menu
Topo
Rio Adentro

Rio Adentro

Categorias

Histórico

'Eu não tenho o privilégio de ficar em cima de algum muro', diz Tássia Reis

Kamille Viola

16/11/2018 10h00

Tássia é atração de sábado. Foto: divulgação/Júlio Limiro

Com uma música em homenagem à roteirista e produtora norte-americana Shonda Rhimes, a paulista Tássia Reis quebrou um hiato de um ano sem lançamentos solo, na semana passada. Preparando seu próximo álbum, a cantora que é atração do Festival do Mundo amanhã na Praça Mauá, chamou a atenção desde que surgiu com sua voz doce e seu rap com influências de jazz, soul e reggae, se tornando um dos principais nomes da nova geração do estilo musical.

Tássia, de 29 anos, nasceu em Jacareí, no interior do estado, e mora na capital há nove anos. Em 2014, lançou sua primeira música "Meu Rapjazz", e no mesmo ano um EP com seis faixas, "Tássia Reis". O disco "Outra Esfera" veio em 2016. De lá para cá, fez participações em músicas de outros artistas, como Pitty, Liniker, Rashid e a banda Aláfia, e se ajudou a fundar o Rimas & Melodias, coletivo de rap e soul formado só por mulheres negras: Alt Niss, Drik Barbosa, Karol de Souza, Mayra Maldjian, Stefanie Roberta, Tássia Reis e Tatiana Bispo.

A artista conversou com o blog por conta de sua participação no Festival Mulheres do Mundo, que acontece pela primeira vez na América Latina e reúne cerca de 200 convidadas, de diversas áreas, para debates, conversas, shows, performances, teatro, circo, poesia, dança e cinema, além de contar com um espaço para empreendedoras. As apresentações musicais acontecem na Praça Mauá. Hoje, as atrações são Anelis Assumpção (19h), Letrux (20h) e Elza Soares, com participação Ilu Obá de Min (21h). No sábado, é a vez de Tiê (18h30 Tássia Reis (19h30), Flora Matos (20h30) e Karol Conka (22h). Domingo, os shows ficam por conta de Bloco Mulheres Rodadas (18h30), Luedji Luna (19h30) e Dona Onete (20h30). Confira a programação completa do evento.

Você vai se apresentou em um evento com mulheres ativistas e a programação musical também puxou para ele lado, mais politizado. Como você vê esse momento das mulheres no Brasil?

Eu sinto que, apesar dos pesares, a gente tem conseguido, entre nossos pensamentos, nossas conversas, avançar em alguns aspectos. Entender um pouco mais politicamente o machismo, o racismo, e todas as opressões juntas acabam afetando a gente. Enquanto artista, eu acredito muito no que a Nina Simone diz, que o dever do artista é refletir o seu tempo. E ela não acredita numa arte que não questiona; eu também não. Mas, para além disso, às vezes eu sinto que as pessoas rotulam a gente como ativistas como se a gente não fizesse arte como os outros artistas. O que eu também acho cruel em um aspecto, porque a gente está aqui numa produção de conteúdo, uma produção cultura que é riquíssima, e não é menos artística ou menos cultural por ser política, sabe? Talvez também por nem ser uma escolha. Porque eu, enquanto uma artista mulher negra, eu não tenho uma escolha, as pessoas já me olham como uma artista mulher negra. Eu não tenho o privilégio de ficar em cima de algum muro. Isso pode acontecer para as mulheres brancas, para os homens brancos, para mim não acontece. Eu não tenho o privilégio de poder me ausentar de algumas questões. Isso reflete as minhas escolhas políticas, os meus posicionamentos. Quando eu digo político não tem a ver com partido: é existência. As existências são políticas. Quando falamos de saúde, lazer, saneamento básico, ir e vir, transporte, acesso, educação, tudo isso é política. Às vezes a gente tem entendimento um pouco um limitado do que é política, mas ela é tudo que está em volta da gente. Eu acredito que é importante nós nos encontrarmos e dialogarmos cada vez mais, para que a gente consiga se ouvir, se respeitar, se compreender, praticar a empatia, porque acho que a gente ainda não aprendeu se colocar no lugar do outro. Esse encontro é muito potente por isso.

Você lançou recentemente o clipe de uma faixa nova, "Shonda", o que vem na sequência?

Acabei de lançar esse single novo, que é uma homenagem à Shonda Rhimes (norte-americana roteirista de séries como "Grey's Anatomy" e "Scandal" e produtora de "How to Get Away With Murder").  Nessa música eu falo sobre coisas que acontecem na minha vida e que muitas vezes eu tenho que engolir a seco. Algumas coisas a gente consegue bater de frente, algumas coisas a gente tem que engolir, por estratégia, por sobrevivência. Mas eu também me jogo para cima nessa música, porque eu tenho necessidade de me recordar o quanto eu fiz até agora, o quanto eu consigo e consegui ultrapassar uma barreira que foi imposta para mim e avançar nas minhas coisas de maneira independente, honesta, de uma maneira da qual eu tenho orgulho. É o primeiro lançamento que eu faço sozinha depois de um ano. A última música que eu lancei sozinha foi a "Xiu!". Antes disso, teve o disco no ano passado do Rimas & Melodias (grupo de hip hop e soul do qual faz parte), aí teve a participação que eu fiz com a Pitty, no finalzinho do primeiro semestre, "Contramão" (que também conta com Emmily Barreto), que foi supermassa. Então marca um retorno de lançamentos também. Estou com algumas músicas já engatilhadas aqui e preparando o meu disco, porque ano que vem vou lançar um álbum e estou trabalhando nele, estou muito empolgada, estou muito feliz que eu vou poder produzir esse disco com um pouco mais de respaldo, porque eu fui uma das selecionadas do Natural Musical, vou fazer o álbum com o apoio do edital, e acho que isso vai ser incrível. É um marco na minha história, porque até então eu fiz tudo muito na raça mesmo (risos). Não que o edital não seja, porque você tem que se inscrever, defender o que vai fazer, mas já é um passo a mais na minha carreira, que eu estou feliz de poder dar. Eu acredito que a minha carreira é muito nova, eu sou muito jovem no ramo da música, mas acho que já consegui fincar algumas raízes e marcar a minha história.

A gente está no meio de tanta mudança que tem artista que nem lança álbum, vai lançando faixa, embora para muitos seja importante. Para uma geração de público muito jovem nem tanto, mas para outros ainda é. O que você já pode falar sobre o álbum?

Eu acabo cruzando um pouco essas gerações. Eu tenho 29 anos a rabeirinha lá, mas já o começo do mp3. Eu tento cruzar um pouco disso. Eu não sou uma artista que entrega muita música, tipo uma cada 15 dias, igual muitas pessoas fazem. Eu acho até maneiro, mas tenho um processo um pouco mais, sei lá, talvez contemplativo, um pouco mais demorado. Para poder entender e caminhar do jeito que eu acho que tenho que fazer as minhas coisas. Eu respeito o meu tempo. Mas ao mesmo tempo eu estou muito conectada com o tempo de agora. Vão sair algumas músicas antes do disco, que está previsto para o final do primeiro semestre de 2019. Ele vai ter alguns produtores, que estão produzindo comigo.

E o repertório vai ser todo de músicas suas ou tem outras coisas de outros compositores?

Eu sou cantautora, eu gosto de cantar o que eu escrevo, então até então não tem outras mãos escrevendo, a não ser as pessoas que eu já chamei para participar. Mas estou no processo inicial, o repertório tem algumas coisas que eu já estou desenrolando, mas está em aberto.

Você é parte  de uma cena de mulheres compositoras, uma coisa que até pouco tempo atrás a gente não via tanto. Tinha aquela coisa de valorizarem as intérpretes. Como você isso, de a gente ter mais mulheres, pelo menos em destaque, escrevendo o que elas cantam?

A gente até tinha muitas até, mas elas não conseguiam ter o destaque que os compositores homens tinham. A própria Dona Ivone Lara (1922-2018) é um exemplo disso, ela é uma grande compositora que fez clássicos, mas que a indústria, primeiro por ela ser uma mulher negra e não atender aos padrões que a sociedade queria, depois por ela já ter uma certa idade, quando ela ficou um pouco mais velha, enfim, sempre existe uma desculpa, principalmente com as mulheres negras. Eu sinto que, talvez com essa era da internet também e essa proximidade que as pessoas têm e a necessidade que nós temos de contar as nossas histórias, e a necessidade que as pessoas têm de se enxergar nas histórias que a gente conta, delas se sentirem parte de algo real, e não algo tão distante quanto as produzidas pela televisão, a mídia, a publicidade, que sempre afastaram, e não aproximaram as pessoas, acho que esse momento vem por causa disso. Da nossas necessidade de contar as nossas histórias segurando a nossa própria caneta. E da que as outras pessoas, principalmente mulheres, têm de se enxergar no que a gente conta. É por aí: uma coisa mais real, mais próxima, menos impossível. A sociedade vem de um padrão de vida, de beleza que é inalcançável até para as mulheres brancas. Imagina para as mulheres negras. Você tem que ser malhada, tem que ser gostosa, não pode ter estria, não pode ter celulite. Você tem que trabalhar, mas não pode trabalhar muito, porque não pode abandonar seus filhos. E tem que educar bem seus filhos, porque, se não fizer isso, você é uma mãe ruim. Mas você tem que fazer isso sem ajuda do seu marido — isso se você tiver um marido. São muitas coisas que a mulher de hoje tem. Ela consegue atender várias, mas às vezes ela fica doente, às vezes ela não consegue também, porque a gente não é super-heroína. Temos nossas potências, nossas forças, mas também temos nossas fragilidades, e tudo bem, porque é super-humano. Todos temos. Os homens também têm, apesar deles não gostarem de assumir. Mas eu sinto que é isso, a gente está num momento de olhar no espelho, tentar se enxergar o máximo possível para poder se entender e se amar e seguir em frente.

Até pouco tempo atrás, o rap era bem resistente às mulheres. E hoje em dia a gente vê cada vez mais mulheres mostrando seu trabalho, tem você, o próprio Rimas & Melodias é só formado por mulheres negras. Como você vê esse avanço delas no estilo?

O rap, assim como todos os outros gêneros musicais, ele é um reflexo da sociedade. Não é diferente no sertanejo, no rock, no samba e tudo mais. Eu acho que uma coisa que talvez seja diferente é que a maneira de fazer rap talvez um pouco mais simples do que as outras músicas. Não estou dizendo que é fácil fazer rap, não é isso. Mas basta uma base e uma caneta. Acho que as mulheres sempre estiveram, no hip hop, a cultura, mas com o avanço dos tempos a gente tem conseguido tomar o lugar de protagonista também. Porque aqui no Brasil sempre foi difícil a mulher conseguir um protagonismo, por conta do machismo que a gente sabe que está na estrutura da nossa sociedade. Eu sei que tem muitas mulheres batalhando, com mais gana, com oportunidade de avançar e conseguir seu trabalho, mas ainda é muito difícil. Ainda tem poucas mulheres chegando num outro nível, num patamar diferenciado. A gente ainda conta na mão os artistas de rap que são mainstream real no Brasil, o rap ainda é um gênero musical considerado marginalizado, então ainda temos essa barreira, para além de tudo. Então tem muita coisa ainda para se realizar enquanto rap no Brasil. Para mim é muito louco, porque, apesar de eu fazer rap também, eu não consegui a minha trajetória através da cena do rap. Não foi fazendo shows no circuito de rap que eu avancei, acabei fazendo no circuito diferente, meio independente, das bandas mais indie, um circuito mais até jazz, consegui passear por ali, um circuito que enxerga outros tipos de arte, acabei passando por ele para chegar onde eu estou hoje. Também sei dizer bem onde é (risos). Então talvez eu não seja o melhor exemplo de uma garota do rap em si, até porque a minha música transborda, acaba passando por vários outros lugares também. Uma parcela do público que me escuta não necessariamente ouve rap. Mas, ao mesmo tempo, eu fico orgulhosa de, por fazer as coisas que eu tenho conseguido, levar o nome do rap também para as mulheres chegarem aonde elas estão chegando. E do R&B. Sinto que eu contribuí de alguma maneira. Ao mesmo tempo eu acho que, sei lá, o rap ainda está em desenvolvimento no Brasil, mercadologicamente. Musicalmente, eu acho que a gente tem um dos melhores artistas do planeta, modéstia à parte. Musicalmente, somos incríveis, temos obras que tinham que virar livro mesmo, como o "Sobrevivendo no inferno", dos Racionais. Mercadologicamente, eu sinto que a gente está começando a formar uma cena real. Mas ainda precisamos colocar mais nomes no mainstream, porque ainda são poucos, tem D2, Mano Brown e Racionais, Emicida, Karol Conka… Outros artistas como eu, tem uma galera que chama de "middlestream", eu achei engraçado, porque não é tão underground, mas não é mainstream, está no meio do caminho. Apesar de eu achar que eu estou só começando, mas isso é só perspectiva pessoal de quem quer alcançar muita coisa. Para o que eu quero alcançar, eu ainda estou começando. Eu sinto que a gente precisa invadir esse mainstream com mais nomes, enfim, que mais pessoas consigam ouvir o que gente faz.

Você estava falando da sua contribuição, eu acho que tem também a questão da representatividade: quanto mais mulheres virem mulheres negras mostrando seu trabalho, alcançando reconhecimento, acho que isso incentiva elas a também tentarem, insistirem no próprio trabalho, acharem que é possível, né?

Essa questão da representatividade é muito importante. Inclusive tem esse lance da internet, que aproximou a gente muito, mas também, se a gente for pensar, quantos artistas mainstream, de todos os gêneros musicais, são mulheres negras? Não dá uma mão cheia. Então, é uma coisa que é muito urgente. A gente está falando de um país onde a metade da população é negra. Se as pessoas não enxergam lá, como vão acreditar que é possível? Eu também acho que, quando a gente consegue se movimentar, mais coisas acontecem. A Angela Davis fala isso: "Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela." Faz muito sentido, porque a mulher negra está na base da [pirâmide da] sociedade e ela consegue fazer a diferença, não tem como o restante ficar parado, todo mundo tem que se mexer também. Eu acho isso muito real. Quando conseguimos mexer numa estrutura, muitas coisas mudam, sejam subjetivas ou diretas. Eu acredito muito no poder da representatividade, mas eu também acho que temos que avançar, porque também colocar uma artista negra ali para ela ser a representatividade é muito cruel com ela e com as outras pessoas, porque a gente acaba vendendo uma ideia de que toda pessoa negra é igual àquela pessoa, e não é, nós somos múltiplos, nós somos plurais, nó somos muitas pessoas diferentes. Então o ideal é que, assim como as artistas brancas são várias, nós consigamos também. Mais mulheres [negras] alcançando, mais mulheres conseguindo ocupar os espaços que são de direito.

Como é sua experiência se apresentar no Rio? Como foi das outras vezes? Você tem uma ligação com a cidade?

Olha, eu amo tocar no Rio, tenho uma conexão real com o Rio de Janeiro. Todas as vezes que eu toquei desde a primeira, acho que em 2013, foi muito bacana. Isso bem no meu comecinho, porque minha carreira praticamente começou em 2013. Todas as vezes eu fui muito bem recebida, as pessoas que curtem a minha música me encontram na rua e falam comigo, me beijam, me abraçam, me agradecem, tomam cerveja comigo (risos). Tive o prazer de tocar algumas vezes no Circo Voador, e a gente conseguiu fazer algumas noites históricas. As participações também foram muito legais. Acabei de participar do show da Pitty na Fundição Progresso, que estava sold out, e foi incrível. É uma das cidades que mais curtem a minha música, inclusive, acho que uma das cinco que mais me escutam, e é sempre muito quente, eu tenho um carinho imenso pelo Rio. Sem contar que eu já quis morar no Rio de Janeiro, enfim, tenho uma relação, mais pessoal também, que eu adoro o clima, as praias, as pessoas, o lifestyle… (ela tem uma canção, "Good Vibes", de 2014, que fala sobre a cidade e conta com a participação do rapper Tiago Mac).

Vai lá:
Festival Mulheres do Mundo
Quando: Sexta a domingo, 16 a 18 de novembro
Onde: Região Portuária (Museu do Amanhã, Museu de Arte do Rio — MAR, Praça Mauá e Armazém 1)
Quanto: Grátis (shows na Praça Mauá); demais eventos 1kg de alimento não perecível (com pré-inscrição online que deverá ser trocada na bilheteria pelo ingresso uma hora antes do início de cada atividade)

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.