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Parque Lage quer desconstruir polêmicas em torno da exposição 'Queermuseu'

Kamille Viola

17/08/2018 14h31

Obra de Nino Cais, sem título

Cercada de muita polêmica no ano passado, quando foi proibida em Porto Alegre, chega neste sábado ao Rio, nas calavariças do Parque Lage, a exposição 'Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira'. Com curadoria de Gaudêncio Fidelis, a mostra reúne trabalhos que vão de meados do século XX até a atualidade, de nomes como Adriana Varejão, Alair Gomes, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Efrain Almeida, Guignard, Leonilson, Lygia Clark, Pedro Américo, Sidney Amaral e Yuri Firmeza, entre outros. São 214 obras (em Porto Alegre, eram 263) de 82 artistas, incluindo a "Travesti da lambada e deusa das águas", de 2013, de autoria de Bia Leite.

'Queermuseu' foi fechada em 10 de setembro de 2017 no Santander Cultural, em Porto Alegre, após protestos incitados por grupos conservadores. O Museu de Arte do Rio (MAR) chegou oferecer seu espaço para receber a mostra na cidade, mas interrompeu as negociações depois que o prefeito Marcelo Crivella publicou nas redes sociais um vídeo afirmando não querer que a exposição viesse para o museu, que é mantido pela prefeitura em parceria com a Fundação Roberto Marinho. "Só se for no fundo do mar", disse o político.

A Escola de Artes Visuais do Parque Lage, então, fez uma campanha de financiamento coletivo para viabilizá-la, que arrecadou R$ 1.081.156 e contou com um show de Caetano Veloso contra a censura. Nesse meio tempo, o diretor-presidente da Escola de Artes Visuais Parque Lage chegou a ser exonerado (o espaço é um órgão do governo do estado), decisão que depois foi revogada, mas ele garante que o episódio não teve a ver com a exposição ("O secretário de Cultura alegou que os motivos teriam sido de gestão", diz). Além da realização da mostra, o dinheiro permitiu o restauro das cavalariças do parque e o reforço na segurança, tanto presencial como virtual.

Trabalho de Yuri Firmeza, sem título, 2011

É a primeira plataforma curatorial com abordagem exclusivamente queer já realizada no Brasil e a primeira da América Latina dessa magnitude. Haverá apresentações musicais em todos os fins de semana da mostra, com artistas LGBTs da cena alternativa. Em paralelo, acontece o Forum Queermuseu, com curadoria e coordenação de Ulisses Carrilho, curador da EAV Parque Lage, que trará debates sobre temas como a judicialização da arte, a Teoria Queer e fake news, entre outros. E a plataforma conta ainda com o Núcleo de Ação Educativa, também com curadoria de Carrilho, pensado a partir de práticas e políticas queer. Entre uma das atitudes do grupo, que reúne 28 pessoas, estão as placas de autoidentificação no banheiro, convocando os visitantes a pensar sobre a sua performatividade de gênero, como se identifica.

Segundo o diretor-presidente da EAV Parque Lage, Fabio Szwarcwald, a expectativa da EAV Parque Lage é de, sobretudo, desconstruir a narrativa criada em torno da exposição. "Não há nada que justifique as acusações na altura do cancelamento em Porto Alegre: são infundadas. Esperamos que o público venha conferir a arte por trás da polêmica e estimamos uma média de 8 mil pessoas já no primeiro fim de semana", torce.

"O Rio atravessa um momento dificílimo em diversos setores, e a mostra é um presente para a cidade. O financiamento coletivo nos permitiu fazer uma série de benfeitorias no Parque Lage, que ficarão como um legado para o carioca. A vinda da 'Queermuseu' é um fator de resistência da maior relevância à crescente onda ultraconservadora observada não só no Rio, mas em todo Brasil. E o Parque Lage, por todo seu histórico e reconhecido compromisso artístico, é o espaço ideal pra receber essa grande mostra", analisa o diretor.

Visão da exposição

Ele garante que, apesar de toda a celeuma em torno da questão, até o momento não sofreu nenhum tipo de pressão. "Houve a representação recente do Malafaia e de outros deputados [que pediram que a mostra fosse proibida para menores de idade, sem sucesso], mas nada além. O Ministério Público Estadual nos chamou para conversar sobre classificação indicativa e nos fizeram uma sugestão [14 anos de idade]", diz Szwarcwald.

Programação musical do sábado (18/8)
11h: Baque Mulher nos jardins em frente ao palacete
11h45 às 12h45: abertura oficial da exposição
13h: DJ Tatah Toscano
16h: Sarau Cuíer
18h: Laura Finocchiaro
19h: Jeza da Pedra
20h: Festa Mariwô b2b DJ Galo Preto (Rebola)

Vai lá:
Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira
Quando: Abertura: sábado (18/8), às 11h. Segunda a sexta, das 12h às 20h. Sábado e domingo, das 10h às 17h. Até 16/9. Até 16/9.
Onde: Parque Lage. Rua Jardim Botânico, 414, Jardim Botânico. Telefone: (21) 2334-4088
Quanto: Grátis

Sobre a autora

Kamille Viola é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura, entre outros. Nascida e criada no Rio, graças ao jornalismo já andou pelos mais diversos cantos da cidade.

Sobre o blog

Do pé-sujo mais tradicional ao mais novo (e interessante) restaurante moderninho, do melhor show da semana à festa mais comentada, este blog busca fazer jus à principal paixão do carioca: a rua.

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