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'No novo disco, estamos olhando para dentro', diz cantor do Baiana System

Kamille Viola

2024-08-20T18:16:09

24/08/2018 16h09

O Baiana em ação. Foto: divulgação/Jardel Souza

De 2017 para cá, o Baiana System entrou em um ritmo intenso de shows. Só no Rio de Janeiro, foram dois memoráveis: um no Circo Voador e outro na Fundição. Mas a banda ainda passou por Portugal, Espanha e Estados Unidos, onde tocou no Central Park, emplacou música na abertura da novela das 21h da Globo e arregimenta um séquito cada vez maior de fãs apaixonados. Uma das atrações principais do Queremos! Festival, que acontece amanhã na Marina da Glória, o grupo prepara seu próximo disco, mais de dois anos depois do lançamento de "Duas cidades", que alçou a banda ao sucesso. Em uma conversa de duas horas e meia por telefone, o vocalista Russo Passapusso falou em primeira mão sobre o novo trabalho da banda, num papo filosófico em que todas as perguntas foram respondidas em uma só.

"A gente está nesse processo [do disco]. O nosso show é muito aberto, começam a surgir motes e depois a gente trabalha neles. No último ano, tocamos mais. Passamos 20 dias no exterior, fomos em Portugal, Espanha, Inglaterra, Estados Unidos. Antes disso, a gente já tava mergulhando bastante no processo disco. O anterior, 'Duas cidades', fala desse veículo urbano, dentro da cidade, as visões são essas, 'Cidade Alta, Cidade Baixa', as dualidades das pessoas. Foi natural acontecer no mesmo momento em que estamos olhando para dentro das dualidades, seja na política, na relação de gênero, social. Acho que é natural, a gente passou isso para fora e fez muito sentido, está fazendo muito sentido cantar e tocar essas letras dentro do que estamos vivendo. Elas foram fazendo cada vez mais sentido nesse ambiente urbano", comenta Passapusso. Uma data possível de lançamento é 2 de fevereiro do ano que vem, já que o dia tem um significado na história da banda: foi no Dia de Iemanjá, que tem grande comemoração na Bahia, que a banda fez show pela primeira e também lançou o disco "Duas cidades" (2016). "Então começamos a acreditar nessas coisas. Já que está acontecendo, vamos mergulhar, fazer disso um ritual", adianta.

Para ele, no trabalho anterior o Baiana olhava para o que estava acontecendo ao seu redor. Agora, a o grupo tem olhado para dentro. "Até então as pessoas não estavam conseguido compreender [a mensagem da banda] e você trazia elas para uma região de conflito. Quando isso é absorvido, eu tenho para mim que elas param de prestar atenção no sentido da letra, para de ter um questionamento mais profundo. É um signo que já conhecem, elas não precisam mais franzir a testa, decodificar. As faixas que a gente lançou depois [do álbum], como 'Ziquizira', com o Heavy Baile (do disco 'Carne de pescoço', do grupo carioca), têm uma abordagem diferente. Já dá um nó na orelha, de como se comunicar com o funk carioca, que é esplêndido. 'Alfazema', com a Nação… Tudo isso passa por ritmos diferentes. Estamos o tempo todo passando de tempero, de mistura, sempre buscando um caminho diferente para oferecer para o público e para a gente entrar em ambiente de conflito. Só que agora paramos de lançar singles e vamos fazer um disco", revela o cantor e compositor. "A gente está reencontrando os nossos porquês", define.

A banda tem passado períodos na Ilha de Itaparica, a pouco menos de uma hora de Salvador. Ali, seus integrantes têm buscado contato com o passado do Brasil. "Fiz um show lá há um ou dois anos, eu estava lendo Darcy Ribeiro, para entender melhor as coisas, abrir a cabeça. Eu disse: 'A gente veio fazer antropofagia.' E um menino gritou: 'Não, a antropofagia nasceu aqui. Guardei aquilo", lembra Passapusso. "Quando voltamos, encontrei ele, Felipe Brito, jovem de um grupo, o Maré de Março, que estuda tudo isso. A história de Caramuru, português que veio no navio afundou e veio pelas pedras se esgueirando, por isso ganhou dos índios esse apelido, caramuru é uma enguia que se esguia pelas pedras. Acredito que houve uma afeição, uma relação de comédia — Brasil, né? —, por isso os índios resolveram não comer ele, o que seria muito natural. Isso fez ele se abrandar e se entender, se misturar, com a Catarina Paraguaçu (índia que se casou com Caramuru). São muitas histórias", diz.

O cantor e compositor no carnaval do grupo em Salvador. Foto: divulgação

Russo Passapusso frisa, no entanto, que esse olhar para o passado está longe de ser nostálgico. "Muitas vezes quando se fala em resgate essa palavra é colocada em relação ao passado, vem com uma nostalgia que tira isso da relação futurística. Você tem que colocar em sentido de atualização. É você pegar Jackson do Pandeiro e entender que ele está à frente do nosso tempo", teoriza ele. "A gente fica olhando para a frente querendo se modernizar, com esse furação virtual que ajuda e atrapalha — em proporções diferentes (risos) —, estão acontecendo coisas do passado que deixam todo mundo com nó na orelha. Esses meninos da ilha são muito informados. Porque eles estudam o passado, eles sabem muito do futuro. Dizem que quem vive de passado é museu, mas quem vive de futuro é museu. Porque eu não quero que aconteça aquilo de novo, eu preciso olhar para trás", explica.

Na ilha, os integrantes do Baiana buscam desacelerar, trabalhar em outro ritmo, na contramão da correria frenética dos dias de hoje. "A gente precisa olhar várias vezes a mesma fotografia para amadurecer o olhar. Sabendo que o mesmo não é chato. Não precisamos de pouco de tanta coisa, precisamos de muito de pouca coisa. Por isso a gente vai para a ilha. 'Vamos fazer música agora?', 'Não, vamos para a casa de Fulano.' Tudo isso é a música. O que está diferenciando esse processo é que agora a gente sabe que isso é música. Antes eu chegava em casa e (cantarola): 'Todo dia acorda cedo pro trabalho…' 'Ih, fiz a música em casa' Não, você encontrou Fulano na ladeira, conversou, depois… Nossa militância é meio isso", analisa o cantor.

Esse movimento de ir para a rua, por sinal, é fundamental para o compositor. "Eu não sou Chico Buarque, não tenho carga literária, não leio livro para caralho, não vim de família de músicos. Meu comportamento é diferente, eu tenho uma relação de insegurança sobre se a música vai vir para mim. Eu pego a caneta. Se acontece uma briga comigo e com você, tem as palavras que você me xingou e com elas eu faço uma letra… A música entra na minha vida desse jeito. Depois, eu saio na rua, misturo com as pessoas, o sound system, o cantar das pessoas. Eu queria fazer rádio, meu pai fazia rádio e meu negocio era comunicação", diz.

Antônio Carlos e Jocáfi (dupla de compositores baianos de sucesso nos 70, radicados no Rio), BNegão e Curumin são outras referências para a banda, conta Russo Passapusso. "Porque a gente não faz música junto só, a gente convive. Não é música por encomenda, eles estão dentro da minha vida, graças a Deus, e as coisas saem de forma muito natural. Sempre fui apaixonado por Antônio Carlos e Jocáfi e a música me deu de presente ser íntimo deles. Eu falo que perdi um pai e ganhei dois. Eu estou vivendo muito eles. O meu tempo agora aí no Rio vai ser também com eles. Quando saírem as músicas [do disco novo], você vai entender", diverte-se. O baiano Mestre Lourimbau, que o Baiana System homenageou com um show pelos 70 anos do artista em julho, é outro citado pelo vocalista. "Ele é sambista intuitivo da rua, do berimbau mesmo. Lourimbau é futuro, é jazz. Os gringos não entendem como consegue ele tocar berimbau e cantar aquelas letras, porque o berimbau não dá aquela base. Em Salvador, pelo nosso conformismo, a gente não consegue ver o geniosidade e acordar o comércio para a importância dele", lamenta.

A famosa máscara do Baiana System. Foto: divulgação/Max Fonseca

Por falar em sucesso comercial, banda experimentou um novo patamar de exposição com a música de abertura da novela "O segundo sol", com o sucesso homônimo na voz de Cássia Eller que ganhou versão produzida pelo Baiana System. Passapusso revela que, a princípio, sua ideia era dizer não ao convite para fazer a faixa. "Fui preconceituoso, ia cortar antes de ter o entendimento sobre aquilo. Quando soube que era a música 'O segundo sol' e que ia usar a voz da Cássia Eller, um sonho meu, fiquei 'nossa'. Não é uma música do Baiana, somos nós como produtores. A gente quis retratar um 'Segundo sol' mais nordestino, meio 'Deus e o diabo [na Terra do Sol', filme de Glauber Rocha], tem sanfona. Foi a coisa mais experimental e foi a coisa mais popular que já fizemos: tem letra Nando Reis, Cássia Eller cantando… Encaixou perfeitamente, as pessoas compreenderam de forma maravilhosa. Achei que podia ter um entendimento político, por ser Rede Globo, que eu critico, várias pessoas que trabalham lá criticam, faz parte do processo, mas a arte nesse sentido foi compreendida", garante Passapusso.

Ele conta que, pelas redes sociais, foi possível ver que a faixa trouxe um novo público para a banda. "E também o Rock in Rio, a música do videogame, o Fifa 16, essas coisinhas que a gente não acreditava que o nosso signo fosse ser compreendido — porque a gente não faz prospecção, normalmente as pessoas vêm falar com a gente", conta. "Queremos muito trabalhar como produtores também. Fizemos a trilha do filme 'A luta do século' também (com Beto Villares, Jorge du Peixe e Siba). Acho sensacional relacionar a música com outras artes, teatro, desenho. Tirar a musica só do disco e do show só e levar para esses lugares. Comecei a ver com beleza", diz.

O próximo disco promete, portanto, ser um resultado de toda essa alquimia na qual a banda está envolvida. "Isso tudo está girando na minha cabeça agora. Porque estou nesse processo de criação, de livro, de filme. Para que, quando você faça, seja realmente com toda a bagagem que aquilo precisa. A grande curiosidade é saber se as pessoas vão compreender esses signos dessa forma. Eu acho que sim. No início, não queriam botar foto da máscara (que é parte da identidade visual do Baiana, que tem entre os integrantes um artista visual, Filipe Cartaxo) no flyer dos shows. Agora, só serve a máscara", ri o artista. "O Baiana precisa estar aberto, caminhando na corda bamba da insegurança, entre o mundo pop e a desconstrução. Amando Tom Zé — Tom Zé é isso, 'Estudando o samba' (icônico disco de 1976 do cantor e compositor que passou anos no esquecimento). Nosso disco poderia se chamar 'Pesquisa de campo', 'Mergulhando'. É bem isso."

E, embora o novo trabalho da banda esteja acontecendo de forma solta e não tenha um cronograma, Russo Passapusso deixa escapar uma provável data. "Tem uma coisa interessante. A primeira vez que o Baiana fez um show foi em 2 de fevereiro, que é a festa de Iemanjá. O 'Duas cidades' estava pronto e a gente lançou em 2 de fevereiro. Então começamos a acreditar nessas coisas. Vamos mergulhar. Já que está acontecendo, vamos fazer disso um ritual", adianta.

Programação do Queremos! Festival:

Palco Azul
14h45: Letrux
16h45: Xênia França
19h00: Ionnalee
21h30: Animal Collective
23h40: BaianaSystem

Palco Rosa
14h: Nepal
15h45: Rubel
17h50: Boogarins
20h: Father John Misty
22h35: Rincon Sapiência
1h10: Cut Copy
2h15: Selvagem

Vai lá:
Queremos! Festival
Quando: Sábado, 25 de agosto, às 14h
Onde: Marina da Glória.
Quanto: R$ 160 (meia-entrada e ingresso solidário, com 1kg de alimento) e R$ 320

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.