Blog Rio Adentro

menu
Topo
Rio Adentro

Rio Adentro

Categorias

Histórico

'A mudança para SP nos endureceu', diz vocalista do Plutão Já Foi Planeta

Kamille Viola

2021-12-20T18:15:29

21/12/2018 15h29

Natália (a terceira na frente, da direita para a esquerda) e os companheiros de banda preparam novo álbum. Foto: divulgação

Formada em Natal (RN) em 2013, a banda Plutão Já Foi Planeta viu sua carreira ser alavancada por uma participação no reality show "SuperStar", da Globo, em 2016, no qual ficou em segundo lugar. No mesmo ano, lançou seu segundo disco, "A última palavra feche a porta", com o qual vem rodando o Brasil. Depois de se mudar para São Paulo, em 2017, o grupo foi ganhando cada vez mais exposição e circulando por festivais importantes, chegando a ser escalado para a edição brasileira do "Lollapalooza".

O grupo, que se apresenta este sábado no Circo Voador, ao lado do Scalene (finalista em outra edição do programa) e do Menores Atos, planeja lançar um novo trabalho no primeiro semestre de 2019. "Tocamos muito, vivemos várias coisas, nos mudamos pra São Paulo e isso nos endureceu, no melhor sentido da palavra", comenta Natália Noronha (voz, violão, teclado e contrabaixo), que integra o grupo ao lado de Gustavo Arruda (voz, guitarra e contrabaixo), Sapulha Campos (voz, guitarra e ukulele), Vitória De Santi (contrabaixo e teclado) e Renato Lelis (bateria).

Este foi um ano bastante movimentado para a banda, vocês se apresentaram no Lolla e em vários festivais importantes no país, enfim, estiveram bastante em evidência. Qual o balanço que você faz de 2018 para a banda?

Dá para dizer que 2018 foi um ano de expansão. Tocamos em vários festivais (Lolla, CoMA, Timbre, DoSol, SIM SP etc.) e chegamos pela primeira vez em algumas cidades, como Belém, no Se Rasgum, por exemplo. Lançamos dois clipes, um deles de uma música inédita. Acho que a gente está colhendo os primeiros frutos da nossa vinda para São Paulo (somos de Natal), onde estamos mais centralizados e conseguimos viajar mais pra tocar, além de fazer muita coisa aqui pela capital mesmo. 

Em março de 2019, completam-se dois anos do disco mais recente de vocês. Quais os planos? Pretendem lançar outro disco? Viajando tanto, como vocês fazem para compor? Costumam ir compondo ou é em algum momento vocês vão parar e falar: "Agora vamos compor para um álbum"?

"A última palavra feche a porta" foi um disco que marcou um momento específico pra gente: foi nosso primeiro álbum com produção musical (de Gustavo Ruiz), e o processo de gravação aconteceu durante a nossa participação no "SuperStar". É um disco de descobertas, de nós para nós, devido ao cenário em que o produzimos. Agora, dois anos depois, a gente sente que esse ciclo está se fechando. De lá para cá muita coisa rolou. Tocamos muito, vivemos várias coisas, nos mudamos pra São Paulo e isso nos endureceu, no melhor sentido da palavra. Este ano lançamos um single novo, "Estrondo", que já veio com uma sonoridade diferente, e acredito que foi muito por causa dessa mudança de cidade. O processo de composição pra mim é um movimento de inspiração e expiração: você absorve o que há fora, processa tudo dentro de você — às vezes inconscientemente — e depois extrai em um produto. Essa saída de Natal e ida pra São Paulo com certeza nos mudou como pessoas e como músicos, compositores, e o que vem depois de "A Última palavra feche a porta" revela muito isso. Agora estamos compondo para o disco novo, que pretendemos lançar no próximo semestre. Estamos prontos para a próxima etapa.  Sobre nosso processo de composição, ele depende bastante da música. Geralmente quem compõe somos eu, Sapulha e Gustavo. Escrevo as músicas só, às vezes produzo uma versão demo com o que penso pro arranjo e depois levo para a galera. Os meninos, diferentemente, compõem juntos, às vezes separados. Mas depois desse primeiro momento, a composição sempre vira uma produção coletiva, todo mundo participa. Sempre estamos compondo, escrevendo coisas, e o que vai para um disco é uma mistura de coisas que estão numa "gaveta" com composições pensadas especialmente pro álbum. 

Como foi o impacto do "SuperStar", na Globo, para vocês?

Faz dois anos do programa e ainda vemos o efeito da nossa participação. Foi por causa do "SuperStar" que passamos a fazer muito mais shows do que antes, por causa da demanda que a própria audiência da Globo proporcionava. E era isso que queríamos, chegar em um público em que levaríamos muito mais tempo pra chegar. Foi como uma divulgação em massa, meteórica. Isso para uma banda, na época independente e sem muita estrutura para viajar, divulgar, foi importantíssimo.

Estamos vivendo um momento de muito destaque na cena independente do Brasil para cantoras que são compositoras também, e esse é o seu caso. Como você encara esse destaque atual para as mulheres? Não que elas não existissem, a gente tem muitas compositoras importantes na história da música brasileira, mas acho que agora finalmente elas têm mais espaço. O que você acha que mudou? E o que acha desse momento? 

Acho que isso é o resultado de uma época de empoderamento das mulheres num contexto geral. O que está acontecendo na música é o reflexo de um momento em que tem se falado cada vez mais sobre feminismo, sobre assédio, sobre relacionamentos abusivos. Tem rolado cada vez mais espaço pra isso, e a internet é uma facilitadora. Há canais do YouTube de mulheres falando sobre igualdade de gênero, há sites, há as próprias redes sociais. Com a sociedade passando por essa transformação, é natural que haja um efeito também nas artes. Feminismo, liberdade, igualdade de gênero são, mais do que nunca, pautas nas músicas, nas peças de teatro, no cinema, porque talvez nunca tivemos um cenário tão favorável. As mulheres não apenas contam as histórias, mas têm mais liberdade para serem os personagens dessas histórias. Livres, donas de si, do seu corpo, autônomas, cientes do seu poder. Tudo isso traz novas perspectivas líricas.

 Uma coisa da qual muitas artistas mulheres reclamam que muitas é difícil trabalhar com música porque a maioria dos envolvidos no processo é homem. Como é se afirmar sendo mulher num meio dominado pelos homens?

Eu não gosto muito de falar sobre como é ser mulher num meio majoritariamente masculino. Em vez disso, eu prefiro falar sobre nossa presença nos lugares. Eu gosto de apontar como nós, mulheres, estamos produzindo tantas coisas, estamos à frente de tantos grupos, compondo, dirigindo, produzindo, liderando equipes técnicas. Lá em Natal, uma das maiores produtoras de direção técnica do Brasil, a Guria Produtora, é liderada por um casal de mulheres. A técnica de som do Plutão e do Far From Alaska é uma mulher. Pega uma lista dessas de melhores discos do ano, vê quantas minas estão ali. Ainda em Natal, um dos festivais mais interessantes do país, o DoSol, é coordenado por Ana Morena. Evidenciar as ações de mulheres produtoras e falar sobre elas tem mais cunho político do que a gente pensa. Porque eu acho que o machismo, em qualquer meio, tem muito a ver com invisibilizar. O feminino sempre foi visto como um gênero menor, menos capaz e por isso menos visto. Agora a gente inverte o sentido: aparece bem muito, faz bastante coisa… Quero ver alguém não ver a gente! Hahahaha!

Vocês são de Natal, que não tem uma tradição de artistas com projeção nacional, e vocês estão conquistando isso, cada dia um pouquinho mais. Como vocês se sentem de uma certa forma "desbravando" isso? 

A dificuldade de quem mora distante do eixo Rio-SP é muito de locomoção. Para divulgar o trabalho a gente precisa viajar. E viajar partindo/chegando a uma cidade turística como Natal é muito caro e inviabiliza muitos processos. Talvez por isso e por outros motivos seja tão difícil para quem é do Nordeste, por exemplo, ampliar a carreira a nível nacional. Difícil deixar nossa terrinha, o público nordestino é dedicado e lá a gente tem muitos festivais legais, mas essa migração ainda é necessária.

Vai lá:
Scalene, Plutão Já Foi Planeta e Menores Atos
Quando:  Sábado, 22 de dezembro, às 22h
Onde: Circo Voador. Rua dos Arcos, s/nº – Lapa
Quanto: R$ 40 (meia-entrada com 1kg de alimento) a R$ 80

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.