro: Além dessa questão da literatura, com a qual vocês dois têm uma ligação — não é à toa que participaram de um evento literário juntos — onde você acha que a obra do Chico e a sua se encontram para além desse clichê do regional? Porque acho que isso também acaba sendo uma coisa que é da gente que é do Rio e de São Paulo, que está acostumado com os artistas dos mesmos lugares de sempre, aí foge um pouquinho e a gente já tacha de regional…

Vitor Ramil: Acho que tu tem razão, o centro tende a ver as outras regiões como música regional. Agora, a gente, que é das regiões que não são do centro do país — eu não sei se também é do fato de os dois sermos do interior — tem uma visão que é até mais cosmopolita do que quem está dentro de uma capital, um cosmopolitismo que abrange tudo, desde o interiorano até tudo. Por exemplo, o Chico era muito ligado ao Teixeirinha, que é um compositor lá do Sul, e eu sempre fui muito ligado a coisas da cultura nordestina. Então tem esse link, acho que os interiores se comunicam, entende? Para nós não é um clichê, é uma verdade. Existe uma, a gente consegue apreciar e existe uma afinidade entre as belezas das sensibilidades. Mas nós temos características muito semelhantes, a coisa da melodia, do apreço pela letra. Temos muito em comum realmente e o link com a parte literária, poética. É difícil de falar, mas sei lá, a gente combina muito bem. Tem muitas pessoas que às vezes você gosta do trabalho, daí você vai trabalhar junto e não rola nada, e a gente não. A gente tem um humor também parecido. Como indivíduos, temos muita afinidade.

Rio Adentro: Eu vi que, no repertório do show, além de uma música de vocês dois que está registrada no seu disco, tem uma música nova. Tem algo mais de vocês dois?

Vitor Ramil: Tem, além de "Olho d'água, água d'olho", uma música que eu gravei, e uma que a gente fez que é nova, "Os trens", que o Chico tinha me mandado uma letra e eu fiz uma música, assim, um pouquinho a ver e a gente está apresentando ela. No mais, a gente vai tocando canções de um e do outro, sempre com abordagens que cada um aporta na canção do outro.

Rio Adentro: Essas duas músicas inauguraram uma parceria, vocês pretendem continuar compondo juntos?

Vitor Ramil: Claro, pretendemos, sim. A gente até já fez outras coisas, deve ter feito umas cinco ou seis músicas. Às vezes as colaborações no começo demoram a engrenar, até porque são dois autores com linguagens bem particulares, bem pessoais. Então, quando tu junta junta dois compositores, cada um seus cacoetes, tem suas manias, então nem sempre é fácil tu chegar a um bom termo. Mas a gente fez algumas músicas e, no caso do "Olho d'água", eu achei que tinha muito a ver com o repertório do meu disco, gravei e assim vai indo. A gente vai fazendo as canções, agora "Os trens", essa ficou superadequada ao show, é bonita. E assim a gente vai indo. Claro que a gente quer seguir compondo junto, sem dúvida.

Rio Adentro: A ideia é vocês continuarem girando com a turnê?

Vitor Ramil: Não vou dizer que é uma turnê, porque a gente não tem nada planejado. Porque nós temos também nossos compromissos individuais, estamos os dois com coisas em andamento separados. Mas é um show que a gente pode ir fazendo, pode conciliar com os nossos trabalhos. Bom, só o tempo vai nos dizer se ele vai resistir, se a gente vai chegar a gravar isso em disco ou não, não temos nenhuma ansiedade em relação a isso. Estamos nos divertindo e desfrutando.

Rio Adentro: Você acha que tanto você como o Chico fazem uma ponte entre o regional e o contemporâneo? Uma espécie de atualizando das raízes, digamos assim?

Vitor Ramil: Acho que não dá para falar em termos de atualização das raízes. No meu caso, por exemplo. O Rio Grande do Sul é um caso bem típico no Brasil, bem único. Se tu pega o Nordeste, por exemplo, tu vê que os compositores de lá já há muitos anos trabalham com material regional, digamos assim, com muita liberdade. Alceu Valença, Lenine, Chico (César), Chico Science, uma infinidade. Eles transitam pelo imaginário deles muito livremente, o nordestino sempre teve essa desenvoltura com as coisas do seu lugar. De fazer disso o que bem entende, tem o seu direito de autor. No Sul já foi um pouco diferente, porque ele sempre teve uma carga sobre aqueles que tentavam trabalhar com o material que a gente chama de regional. Sempre teve uma coisa um pouco mais conservadora. Esse instrumento pode usar, esse não pode, não é do folclore, isso não é. Sempre teve uma espécie: "Ah, tu é da capital, tu não tem direito a tocar milonga." Sempre houve um certo cerceamento, uma tentativa de dominação por parte dos grupos mais tradicionalistas da cultura do Sul. Nunca houve muita liberdade para o manejo dela. Hoje em dia já não é tanto, mas acho que até a minha geração isso era muito pesado. Eu, por exemplo, fiz um disco de milonga, chamado "Ramilonga", em 1997, incorporei a Milonga ao meu trabalho, de uma forma bem

Rio Adentro: Vocês já se conhecem há um tempo. Como tem sido essa experiência de dividir o palco?

Chico César: Olha, tem sido um encontro muito estimulante para mim, acho que para ele também, porque escutar o outro é um exercício de humanidade. Para você entrar no trabalho do outro, você tem que ouvir de um jeito diferente daquele que a gente escuta o outro quando é fã. Outra coisa é escutar para tocar, para interferir. Como você vai entrar naquele trabalho que você admira tanto? Acho que tem sido muito isso e acho que mostra um Brasil possível, pelo fato de eu vir do Nordeste, de uma cidade do interior, ele vir do interior do Rio Grande do Sul… Porque muitas vezes as pessoas situam muito por sexualidade, regionalidade, raça, e, na verdade, nós somos humanos e, no nosso caso, somos humanos brasileiros, que fazemos muita brasileira e é isso que nos une.

Rio Adentro: Eu vi você falando que, quando você e Vitor se conheceram, você ouviu o "Ramilonga — A estética do frio" (1997), aquilo de alguma forma foi uma inspiração, você teve vontade de fazer algo que tivesse uma ideia semelhante. O que você admira no trabalho dele?

Chico César: Na verdade, eu conhecia o trabalho dele antes de conhecê-lo pessoalmente. Então eu conheço ele desde bem antes do "Ramilonga". Conheço "Estrela, estrela" (primeiro disco de Ramil, de 1981) de vai muito tempo. Mas o "Ramilonga" ele me deu quando nos encontramos numa feira de música lá no Rio Grande do Sul. E eu acho que trazia ali uma delicadeza e ao mesmo tempo uma potência de uma cultura de uma região. E que ela aborda de um jeito não regionalista. Isso acho que foi o que me encantou e acho que talvez essa seja uma visão parecida que ele tenha com relação ao meu trabalho. Algo que você vê e o encantamento está na delicadeza com que cada um traz o seu lugar.

Rio Adentro: Sempre é falada essa questão do regionalismo, ainda mais juntando vocês dois, de lugares tão distantes entre si. Onde você acha que essas culturas tão diferentes se encontram? A gente tem Brasis dentro do Brasil, nós somos um país culturalmente muito diverso, e na música não é diferente…

Chico César: Eu acho que o gaúcho e o sertanejo são muito parecidos. Euclides da Cunha já nos mostra isso. Se você pegar um Érico Verissimo, que é um representante da literatura do Sul, e um José Lins do Rego, que é um representante da literatura do Nordeste. Ou um Graciliano Ramos. Você vai ver que nós temos muito em comum: a ruralidade, essa coisa das vastas extensões dos sertões ou dos pampas, a presença do couro do boi, são lugares que têm essa civilização do couro. Então é mais parecido do que diferente (risos). Acho que Luiz Gonzaga e Teixeirinha (compositor gaúcho que fez enorme sucesso no cinema) têm muito a ver. Eu acho um paraibano mais parecido com um brasileiro do que com um paraibano, às vezes. Nós temos muitos traços em comum. Eu me identifico muito mais com o Vitor do que com muita gente da própria Paraíba, musicalmente. Esse olhar para as palavras, para literatura que ele tem e que eu tenho, um jeito próprio de pensar as harmonias, que ele tem, que eu tenho. Tudo isso levanta uma curiosidade, cria um flerte, primeiro à distância e depois nos aproxima mesmo.

Rio Adentro: Além de no show vocês apresentarem duas músicas, sendo uma inédita, o Vitor contou que vocês estão trabalhando em outras coisas.

Chico César: Eu leio um texto, que chama-se "O homem sob o cobertor puído", e ele também faz o trecho de um poema de um conterrâneo dele a capella. É essa a conexão. A gente está muito feliz de estar fazendo dois dias em São Paulo, com tudo esgotado, o Rival também está cheio. Acho que é um encontro potente.

Rio Adentro: Mas é uma parceria que pelo visto vai seguir, né? Ele falou que vocês têm outras músicas que ainda estão maturando e não apresentam ainda. É uma parceria que fica.

Chico César: Creio que sim. É algo que a gente sempre vai poder voltar mais na frente, se encontrar, fazer mais, desenvolver as músicas já começadas.

Rio Adentro: Ainda não tem uma turnê formalmente, as coisas vão acontecendo.

Chico César: Como já fizemos duas cidades importantes do Sul (Porto Alegre e Pelotas), agora duas cidades importantes do Sudeste (Rio e São Paulo), quem sabe mais na frente duas importantes do Nordeste, duas capitais? O bom é isso, vai acontecendo sem planos, naturalmente.

Rio Adentro: Você tem um desejo de fazer um registro desse show em disco, DVD ou as duas coisas?

Chico César: Até conversamos nesses dias aqui em São Paulo sobre isso. Ambos temos o desejo de registrar o encontro, não sabemos ainda em que suporte. Eu acho bonito fazer um DVD, mas o Vitor fala: "O pessoal de gravadora diz que esse é um mercado que não existe mais." Então podemos fazer um disco. Eu gostaria de fazer ao vivo. Ele pensa em fazer de estúdio. São pontos de vista que não se excluem, cada um tem seu jeito de ver. Eu gosto muito desse frescor do ao vivo, da possibilidade ter erros. Eu acho que o erro do espontâneo é um acerto, é para onde o gesto aponta nesse momento. E o show é isso. Acho que, à medida que a gente prepare, ensaie bastante, ele vai ficar pronto, ele poderia ser gravado ao vivo. O Vitor tem um rigor. Ele pensa numa coisa trabalhada em estúdio. Do mesmo jeito que a gente está fazendo, com dois violões e tal. Ambos os caminhos são válidos e sei que, na hora que tivermos que fazer, vai ser bom para nós dois, independente da forma, se vai ser estúdio, se vai ser ao vivo.

Rio Adentro: Como tem sido fazer esse trabalho em dupla, pensar em dupla, um se adaptar às canções do outro?

Chico César: Acho que nós somos bastante treinados nessa vida para o outro, para os encontros. Isso que eu estou fazendo com Vitor já fiz com o Moska, já fiz com o Zeca (Baleiro), já fiz com Lenine de certa forma, ele já fez com (o argentino) Pedro Aznar, com Jorge Drexler. Então é isso: de vez em quando a música junta as pessoas e as pessoas fazem. Não tem mistério. Tem uma magia, e essa magia acontece entre nós.

Vai lá:
Chico César e Vitor Ramil
Quando: Sexta-feira, 1º de fevereiro, às 19h30
Onde: Teatro Rival. Rua Álvaro Alvim, 33/37 – Cinelândia
Quanto: R$ 60 (para os 100 primeiros pagantes) e R$ 80

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.